Quem é
Apolo é o deus do arco, filho de Leto, que o poema coloca do lado dos troianos desde o primeiro canto e não abandona até o último. A peste que abre a ação é obra dele, atendendo à prece de um sacerdote, e é ele quem, no fim, acusa os outros deuses de preferir Aquiles a Heitor. Entre uma coisa e outra, age sempre de perto e sem fazer ruído: levanta um herói caído, esconde outro numa névoa, empurra um escudo, desarma um homem com a mão aberta. Seu limite é o de Zeus: não é ele quem decide o destino de Heitor, e o deixa quando a balança desce. Apolo diz dos homens que são como folhas, e protege a muralha deles.
Trajetória
No Canto I, o sacerdote Crises, expulso por Agamêmnon, pede a Apolo que os dânaos paguem as lágrimas dele com as flechas do deus. Apolo desce do Olimpo com o arco, semelhante à noite, e espalha a peste pelo acampamento durante nove dias. Quando Criseida volta ao pai, Crises pede que o deus afaste a peste, e ele o atende.
τίσειαν Δαναοὶ ἐμὰ δάκρυα σοῖσι βέλεσσιν.(1.42), que os dânaos paguem as minhas lágrimas com as tuas flechas.
ὃ δʼ ἤϊε νυκτὶ ἐοικώς.(1.47), e ele vinha semelhante à noite.
No Canto IV, Pândaro reza a Apolo antes de atirar em Menelau. Mais tarde, do alto de Pérgamo, o deus grita aos troianos que resistam: a carne dos aqueus não é de pedra nem de ferro, e Aquiles não combate, rumina a cólera junto às naus.
οὐδʼ Ἀχιλεὺς Θέτιδος πάϊς ἠϋκόμοιο / μάρναται, ἀλλʼ ἐπὶ νηυσὶ χόλον θυμαλγέα πέσσει.(4.512-513), tampouco Aquiles, filho de Tétis de belos cabelos, combate, mas junto às naus rumina a cólera que lhe dói no ânimo.
No Canto V, Apolo toma Eneias numa nuvem escura quando Afrodite larga o filho, e Diomedes avança quatro vezes contra ele. Três vezes Apolo empurra o escudo brilhante. Na quarta, diz que o filho de Tideu considere e recue, e não queira pensar igual aos deuses, pois nunca é semelhante a raça dos imortais e a dos homens que andam sobre a terra. Diomedes recua. Apolo põe Eneias em Pérgamo sagrada, onde Leto e Ártemis o curam, e faz um simulacro idêntico a ele, em torno do qual troianos e aqueus lutam. Pede a Ares que tire da luta esse homem que lutaria até com Zeus.
φράζεο Τυδεΐδη καὶ χάζεο, μηδὲ θεοῖσιν / ἶσʼ ἔθελε φρονέειν, ἐπεὶ οὔ ποτε φῦλον ὁμοῖον / ἀθανάτων τε θεῶν χαμαὶ ἐρχομένων τʼ ἀνθρώπων.(5.440-442), Considera, filho de Tideu, e recua, e não queiras pensar igual aos deuses, pois nunca é semelhante a raça dos deuses imortais e a dos homens que andam sobre a terra.
No Canto VII, Apolo e Atena combinam deter a guerra por um dia e armam o duelo de Heitor, e pousam em forma de abutres no carvalho de Zeus. Quando Ájax derruba Heitor com uma pedra, Apolo o põe de pé em seguida.
βλάψε δέ οἱ φίλα γούναθʼ· ὃ δʼ ὕπτιος ἐξετανύσθη / ἀσπίδι ἐγχριμφθείς· τὸν δʼ αἶψʼ ὤρθωσεν Ἀπόλλων.(7.271-272), e feriu-lhe os joelhos queridos; ele caiu de costas, estendido, preso contra o escudo; mas logo Apolo o pôs de pé.
No Canto X, ao ver Atena ao lado de Diomedes no acampamento trácio, irrita-se, entra entre os troianos e desperta Hipocoonte, primo de Reso. No Canto XII, o narrador diz que, depois da guerra, Poseidon e Apolo decidem arrasar o muro dos aqueus: Apolo vira contra ele a boca dos rios do Ida.
No Canto XV, Zeus manda Apolo atrás de Heitor: tomar a égide franjada, sacudi-la contra os aqueus, cuidar de Heitor e despertar-lhe força até que os fugidos cheguem às naus. Apolo desce como um falcão e encontra Heitor sentado, voltando a si. Diz que Zeus o envia como protetor, Febo da espada de ouro, que sempre guardou Heitor e a cidade. Quando sacode a égide diante dos dânaos e dá um grande grito, eles esquecem a força e fogem. À frente dos troianos, derruba o muro dos aqueus com toda facilidade, como uma criança desfaz os brinquedos de areia que fez na praia.
ἔρειπε δὲ τεῖχος Ἀχαιῶν / ῥεῖα μάλʼ, ὡς ὅτε τις ψάμαθον πάϊς ἄγχι θαλάσσης, / ὅς τʼ ἐπεὶ οὖν ποιήσῃ ἀθύρματα νηπιέῃσιν / ἂψ αὖτις συνέχευε ποσὶν καὶ χερσὶν ἀθύρων.(15.361-364), e derrubava o muro dos aqueus com toda facilidade, como quando uma criança, junto ao mar, depois de fazer brinquedos de areia na sua puerilidade, volta a desmanchá-los com os pés e as mãos, brincando.
No Canto XVI, Apolo é o deus que Pátroclo não vê. Três vezes Pátroclo sobe no ângulo do muro de Troia, e três vezes Apolo o empurra. Na quarta, o deus lhe diz que o destino não quer que Troia caia pela lança dele nem pela de Aquiles, e Pátroclo recua. Apolo, na figura de Ásio, tio de Heitor, incita-o a ir contra Pátroclo. Na quarta investida de Pátroclo contra os troianos, o deus, coberto de névoa, bate-lhe nas costas com a mão aberta; os olhos de Pátroclo giram, o elmo cai, a lança se parte, o escudo desce ao chão, e o deus solta a couraça. Antes, Apolo estancara o sangue de Glauco, ferido por Teucro.
τρὶς μὲν ἐπʼ ἀγκῶνος βῆ τείχεος ὑψηλοῖο / Πάτροκλος, τρὶς δʼ αὐτὸν ἀπεστυφέλιξεν Ἀπόλλων / χείρεσσʼ ἀθανάτῃσι φαεινὴν ἀσπίδα νύσσων. / ἀλλʼ ὅτε δὴ τὸ τέταρτον ἐπέσσυτο δαίμονι ἶσος, / δεινὰ δʼ ὁμοκλήσας ἔπεα πτερόεντα προσηύδα· / χάζεο διογενὲς Πατρόκλεες· οὔ νύ τοι αἶσα / σῷ ὑπὸ δουρὶ πόλιν πέρθαι Τρώων ἀγερώχων, / οὐδʼ ὑπʼ Ἀχιλλῆος, ὅς περ σέο πολλὸν ἀμείνων.(16.702-709), três vezes Pátroclo subiu no ângulo da alta muralha, e três vezes Apolo o empurrou para trás, golpeando o escudo luzente com as mãos imortais. Mas quando, pela quarta vez, ele se lançou semelhante a um deus, o deus lhe dirigiu, com um grito terrível, palavras aladas: "recua, Pátroclo de linhagem divina! O destino não quer que a cidade dos altivos troianos seja destruída pela tua lança, nem pela de Aquiles, que é muito melhor que tu."
στῆ δʼ ὄπιθεν, πλῆξεν δὲ μετάφρενον εὐρέε τʼ ὤμω / χειρὶ καταπρηνεῖ, στρεφεδίνηθεν δέ οἱ ὄσσε. / τοῦ δʼ ἀπὸ μὲν κρατὸς κυνέην βάλε Φοῖβος Ἀπόλλων·(16.791-793), pôs-se atrás dele e golpeou-lhe as costas e os largos ombros com a mão aberta, e seus olhos giraram. E da cabeça dele Febo Apolo derrubou o elmo;
πάρος γε μὲν οὐ θέμις ἦεν / ἱππόκομον πήληκα μιαίνεσθαι κονίῃσιν, / ἀλλʼ ἀνδρὸς θείοιο κάρη χαρίεν τε μέτωπον / ῥύετʼ Ἀχιλλῆος· τότε δὲ Ζεὺς Ἕκτορι δῶκεν / ᾗ κεφαλῇ φορέειν, σχεδόθεν δέ οἱ ἦεν ὄλεθρος.(16.796-800), antes não era permitido que o elmo de crina de cavalo se sujasse de poeira; ele protegia a cabeça e a fronte graciosa do homem divino, Aquiles. Naquele momento, porém, Zeus o deu a Heitor para levar na cabeça, e a ruína lhe estava próxima.
No Canto XVII, Apolo, na figura de Mentes, chefe dos cícones, incita Heitor a ir ao corpo de Pátroclo, e depois na de Fenops repreende-o por temer o homem que antes era frouxo. No Canto XVIII, Tétis diz a Hefesto que Apolo matou Pátroclo na primeira fila e deu glória a Heitor.
No Canto XX, Apolo toma a figura de Licáone para instigar Eneias a enfrentar Aquiles. Aproxima-se de Heitor e lhe diz que não se lance à frente contra Aquiles, e Heitor, assustado, recua. Quando Heitor vê Polidoro ferido e avança contra Aquiles, e Aquiles se lança sobre ele, Apolo o arrebata e o esconde numa névoa espessa, e Aquiles golpeia três vezes o ar.
Ἕκτορ μηκέτι πάμπαν Ἀχιλλῆϊ προμάχιζε, / ἀλλὰ κατὰ πληθύν τε καὶ ἐκ φλοίσβοιο δέδεξο, / μή πώς σʼ ἠὲ βάλῃ ἠὲ σχεδὸν ἄορι τύψῃ.(20.376-378), Heitor, não te lances mais, de modo algum, à frente de todos contra Aquiles; recebe-o antes no meio da multidão, fora do estrondo, para que ele não te acerte nem te fira de perto com a espada.
No Canto XXI, Aquiles lembra que a mãe lhe disse que ele pereceria pelas flechas de Apolo. Na briga dos deuses, Poseidon desafia Apolo e lhe lembra o ano em que ambos serviram a Laomedonte. Apolo recusa lutar por causa de mortais, que são como folhas, e se afasta. Em seguida entra em Ílio, porque se preocupa com a muralha, e incita Agenor: põe-lhe coragem no peito, fica junto dele envolto em névoa, arrebata-o antes que Aquiles o mate e toma a forma dele para atrair Aquiles pelo campo de trigo até o Escamandro.
δειλῶν, οἳ φύλλοισιν ἐοικότες ἄλλοτε μέν τε / ζαφλεγέες τελέθουσιν ἀρούρης καρπὸν ἔδοντες, / ἄλλοτε δὲ φθινύθουσιν ἀκήριοι.(21.464-466), mortais miseráveis, que, semelhantes às folhas, ora ardem em pleno vigor, comendo o fruto da terra, ora murcham sem vida.
No Canto XXII, Apolo se revela a Aquiles, que o acusa de tê-lo enganado e de ter roubado sua glória: um mortal persegue um imortal. Na corrida de Heitor em torno da cidade, dá-lhe força nos joelhos pela última vez e o deixa quando a balança de Zeus desce. Heitor, moribundo, diz a Aquiles que Páris e Apolo o destruirão às Portas Ceias.
No Canto XXIII, derruba o chicote de Diomedes na corrida de carros, e cobre o corpo de Heitor com uma nuvem escura, para que o sol não resseque a pele.
τὸν δʼ οὐ κύνες ἀμφεπένοντο, / ἀλλὰ κύνας μὲν ἄλαλκε Διὸς θυγάτηρ Ἀφροδίτη / ἤματα καὶ νύκτας, ῥοδόεντι δὲ χρῖεν ἐλαίῳ / ἀμβροσίῳ, ἵνα μή μιν ἀποδρύφοι ἑλκυστάζων.(23.184-187), mas os cães não o rondaram; afastou os cães a filha de Zeus, Afrodite, de dia e de noite, e o ungiu com óleo de rosas, ambrosíaco, para que o arrastar não o esfolasse.
No Canto XXIV, Apolo guarda o corpo de toda desfiguração e o cobre com a égide de ouro. Na décima segunda manhã, acusa os deuses diante de todos: Heitor lhes queimou coxas de bois e de cabras, e eles não ousam sequer salvá-lo, e preferem amparar Aquiles, que perdeu a piedade e o pudor reverente.
ὣς Ἀχιλεὺς ἔλεον μὲν ἀπώλεσεν, οὐδέ οἱ αἰδὼς / γίγνεται, ἥ τʼ ἄνδρας μέγα σίνεται ἠδʼ ὀνίνησι.(24.44-45), assim Aquiles perdeu a piedade, e nele não nasce o pudor reverente, que muito prejudica os homens e muito os beneficia.
Temas que encarna
Apolo encarna a Morte que vem de longe, do arco do deus, pela peste e pelo golpe de uma mão aberta. Encarna o Destino e livre-arbítrio nos limites: avisa que a raça dos deuses não é igual à dos homens, protege Heitor e o abandona quando a balança desce. E encarna a Compaixão e caridade no último canto, quando reclama por Heitor, e a Honra e reputação na cobrança de que quem honrou os deuses com sacrifícios merece cuidado.
Apolo diz que os homens são como folhas, que florescem e murcham, e no entanto protege Eneias, Agenor, Heitor e o muro de Troia. O desprezo dito e o cuidado feito não coincidem, e o poema não escolhe entre os dois. A mesma mão que mata Pátroclo por trás, sem que ele a veja, cobre de égide o corpo de Heitor. E quem acusa Aquiles de ter perdido a piedade, no Canto XXIV, é o mesmo deus que, no Canto I, começou a história com uma peste enviada em nome de um pai desonrado.
Relações
- Heitor: o homem que ele levanta, esconde, protege e, quando a balança desce, abandona.
- Aquiles: o herói a quem engana no Canto XXI, que Heitor diz que ele e Páris destruirão.
- Pátroclo: o homem que repele e desarma por trás.
- Diomedes: o mortal a quem avisa no Canto V.
- Atena: a deusa com quem combina a pausa do Canto VII e que o contraria no Canto XXIII.
- Zeus: o deus que lhe dá a égide e a tarefa de cuidar de Heitor.
- Agamêmnon: o rei que desonrou o sacerdote cuja prece o deus atende.
- Hera: a deusa que lhe responde, no Canto XXIV, que Heitor e Aquiles não podem ter honra igual.
- Eneias, Agenor e Heitor: os troianos que ele cobre de névoa.
- Poseidon: o tio com quem trabalhou para Laomedonte.