O tema na obra
O poema anuncia o seu assunto no Canto I, e o assunto não é a guerra de Troia: é a ira de Aquiles e o que ela custou aos próprios companheiros. A guerra já dura nove anos quando o canto começa, e o poema a mostra de dentro, como coisa que os homens tentam fechar e que volta sempre a se abrir.
No Canto III, os exércitos param para que Páris e Menelau decidam tudo num duelo por Helena, e Afrodite arranca Páris do combate quando Menelau o tinha preso pelo elmo. No Canto IV, Zeus e Hera trocam cidades como moeda, Atena leva Pândaro a atirar em Menelau, e a trégua jurada se rompe. No Canto VII, o duelo de Heitor e Ájax acaba sem vencedor, porque a noite chega, e a trégua dos mortos serve para os aqueus erguerem a muralha.
A guerra dos homens é feita também por dentro da vontade dos deuses. No Canto V, Diomedes fere Afrodite e Ares com a licença de Atena, e a guerra entra na casa de Zeus. No Canto VIII, Zeus proíbe os outros deuses de ajudar qualquer lado e pesa, ao meio-dia, as sortes de morte dos dois exércitos. No Canto XII, os troianos rompem a muralha; no Canto XIII e no Canto XV, chegam às naus, e Poseidon contraria Zeus às escondidas. No Canto XIV, Hera adormece Zeus, e a luta vira por um tempo. No Canto XVI e no Canto XVII, a guerra se concentra em um homem e depois em um cadáver.
A noite mostra o que a guerra deixa fazer. No Canto X, Diomedes e Odisseu saem a espiar os troianos, matam Dolão no meio da súplica e matam os trácios que dormem, e o narrador conta tudo sem comentário. No Canto VI, a guerra aparece pelo outro lado: Heitor volta à cidade, Andrômaca lhe diz que o ímpeto o perderá, e ele responde que sabe que Troia vai cair e que mesmo assim volta ao combate.
No Canto XX, os deuses descem ao campo mas se sentam à parte, e só intervêm para salvar alguém. No Canto XXI, Aquiles enche o rio de mortos, o rio se revolta e os deuses brigam entre si, enquanto Zeus ri. No Canto XXIV, o poema se fecha sem a queda de Troia: Aquiles concede onze dias de trégua para que Heitor seja chorado e queimado, e o último verso é o funeral.
A guerra da Ilíada é um sistema em que cada agente tem motivo próprio e ninguém controla o conjunto. Zeus quer honrar Aquiles à custa dos gregos, Hera quer a ruína de Troia, Atena executa, Pândaro age por glória e por presentes, e cada tentativa de fechar a guerra, o duelo do Canto III, a proposta de Antenor de devolver Helena no Canto VII, a trégua dos mortos, esbarra em alguém que a reabre ou a recusa: Afrodite, Pândaro, Páris, Diomedes. Quem a vê de dentro não a celebra: o narrador diz do Canto IV que muitos troianos e aqueus jaziam de bruços na poeira, uns ao lado dos outros, e o poema termina com o rito de um morto, e não com a vitória de um vivo. A leitura contrária também se sustenta: nos cantos finais Aquiles já não poupa ninguém, e a trégua de onze dias que fecha o poema tem prazo marcado, de modo que o funeral é uma pausa, e não um fim.
Onde aparece
- Canto I: A ira de Aquiles, anunciada no proêmio, nasce de uma briga entre chefes, e o preço da reparação que ele pede é a vida dos próprios companheiros.
- Canto III: Troianos e aqueus param os exércitos para que Páris e Menelau decidam a guerra num duelo por Helena, mas Afrodite arranca Páris do combate e o acordo fica sem efeito.
- Canto IV: Zeus e Hera trocam cidades como moeda, Atena leva Pândaro a atirar em Menelau, e a trégua jurada se rompe com Éris crescendo entre os dois exércitos.
- Canto V: Diomedes, com a força que Atena lhe dá, fere Afrodite e depois Ares, e a guerra dos homens entra pela primeira vez na casa dos deuses.
- Canto VII: O duelo de Heitor e Ájax termina sem vencedor quando a noite chega, e a trégua que se segue serve para queimar os mortos e erguer a muralha.
- Canto VIII: Zeus proíbe os outros deuses de ajudar qualquer lado e, ao meio-dia, pesa as sortes de morte dos dois exércitos, e o prato dos aqueus desce.
- Canto X: Numa noite sem combate, Diomedes e Odisseu matam o espião Dolão e os trácios que dormem, e a guerra mostra o que a escuridão deixa fazer.
- Canto XII: Heitor arromba o portão da muralha dos aqueus com uma pedra que Zeus torna leve, e os troianos entram no acampamento que os gregos ergueram sem hecatombes.
- Canto XIV: Hera adormece Zeus com o cinto de Afrodite, e Poseidon vira a luta a favor dos aqueus durante o tempo em que o deus dorme.
- Canto XVI: Pátroclo veste as armas de Aquiles, afasta o fogo das naus e leva os troianos até o muro de Troia, até Apolo e Heitor o matarem.
- Canto XVII: Menelau, os dois Ájax e Heitor lutam por um cadáver, o de Pátroclo, que uns querem salvar e outros querem entregar aos cães de Troia.
- Canto XX: Os deuses descem ao campo, mas se sentam à parte, e só intervêm para salvar Eneias e Heitor das mãos de Aquiles, que quer apenas Heitor.
- Canto XXI: Aquiles enche o rio Xanto de mortos, o rio se revolta, e os deuses brigam entre si enquanto Zeus ri do alto do Olimpo.
- Canto XXIV: O poema termina sem a queda de Troia, depois que Aquiles concede onze dias de trégua a Príamo para que Heitor seja chorado e queimado.
Passagens
O poeta anuncia que o assunto é uma ira, e não a guerra.
μῆνιν ἄειδε θεὰ Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος / οὐλομένην, ἣ μυρίʼ Ἀχαιοῖς ἄλγεʼ ἔθηκε,(1.1-2), canta, deusa, a ira de Aquiles, filho de Peleu, a ira funesta que impôs aos aqueus dores sem conta.
Rompida a trégua, Éris cresce até a cabeça tocar o céu.
ἥ τʼ ὀλίγη μὲν πρῶτα κορύσσεται, αὐτὰρ ἔπειτα / οὐρανῷ ἐστήριξε κάρη καὶ ἐπὶ χθονὶ βαίνει·(4.442-443), ela, pequena de início, se arma, mas depois firma a cabeça no céu e anda sobre a terra;
Ao fim do duelo sem vencedor, a noite obriga os dois a parar.
ἀμφοτέρω γὰρ σφῶϊ φιλεῖ νεφεληγερέτα Ζεύς, / ἄμφω δʼ αἰχμητά· τό γε δὴ καὶ ἴδμεν ἅπαντες. / νὺξ δʼ ἤδη τελέθει· ἀγαθὸν καὶ νυκτὶ πιθέσθαι.(7.280-282), pois Zeus, que ajunta as nuvens, ama os dois; ambos são lanceiros, e isso todos nós sabemos. A noite já vem; é bom também obedecer à noite.
Ao meio-dia, Zeus pesa as sortes de morte dos dois exércitos.
καὶ τότε δὴ χρύσεια πατὴρ ἐτίταινε τάλαντα· / ἐν δʼ ἐτίθει δύο κῆρε τανηλεγέος θανάτοιο / Τρώων θʼ ἱπποδάμων καὶ Ἀχαιῶν χαλκοχιτώνων, / ἕλκε δὲ μέσσα λαβών· ῥέπε δʼ αἴσιμον ἦμαρ Ἀχαιῶν.(8.69-72), e então o Pai estendeu a balança de ouro; nela pôs duas Queres, as sortes da morte que abate, a dos troianos domadores de cavalos e a dos aqueus de túnica de bronze; tomou-a pelo meio e a ergueu: pendeu o dia fatal dos aqueus.
A luta junto à muralha se mantém igual, como a balança de uma tecelã.
ἔχον ὥς τε τάλαντα γυνὴ χερνῆτις ἀληθής, / ἥ τε σταθμὸν ἔχουσα καὶ εἴριον ἀμφὶς ἀνέλκει / ἰσάζουσʼ, ἵνα παισὶν ἀεικέα μισθὸν ἄρηται· / ὣς μὲν τῶν ἐπὶ ἶσα μάχη τέτατο πτόλεμός τε, / πρίν γʼ ὅτε δὴ Ζεὺς κῦδος ὑπέρτερον Ἕκτορι δῶκε / Πριαμίδῃ, ὃς πρῶτος ἐσήλατο τεῖχος Ἀχαιῶν.(12.433-438), mas mantinham-se como a balança de uma mulher honesta, que trabalha a lã: ela segura o peso e a lã e, de cada lado, iguala os pratos, para ganhar para os filhos um salário miserável; assim, igual se estendia entre eles o combate e a guerra, até que Zeus deu glória maior a Heitor, o Priamida, o primeiro a saltar para dentro da muralha dos aqueus.
Zeus quer ver uma nau arder antes de virar a maré.
Ἕκτορι γάρ οἱ θυμὸς ἐβούλετο κῦδος ὀρέξαι / Πριαμίδῃ, ἵνα νηυσὶ κορωνίσι θεσπιδαὲς πῦρ / ἐμβάλοι ἀκάματον, Θέτιδος δʼ ἐξαίσιον ἀρὴν / πᾶσαν ἐπικρήνειε· τὸ γὰρ μένε μητίετα Ζεὺς / νηὸς καιομένης σέλας ὀφθαλμοῖσιν ἰδέσθαι. / ἐκ γὰρ δὴ τοῦ μέλλε παλίωξιν παρὰ νηῶν / θησέμεναι Τρώων, Δαναοῖσι δὲ κῦδος ὀρέξειν.(15.596-602), pois o ânimo de Zeus queria dar glória a Heitor, filho de Príamo, para que lançasse às naus de popa curva um fogo divino, incansável, e levasse a termo toda a prece excessiva de Tétis; pois o conselheiro Zeus esperava ver com os próprios olhos o clarão de uma nau em chamas. Depois disso é que faria a debandada dos troianos para longe das naus e daria glória aos dânaos.
Aquiles corre pelo campo como fogo numa mata seca.
ὡς δʼ ἀναμαιμάει βαθέʼ ἄγκεα θεσπιδαὲς πῦρ / οὔρεος ἀζαλέοιο, βαθεῖα δὲ καίεται ὕλη, / πάντῃ τε κλονέων ἄνεμος φλόγα εἰλυφάζει, / ὣς ὅ γε πάντῃ θῦνε σὺν ἔγχεϊ δαίμονι ἶσος / κτεινομένους ἐφέπων· ῥέε δʼ αἵματι γαῖα μέλαινα.(20.490-494), Como o fogo divino devasta os vales profundos de um monte ressecado, e a densa mata se queima, e o vento, agitando-a por toda parte, enrola a chama, assim ele corria por toda parte com a lança, igual a um deus, perseguindo os que morriam; e a terra negra corria de sangue.
O último verso do poema fala do funeral de Heitor.
ὣς οἵ γʼ ἀμφίεπον τάφον Ἕκτορος ἱπποδάμοιο.(24.804), assim eles celebraram o funeral de Heitor, domador de cavalos.