O que é
Gengè é o nome com que Dida chama o marido, e é também o boneco que ela construiu com esse nome: um homem bonachão, tolo, de gostos e sentimentos que não são os de Vitangelo Moscarda e que ele não poderia mudar sem se tornar, para ela, um estranho que já não compreenderia nem amaria. É, dos cem mil Moscarda do romance, o único que tem nome próprio, e o que o narrador diz ser amado de verdade (capítulo XII do Livro II). O usurário é um título que a cidade dá; o "caro Vitangelo" é um vocativo de Quantorzo; Gengè é um nome de casa.
Onde aparece
No capítulo III do Livro I Dida o chama de Gengè a cada minuto, trazendo-lhe as novidades da casa enquanto ele quer ficar uma hora sozinho. No capítulo VIII do Livro I uma das conclusões do primeiro Livro é que ele começou a entender por que ela o chamava assim, e a explicação vem no Livro II. É no capítulo XII do Livro II que o nome ganha o sentido de boneco: Vitangelo compreende que Dida conhecia o seu Gengè melhor do que ele, porque o construíra.
Ma sfido ch’ella conosceva quel suo Gengè più che non lo conoscessi io! Se l’era costruito lei! E non era mica un fantoccio. Se mai, il fantoccio ero io., mas é claro que ela conhecia aquele seu Gengè mais do que eu o conhecia! Ela o construíra! E ele não era de modo algum um fantoche. Se algum, o fantoche era eu.
Daí a regra que ele se dá, como cálculo e não como respeito:
Se io non volevo che Dida mia moglie andasse a cercare in un altro il suo ideale, non dovevo toccare quel suo Gengè., se eu não queria que Dida, minha mulher, fosse buscar em outro o seu ideal, não devia tocar naquele seu Gengè.
No capítulo VI do Livro III, quando pergunta a Dida qual é a profissão dele, ela lhe responde chamando-o de Gengè, e ele entende que é usurário para os outros e tolo para a mulher. No capítulo II do Livro V ele se encolhe voluntariamente no papel de Gengè para que o ato do despejo passe por capricho de bobo inofensivo. No capítulo VI do Livro V vê o "caro Vitangelo" do paternal Quantorzo estar nele como o Gengè da mulher:
E poichè erano due a vedermi entrare, mi venne la tentazione di voltarmi a cercare l’altro che entrava con me, pur sapendo bene che il “caro Vitangelo„ del mio paterno Quantorzo non solo era anch’esso in me come il “Gengè„ di mia moglie Dida, e como eram dois a me ver entrar, deu-me a tentação de me virar para procurar o outro que entrava comigo, ainda que soubesse muito bem que o “caro Vitangelo” do meu paternal Quantorzo não só estava também em mim, como o “Gengè” da minha mulher Dida.
No capítulo VIII do Livro V, ferido pelo riso dela, recusa o boneco aos gritos:
Finiscila tu, col tuo Gengè che non sono io, non sono io, non sono io! Basta con codesta marionetta! Voglio quello che voglio; e come voglio sarà fatto!, pare você com o seu Gengè, que não sou eu, não sou eu, não sou eu! Chega dessa marionete! Quero o que quero; e como eu quero será feito!
No capítulo I do Livro VI, fechado no quarto, diz que não é mais Gengè nem usurário, e logo pergunta o que tem dentro:
Se non avevo più occhi per vedermi da me come uno anche per me? Gli occhi, gli occhi di tutti gli altri seguitavo a vedermeli addosso, ma ugualmente senza poter sapere come ora m’avrebbero veduto in questa mia neonata volontà, se io stesso non sapevo ancora come sarei consistito per me. Non più Gengè. Un altro. Avevo proprio voluto questo. Ma che altro avevo io dentro, se non questo tormento che mi scopriva nessuno e centomila?, se eu já não tinha olhos para me ver por mim mesmo como um, também para mim? Os olhos, os olhos de todos os outros eu continuava a vê-los sobre mim, mas igualmente sem poder saber como me veriam agora nesta minha vontade recém-nascida, se eu mesmo ainda não sabia como existiria para mim. Não mais Gengè. Um outro. Eu tinha querido exatamente isto. Mas que outro eu tinha dentro, senão este tormento que me revelava nenhum e cem mil?
No capítulo IV do Livro VI oferece ao sogro as profissões de médico, advogado, professor, deputado: um Gengè mais respeitável. No capítulo V do Livro VI entende que o sogro fugiu porque ele lhe tiraria o genro:
Non poteva ammettere, lui, ch’io gli levassi il genero (quel suo Gengè ch’egli vedeva in me, chi sa come) dalle condizioni in cui se n’era stato finora, cioè da quella comoda consistenza di marionetta che lui da un canto e la figlia dall’altro, e dal canto loro tutti i socii della banca gli avevano dato., ele não podia admitir que eu lhe tirasse o genro (aquele seu Gengè que ele via em mim, sabe-se lá como) das condições em que estivera até então, isto é, daquela cômoda consistência de marionete que ele de um lado e a filha de outro, e por sua vez todos os sócios do banco, lhe tinham dado.
No capítulo VI do Livro VI chama Dida de boneca e conclui que nenhum novo Gengè poderia nascer do velho. No capítulo IV do Livro VII ouve de Anna Rosa que Dida o tem por tolo e que, fora da vida com o Gengè, é outra, mas diz a si mesmo que com o Gengè ela não fingia.
O que significa
Gengè é a Identidade feita por outra pessoa e vivida como se fosse natural. O símbolo mostra que a imagem que os outros dão de nós não é um disfarce nosso, é uma pessoa que existe para eles, e que essa pessoa pode ser amada. É o sentido do ciúme do capítulo XII do Livro II, em que Vitangelo vê o Gengè, e não ele, nos braços da mulher.
Gengè é uma personagem no sentido de quem tem existência fixa: tem pensamentos, sentimentos e gostos fixos, e Dida fala com ele como se fala com uma pessoa. A diferença é que Gengè vive no corpo de Vitangelo, e é por isso que a comédia vira horror: uma personagem não precisa de corpo, e Vitangelo não tem como entregar o dele sem entregar o boneco junto. Por isso o que ele pede, no capítulo V do Livro VI, é ir embora com outro corpo e outro nome, deixando o Gengè para os outros. O símbolo se lê de duas maneiras. Numa, é a forma do amor, e Dida o ama de verdade; na outra, é a forma da conveniência, e o sogro, a filha e os sócios do banco vivem dele. O texto sustenta as duas, e a pergunta que fica é se o amor que um boneco recebe é menos amor.
Relações
- Temas-padrão: Identidade, Aparência e realidade, Loucura.
- Temas da obra: Identidade, Aparência e realidade, Loucura.
- Personagens: Dida, Vitangelo Moscarda, Quantorzo, Anna Rosa.
- Símbolos vizinhos: o nariz, de onde a mulher parte para chamá-lo, e o espelho, em que Vitangelo procura outro que não esse.