O tema na obra
Brás Cubas se define no capítulo I como defunto autor e, no capítulo IV, dá o pacto de leitura da obra: filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona. No capítulo IX, liga o delírio ao nascimento por uma cadeia de transições que parte de Virgília e chega a 20 de outubro de 1805.
O narrador comenta o próprio livro. No capítulo XXII, recusa narrar a Europa porque memórias levam só a substância da vida, e encurta o capítulo porque o público dele é in-12. No capítulo XXVII, corrige Pascal e chama o homem de errata pensante. No capítulo XLV, enumera em lista os apontamentos de um capítulo que não escreve, e no capítulo LV o capítulo se reduz aos nomes dos amantes e a linhas de pontos.
A partir do capítulo LXXI o livro fala de si ao leitor: Brás se arrepende dele, culpa o leitor e compara o estilo aos ébrios; o capítulo LXXII imagina o bibliômano; o capítulo XCVIII anuncia que vai suprimir um capítulo que continua escrito; e o capítulo CXXXVIII responde ao crítico que a morte não envelhece.
O livro também se corrige e se interrompe. No capítulo VII, Brás conta os vinte ou trinta minutos do seu delírio e declara que ainda ninguém relatou o próprio, de modo que a ciência lhe agradecerá. No capítulo XIII, salta por cima da escola, lembra o mestre Ludgero e se interrompe pedindo para suspender a pena e não adiantar os sucessos. No capítulo XVI, corrige o que dissera no capítulo XIV: Marcela não morria de amores por Xavier, vivia. No capítulo CVIII, chama o bilhete de documento de análise, recusa analisá-lo e conta o que sentiu em pares: era medo e não era medo, era dó e não era dó.
O narrador trata a forma como assunto: o salto sobre a Europa, o capítulo de pontos e o capítulo suprimido que segue no livro são avisados ao leitor antes ou depois de feitos. O mesmo gesto tem duas leituras, a de um método que se declara e a de uma pose de quem escolhe com cuidado o que a franqueza mostra, e o livro não decide entre elas.
Onde aparece
- Capítulo I: Brás Cubas declara que não é propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço, e abre as memórias pelo fim porque o escrito fica assim mais novo.
- Capítulo IV: Brás define o livro como obra de filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, mais do que passatempo e menos do que apostolado, e volta ao emplasto depois de citar Cavour e Lucrécia Bórgia.
- Capítulo VII: Brás conta os vinte ou trinta minutos do seu delírio e declara que ainda ninguém relatou o próprio, de modo que a ciência lhe agradecerá.
- Capítulo IX: Brás liga o delírio ao nascimento por uma cadeia de transições: o delírio começou diante de Virgília, que foi o seu grão pecado da juventude, e daí se chega a 20 de outubro de 1805.
- Capítulo XIII: Brás salta por cima da escola, lembra o mestre Ludgero e se interrompe pedindo para suspender a pena e não adiantar os sucessos, antes de saltar a 1822.
- Capítulo XVI: Brás corrige o que dissera no capítulo XIV: Marcela não morria de amores por Xavier, vivia, e a correção abre a reflexão que ele mesmo chama de imoral e obscura.
- Capítulo XXII: Brás recusa narrar a Europa porque um diário de viagem seria outro livro, e, ao encurtar o capítulo, diz que o público dele não é in-folio, mas in-12.
- Capítulo XXVII: Brás corrige Pascal, chama o homem de errata pensante e diz que cada estação da vida é uma edição que corrige a anterior, até a definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.
- Capítulo XLV: Brás enumera numa só frase o velório e o enterro do pai e diz que são notas de um capítulo triste e vulgar que ele não escreve.
- Capítulo LV: O capítulo se reduz à alternância dos nomes Brás Cubas e Virgília, cada um seguido de linhas de pontos, e escreve sem palavras o diálogo dos dois anunciado no capítulo anterior.
- Capítulo LXXI: Brás confessa que começa a se arrepender do livro e diz que o maior defeito dele é o leitor, que tem pressa, enquanto o livro e o estilo guinam como os ébrios.
- Capítulo LXXII: Brás pensa em suprimir o capítulo anterior e imagina um bibliômano que, daqui a setenta anos, com um exemplar único, esquadrinha a página sem achar o despropósito e se contenta com a posse.
- Capítulo XCVIII: Brás diz ter vontade de suprimir o capítulo que escreve, mas lembra ao leitor pacato que escreve as suas memórias e não as dele.
- Capítulo CVIII: Brás chama o bilhete de documento de análise e recusa analisá-lo, e conta o que sentiu em pares: era medo e não era medo, era dó e não era dó.
- Capítulo CXXXVIII: Brás explica a um crítico que a morte não envelhece e que o estilo das memórias muda conforme a fase da vida que ele narra.
Passagens
O pacto de leitura é feito de negativas.
obra supinamente filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, [...] e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado
A vida se corrige a cada edição, e o livro é a de um defunto.
Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.
O próprio narrador descreve o seu estilo.
este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem
O capítulo suprimido continua no livro.
Estou com vontade de suprimir este capítulo. O declive é perigoso. Mas enfim eu escrevo as minhas memórias e não as tuas, leitor pacato.
A explicação do estilo vem em resposta ao crítico.
A morte não envelhece