Clavis Libri

Tema em Crime e Castigo

Dinheiro e riqueza

O dinheiro como condição de vida: riqueza, pobreza, dívida, comércio, herança em bens.

O tema na obra

No romance o dinheiro é a pressão que põe o crime em movimento e a medida pela qual quase todos se leem uns aos outros. Rodion Românovitch Raskólnikov vive de um cubículo que deve à senhoria e de uma faculdade interrompida; o casamento de Avdótia Românovna Raskólnikova com Piotr Pietróvitch Lújin é lido por ele como venda; Lújin ama o dinheiro porque o iguala aos que estão acima dele; Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov o usa como poder e, no fim, como legado. Mas o livro recusa o dinheiro como explicação: o da velha fica sob uma pedra sem ser contado, Raskólnikov diz a Sófia Semeónovna Marmieládova que nem decidira se pegaria o dinheiro, e a explicação da miséria, que o tribunal do Epílogo adota, é a que o romance põe em dúvida ao manter em cena Dmitri Prokófitch Razumíkhin.

No capítulo III da Primeira Parte, a carta da mãe conta que Lújin, no segundo encontro, disse que o marido não deve nada à esposa e que é muito melhor a esposa ver nele o benfeitor. Pulkhéria Alieksándrovna Raskólnikova cita a frase como traço áspero de homem franco e avisa que a suavizou na escrita.

муж ничем не должен быть обязан своей жене, а гораздо лучше, если жена считает мужа за своего благодетеля, o marido não deve nada à esposa, e é muito melhor que a esposa veja no marido o seu benfeitor.
Primeira Parte: O crime

No capítulo IV da Primeira Parte, Raskólnikov conclui que Dúnia aceita Lújin para ajudar o irmão e a mãe, como Sônia se vendeu pela família, e recusa o sacrifício:

мы, при случае, и нравственное чувство наше придавим; свободу, спокойствие, даже совесть, все, все на толкучий рынок снесем., nós, quando calha, também esmagamos o nosso sentimento moral; liberdade, sossego, até a consciência, tudo, tudo levamos ao mercado de pulgas.
Primeira Parte: O crime

No mesmo capítulo IV da Primeira Parte, o narrador faz o retrato de Razumíkhin, cuja pobreza é a mesma e que a vive sem humilhação, sustentando-se sozinho:

Разумихин был еще тем замечателен, что никакие неудачи его никогда не смущали и никакие дурные обстоятельства, казалось, не могли придавить его. Он мог квартировать хоть на крыше, терпеть адский голод и необыкновенный холод. Был он очень беден и решительно сам, один, содержал себя, добывая кой-какими работами деньги., Razumíkhin tinha ainda de notável o fato de que nenhum fracasso jamais o abalava e nenhuma circunstância ruim, ao que parecia, conseguia derrubá-lo. Podia morar até num telhado, aguentar uma fome dos diabos e um frio fora do comum. Era muito pobre e se sustentava decididamente sozinho, por conta própria, arranjando dinheiro com uns trabalhos quaisquer.
Primeira Parte: O crime

No capítulo VI da Primeira Parte, a conta que um estudante desconhecido faz numa taberna dá a Raskólnikov linguagem e número para o que pensava: matar a velha, ficar com o dinheiro dela e dedicá-lo ao bem comum.

Убей ее и возьми ее деньги, с тем чтобы с их помощию посвятить потом себя на служение всему человечеству и общему делу: [...] Одна смерть и сто жизней взамен — да ведь тут арифметика!, Mate-a e fique com o dinheiro dela, para depois, com a ajuda dele, dedicar-se ao serviço de toda a humanidade e da causa comum: [...] Uma morte e cem vidas em troca, ora, isso é aritmética!
Primeira Parte: O crime

No capítulo VII da Primeira Parte, Raskólnikov enche os bolsos de joias e relógios sem desembrulhar nada. Na manhã seguinte, no capítulo I da Segunda Parte, enfia tudo no buraco do papel de parede e percebe que contava só com dinheiro e não preparou lugar para objetos. No capítulo II da Segunda Parte, depois de esconder tudo sob uma pedra, a pergunta que se faz mede o quanto o plano foi cálculo:

Если действительно все это дело сделано было сознательно, а не по-дурацки, если у тебя действительно была определенная и твердая цель, то каким же образом ты до сих пор даже и не заглянул в кошелек и не знаешь, что тебе досталось, из-за чего все муки принял и на такое подлое, гадкое, низкое дело сознательно шел?, se tudo isso foi feito mesmo conscientemente, e não como uma estupidez, se você teve de fato um objetivo definido e firme, então como é que até agora nem chegou a olhar dentro da bolsa e não sabe o que lhe coube, por causa de que sofreu todos os tormentos e foi, conscientemente, a um ato tão vil, repugnante e baixo?
Segunda Parte: O inquérito

No capítulo V da Segunda Parte, em visita ao doente, Lújin expõe a doutrina do interesse pessoal como ciência: o cafetã inteiro, em vez de rasgado ao meio, e a economia que ensina que quem adquire para si adquire para todos.

Наука же говорит: возлюби, прежде всех, одного себя, ибо все на свете на личном интересе основано, a ciência, por sua vez, diz: ama, antes de todos, só a ti mesmo, pois tudo no mundo se funda no interesse pessoal.
Segunda Parte: O inquérito

No capítulo VII da Segunda Parte, Raskólnikov dá os vinte rublos que tem à viúva de Semion Zakhárovitch Marmieládov, gesto que contradiz na prática a doutrina de Lújin e a aritmética do crime. No capítulo III da Terceira Parte, ao pedir perdão à mãe por ter dado à viúva todo o dinheiro que ela mandara, justifica-se com uma tese:

Я, впрочем, права не имел никакого, сознаюсь, особенно зная, как вам самим эти деньги достались. Чтобы помогать, надо сначала право такое иметь, Eu não tinha direito algum, confesso, ainda mais sabendo quanto esse dinheiro custou a vocês. Para ajudar, antes de tudo é preciso ter esse direito.
Terceira Parte: A teoria

No capítulo I da Quarta Parte, Svidrigáilov pede a Raskólnikov um encontro com Dúnia, em que lhe ofereceria dez mil rublos para facilitar a ruptura com Lújin, e responde ao insulto com o argumento que serve a toda caridade suspeita:

человек человеку на сем свете может делать одно только зло и, напротив, не имеет права сделать ни крошки добра, из-за пустых принятых формальностей., um homem neste mundo só pode fazer mal a outro e, ao contrário, não tem direito de fazer nem uma migalha de bem, por causa de formalidades vazias que a gente aceitou.
Quarta Parte: O cerco

No capítulo III da Quarta Parte, na escada, o narrador entra na cabeça de Lújin depois da ruptura e diz o que ele mais amava e prezava no mundo:

Но более всего на свете любил и ценил он, добытые трудом и всякими средствами, свои деньги: они равняли его со всем, что было выше его., Mas o que mais amava e prezava no mundo era o seu dinheiro, ganho com trabalho e por meios de toda sorte: era ele que o punha no mesmo nível de tudo o que estava acima dele.
Quarta Parte: O cerco

No capítulo I da Quinta Parte, Lújin confere sobre a mesa maços de títulos e de cédulas enquanto provoca Liebeziátnikov, e no capítulo III da Quinta Parte a nota de cem rublos que ele enfiara às escondidas no bolso de Sônia, para acusá-la de roubo, cai aos pés dele. O dinheiro lhe serve de arma, e a arma falha em público.

No capítulo IV da Quinta Parte, ao dizer a Sônia o que o levou ao assassinato, Raskólnikov descarta o dinheiro, a mãe e a humanidade e chega a uma formulação sem fim exterior:

Я просто убил; для себя убил, для себя одного, Eu simplesmente matei; matei para mim, para mim somente.
Quinta Parte: A confissão

No capítulo V da Quinta Parte, Svidrigáilov promete pagar o enterro de Catierina Ivánovna Marmieládova e abrigar os três filhos, e justifica o dinheiro com a pergunta que o próprio Raskólnikov fez a Sônia:

не «вошь» же была она [...] как какая-нибудь старушонка процентщица. Ну, согласитесь, ну «Лужину ли, в самом деле, жить и делать мерзости, или ей умирать?», ela não era um “piolho” [...] como uma velhota agiota qualquer. Pois concorde: “Lújin deve mesmo viver e fazer infâmias, ou ela deve morrer?”
Quinta Parte: A confissão

No capítulo VI da Sexta Parte, na última noite, Svidrigáilov entrega a Sônia os recibos dos órfãos e três títulos que somam três mil rublos, deixa quinze mil à noiva e justifica o dinheiro a Sônia pelo destino que prevê a Raskólnikov:

У Родиона Романовича две дороги: или пуля в лоб, или по Владимирке., Rodion Românovitch tem duas estradas: ou uma bala na testa, ou a Vladímirka.
Sexta Parte: A entrega

No capítulo I do Epílogo, o tribunal ouve Raskólnikov dar a causa de tudo: a situação ruim, a miséria, o desamparo e o desejo de firmar a carreira com ao menos três mil rublos que contava achar com a morta.

причиной всему было его скверное положение, его нищета и беспомощность, желание упрочить первые шаги своей жизненной карьеры с помощью, по крайней мере, трех тысяч рублей, которые он рассчитывал найти у убитой, a causa de tudo era a situação ruim em que estava, a miséria e o desamparo, o desejo de firmar os primeiros passos de sua carreira com a ajuda de, ao menos, três mil rublos que contava achar com a morta.
Epílogo: A ressurreição

O dinheiro faz três coisas no livro, e nenhuma é explicar o crime. Mede pessoas, na conta de Lújin no capítulo III da Quarta Parte, em que quem não tem dinheiro deve gratidão. Promete poder, que é o que a aritmética do capítulo VI da Primeira Parte oferece e a bolsa não examinada do capítulo II da Segunda Parte desmente. E vira legado, quando Svidrigáilov o espalha na última noite do capítulo VI da Sexta Parte e o dinheiro dele sustenta Sônia na Sibéria, como conta o capítulo I do Epílogo. Razumíkhin, pobre como Raskólnikov, é o que impede a explicação fácil.

Quem o encarna

Lújin é o dinheiro como valor de pessoa. No capítulo III da Quarta Parte, o narrador diz que ele sonha em segredo com uma esposa pobre, sem falta, muito jovem e assustada, que o tenha por salvação a vida toda.

девице благонравной и бедной (непременно бедной), очень молоденькой, очень хорошенькой, благородной и образованной, очень запуганной, чрезвычайно много испытавшей несчастий и вполне перед ним приникшей, такой, которая бы всю жизнь считала его спасением своим, благоговела перед ним, подчинялась, удивлялась ему, и только ему одному., uma moça de bons costumes e pobre (pobre sem falta), muito novinha, muito bonitinha, nobre e instruída, muito assustada, que tivesse passado por desgraças demais e se curvasse inteira diante dele, uma que pela vida toda o tivesse como sua salvação, o venerasse, lhe obedecesse, se maravilhasse com ele, e só com ele.
Quarta Parte: O cerco

Svidrigáilov é o dinheiro como poder e, no fim, como despedida. Nos gestos do capítulo V da Quinta Parte e do capítulo VI da Sexta Parte (o enterro de Catierina, os órfãos, o dinheiro a Sônia, a noiva), o texto não decide se são remorso de quem tinha o segredo como arma ou acerto de quem se despede.

Marmieládov é o dinheiro que escoa. No capítulo II da Primeira Parte, depois de recuperar o emprego, rouba a chave do baú da mulher, leva o que restava e bebe cinco noites a fio. Catierina, no capítulo II da Quinta Parte, gasta cerca de dez dos vinte e tantos rublos de Raskólnikov em exéquias que ninguém lhe pediu.

Sônia é o dinheiro que vai embora: entrega à família tudo o que ganha. No capítulo IV da Terceira Parte, ao ver a pobreza do quarto de Raskólnikov, deixa escapar que ele lhes deu tudo.

Onde aparece

  • Primeira Parte, capítulo II: Marmieládov conta que roubou a chave do baú da mulher e bebeu o dinheiro, e que Sônia, procurada por ele, deu os últimos trinta copeques sem recriminá-lo.
  • Primeira Parte, capítulo III: A carta da mãe conta que Lújin, noivo de Dúnia, disse que o marido não deve nada à esposa e que ela deve ver nele o seu benfeitor.
  • Primeira Parte, capítulo IV: Raskólnikov conclui que Dúnia aceita Lújin para ajudar o irmão e a mãe, como a filha de Marmieládov se vendeu pela família, e o narrador compara a pobreza dele à de Razumíkhin.
  • Primeira Parte, capítulo VI: Raskólnikov lembra a conta de um estudante numa taberna, matar a velha agiota e usar o dinheiro dela a serviço da humanidade, que lhe dá linguagem e número para o plano.
  • Primeira Parte, capítulo VII: Depois do crime, Raskólnikov enche os bolsos de joias e relógios da velha sem desembrulhar nada e foge pela escada sem olhar o que levou.
  • Segunda Parte, capítulo I: Na manhã seguinte, Raskólnikov enfia a bolsa e as joias no buraco do papel de parede e percebe que contava só com dinheiro e não preparou lugar para objetos.
  • Segunda Parte, capítulo II: Raskólnikov esconde as joias e a bolsa sob uma pedra num pátio e se pergunta como, tendo agido conscientemente, nem olhou o que levou.
  • Segunda Parte, capítulo V: Lújin expõe a doutrina do cafetã inteiro, segundo a qual cada um deve amar primeiro a si mesmo, e Raskólnikov o confronta com o que ele disse à noiva sobre tirá-la da miséria.
  • Segunda Parte, capítulo VII: Raskólnikov entrega os vinte rublos que tinha à viúva de Marmieládov, para o enterro, promete voltar, e sente depois que a vida voltou.
  • Terceira Parte, capítulo III: Raskólnikov conta à mãe que deu a Catierina Ivánovna todo o dinheiro que ela mandara e diz que, para ajudar, é preciso antes ter esse direito.
  • Terceira Parte, capítulo IV: Ao ver a pobreza do quarto de Raskólnikov, Sônia deixa escapar que ele lhes deu tudo, e a frase muda a atitude da mãe e da irmã dele.
  • Quarta Parte, capítulo I: Svidrigáilov pede a Raskólnikov um encontro com Dúnia, em que ofereceria dez mil rublos para a ruptura com Lújin, e avisa que Marfa Pietróvna lhe deixou três mil.
  • Quarta Parte, capítulo III: O narrador mostra Lújin, depois da ruptura, apegado ao dinheiro que o iguala ao que está acima dele e à fantasia de uma esposa pobre, jovem e grata.
  • Quinta Parte, capítulo I: Lújin confere maços de títulos e cédulas sobre a mesa, dá dez rublos a Sônia como subscrição e prepara em segredo a acusação contra ela.
  • Quinta Parte, capítulo II: Catierina Ivánovna gasta cerca de dez dos vinte e tantos rublos de Raskólnikov em exéquias que ninguém pediu, e os convidados que queria impressionar não vêm.
  • Quinta Parte, capítulo III: Lújin acusa Sônia de roubar cem rublos, mas a cédula cai do bolso dela e Liebeziátnikov diz que o viu enfiá-la ali às escondidas.
  • Quinta Parte, capítulo IV: Raskólnikov diz a Sônia que o dinheiro da velha não era o motivo: as joias e a bolsa ficaram sob uma pedra e ele nem decidira se pegaria o dinheiro.
  • Quinta Parte, capítulo V: Svidrigáilov promete pagar o enterro de Catierina, colocar os três filhos em instituições com mil e quinhentos rublos cada e tirar Sônia do lodaçal.
  • Sexta Parte, capítulo VI: Svidrigáilov entrega a Sônia os recibos dos órfãos e três títulos que somam três mil rublos, deixa quinze mil à noiva e prevê a Raskólnikov a bala ou a Vladímirka.
  • Epílogo, capítulo I: No tribunal, Raskólnikov dá como causa a miséria e o desejo de contar com ao menos três mil rublos da morta, e erra a conta do que havia na bolsa.

Onde as leituras divergem

A explicação da miséria é a leitura que o tribunal do capítulo I do Epílogo adota ao acolher a perturbação passageira e a pobreza do réu. O romance a contraria de dois lados. De dentro, Raskólnikov diz a Sônia, no capítulo IV da Quinta Parte, que as razões práticas eram outras. De fora, Razumíkhin, em cena desde a Primeira Parte, tem os mesmos dados de partida e não chega às mesmas conclusões; na leitura que o trata como variável de controle, é ele quem impede a miséria de explicar o crime.

O próprio capítulo I do Epílogo registra que Raskólnikov não sabia quanto havia na bolsa e errava até a conta dos objetos, e o texto sustenta duas leituras: ele nunca contou o roubo porque o dinheiro não era o que o movia, ou não suportava olhar para o que o crime lhe rendeu.

As duas leituras da bolsa não contada não competem: nunca contá-la serve tanto à tese de que o dinheiro era pretexto quanto à de que a teoria exigia desprezá-lo. O que o livro fixa é o destino do resto: a bolsa fica sob uma pedra, e o dinheiro que circula na história passa pela mão de quem o dá, Raskólnikov aos Marmieládov no capítulo VII da Segunda Parte, Svidrigáilov a Sônia no capítulo VI da Sexta Parte.