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Símbolo

O nariz

O que é

O nariz de Vitangelo Moscarda pende para a direita, e é a primeira coisa que o romance diz sobre ele. A observação vem da mulher, Dida, com calma e com um "querido", no dia em que o encontra diante do espelho apertando uma narina, e arrasta atrás de si uma lista: as sobrancelhas como dois acentos circunflexos, uma orelha que sai mais que a outra, o mindinho, a perna direita. É o defeito mínimo, verificável, que ele confere e reconhece, e que basta para desfazer a ideia que fazia de si. Mais do que um traço físico, é o ponto em que a descoberta começa: há um fato do corpo que todos veem e ele nunca viu.

Onde aparece

No capítulo I do Livro I a frase da mulher é o disparo do romance, e a mágoa maior não é o defeito, mas ter vivido tantos anos com o mesmo nariz sem saber:

Mi pende? A me? Il naso? - E mia moglie, placidamente: - Ma sì, caro. Guàrdatelo bene: ti pende verso destra., Pende? Em mim? O nariz? E a minha mulher, placidamente: Mas sim, querido. Olhe bem para ele: pende para a direita.
Livro I: O nariz e o espelho

No capítulo II do Livro I ele pergunta a um amigo se está olhando o seu nariz, e o amigo já sabia. Dali tira o pensamento que o domina daí em diante:

Mi si fissò invece il pensiero ch’io non ero per gli altri quel che finora, dentro di me, m’ero figurato d’essere., fixou-se em mim, em vez disso, o pensamento de que eu não era para os outros o que até então, dentro de mim, eu me figurara ser.
Livro I: O nariz e o espelho

Para se vingar, pergunta ao mesmo amigo se sabe que tem uma covinha no queixo. O amigo vai a um barbeiro, descobre que é verdade e, depois, é visto diante de três vitrines. O contágio se espalha por Richieri: os conterrâneos passam de vitrine em vitrine a examinar uma maçã do rosto, um canto do olho, um lóbulo. Uma semana depois um homem lhe pergunta, aflito, se é verdade que pisca a pálpebra esquerda, e, calmo, aponta-lhe na nuca um tufo que as mulheres do povo tomam por sinal de que o próximo filho será menino. Moscarda diz que o manda cortar, e ouve a resposta que fecha a cena:

Oh, ma quest’è niente! - esclamai. - Me lo posso far tagliare. - Negò prima col dito, poi disse: - Ti resta sempre il segno, caro, anche se te lo fai radere., Oh, mas isso não é nada!, exclamei. Posso mandar cortar. Negou primeiro com o dedo, depois disse: Fica sempre a marca, meu caro, mesmo que você mande raspar.
Livro I: O nariz e o espelho

No capítulo IV do Livro I ele argumenta que os outros ligam as ideias dele ao nariz que ele nunca olhou, e que se as ideias fossem sérias e o nariz cômico eles ririam. No capítulo VII do Livro I, diante do espelho do armário, vê que o nariz pende mas tem belo corte aquilino, e conclui que o corpo foi feito assim sem depender dele. No capítulo II do Livro IV, ao se preparar para o primeiro experimento, descreve o senhor Moscarda que ia destruir: um metro e sessenta e oito, ruivo como o pai, com o nariz que pendia à direita como o do caro tolo do Gengè de Dida.

O que significa

O nariz é o menor dos defeitos, e por isso a prova mais limpa da tese: um fato que se confere, e que mesmo assim ninguém podia ver sozinho. A passagem do nariz à covinha, às vitrines e ao tufo mostra que a descoberta não é pessoal: qualquer um carrega, no corpo, uma versão de si que os outros veem e ele não, e a Identidade passa a ser uma pergunta, não uma coisa. O defeito de nuca, que a tesoura não alcança, dá ao símbolo o seu limite: o que os outros sabem de nós não está ao alcance da vontade de quem o carrega. Por isso a Aparência e realidade começa no nariz, e vai até o corpo inteiro, até o pobre corpo sem dono que o espelho do capítulo VII do Livro I devolve.

O nariz pode ser lido como pretexto: a vaidade de um homem ocioso, que descobre um defeito e leva a um absurdo uma queixa de vaidade. Pode também ser lido como a entrada de um problema que a vaidade não explica: Vitangelo reage com susto de corpo e passa, em poucas linhas, do nariz torto a uma pergunta sobre ele inteiro. O livro autoriza as duas, e a ironia do primeiro capítulo, em que ele recebe como concessão o que antes lhe fora negado como direito, deixa entender que a vaidade é a porta e não a casa. No fim, quando o rosto já não interessa a Vitangelo (capítulo IV do Livro VIII), o nariz volta como ausência: é o que ele deixou de conferir.

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