Quem é
Holandês colonial, nascido em Java, plantador de café, que chega no mesmo trem que Clawdia Chauchat e domina qualquer roda pela presença, quase sem terminar uma frase.
Quando Clawdia os apresenta, o narrador nomeia o efeito que o holandês causa: quem o viasabia de repente o que era uma personalidade, e mais ainda: convencia-se de que uma personalidade não podia ser diferente dele.
Trajetória
Hans Castorp tenta explicar a Lodovico Settembrini por que se deixa fascinar por um homem cujo discurso não tem conteúdo.
Para explicar esse fato, dispomos de uma única palavra: personalidade [...] a personalidade não deixa de ser, afinal de contas, um valor positivo [...] Mais positivo que a estupidez e a argúcia. Positivo no mais alto grau, absolutamente positivo, tal qual a vida.
Ao lado dele, a discussão entre Settembrini e Leo Naphta perde a força.
Não havia mais corrente na chave de luz, morta de vez [...] Numa palavra: todas elas permaneciam ausentes, e isto era, para empregar o termo de Hans, nada mais nada menos que um mistério.
Eleva o vinho, a comida e o sono a dádivas clássicas da vida, faz do sentir um dever religioso e, sabendo do passado de Hans Castorp com Clawdia, propõe-lhe uma fraternidade selada a vinho em lugar da satisfação com a arma, que diz não poder dar-lhe por causa da idade e da doença.
Sua teologia pessoal, dita a Hans Castorp na cabeceira da cama, resume o que está em jogo em toda a sua grandiosidade:Nosso sentimento [...] é a força viril que desperta a vida [...] o sentimento, meu jovem, é divino. O homem é divino, desde que sente [...] Se o homem fracassa quanto ao sentimento, irrompe a ignomínia de Deus, dá-se a derrota da virilidade de Deus, uma catástrofe cósmica, um horror inimaginável, e nesse ponto ele volta a beber.
Minado por uma febre tropical, mata-se com veneno, usando um instrumento que imita as presas de uma naja, feito, segundo Behrens supõe, por indicação dele mesmo, e que Dr. Behrens tira das mãos do morto.
O objeto que Dr. Behrens tira das mãos do morto é descrito com precisão técnica:feito de aço, marfim, ouro e borracha [...] dois dentes de garfo, recurvos, de aço polido [...] a encarnação de uma seringa hipodérmica [...] a cópia mecânica das presas de uma naja.
A envergadura dele era tamanha [...] que o fracasso do sentimento em face da vida lhe causava a sensação de uma catástrofe cósmica e da ignomínia de Deus. Pois a senhora deve saber que ele se considerava o órgão nupcial de Deus., diz Hans Castorp, fechando com as mesmas palavras que Peeperkorn usara para se explicar em vida: ele morre coerente com a única doutrina que tinha, a de que sentir é um dever que não admite fracasso.
Temas que encarna
Os temas-padrão que passam por ele são Paixão, Sentido da vida e Morte. A leitura do índice da obra e a do capítulo VII sobre o papel dele:
Peeperkorn é a peça mais estranha e mais decisiva do livro: a resposta ao duelo não é uma terceira doutrina, é uma presença. Quem tenta resumir o romance pelas teses de Settembrini e de Naphta perde justamente isso, e fica com um debate em vez de um romance.
O romance não resolve o duelo Naphta contra Settembrini com um terceiro argumento, resolve com um corpo: a presença de Peeperkorn não refuta nenhuma tese, apenas mostra que uma vida inteira pode se organizar em torno de algo que não é ideia nenhuma, o que é, à sua maneira, uma resposta ao "para quê" que faltava a Hans Castorp desde Capítulo II: A pia batismal e as duas figuras do avô.
Relações
- Clawdia Chauchat: a companheira com quem chega.
- Hans Castorp: a quem chama de irmão.
- Lodovico Settembrini e Leo Naphta: cujo debate ele esvazia sem refutar.