Clavis Libri

Tema em Crime e Castigo

Redenção

A salvação de quem caiu: redenção, graça, arrependimento, libertação.

O tema na obra

No romance a redenção não vem de um argumento nem de um arrependimento. É oferecida por mãos concretas, as de Sófia Semeónovna Marmieládova, de Porfiri Pietróvitch e de Avdótia Românovna Raskólnikova, como um rito e um caminho; Rodion Românovitch Raskólnikov a recusa, a aceita pela metade e a ganha, no Epílogo, como amor, num instante e sem raciocínio. O livro a anuncia e se recusa a narrá-la, e a põe ao lado do desfecho oposto, o tiro de Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov.

No capítulo I da Quarta Parte, quando Raskólnikov declara que não crê em vida futura, Svidrigáilov lhe oferece a sua imagem da eternidade. Ela não consola nem pretende consolar, e é o pior caso descrito como se fosse provável:

вместо всего этого, представьте себе, будет там одна комнатка, эдак вроде деревенской бани, закоптелая, а по всем углам пауки, и вот и вся вечность., em vez de tudo isso, imagine só, haverá lá um quartinho só, algo como uma casa de banho de aldeia, negra de fuligem, com aranhas em todos os cantos, e pronto: essa é a eternidade inteira.
Quarta Parte: O cerco

No capítulo IV da Quarta Parte, Raskólnikov procura o que sustenta Sônia, depois de descartar o canal, o hospício e a libertinagem, e pergunta se ela reza muito. A resposta vem rápida e enérgica:

Что ж бы я без бога-то была?, E o que eu seria sem Deus?
Quarta Parte: O cerco

Ainda no capítulo IV da Quarta Parte, a pedido dele, ela lê a ressurreição de Lázaro (A ressurreição de Lázaro). O que pesa na cena é o modo como esse texto entra nela, e o livro a que ele voltará no fim:

O Evangelho entra na página em trechos longos, lidos em voz alta, e ninguém o discute na cena: Raskólnikov, que argumenta com todos os outros personagens, ouve a leitura em silêncio, sem interromper, porque o que ela responde não é um argumento, é o relato de um morto que sai do túmulo. O Epílogo volta a esse livro: o Evangelho que Raskólnikov encontra sob o travesseiro é o mesmo de onde Sônia lhe leu a ressurreição.
Quarta Parte: O cerco

No capítulo IV da Quinta Parte, ao confessar o assassinato, Raskólnikov diz por que a chamou, e a resposta mostra que o que pediu na véspera era companhia:

За одним и звал, за одним приходил: не оставить меня. Не оставишь, Соня?, Foi por uma coisa só que chamei você, por uma coisa só que vim: para você não me deixar. Você não vai me deixar, Sônia?
Quinta Parte: A confissão

Sônia responde com a única coisa que conhece, e não é absolvição: é um rito, com lugar, gesto e palavra marcados.

Поди сейчас, сию же минуту, стань на перекрестке, поклонись, поцелуй сначала землю, которую ты осквернил, а потом поклонись всему свету, на все четыре стороны, и скажи всем, вслух: «Я убил!» Тогда бог опять тебе жизни пошлет, Vá agora, neste mesmo instante, pare num cruzamento, curve-se, beije primeiro a terra que você profanou, e depois curve-se diante do mundo inteiro, para os quatro cantos, e diga a todos, em voz alta: “Eu matei!” Então Deus voltará a lhe enviar vida.
Quinta Parte: A confissão

Ainda no capítulo IV da Quinta Parte, ele recusa, porque não se reconhece nos juízes que o esperam. Ela lhe oferece a cruz de cipreste (As cruzes), ele estende a mão e a retira: não agora.

No capítulo II da Sexta Parte, Porfiri promete preparar o terreno para que a apresentação voluntária pareça inesperada e o crime se mostre como perturbação do juízo. Pede a Raskólnikov que não despreze a vida, que busque Deus ou a fé e aceite o sofrimento, e este responde que não confessou nada.

No capítulo VI da Sexta Parte, Svidrigáilov entrega a Sônia os recibos dos órfãos e três títulos que somam três mil rublos, e justifica o dinheiro pelo destino que prevê a Raskólnikov:

У Родиона Романовича две дороги: или пуля в лоб, или по Владимирке., Rodion Românovitch tem duas estradas: ou uma bala na testa, ou a Vladímirka.
Sexta Parte: A entrega

Ainda no capítulo VI da Sexta Parte, ao amanhecer, é Svidrigáilov quem toma a estrada da bala, diante de um sentinela, e a cena é seca:

Он приставил револьвер к своему правому виску. [...] Свидригайлов спустил курок., Encostou o revólver na própria têmpora direita. [...] Svidrigáilov puxou o gatilho.
Sexta Parte: A entrega

No capítulo VII da Sexta Parte, Raskólnikov, que vinha afastando a mãe e a irmã, vai à mãe na véspera da entrega e lhe faz a única pergunta que se permite:

Маменька, что бы ни случилось, что бы вы обо мне ни услышали, что бы вам обо мне ни сказали, будете ли вы любить меня так, как теперь?, Mamãe, aconteça o que acontecer, o que quer que a senhora ouça a meu respeito, o que quer que lhe digam de mim, a senhora vai continuar a me amar como agora?
Sexta Parte: A entrega

No capítulo VIII da Sexta Parte, na casa de Sônia, o que ela faz com as duas cruzes fecha o que ficara pendente no capítulo IV da Quinta Parte e traz Lisavieta Ivánovna de volta à cena:

Sônia põe no peito de Raskólnikov só a cruz de cipreste, a dos simples, e fica com a de cobre, que trocou com Lisavieta Ivánovna. Na Quinta Parte ele recusara a de cipreste, dizendo que seria melhor depois, e ela combinara dá-la quando ele fosse ao sofrimento, de modo que a cena cumpre o combinado; a cruz da vítima fica com a mulher que o acompanhará.
Sexta Parte: A entrega

Ainda no capítulo VIII da Sexta Parte, na praça, ele cumpre a primeira metade do rito de Sônia, e o texto descreve o gesto com palavras que são o contrário da vergonha que ele ia evitar:

Он стал на колени среди площади, поклонился до земли и поцеловал эту грязную землю, с наслаждением и счастием., Pôs-se de joelhos no meio da praça, curvou-se até o chão e beijou aquela terra suja, com deleite e felicidade.
Sexta Parte: A entrega

No capítulo II do Epílogo, os presos reagem a Sônia e a Raskólnikov de modos opostos, e essa reação é o último juízo do livro sobre a teoria:

A prisão faz, sem discurso nenhum, a demonstração que o romance devia à teoria: entre condenados por crimes muito piores, quem é aceito por todos é a mulher que nunca formulou uma ideia, e quem é odiado é o único que chegou ali com um sistema explicando por que estava certo.
Epílogo: A ressurreição

Ainda no capítulo II do Epílogo, num dia claro à beira do rio, ele cai aos pés dela, e o narrador nomeia numa frase só o que aconteceu aos dois:

Их воскресила любовь, сердце одного заключало бесконечные источники жизни для сердца другого, O amor os ressuscitou: o coração de um encerrava fontes infinitas de vida para o coração do outro.
Epílogo: A ressurreição

Na mesma noite, ainda no capítulo II do Epílogo, debaixo do travesseiro dele está o Evangelho dela, o mesmo de onde ela lera a ressurreição de Lázaro. Ele o pega sem abrir e pensa se as convicções dela não podem ser também as suas. O livro fecha recusando contar o que vem:

тут уж начинается новая история, история постепенного обновления человека, история постепенного перерождения его, постепенного перехода из одного мира в другой, знакомства с новою, доселе совершенно неведомою действительностью. Это могло бы составить тему нового рассказа, - но теперешний рассказ наш окончен, mas aqui já começa uma nova história, a história da renovação gradual de um homem, a história do seu renascimento gradual, de sua passagem gradual de um mundo a outro, do contato com uma realidade nova, até então inteiramente desconhecida. Isso poderia formar o tema de um novo relato, mas o nosso relato de agora está encerrado.
Epílogo: A ressurreição

O livro põe duas respostas lado a lado, e a que se chama redenção não tem nada de triunfo. Raskólnikov chega ao Epílogo sem arrepender-se, e o que o muda é o amor de Sônia recebido num instante, depois de meses em que ele cumpriu o rito pela metade e recusou o abatimento de Porfiri. A outra resposta, a de Svidrigáilov, é completa e seca, e é por contraste com ela que o final de Raskólnikov conta como diferença. O livro faz a redenção do protagonista começar e a deixa fora da página.

Quem o encarna

Sônia é a redenção que não discute. No capítulo IV da Quarta Parte ela lê Lázaro tremendo e fecha o livro dizendo só que é tudo sobre a ressurreição, e no capítulo II do Epílogo nunca toca no assunto da religião, até ele pedir o Evangelho.

Porfiri é o outro lado: ele fecha o cerco oferecendo uma saída, a entrega voluntária, e a oferece de um lugar rebaixado, o de um homem acabado. No capítulo II da Sexta Parte, para convencer Raskólnikov, é ao rapaz que se confessou no lugar dele que Porfiri recorre:

не смейтесь над этим, в страдании есть идея. Миколка-то прав., não ria disso, no sofrimento há uma ideia. Mikolka é que tem razão.
Sexta Parte: A entrega

Dúnia chega por outro caminho. No capítulo VII da Sexta Parte diz ao irmão, sem discutir se o crime é ou não crime, que quem vai ao sofrimento já lava metade dele.

Pólienka tem um papel pequeno e decisivo. No capítulo VII da Segunda Parte, quando a menina o alcança correndo na escada, ele lhe faz um pedido que não combina com o homem da teoria e recebe da criança a promessa de uma oração; na ponte, logo depois, ri disso e diz a si mesmo que foi por via das dúvidas:

Полечка, меня зовут Родион; помолитесь когда-нибудь и обо мне: « и раба Родиона» — больше ничего., Pólienka, meu nome é Rodion; reze também por mim, um dia: e pelo servo Rodion, mais nada.
Segunda Parte: O inquérito

Onde aparece

  • Segunda Parte, capítulo VII: Raskólnikov pede à pequena Pólienka que reze pelo servo Rodion, depois de dar o dinheiro que tinha à família de Marmieládov e sentir que a vida voltou.
  • Quarta Parte, capítulo I: Svidrigáilov imagina a eternidade como um cômodo sujo cheio de aranhas e diz a Raskólnikov que são farinha do mesmo saco, enquanto este nega a vida futura.
  • Quarta Parte, capítulo IV: Sônia diz que sem Deus não seria nada e lê, a pedido de Raskólnikov, a ressurreição de Lázaro, enquanto ele escuta em silêncio.
  • Quinta Parte, capítulo IV: Raskólnikov diz a Sônia que foi a ela para que não o deixe, e ela manda que beije a terra e confesse ao mundo e lhe oferece a cruz de cipreste, que ele recusa por ora.
  • Sexta Parte, capítulo II: Porfiri aconselha Raskólnikov a buscar Deus ou a fé e a aceitar o sofrimento, promete preparar o terreno para a entrega voluntária e lhe concede um dia e meio.
  • Sexta Parte, capítulo VI: Svidrigáilov entrega a Sônia dinheiro para os órfãos, diz que Raskólnikov tem duas estradas, a bala ou a Vladímirka, e ao amanhecer se mata diante de um sentinela.
  • Sexta Parte, capítulo VII: Raskólnikov pergunta à mãe se continuará a amá-lo aconteça o que acontecer, ajoelha-se e lhe beija os pés, e ela o abençoa.
  • Sexta Parte, capítulo VIII: Sônia põe no peito de Raskólnikov a cruz de cipreste e fica com a de Lisavieta, e na praça ele se ajoelha e beija a terra suja.
  • Epílogo, capítulo II: Na prisão, os presos chamam Sônia de mãe, e Raskólnikov cai aos pés dela à beira do rio, onde o amor os ressuscita, enquanto o Evangelho dela fica sob o travesseiro dele.

Onde as leituras divergem

Pode-se tratar o Epílogo como enxerto forçado: se a conversão é anunciada e não mostrada, Sônia funciona como dispositivo de desfecho e não como personagem que vence um argumento, porque o argumento nunca é enfrentado, só abandonado. Se Raskólnikov é louco, o Epílogo vira cura e a teoria nunca precisou de resposta; se é lúcido e se descobre por etapas, o Epílogo é o único ponto em que o livro devia responder e não responde.

O próprio capítulo II do Epílogo deixa as duas portas abertas. Ao anunciar a regeneração e remetê-la a outro livro, o narrador pode estar confiando em que a mudança está garantida e não precisa ser mostrada, ou admitindo que o romance, que seguiu cada torção da consciência do assassino, não segue a única que o salvaria.

A divergência é menos sobre Sônia e mais sobre o que conta como resposta: quem lê por chave religiosa aceita que uma vida possa refutar uma tese sem argumentar, e quem lê por chave analítica cobra do livro a demonstração que ele se recusa a dar. Contra a primeira, Sônia não converte ninguém nas seiscentas páginas em que atua, e contra a segunda, o livro nunca prometeu vencer a dialética com dialética.