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Personagem

Ájax

Quem é

Ájax, filho de Télamon, de Salamina, é o melhor dos aqueus em combate enquanto Aquiles está irado: o poema o diz com essas palavras ao fim do Catálogo das Naus. Carrega um escudo de sete peles de boi e uma oitava lâmina de bronze, que lhe parece uma torre, e é a muralha de carne que os aqueus põem diante de Heitor. Não confundir com o outro Ájax, filho de Oileu, que combate a seu lado, chefe dos lócrios, e que na corrida dos jogos escorrega no esterco. O Telamônio aparece como o homem que fica onde é preciso: nas torres, junto às naus, sobre os conveses, em volta do corpo de Pátroclo.

Trajetória

No Canto I, Ájax é um dos três a quem Agamêmnon ameaça tomar o prêmio. No Canto II, ao fim do Catálogo, o poeta diz que entre os homens de longe o melhor era Ájax Telamônio, enquanto Aquiles estava irado, pois este era muito o mais forte, e que Aquiles jazia junto às naus.

ἀνδρῶν αὖ μέγʼ ἄριστος ἔην Τελαμώνιος Αἴας / ὄφρʼ Ἀχιλεὺς μήνιεν· ὃ γὰρ πολὺ φέρτατος ἦεν, / ἵπποι θʼ οἳ φορέεσκον ἀμύμονα Πηλεΐωνα. / ἀλλʼ ὃ μὲν ἐν νήεσσι κορωνίσι ποντοπόροισι / κεῖτʼ ἀπομηνίσας Ἀγαμέμνονι ποιμένι λαῶν (2.768-772), entre os homens, de longe o melhor era Ájax Telamônio, enquanto Aquiles estava irado, pois este era muito o mais forte, assim como os cavalos que levavam o irrepreensível filho de Peleu; mas ele jazia junto às naus de proas curvas, que cruzam o mar, irado com Agamêmnon, pastor de povos.
Canto II: O sonho e o catálogo das naus

No Canto III, Helena o identifica a Príamo. No Canto IV, avança com o outro Ájax e uma nuvem de infantaria, e Agamêmnon, ao revistar as tropas, diz que nada tem a pedir a eles. Ájax mata o jovem Simoísio, que caiu como um choupo. No Canto V, mata Ânfio, e no Canto VI rompe primeiro a falange troiana e mata Acamante, o melhor dos trácios.

No Canto VII, Heitor desafia o melhor dos aqueus. Ájax é sorteado, a ficha que todos queriam, e a reconhece e se alegra. Pede que os outros rezem a Zeus, em silêncio ou às claras, enquanto veste as armas, porque ninguém o vencerá pela força ou pela arte e ele não nasceu nem se criou em Salamina como ignorante. Avança sorrindo, como Ares, e diz a Heitor que verá agora que há campeões entre os dânaos depois de Aquiles, que jaz junto às naus. Heitor responde com a regra de não ferir às escondidas.

ἀλλʼ ὃ μὲν ἐν νήεσσι κορωνίσι ποντοπόροισι / κεῖτʼ ἀπομηνίσας Ἀγαμέμνονι ποιμένι λαῶν· / ἡμεῖς δʼ εἰμὲν τοῖοι οἳ ἂν σέθεν ἀντιάσαιμεν / καὶ πολέες· ἀλλʼ ἄρχε μάχης ἠδὲ πτολέμοιο. (7.229-232), mas aquele jaz junto às naus de proas curvas que cruzam o mar, irado contra Agamêmnon, pastor de povos; e nós somos tais que podemos enfrentar-te, e somos muitos. Vamos, começa o combate e a guerra.
Canto VII: O duelo de Heitor e Ájax

Troca lanças com Heitor, fere-lhe o pescoço e derruba-o com uma pedra maior, mas Apolo o levanta. Os arautos interpõem os cetros, Ájax diz que Heitor, que desafiou, deve ser o primeiro a parar, e obedece à noite. Recebe do troiano uma espada de pregos de prata e dá em troca um cinto de púrpura. Agamêmnon o honra com as costelas inteiras do lombo.

No Canto IX, é o único a dizer à embaixada o que ela já sabe: que esse caminho não cumprirá a missão. Fala a Aquiles em poucas palavras, que os deuses lhe puseram um ânimo implacável por uma só jovem, quando agora lhe oferecem sete, e pede que respeite o teto sob o qual os visitantes estão. Aquiles responde que tudo lhe parece falado segundo o seu ânimo, mas que o coração se incha de ira.

σοὶ δʼ ἄληκτόν τε κακόν τε / θυμὸν ἐνὶ στήθεσσι θεοὶ θέσαν εἵνεκα κούρης / οἴης (9.636-638), mas a ti os deuses puseram no peito um ânimo implacável e mau por causa de uma só jovem.
Canto IX: A embaixada a Aquiles

No Canto X, Ájax se oferece entre os que querem ir com Diomedes. No Canto XI, Zeus lhe põe medo no peito: o grande Ájax recua devagar, de má vontade, como um leão expulso do curral e um burro que as crianças não tiram do campo, temendo pelas naus.

Ζεὺς δὲ πατὴρ Αἴανθʼ ὑψίζυγος ἐν φόβον ὦρσε· / στῆ δὲ ταφών, ὄπιθεν δὲ σάκος βάλεν ἑπταβόειον, / τρέσσε δὲ παπτήνας ἐφʼ ὁμίλου θηρὶ ἐοικὼς / ἐντροπαλιζόμενος ὀλίγον γόνυ γουνὸς ἀμείβων. (11.544-547), mas o pai Zeus, que habita no alto, lançou o medo em Ájax: ele parou atônito, lançou às costas o escudo de sete peles e recuou, olhando a multidão como uma fera, voltando-se a cada passo e trocando devagar um joelho pelo outro.
Canto XI: A aristeia de Agamêmnon

No Canto XII, os dois Ájax percorrem as torres animando os homens, e Menesteu manda chamar o Telamônio à sua torre quando os lícios sobem aos parapeitos. Ájax abate Epicles com um bloco de pedra, e Teucro fere Glauco. Sarpédon abre brecha no parapeito, e Ájax e Teucro o miram juntos, mas Zeus afasta as Queres do filho. No Canto XIII, os dois Ájax formam falanges cerradas, escudo contra escudo, que nem Ares nem Atena teriam desprezado, e Heitor, que vinha como rocha, para diante delas. Ájax avança a passos largos e desafia Heitor: o açoite de Zeus os dominou, mas as mãos deles estão prontas para defender as naus. Heitor responde que gostaria de ser filho de Zeus e de Hera.

No Canto XIV, Heitor atira primeiro e acerta o ponto em que se cruzam os talabartes, que protegem Ájax. Ájax pega uma das pedras que calçam as naus, acerta Heitor no peito, acima da borda do escudo, e o faz girar como um pião. Vê Protoenor cair ao seu lado e arremessa a lança contra Polidamante, que se esquiva, e mata Arquéloco, filho de Antenor.

τὸν μὲν ἔπειτʼ ἀπιόντα μέγας Τελαμώνιος Αἴας / χερμαδίῳ, τά ῥα πολλὰ θοάων ἔχματα νηῶν / πὰρ ποσὶ μαρναμένων ἐκυλίνδετο, τῶν ἓν ἀείρας / στῆθος βεβλήκει ὑπὲρ ἄντυγος ἀγχόθι δειρῆς, / στρόμβον δʼ ὣς ἔσσευε βαλών, περὶ δʼ ἔδραμε πάντῃ. (14.409-413), então, quando ele se afastava, o grande Ájax Telamônio, com uma pedra, das muitas que rolavam aos pés dos combatentes, calços das naus velozes, levantou uma e o acertou no peito, acima da borda do escudo, perto do pescoço, e o fez girar como um pião ao atirá-la, e ele rodou por todos os lados.
Canto XIV: O engano de Zeus

No Canto XV, Ájax não aceita ficar onde os outros ficam: sobe aos conveses com uma vara naval de vinte e dois côvados e passa de nau em nau, como um cavaleiro que salta entre quatro cavalos. Mata Calétor, que levava fogo, e manda Teucro largar o arco quebrado e pegar lança e escudo. Grita aos aqueus que tenham vergonha, e que não há cidade atrás deles nem muralha, só a mão. Doze troianos jazem diante das naus.

ὣς Αἴας ἐπὶ πολλὰ θοάων ἴκρια νηῶν / φοίτα μακρὰ βιβάς, φωνὴ δέ οἱ αἰθέρʼ ἵκανεν, (15.685-686), assim Ájax ia e vinha, a largos passos, por sobre os muitos conveses das naus velozes, e a sua voz chegava ao éter,
Canto XV: Os troianos nas naus

No Canto XVI, cede sob os dardos e a vontade de Zeus: Heitor corta a haste da lança dele, e Ájax reconhece a obra de um deus, que quer a vitória dos troianos.

No Canto XVII, Menelau vai chamá-lo, e Ájax chega com o escudo como uma torre e faz Heitor recuar. Ájax se põe sobre o corpo de Pátroclo como um leão sobre os filhotes. Quando Zeus cobre a luta de névoa, reza a Zeus: dissipe o céu e dê luz, e na luz mate-os, já que assim lhe agrada. Zeus se compadece e dissipa a névoa. Os dois Ájax cobrem a retirada do corpo como um promontório que detém as águas de um rio.

Ζεῦ πάτερ ἀλλὰ σὺ ῥῦσαι ὑπʼ ἠέρος υἷας Ἀχαιῶν, / ποίησον δʼ αἴθρην, δὸς δʼ ὀφθαλμοῖσιν ἰδέσθαι· / ἐν δὲ φάει καὶ ὄλεσσον, ἐπεί νύ τοι εὔαδεν οὕτως. (17.645-647), pai Zeus, livra da névoa os filhos dos aqueus, faze o céu claro e dá aos nossos olhos poder de ver; e na luz mata-nos, já que assim te agrada.
Canto XVII: A luta pelo corpo de Pátroclo
Αἴαντʼ ἰσχανέτην, ὥς τε πρὼν ἰσχάνει ὕδωρ / ὑλήεις πεδίοιο διαπρύσιον τετυχηκώς, / ὅς τε καὶ ἰφθίμων ποταμῶν ἀλεγεινὰ ῥέεθρα / ἴσχει, ἄφαρ δέ τε πᾶσι ῥόον πεδίον δὲ τίθησι / πλάζων· οὐδέ τί μιν σθένεϊ ῥηγνῦσι ῥέοντες· (17.747-751), os dois Ájax detinham o ataque, como um promontório coberto de mata, estendido ao longo da planície, detém a água e contém o curso penoso até de rios poderosos, desviando de pronto todas as correntes para a planície, sem que as águas, com sua força, o rompam.
Canto XVII: A luta pelo corpo de Pátroclo

No Canto XVIII, três vezes os dois Ájax repelem Heitor, que agarra o corpo de Pátroclo pelos pés.

No Canto XXIII, nos jogos de Pátroclo, Ájax luta com Odisseu: agarram-se como duas vigas de telhado e nenhum derruba o outro, e Aquiles declara os dois vencedores. No combate de armas, enfrenta Diomedes: Ájax fura o escudo sem alcançar a carne, Diomedes mira o pescoço de Ájax por cima do escudo, e os aqueus, com medo por Ájax, mandam parar.

μηκέτʼ ἐρείδεσθον, μὴ δὲ τρίβεσθε κακοῖσι· / νίκη δʼ ἀμφοτέροισιν· ἀέθλια δʼ ἶσʼ ἀνελόντες / ἔρχεσθʼ, ὄφρα καὶ ἄλλοι ἀεθλεύωσιν Ἀχαιοί. (23.735-737), não vos esforceis mais, nem vos desgasteis com sofrimentos: a vitória é de ambos; levai prêmios iguais, para que também os outros aqueus compitam.
Canto XXIII: Os jogos fúnebres

Temas que encarna

Ájax encarna a Guerra como firmeza: a muralha, a torre, o dique, o homem que fica. Encarna a Honra e reputação na regra do duelo, em que ele exige que Heitor pare primeiro porque foi quem desafiou, e no pedido de luz a Zeus, preferindo morrer à vista a morrer na névoa. E o Destino e livre-arbítrio aparece nas vezes em que ele reconhece que a vontade de um deus o supera, no Canto XI e no Canto XVI.

O Telamônio é o guerreiro do poema que mais se mede por quem não está: o melhor, enquanto Aquiles se irava; o que primeiro diz à embaixada que ela não cumprirá a missão; o que responde a Heitor que há campeões depois de Aquiles. Quando Zeus lhe põe medo, o poema não o chama de covarde: mostra o recuo de má vontade e a imagem da teimosia. No Canto XVII, o pedido de luz mostra o mesmo homem sem pedir vitória nem vida, só visão.

Relações

  • Heitor: o adversário do duelo do Canto VII, que ele derruba com uma pedra no Canto XIV e repele em volta do corpo de Pátroclo.
  • Aquiles: o único a superá-lo, que ele invoca ao desafiar Heitor e a quem fala na embaixada.
  • Odisseu: o companheiro da embaixada e o rival da luta nos jogos.
  • Menelau: o aliado que o chama para guardar o corpo de Pátroclo.
  • Diomedes: o rival do combate de armas.
  • Zeus: o deus que lhe põe medo e a quem ele pede luz.
  • Agamêmnon: o rei que o honra com o lombo no Canto VII.
  • Teucro: o irmão arqueiro que atira abrigado sob o escudo dele.
  • O outro Ájax, filho de Oileu: o companheiro que corre a seu lado nas torres e nos conveses.