Clavis Libri

Tema em Dom Quixote

Loucura

A perda ou a suspensão da razão: insanidade, obsessão, delírio, histeria, embriaguez.

O tema na obra

No romance a loucura de Dom Quixote tem uma causa dita, uma regra de funcionamento, diagnósticos que não coincidem e um fim. A causa é uma leitura, e o narrador a conta no primeiro capítulo como quem conta uma doença do cérebro. A regra é a do livro: o fidalgo não vê do nada, acomoda o que vê ao que leu, e por isso o desmentido nunca o atinge, porque há sempre um inimigo encantador à mão. Os diagnósticos são os de quem o cerca: o padre o julga curado ou recaído conforme a conversa toque ou não em cavalaria, o bacharel Sansão Carrasco distingue o louco à força do louco por escolha, o filho de dom Diego de Miranda o chama de louco entremeado de lúcidos intervalos, e Sancho Pança o tem por mentecapto e, assim mesmo, o serve. O fim é um desengano dito em testamento, mas o livro não faz da cordura final uma vitória sem custo.

No capítulo I da Primeira Parte, o narrador explica a causa sem rodeios.

En resolución, él se enfrascó tanto en su letura, que se le pasaban las noches leyendo de claro en claro, y los días de turbio en turbio; y así, del poco dormir y del mucho leer, se le secó el celebro, de manera que vino a perder el juicio, em resolução, ele se embebeu tanto na sua leitura que as noites lhe passavam lendo de claro em claro, e os dias de turvo em turvo; e assim, do pouco dormir e do muito ler, ressecou-se-lhe o cérebro, de tal sorte que chegou a perder o juízo.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

No capítulo V da Primeira Parte, caído no caminho, o fidalgo sabe quem é, e a resposta que dá ao vizinho que o reconhece mostra que sabe também que pode ser outros.

Yo sé quién soy -respondió don Quijote-; y sé que puedo ser no sólo los que he dicho, sino todos los Doce Pares de Francia, y aun todos los Nueve de la Fama, eu sei quem sou, respondeu dom Quixote; e sei que posso ser não somente os que nomeei, mas todos os Doze Pares de França e também todos os Nove da Fama.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

No capítulo XXV da Primeira Parte, na Serra Morena, a loucura vira ofício. Ele decide enlouquecer de propósito, à imitação de Amadis e de Orlando, e a regra que dá a Sancho é que a gratuidade é o mérito.

que volverse loco un caballero andante con causa, ni grado ni gracias: el toque está desatinar sin ocasión y dar a entender a mi dama que si en seco hago esto, ¿qué hiciera en mojado?, que enlouquecer um cavaleiro andante com motivo, nem mérito nem agradecimento: o toque está em desatinar sem ocasião e dar a entender à minha dama que, se faço isto a seco, o que não faria molhado?
Primeira Parte: A penitência e Micomicona

No capítulo XXVI da Primeira Parte, sozinho, ele pesa qual das duas loucuras imitar, e escolhe a melancólica por lealdade a Dulcineia: não tem a ocasião de Orlando, e uma loucura furiosa suporia a dama infiel.

Pero yo, ¿cómo puedo imitalle en las locuras, si no le imito en la ocasión dellas? [...] y haríale agravio manifiesto si, imaginando otra cosa della, me volviese loco de aquel género de locura de Roldán el furioso, mas eu, como posso imitá-lo nas loucuras, se não o imito na ocasião delas? [...] e eu lhe faria agravo manifesto se, imaginando outra coisa dela, me tornasse louco daquele gênero de loucura de Orlando, o furioso.
Primeira Parte: A penitência e Micomicona

No capítulo I da Segunda Parte, na primeira visita do padre e do barbeiro depois da jaula, a cordura do fidalgo dura enquanto a conversa não toca em cavalaria, e o padre, que combinou não tocar, é quem toca, e o vê cair do cume.

¡Dios te tenga de su mano, pobre don Quijote: que me parece que te despeñas de la alta cumbre de tu locura hasta el profundo abismo de tu simplicidad!, Deus te segure pela mão, pobre dom Quixote: parece-me que te despenhas do alto cume da tua loucura até o profundo abismo da tua tolice!
Segunda Parte: O livro impresso

No capítulo XV da Segunda Parte, o bacharel, vencido no bosque, formula a distinção que ele mesmo não consegue aplicar a si.

La diferencia que hay entre esos dos locos es que el que lo es por fuerza lo será siempre, y el que lo es de grado lo dejará de ser cuando quisiere, a diferença que há entre esses dois loucos é que o que o é à força o será sempre, e o que o é por gosto deixará de sê-lo quando lhe aprouver.
Segunda Parte: Espelhos, leões e Camacho

No capítulo XVIII da Segunda Parte, na casa de dom Diego, o filho poeta devolve ao pai o diagnóstico que fecha o capítulo.

No le sacarán del borrador de su locura cuantos médicos y buenos escribanos tiene el mundo: él es un entreverado loco, lleno de lúcidos intervalos, não o tirarão do borrão de sua loucura quantos médicos e bons escrivães tem o mundo: ele é um louco entremeado, cheio de lúcidos intervalos.
Segunda Parte: Espelhos, leões e Camacho

No capítulo XXXIII da Segunda Parte, diante da duquesa, é Sancho quem diz o que pensa do amo e o que faz com isso.

yo tengo a mi señor don Quijote por loco rematado, puesto que algunas veces dice cosas que, a mi parecer, y aun de todos aquellos que le escuchan, son tan discretas y por tan buen carril encaminadas, que el mesmo Satanás no las podría decir mejores; pero, con todo esto, verdaderamente y sin escrúpulo, a mí se me ha asentado que es un mentecato. Pues, como yo tengo esto en el magín, me atrevo a hacerle creer lo que no lleva pies ni cabeza, como fue aquello de la respuesta de la carta, y lo de habrá seis o ocho días, que aún no está en historia; conviene a saber: lo del encanto de mi señora doña Dulcinea, que le he dado a entender que está encantada, no siendo más verdad que por los cerros de Úbeda, eu tenho meu senhor dom Quixote por louco rematado, ainda que algumas vezes diga coisas que, a meu parecer, e ainda de todos aqueles que o escutam, são tão discretas e por tão bom carril encaminhadas, que o próprio Satanás não as poderia dizer melhores; mas, com tudo isso, verdadeiramente e sem escrúpulo, a mim se me assentou que é um mentecapto. Pois, como eu tenho isto no magín, atrevo-me a fazê-lo crer no que não leva pés nem cabeça, como foi aquilo da resposta da carta, e o de há seis ou oito dias, que ainda não está em história; convém saber: o do encanto de minha senhora dona Dulcineia, que lhe dei a entender que está encantada, não sendo mais verdade que pelos cerros de Úbeda.
Segunda Parte: Os duques e o Cravelenho

No capítulo LXV da Segunda Parte, quando o bacharel se revela, dom Antônio Moreno, anfitrião de Barcelona, o censura por querer tornar sensato o mais gracioso louco do mundo.

Dios os perdone el agravio que habéis hecho a todo el mundo en querer volver cuerdo al más gracioso loco que hay en él! ¿No veis, señor, que no podrá llegar el provecho que cause la cordura de don Quijote a lo que llega el gusto que da con sus desvaríos, Deus vos perdoe o agravo que haveis feito a todo o mundo em querer voltar sensato o mais gracioso louco que há nele! Não vedes, senhor, que o proveito que cause a sensatez de dom Quixote não poderá chegar ao gosto que dá com seus desvarios?
Segunda Parte: A derrota e a morte

No capítulo LXXIV da Segunda Parte, no leito de morte, o fidalgo diz que tem juízo, livre e claro, e põe a culpa na leitura.

Yo tengo juicio ya, libre y claro, sin las sombras caliginosas de la ignorancia, que sobre él me pusieron mi amarga y continua leyenda de los detestables libros de las caballerías. Ya conozco sus disparates y sus embelecos, y no me pesa sino que este desengaño ha llegado tan tarde, que no me deja tiempo para hacer alguna recompensa, leyendo otros que sean luz del alma, eu tenho juízo já, livre e claro, sem as sombras caliginosas da ignorância que sobre ele me puseram minha amarga e contínua leitura dos detestáveis livros de cavalaria. Já conheço seus disparates e seus embelecos, e não me pesa senão que este desengano tenha chegado tão tarde, que não me deixa tempo para fazer alguma recompensa, lendo outros que sejam luz da alma.
Segunda Parte: A derrota e a morte

E pede que a morte não confirme o renome que a vida lhe deu.

Yo me siento, sobrina, a punto de muerte; querría hacerla de tal modo, que diese a entender que no había sido mi vida tan mala que dejase renombre de loco, que, puesto que lo he sido, no querría confirmar esta verdad en mi muerte, eu me sinto, sobrinha, a ponto de morte; queria fazê-la de tal modo que desse a entender que minha vida não tinha sido tão má que deixasse renome de louco, que, ainda que o tenha sido, não queria confirmar essa verdade em minha morte.
Segunda Parte: A derrota e a morte

A palavra "loucura" cobre no livro duas coisas que o texto distingue sem dar nome a nenhuma. Uma é a visão: o fidalgo não escolhe ver gigantes onde há moinhos, e o desmentido de Sancho passa por ele como o vento pelas pás. A outra é a conduta que ele escolhe a frio, a penitência do capítulo XXV da Primeira Parte, em que decide enlouquecer, calcula o efeito sobre a dama e dá a Sancho três dias para ver o espetáculo. Entre as duas, a distinção do bacharel no capítulo XV da Segunda Parte (louco à força, louco por escolha) não funciona: ele é as duas coisas ao mesmo tempo, e quem o rotula fica sem saber onde pôr a fronteira. Duas leituras: o livro mostra uma loucura que se contamina de vontade e dela se serve, e é isso que a torna um caráter; ou mostra a vontade ocupando o lugar da loucura quando a loucura se cansa, e o bom Alonso Quijano do fim é o mesmo homem sem o artifício.

Quem o encarna

Dom Quixote é a loucura que o livro mais expõe: ele a justifica, a escolhe, a defende e no fim a reconhece. No capítulo XXV da Primeira Parte, a gratuidade da penitência é o que a faz meritória; no capítulo LXXIV da Segunda Parte, a lucidez final o faz pedir perdão a Sancho por tê-lo feito cair no erro de que há cavaleiros andantes, e é Sancho quem lhe pede que não morra.

no se muera vuestra merced, señor mío, sino tome mi consejo y viva muchos años, porque la mayor locura que puede hacer un hombre en esta vida es dejarse morir, sin más ni más, sin que nadie le mate, ni otras manos le acaben que las de la melancolía [...] vámonos al campo vestidos de pastores, como tenemos concertado: quizá tras de alguna mata hallaremos a la señora doña Dulcinea desencantada, que no haya más que ver, não morra vossa mercê, senhor meu, mas tome meu conselho e viva muitos anos, porque a maior loucura que pode fazer um homem nesta vida é deixar-se morrer, sem mais nem mais, sem que ninguém o mate, nem outras mãos o acabem que as da melancolia [...] vamo-nos ao campo vestidos de pastores, como temos concertado: talvez atrás de alguma moita acharemos a senhora dona Dulcineia desencantada, que não haja mais que ver.
Segunda Parte: A derrota e a morte

Cardênio é o outro louco da Serra Morena, e a sua é uma loucura de amor desiludido, com acessos. No capítulo XXIV da Primeira Parte, o fidalgo lhe oferece ajuda, mas interrompe a história quando ouve falar de Amadis, e quando Cardênio, no acesso, diz que a rainha Madásima vivia amancebada com o mestre Elisabat, o fidalgo defende a rainha com tamanha cólera que o narrador comenta o caso.

¡Estraño caso; que así volvió por ella como si verdaderamente fuera su verdadera y natural señora: tal le tenían sus descomulgados libros!, estranho caso, que assim voltou por ela como se verdadeiramente fosse sua verdadeira e natural senhora: tal o tinham seus excomungados livros!
Primeira Parte: Os galeotes e a serra

Sansão Carrasco é o louco por escolha que o livro desmascara. No capítulo LXV da Segunda Parte, ele conta a dom Antônio Moreno que o plano de trazer o fidalgo à aldeia nasceu da lástima.

Sabed, señor, que a mí me llaman el bachiller Sansón Carrasco; soy del mesmo lugar de don Quijote de la Mancha, cuya locura y sandez mueve a que le tengamos lástima todos cuantos le conocemos, y entre los que más se la han tenido he sido yo; y, creyendo que está su salud en su reposo y en que se esté en su tierra y en su casa, di traza para hacerle estar en ella, sabei, senhor, que a mim me chamam o bacharel Sansão Carrasco; sou do mesmo lugar de dom Quixote de la Mancha, cuja loucura e sandice move a que lhe tenhamos lástima todos quantos o conhecem, e entre os que mais lha tiveram fui eu; e, crendo que sua saúde está em seu repouso e em que se esteja em sua terra e em sua casa, dei traça para fazê-lo estar nela.
Segunda Parte: A derrota e a morte

E no capítulo LXXIV da Segunda Parte, é ele quem põe na sepultura um epitáfio que fecha com a fórmula de morrer sensato e viver louco.

Yace aquí el Hidalgo fuerte / que a tanto estremo llegó / de valiente, que se advierte / que la muerte no triunfó / de su vida con su muerte. / Tuvo a todo el mundo en poco; / fue el espantajo y el coco / del mundo, en tal coyuntura, / que acreditó su ventura / morir cuerdo y vivir loco, jaz aqui o Fidalgo forte / que a tão extremo chegou / de valente, que se adverte / que a morte não triunfou / de sua vida com sua morte. / Teve em pouco o mundo todo; / foi o espantalho e o papão / do mundo, em tal conjuntura, / que acreditou sua ventura / morrer sensato e viver louco.
Segunda Parte: A derrota e a morte

Onde aparece

Onde as leituras divergem

A loucura do fidalgo é lida de duas maneiras que o livro não decide. Uma é a romântica, que vê nela a grandeza de quem é derrotado pelo mundo por ser melhor que ele. Erich Auerbach a refuta: lê a Dulcineia do Toboso como brincadeira cômica e chama de ato de violência considerar essa loucura simbólica ou tragicamente.

No fim do ensaio, Auerbach estende à loucura de Dom Quixote inteira o veredicto que dera à cena da Dulcineia encantada. Mas considerar esta loucura simbólica ou tràgicamente, isto eu acho um ato de violêncja. É possível introduzi-lo através da interpretação, mas não está no texto.
Auerbach, Mimesis

Otto Maria Carpeaux observa que a importância universal do livro se deve em parte a um equívoco.

O Don Quijote é a obra de importância universal, embora devendo em parte essa importância, como acontece tantas vezes, a um equívoco.
Carpeaux, História da Literatura Ocidental

Outra leitura vê o livro mudar de temperatura como uma sinfonia: começa profundamente irônico e vai ficando cada vez mais amargo até um final tristíssimo, e a loucura acompanha essa passagem.

As duas leituras discordam sobre o que fazer com o fim. Quem lê o capítulo LXXIV da Segunda Parte como a verdade do livro, a cordura que desfaz a loucura, precisa passar por cima de Sancho, que não quer que o amo morra e o chama a voltar ao campo de pastor, e da frase do fidalgo de que não quer confirmar em sua morte o renome de louco. Quem lê o fim como a derrota de um grande, precisa passar por cima do desengano que o fidalgo diz ter chegado tarde. O que fica de pé é a reação dos três amigos: creem a princípio que é uma nova loucura, e só passam a acreditar quando as razões do fidalgo se mostram tão bem ditas e tão cristãs que lhes tiram a dúvida, e uma das razões que têm para crer que ele morre é a facilidade com que voltou de louco a sensato.