O tema na obra
O Quixote é um livro que fala de si. Desde o prólogo o autor se apresenta como padrasto, e não pai, do filho que escreve; no capítulo IX da Primeira Parte, o narrador confessa que não passa de comprador de um caderno árabe achado no mercado de Toledo, traduzido a pedido por um mouro aljamiado; na Segunda Parte, os personagens já leram a primeira e discutem os erros dela; e perto do fim o livro de outro autor, o apócrifo de Avellaneda, entra na história como uma ameaça a que o fidalgo responde. A linguagem aparece em três camadas. A de Dom Quixote, feita dos livros que leu, em arcaísmo de cavalaria que ninguém entende. A de Sancho Pança, de refrões que o amo lhe pede para moderar. E a do narrador, que pode estar sendo traduzido, copiado, corrigido ou plagiado, e que no fim declara, pela boca da pena pendurada numa espeteira, a posse do que contou.
No prólogo da Primeira Parte, a primeira frase já avisa o tom: o livro é um filho do entendimento que gostaria de ser o mais belo, o mais garboso e o mais discreto.
Desocupado lector: sin juramento me podrás creer que quisiera que este libro, como hijo del entendimiento, fuera el más hermoso, el más gallardo y más discreto que pudiera imaginarse, desocupado leitor: sem juramento podes crer-me que eu desejaria que este livro, qual filho do entendimento, fosse o mais belo, o mais garboso e o mais discreto que se pudesse imaginar.
No capítulo II da Primeira Parte, a linguagem do fidalgo aparece em ação: diante de duas moças do partido, à porta da estalagem, ele fala em castelhano de livro, e elas, que não entendem, riem.
No fuyan las vuestras mercedes ni teman desaguisado alguno; ca a la orden de caballería que profeso non toca ni atañe facerle a ninguno, cuanto más a tan altas doncellas como vuestras presencias demuestran, não fujam as vossas mercês nem temam agravo algum, que à ordem de cavalaria que professo não toca nem pertence fazê-lo a ninguém, quanto mais a tão altas donzelas como as vossas presenças demonstram.
No capítulo VIII da Primeira Parte, o narrador interrompe o duelo com o biscainho porque não achou mais escrito sobre as façanhas do fidalgo.
Pero está el daño de todo esto que en este punto y término deja pendiente el autor desta historia esta batalla, disculpándose que no halló más escrito destas hazañas de don Quijote de las que deja referidas, mas o dano de tudo isto está em que neste ponto e termo deixa pendente o autor desta história esta batalha, desculpando-se de que não achou mais escrito destas façanhas de dom Quixote do que as que deixa referidas.
No capítulo IX da Primeira Parte, ele conta o achado, e o primeiro movimento é de leitor frustrado.
Causóme esto mucha pesadumbre, porque el gusto de haber leído tan poco se volvía en disgusto, de pensar el mal camino que se ofrecía para hallar lo mucho que, a mi parecer, faltaba de tan sabroso cuento, causou-me isto muito pesar, porque o gosto de ter lido tão pouco se voltava em desgosto, de pensar no mau caminho que se oferecia para achar o muito que, a meu ver, faltava de tão saboroso relato.
O mouro traduz o título do caderno em voz alta, e é o nome que o livro passa a dar ao seu primeiro autor.
volviendo de improviso el arábigo en castellano, dijo que decía: Historia de don Quijote de la Mancha, escrita por Cide Hamete Benengeli, historiador arábigo, voltando de improviso o árabe em castelhano, disse que dizia: História de dom Quixote de la Mancha, escrita por Cide Hamete Benengeli, historiador árabe.
O narrador defende a história pela sua fonte, mas ironiza a única objeção possível à verdade dela.
Si a ésta se le puede poner alguna objeción cerca de su verdad, no podrá ser otra sino haber sido su autor arábigo, siendo muy propio de los de aquella nación ser mentirosos, se a esta se lhe puder pôr alguma objeção quanto à sua verdade, não poderá ser outra senão ter sido seu autor árabe, sendo muito próprio dos daquela nação serem mentirosos.
E logo depois enuncia o ideal do historiador, que o livro passa a pôr à prova.
habiendo y debiendo ser los historiadores puntuales, verdaderos y no nada apasionados, y que ni el interés ni el miedo, el rancor ni la afición, no les hagan torcer del camino de la verdad, cuya madre es la historia, émula del tiempo, depósito de las acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo por venir, sendo os historiadores, como devem ser, exatos, verdadeiros e nada passionais, de modo que nem o interesse nem o medo, nem o rancor nem a afeição os desviem do caminho da verdade, cuja mãe é a história, rival do tempo, arquivo das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do que há de vir.
No capítulo XXXV da Primeira Parte, o padre lê em voz alta a novela do Curioso Impertinente e, ao fim, diz que não consegue persuadir-se de que seja verdade, e que, se é fingida, o autor fingiu mal.
Bien -dijo el cura- me parece esta novela, pero no me puedo persuadir que esto sea verdad; y si es fingido, fingió mal el autor, porque no se puede imaginar que haya marido tan necio que quiera hacer tan costosa experiencia como Anselmo. Si este caso se pusiera entre un galán y una dama, pudiérase llevar, pero entre marido y mujer, algo tiene del imposible, bem me parece esta novela, disse o padre, mas não me posso persuadir de que isto seja verdade; e, se é fingido, fingiu mal o autor, porque não se pode imaginar que haja marido tão néscio que queira fazer tão custosa experiência como Anselmo. Se este caso se pusesse entre um galã e uma dama, poder-se-ia levar, mas entre marido e mulher algo tem de impossível.
No capítulo LII da Primeira Parte, o livro de 1605 fecha com um verso de Ariosto, que deixa a continuação a outro.
Forsi altro canterà con miglior plectio, talvez outro cantará com melhor plectro.
No prólogo da Segunda Parte, o autor responde ao apócrifo de Avellaneda sem nomeá-lo.
Quisieras tú que lo diera del asno, del mentecato y del atrevido, pero no me pasa por el pensamiento: castíguele su pecado, con su pan se lo coma y allá se lo haya, gostarias que eu o tratasse de asno, de mentecapto e de atrevido, mas isso nem me passa pelo pensamento: que o seu pecado o castigue, que coma o seu pão e se arranje.
E promete dar dom Quixote estendido, morto e sepultado, para que ninguém se atreva a levantar-lhe novos testemunhos.
esta segunda parte de Don Quijote que te ofrezco es cortada del mismo artífice y del mesmo paño que la primera, y que en ella te doy a don Quijote dilatado, y, finalmente, muerto y sepultado, porque ninguno se atreva a levantarle nuevos testimonios, esta segunda parte de Dom Quixote que te ofereço é cortada do mesmo artífice e do mesmo pano que a primeira, e nela te dou dom Quixote estendido e, por fim, morto e sepultado, para que ninguém se atreva a levantar-lhe novos testemunhos.
No capítulo III da Segunda Parte, a regra do historiador volta pela boca do bacharel Carrasco, a quem o fidalgo pergunta o que se diz da história impressa.
uno es escribir como poeta y otro como historiador: el poeta puede contar, o cantar las cosas, no como fueron, sino como debían ser; y el historiador las ha de escribir, no como debían ser, sino como fueron, sin añadir ni quitar a la verdad cosa alguna, escrever como poeta é uma coisa, como historiador é outra: ao poeta cabe contar, ou cantar, as coisas não como foram, mas como deviam ser; ao historiador, escrevê-las não como deviam ser, mas como foram, sem acrescentar nem tirar nada à verdade.
No capítulo XXIV da Segunda Parte, o tradutor dá o troco: Cide Hamete escreve na margem que não pode persuadir-se de que tudo isto tenha acontecido ao fidalgo, e que, sem afirmá-lo falso ou verdadeiro, escreve.
No me puedo dar a entender, ni me puedo persuadir, que al valeroso don Quijote le pasase puntualmente todo lo que en el antecedente capítulo queda escrito [...] y si esta aventura parece apócrifa, yo no tengo la culpa; y así, sin afirmarla por falsa o verdadera, la escribo, não posso dar a entender, nem posso persuadir-me, de que ao valoroso dom Quixote tenha acontecido pontualmente tudo o que no capítulo anterior fica escrito [...] e se esta aventura parece apócrifa, eu não tenho a culpa; e assim, sem afirmá-la falsa ou verdadeira, a escrevo.
No capítulo XLIII da Segunda Parte, o fidalgo corrige a fala do escudeiro: o refrão a propósito não parece mal, mas carregá-los a granel deixa a conversa desmaiada e baixa.
Mira, Sancho, no te digo yo que parece mal un refrán traído a propósito, pero cargar y ensartar refranes a troche moche hace la plática desmayada y baja, olha, Sancho, não te digo eu que parece mal um refrão trazido a propósito, mas carregar e enfiar refrões a granel deixa a conversa desmaiada e baixa.
No capítulo XLIV da Segunda Parte, o narrador confessa o cansaço de escrever sempre de um só assunto, e pede louvores pelo que deixou de escrever.
y decía que el ir siempre atenido el entendimiento, la mano y la pluma a escribir de un solo sujeto y hablar por las bocas de pocas personas era un trabajo incomportable, cuyo fruto no redundaba en el de su autor [...] pide no se desprecie su trabajo, y se le den alabanzas, no por lo que escribe, sino por lo que ha dejado de escribir, e dizia que ir sempre com o entendimento, a mão e a pena presos a escrever de um só sujeito e a falar pelas bocas de poucas pessoas era um trabalho incomportável, cujo fruto não redundava em proveito de seu autor [...] pede que não se despreze seu trabalho, e que se lhe deem louvores não pelo que escreve, mas pelo que deixou de escrever.
No capítulo LXII da Segunda Parte, em Barcelona, na tipografia onde o fidalgo vê compor um livro, ele opina sobre a tradução.
el traducir de una lengua en otra, como no sea de las reinas de las lenguas, griega y latina, es como quien mira los tapices flamencos por el revés, que, aunque se veen las figuras, son llenas de hilos que las escurecen, y no se veen con la lisura y tez de la haz, o traduzir de uma língua em outra, como não seja das rainhas das línguas, a grega e a latina, é como quem olha os tapetes flamengos pelo avesso, que, ainda que se vejam as figuras, estão cheias de fios que as escurecem, e não se veem com a lisura e a tez do lado direito.
No capítulo LXXII da Segunda Parte, perante dom Álvaro Tarfe, que conheceu o Quixote do apócrifo, ele pede uma declaração diante do alcaide.
yo soy don Quijote de la Mancha, el mismo que dice la fama, y no ese desventurado que ha querido usurpar mi nombre y honrarse con mis pensamientos. A vuestra merced suplico, por lo que debe a ser caballero, sea servido de hacer una declaración ante el alcalde deste lugar, de que vuestra merced no me ha visto en todos los días de su vida hasta agora, y de que yo no soy el don Quijote impreso en la segunda parte, ni este Sancho Panza mi escudero es aquél que vuestra merced conoció, eu sou dom Quixote de la Mancha, o mesmo que diz a fama, e não esse desventurado que quis usurpar meu nome e honrar-se com meus pensamentos. A vossa mercê suplico, pelo que deve a ser cavaleiro, que seja servido de fazer uma declaração diante do alcaide deste lugar, de que vossa mercê não me viu em todos os dias de sua vida até agora, e de que eu não sou o dom Quixote impresso na segunda parte, nem este Sancho Pança meu escudeiro é aquele que vossa mercê conheceu.
E no capítulo LXXIV da Segunda Parte, o testamento pede que se peça perdão a Avellaneda pela ocasião que o fidalgo lhe deu, e o narrador fecha a história com a pena pendurada numa espeteira.
Aquí quedarás, colgada desta espetera y deste hilo de alambre, ni sé si bien cortada o mal tajada péñola mía, adonde vivirás luengos siglos, si presuntuosos y malandrines historiadores no te descuelgan para profanarte, aqui ficarás, pendurada deste cabide de cozinha e deste fio de arame, não sei se bem cortada ou mal talhada pena minha, onde viverás longos séculos, se presunçosos e malandrins historiadores não te descem para profanar-te.
A última voz é a da pena, que reclama a posse do herói.
Para mí sola nació don Quijote, y yo para él; él supo obrar y yo escribir; solos los dos somos para en uno, a despecho y pesar del escritor fingido y tordesillesco, para mim só nasceu dom Quixote, e eu para ele; ele soube obrar e eu escrever; só nós dois somos feitos um para o outro, a despeito e pesar do escritor fingido e tordesilhesco.
O romance põe o problema do narrador três vezes e resolve-o de modo diferente cada vez. Na primeira, o narrador diz que tudo foi escrito por outro, árabe, e que a única objeção possível à verdade da história é essa, e deixa o leitor decidir a quem dar razão (capítulo IX da Primeira Parte). Na segunda, o livro de 1605 já é objeto de discussão entre os personagens: o bacharel traz a regra do historiador e a lista de erros do livro, e o fidalgo a aceita sem se alarmar (capítulo III da Segunda Parte). Na terceira, o apócrifo obriga o livro a fechar o herói, e ele só fecha porque a pena se declara dona dele. Duas leituras: é um jogo que prolonga o prazer de ler e se despede em tom de brincadeira; ou é uma defesa séria de autoria, em que o riso é o cuidado de quem sabe que o que escreve pode ser levado por outro.
Quem o encarna
Cide Hamete Benengeli é o narrador que o livro finge seguir, e o texto lhe dá uma profissão: historiador árabe, de quem se pode desconfiar por ser árabe e de quem se pode esperar a precisão que a história exige. Ele aparece nos momentos em que a verdade do que se conta está em risco: o achado, a gruta, o governo, o apócrifo. O fidalgo, por sua vez, fala a língua dos livros, e é com ela que se apresenta aos estranhos. Sancho é o único que a ela responde com outra: a dos refrões, que se acumulam de forma tal que o amo, no capítulo LXXI da Segunda Parte, lhe pede que não diga mais refrões e fale liso e sem enredo.
Onde aparece
- Primeira Parte, prólogo: O autor se declara padrasto de Dom Quixote e quer que o livro seja o mais belo e o mais discreto.
- Primeira Parte, capítulo II: O fidalgo fala em castelhano de livro a duas moças que não o entendem.
- Primeira Parte, capítulo VIII: O narrador interrompe o duelo com o biscainho por falta de fonte.
- Primeira Parte, capítulo IX: Aparece o caderno árabe, o mouro tradutor e o nome de Cide Hamete Benengeli.
- Primeira Parte, capítulo XXXV: O padre aceita a arte da novela que acabou de ler, mas a julga inverossímil, porque não crê que haja marido tão néscio quanto Anselmo.
- Primeira Parte, capítulo LII: O livro fecha com versos de Ariosto e deixa a continuação a outro.
- Segunda Parte, prólogo: No prólogo de 1615, Cervantes responde a Avellaneda sem o nomear, devolve a injúria de velho e maneta como credencial e promete dar dom Quixote morto e sepultado.
- Segunda Parte, capítulo III: O bacharel traz a regra do poeta e do historiador, e os erros do livro impresso.
- Segunda Parte, capítulo XXIV: Cide Hamete deixa na margem uma nota que não garante a gruta de Montesinos, pois a mede pelas outras aventuras e passa ao leitor a decisão de julgar.
- Segunda Parte, capítulo XLIV: O narrador se queixa de escrever sempre de um só assunto e, lembrando que as novelas da Primeira Parte pareciam separadas da história, só admite agora episódios nascidos dos próprios sucessos.
- Segunda Parte, capítulo LIX: Numa estalagem, dom Quixote e Sancho dão com o livro apócrifo nas mãos de dois cavalheiros.
- Segunda Parte, capítulo LXII: Numa tipografia, o fidalgo conversa com um tradutor do toscano e compara a tradução ao avesso de uma tapeçaria flamenga.
- Segunda Parte, capítulo LXXII: Dom Álvaro Tarfe declara perante o alcaide que este é o verdadeiro dom Quixote.
- Segunda Parte, capítulo LXXIV: O testamento pede perdão a Avellaneda, e a pena pendurada numa espeteira fecha o livro.
Onde as leituras divergem
Erich Auerbach vê na distância de Cervantes ao estilo uma diferença decisiva com Flaubert: um romance bom, para Cervantes, não serve a nenhum fim além do divertimento culto.
Auerbach aproxima e ao mesmo tempo separa Cervantes de Gustave Flaubert pelo que cada um pede ao próprio estilo: Flaubert busca fazer o estilo encarnar a ordem divina do real, Cervantes só pede à literatura o prazer culto de divertir.Está longinquamente aparentada com a atitude neutra pela qual Gustave Flaubert tanto se esforçou, e é, ao mesmo tempo, totalmente diferente dela: Flaubert queria modificar a realidade através do estilo, para que êle aparecesse da maneira como Deus a vê, de forma que a ordem divina [...] devesse encarnar-se no estilo do autor. Para Cervantes, um bom romance não serve a nenhum outro fim afora o divertimento culto, honesto entretenimiento.
Otto Maria Carpeaux a vê pelo lado do leitor: o Quixote conservará para sempre as suas duas classes de leitores, as crianças e os experimentados pela vida.
o Don Quijote conservará para sempre as suas duas classes de leitores: as crianças, que ainda não conhecem a vida, e os outros, duramente experimentados por ela.
As duas leituras dividem o que fazer com a pena. Para Auerbach, a pena de Cervantes não ordena nada além do prazer, e por isso a pergunta sobre a verdade do que se conta não vira juízo. Para Carpeaux, o livro se lê duas vezes, uma pela criança e outra pelo adulto, e a segunda leitura é a das ironias de narrador que a primeira não vê. O que decide entre elas é a pena na espeteira do capítulo LXXIV da Segunda Parte: se o livro serve só ao divertimento, ela não precisaria ser defendida de ninguém; se a defesa existe, é que o autor acredita que o que escreveu pode ser profanado, e isso supõe um valor além do passatempo.