Quem é
Zeus é o pai dos deuses e dos homens, o Crônida que reina no Olimpo e, do monte Ida, olha a cidade e as naus. É quem cumpre o pedido que Tétis lhe faz no primeiro canto, de honrar Aquiles, e o poema diz logo no proêmio que a ira de Aquiles e as mortes que ela traz cumprem o desígnio dele. Zeus não é onipotente em tudo: cede a Hera, é enganado por ela, evita uma briga com o irmão Poseidon e se compadece de homens e animais. Mas é o único deus que ninguém arrasta, como ele mesmo diz com a corrente de ouro, e o único que pesa as sortes de morte numa balança. Entre ele e a decisão dos homens corre uma pergunta que o poema não resolve: ele decide ou apenas lê o que já está estabelecido?
Trajetória
No Canto I, Zeus demora a responder a Tétis porque sabe que Hera vai brigar, e então confirma com um aceno de cabeça, o sinal que ele nunca revoga, e o Olimpo estremece. Cede por dívida pessoal, porque Tétis o livrou uma vez das correntes dos outros deuses. Hera o acusa de tramar às escondidas, e ele a manda calar sob ameaça de violência. O proêmio já dissera que o desígnio dele se cumpria.
ἦ καὶ κυανέῃσιν ἐπʼ ὀφρύσι νεῦσε Κρονίων· / ἀμβρόσιαι δʼ ἄρα χαῖται ἐπερρώσαντο ἄνακτος / κρατὸς ἀπʼ ἀθανάτοιο· μέγαν δʼ ἐλέλιξεν Ὄλυμπον.(1.528-530), disse, e o filho de Crono acenou com as sobrancelhas escuras; os cabelos imortais do senhor ondularam sobre a cabeça imortal, e ele abalou o grande Olimpo.
No Canto II, Zeus fica acordado, sem sono, pensando em como honrar Aquiles e fazer perecer muitos aqueus junto às naus. Manda um Sonho funesto a Agamêmnon, que repete as palavras de Zeus: o rei poderia tomar a cidade agora. Na prece do sacrifício, Zeus aceita as oferendas, mas não cumpre o pedido de Agamêmnon e faz crescer o penar.
ἄλλοι μέν ῥα θεοί τε καὶ ἀνέρες ἱπποκορυσταὶ / εὗδον παννύχιοι, Δία δʼ οὐκ ἔχε νήδυμος ὕπνος, / ἀλλʼ ὅ γε μερμήριζε κατὰ φρένα ὡς Ἀχιλῆα / τιμήσῃ, ὀλέσῃ δὲ πολέας ἐπὶ νηυσὶν Ἀχαιῶν.(2.1-4), os outros deuses e os homens de elmo de crina dormiam a noite inteira, mas a Zeus o sono suave não prendia; ele revolvia no ânimo como honrar Aquiles e fazer perecer muitos junto às naus dos aqueus.
ὣς ἔφατʼ, οὐδʼ ἄρα πώ οἱ ἐπεκραίαινε Κρονίων, / ἀλλʼ ὅ γε δέκτο μὲν ἱρά, πόνον δʼ ἀμέγαρτον ὄφελλεν.(2.419-420), assim falou; mas o Crônida ainda não lhe cumpria o pedido: aceitou as oferendas, mas fazia crescer um penar sem medida.
No Canto III, os dois lados rezam a Zeus para que quem romper o juramento tenha o cérebro derramado como o vinho, e Zeus não cumpre a prece. No Canto IV, Zeus provoca Hera e Atena com uma pergunta aos deuses, se levantam de novo a guerra ou se põem amizade entre os dois lados. Cede a Hera em troca do direito de destruir cidades queridas dela e confessa que, de todas as cidades, Ílion era a que mais amava.
ἡμεῖς δὲ φραζώμεθʼ ὅπως ἔσται τάδε ἔργα, / ἤ ῥʼ αὖτις πόλεμόν τε κακὸν καὶ φύλοπιν αἰνὴν / ὄρσομεν, ἦ φιλότητα μετʼ ἀμφοτέροισι βάλωμεν.(4.14-16), e nós, por nossa vez, consideremos como serão estas coisas: se de novo levantaremos a guerra funesta e o combate terrível, ou se lançaremos amizade entre os dois lados.
No Canto V, sorri da zombaria de Atena e Hera e diz a Afrodite, ferida, que a guerra não lhe foi dada, só as obras do casamento. Repreende Ares, que se queixa: é para ele o mais odioso dos deuses do Olimpo, porque sempre lhe são caras a discórdia e as guerras, mas manda Péon curá-lo, porque é seu filho.
οὔ τοι τέκνον ἐμὸν δέδοται πολεμήϊα ἔργα, / ἀλλὰ σύ γʼ ἱμερόεντα μετέρχεο ἔργα γάμοιο, / ταῦτα δʼ Ἄρηϊ θοῷ καὶ Ἀθήνῃ πάντα μελήσει.(5.428-430), A ti, filha minha, não foram dadas as obras da guerra; ocupa-te antes das obras desejáveis do casamento; disso tudo cuidarão o veloz Ares e Atena.
μή τί μοι ἀλλοπρόσαλλε παρεζόμενος μινύριζε. / ἔχθιστος δέ μοί ἐσσι θεῶν οἳ Ὄλυμπον ἔχουσιν· / αἰεὶ γάρ τοι ἔρις τε φίλη πόλεμοί τε μάχαι τε.(5.889-891), Não te sentes junto a mim, ó volúvel, a lamuriar. És para mim o mais odioso dos deuses que habitam o Olimpo; pois sempre te são caras a discórdia, as guerras e os combates.
No Canto VII, Poseidon reclama da muralha que os aqueus ergueram sem hecatombes, e Zeus responde que o muro será destruído quando os aqueus partirem. À noite, Zeus tece o mal, trovejando, e o pavor toma os homens.
No Canto VIII, Zeus convoca os deuses ao amanhecer e proíbe qualquer um de ajudar troianos ou dânaos, sob pena do Tártaro. Para provar sua força, propõe que todos se pendurem numa corrente de ouro: nenhum o arrastará, e ele os traria com a terra e o mar. Sorri para Atena, que aceita ficar fora mas quer dar conselho aos argivos. Ao meio-dia, estende a balança de ouro e põe nos pratos as sortes de morte dos dois exércitos: o prato dos aqueus desce até a terra. Troveja do Ida e lança um relâmpago, e Diomedes e Nestor fogem. Comovido pelas lágrimas de Agamêmnon, acena que o povo não perecerá e manda uma águia com uma corça. Quando Hera e Atena se armam, manda Íris detê-las com ameaça de quebrar os cavalos e deixar feridas que não sararão em dez anos. De volta ao Olimpo, diz a Hera que Heitor não parará antes que Aquiles se levante junto às naus, em torno de Pátroclo morto: assim está decretado.
ὃν δʼ ἂν ἐγὼν ἀπάνευθε θεῶν ἐθέλοντα νοήσω / ἐλθόντʼ ἢ Τρώεσσιν ἀρηγέμεν ἢ Δαναοῖσι / πληγεὶς οὐ κατὰ κόσμον ἐλεύσεται Οὔλυμπον δέ·(8.10-12), aquele que eu perceber, longe dos deuses, querendo ir ajudar os troianos ou os dânaos, voltará ao Olimpo golpeado, de modo indecoroso.
σειρὴν χρυσείην ἐξ οὐρανόθεν κρεμάσαντες / πάντές τʼ ἐξάπτεσθε θεοὶ πᾶσαί τε θέαιναι· / ἀλλʼ οὐκ ἂν ἐρύσαιτʼ ἐξ οὐρανόθεν πεδίον δὲ / Ζῆνʼ ὕπατον μήστωρʼ, οὐδʼ εἰ μάλα πολλὰ κάμοιτε.(8.19-22), pendurando do céu uma corrente de ouro, agarrai-vos nela todos, deuses e deusas; mas não arrastareis do céu à planície Zeus, o supremo conselheiro, ainda que muito vos esforceis.
καὶ τότε δὴ χρύσεια πατὴρ ἐτίταινε τάλαντα· / ἐν δʼ ἐτίθει δύο κῆρε τανηλεγέος θανάτοιο / Τρώων θʼ ἱπποδάμων καὶ Ἀχαιῶν χαλκοχιτώνων, / ἕλκε δὲ μέσσα λαβών· ῥέπε δʼ αἴσιμον ἦμαρ Ἀχαιῶν.(8.69-72), e então o Pai estendeu a balança de ouro; nela pôs duas Queres, as sortes da morte que abate, a dos troianos domadores de cavalos e a dos aqueus de túnica de bronze; tomou-a pelo meio e a ergueu: pendeu o dia fatal dos aqueus.
οὐ γὰρ πρὶν πολέμου ἀποπαύσεται ὄβριμος Ἕκτωρ / πρὶν ὄρθαι παρὰ ναῦφι ποδώκεα Πηλεΐωνα, / ἤματι τῷ ὅτʼ ἂν οἳ μὲν ἐπὶ πρύμνῃσι μάχωνται / στείνει ἐν αἰνοτάτῳ περὶ Πατρόκλοιο θανόντος· / ὣς γὰρ θέσφατόν ἐστι(8.473-477), Pois o poderoso Heitor não cessará a guerra antes que se levante junto às naus o Pelida de pés ligeiros, no dia em que lutarem junto às popas, no aperto terrível, em torno de Pátroclo morto: assim está decretado.
No Canto X, Agamêmnon atribui a virada ao espírito de Zeus, que se desviou para os sacrifícios de Heitor. No Canto XI, Zeus manda a Discórdia às naus, e os deuses o culpam por querer dar glória aos troianos, enquanto ele, sentado longe, exulta. Manda Íris dizer a Heitor que se afaste enquanto Agamêmnon estiver na vanguarda e que só quando o rei for ferido receberá a força de matar até o pôr do sol. Põe medo em Ájax.
πάντες δʼ ᾐτιόωντο κελαινεφέα Κρονίωνα / οὕνεκʼ ἄρα Τρώεσσιν ἐβούλετο κῦδος ὀρέξαι. / τῶν μὲν ἄρʼ οὐκ ἀλέγιζε πατήρ· ὃ δὲ νόσφι λιασθεὶς / τῶν ἄλλων ἀπάνευθε καθέζετο κύδεϊ γαίων(11.78-81), todos culpavam o filho de Crono, o das nuvens escuras, porque queria dar glória aos troianos. Deles não fazia caso o pai: afastado, sentou-se longe dos outros, exultando de glória.
αὐτὰρ ἐπεί κʼ ἢ δουρὶ τυπεὶς ἢ βλήμενος ἰῷ / εἰς ἵππους ἅλεται, τότε οἱ κράτος ἐγγυαλίξω / κτείνειν εἰς ὅ κε νῆας ἐϋσσέλμους ἀφίκηται / δύῃ τʼ ἠέλιος καὶ ἐπὶ κνέφας ἱερὸν ἔλθῃ.(11.191-194), mas quando, ferido por lança ou atingido por flecha, ele saltar para o carro, então lhe darei força para matar até chegar às naus bem-bordadas, e o sol se pôr e vir a escuridão sagrada.
No Canto XII, levanta uma tempestade de vento do Ida que leva a poeira contra as naus, enfeitiça o espírito dos aqueus e dá glória a Heitor, que arromba o portão com uma pedra que Zeus torna leve. Afasta as Queres do filho Sarpédon, para que ele não seja abatido junto às popas das naus. No Canto XIII, desvia os olhos para a terra dos trácios, dos mísios e dos abios, estes os mais justos dos homens, sem esperar que nenhum imortal desça. O narrador explica que ele quer a vitória para Heitor para dar glória a Aquiles, e não quer de modo algum que o povo aqueu pereça diante de Ílion.
ἐπὶ δὲ Ζεὺς τερπικέραυνος / ὦρσεν ἀπʼ Ἰδαίων ὀρέων ἀνέμοιο θύελλαν, / ἥ ῥʼ ἰθὺς νηῶν κονίην φέρεν· αὐτὰρ Ἀχαιῶν / θέλγε νόον, Τρωσὶν δὲ καὶ Ἕκτορι κῦδος ὄπαζε.(12.252-255), e logo Zeus, que se compraz no raio, levantou dos montes do Ida uma tempestade de vento, que levou a poeira direto contra as naus; ele enfeitiçou o espírito dos aqueus e deu glória aos troianos e a Heitor.
τὼ δʼ ἀμφὶς φρονέοντε δύω Κρόνου υἷε κραταιὼ / ἀνδράσιν ἡρώεσσιν ἐτεύχετον ἄλγεα λυγρά. / Ζεὺς μέν ῥα Τρώεσσι καὶ Ἕκτορι βούλετο νίκην / κυδαίνων Ἀχιλῆα πόδας ταχύν· οὐδέ τι πάμπαν / ἤθελε λαὸν ὀλέσθαι Ἀχαιϊκὸν Ἰλιόθι πρό, / ἀλλὰ Θέτιν κύδαινε καὶ υἱέα καρτερόθυμον.(13.345-350), os dois filhos poderosos de Crono, cada um com seu desígnio, preparavam para os homens heróis dores lúgubres. Zeus queria a vitória para os troianos e para Heitor, para dar glória a Aquiles de pés velozes; e não queria de modo algum que o povo aqueu perecesse diante de Ílion, mas queria dar glória a Tétis e ao filho de ânimo forte.
No Canto XIV, Hera, a quem Zeus é odioso, o seduz com o cinto de Afrodite e o faz adormecer com o Sono. Zeus, ao vê-la, sente o desejo cobrir-lhe o juízo, como na primeira vez em que se deitaram, e declara que nunca o desejo o dominou assim. Adormece nos braços dela, no Gárgaro, dominado pelo sono e pelo amor.
νῶϊ δʼ ἄγʼ ἐν φιλότητι τραπείομεν εὐνηθέντε. / οὐ γάρ πώ ποτέ μʼ ὧδε θεᾶς ἔρος οὐδὲ γυναικὸς / θυμὸν ἐνὶ στήθεσσι περιπροχυθεὶς ἐδάμασσεν,(14.314-316), vamos, deitemo-nos e entreguemo-nos ao amor. Pois nunca antes o desejo por deusa ou por mulher, derramando-se ao redor do coração no meu peito, me dominou assim,
ὣς ὃ μὲν ἀτρέμας εὗδε πατὴρ ἀνὰ Γαργάρῳ ἄκρῳ, / ὕπνῳ καὶ φιλότητι δαμείς, ἔχε δʼ ἀγκὰς ἄκοιτιν·(14.352-353), assim dormia tranquilo o pai, no alto do Gárgaro, dominado pelo sono e pelo amor, com a esposa nos braços.
No Canto XV, Zeus acorda, vê Heitor caído e se apieda, e acusa Hera, lembrando o dia em que a pendurou com bigornas nos pés e algemas de ouro. Anuncia o enredo que resta: Aquiles manda Pátroclo, Heitor mata Pátroclo, e, entre os muitos que Pátroclo mata, o próprio filho Sarpédon. Irado por causa dele, Aquiles matará Heitor. Diz que não fará cessar a cólera até se cumprir o desejo do Pelida, como prometeu com o aceno de cabeça. Manda Íris e Apolo, e reconhece que a luta com Poseidon não teria terminado sem suor. Troveja ouvindo a prece de Nestor. O narrador diz que ele quer ver o clarão de uma nau em chamas, e só então fará os troianos recuarem, e que honra Heitor entre tantos homens porque ele terá vida breve.
τὸν δὲ ἰδὼν ἐλέησε πατὴρ ἀνδρῶν τε θεῶν τε, / δεινὰ δʼ ὑπόδρα ἰδὼν Ἥρην πρὸς μῦθον ἔειπεν· / ἦ μάλα δὴ κακότεχνος ἀμήχανε σὸς δόλος Ἥρη / Ἕκτορα δῖον ἔπαυσε μάχης, ἐφόβησε δὲ λαούς.(15.12-15), e, vendo-o, apiedou-se o pai de homens e deuses, e, olhando terrivelmente de través para Hera, disse: Ah, Hera, indomável, o teu ardil de má arte fez o divino Heitor cessar o combate e pôs o povo em fuga.
Πηλεΐδεω Ἀχιλῆος· ὃ δʼ ἀνστήσει ὃν ἑταῖρον / Πάτροκλον· τὸν δὲ κτενεῖ ἔγχεϊ φαίδιμος Ἕκτωρ / Ἰλίου προπάροιθε πολέας ὀλέσαντʼ αἰζηοὺς / τοὺς ἄλλους, μετὰ δʼ υἱὸν ἐμὸν Σαρπηδόνα δῖον. / τοῦ δὲ χολωσάμενος κτενεῖ Ἕκτορα δῖος Ἀχιλλεύς.(15.64-68), do Pelida Aquiles; e ele fará levantar-se o seu companheiro Pátroclo, a quem o ilustre Heitor matará com a lança diante de Ílion, depois de Pátroclo ter feito perecer muitos outros jovens, e entre eles o meu filho, o divino Sarpédon. Irado por causa dele, o divino Aquiles matará Heitor.
τὸ πρὶν δʼ οὔτʼ ἄρʼ ἐγὼ παύω χόλον οὔτέ τινʼ ἄλλον / ἀθανάτων Δαναοῖσιν ἀμυνέμεν ἐνθάδʼ ἐάσω / πρίν γε τὸ Πηλεΐδαο τελευτηθῆναι ἐέλδωρ, / ὥς οἱ ὑπέστην πρῶτον, ἐμῷ δʼ ἐπένευσα κάρητι, / ἤματι τῷ ὅτʼ ἐμεῖο θεὰ Θέτις ἥψατο γούνων, / λισσομένη τιμῆσαι Ἀχιλλῆα πτολίπορθον.(15.72-77), antes disso eu não faço cessar a minha cólera, nem deixarei que nenhum outro dos imortais socorra aqui os dânaos, antes que se cumpra o desejo do Pelida, como lhe prometi no início e assenti com a minha cabeça, no dia em que a deusa Tétis tocou os meus joelhos, suplicando que eu honrasse Aquiles, o destruidor de cidades.
Ἕκτορι γάρ οἱ θυμὸς ἐβούλετο κῦδος ὀρέξαι / Πριαμίδῃ, ἵνα νηυσὶ κορωνίσι θεσπιδαὲς πῦρ / ἐμβάλοι ἀκάματον, Θέτιδος δʼ ἐξαίσιον ἀρὴν / πᾶσαν ἐπικρήνειε· τὸ γὰρ μένε μητίετα Ζεὺς / νηὸς καιομένης σέλας ὀφθαλμοῖσιν ἰδέσθαι. / ἐκ γὰρ δὴ τοῦ μέλλε παλίωξιν παρὰ νηῶν / θησέμεναι Τρώων, Δαναοῖσι δὲ κῦδος ὀρέξειν.(15.596-602), pois o ânimo de Zeus queria dar glória a Heitor, filho de Príamo, para que lançasse às naus de popa curva um fogo divino, incansável, e levasse a termo toda a prece excessiva de Tétis; pois o conselheiro Zeus esperava ver com os próprios olhos o clarão de uma nau em chamas. Depois disso é que faria a debandada dos troianos para longe das naus e daria glória aos dânaos.
No Canto XVI, Zeus vê Sarpédon e Pátroclo avançarem um contra o outro e fica dividido: o destino manda que Sarpédon, o mais caro dos homens para ele, morra, e ele pensa em arrebatá-lo vivo. Hera diz que ele pode fazê-lo, mas que os outros deuses não aprovarão, e Zeus cede e faz cair gotas de sangue sobre a terra. Faz Heitor fugir, que reconhece a balança sagrada, e depois manda Apolo limpar o corpo e entregá-lo ao Sono e à Morte. Concede a Aquiles só metade da prece: afastar das naus a guerra, sim, voltar são e salvo, não. O narrador diz que a mente de Zeus é mais forte que a dos homens e que foi ele que soltou o ânimo de Pátroclo.
ὤ μοι ἐγών, ὅ τέ μοι Σαρπηδόνα φίλτατον ἀνδρῶν / μοῖρʼ ὑπὸ Πατρόκλοιο Μενοιτιάδαο δαμῆναι. / διχθὰ δέ μοι κραδίη μέμονε φρεσὶν ὁρμαίνοντι, / ἤ μιν ζωὸν ἐόντα μάχης ἄπο δακρυοέσσης / θείω ἀναρπάξας Λυκίης ἐν πίονι δήμῳ, / ἦ ἤδη ὑπὸ χερσὶ Μενοιτιάδαο δαμάσσω.(16.433-438), ai de mim, que o destino quer que Sarpédon, o mais caro dos homens para mim, seja domado por Pátroclo, filho de Menécio. Dois pensamentos dividem o meu coração enquanto reflito: se, ainda vivo, o arrebato do combate de lágrimas e o ponho no fértil povo da Lícia, ou se já o domo sob as mãos do filho de Menécio.
τῷ δʼ ἕτερον μὲν ἔδωκε πατήρ, ἕτερον δʼ ἀνένευσε· / νηῶν μέν οἱ ἀπώσασθαι πόλεμόν τε μάχην τε / δῶκε, σόον δʼ ἀνένευσε μάχης ἐξαπονέεσθαι.(16.250-252), uma coisa o Pai lhe deu, outra recusou com um aceno: afastar das naus a guerra e o combate, isso concedeu; voltar são e salvo da batalha, recusou.
ὧδε δέ οἱ φρονέοντι δοάσσατο κέρδιον εἶναι / ὄφρʼ ἠῢς θεράπων Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος / ἐξαῦτις Τρῶάς τε καὶ Ἕκτορα χαλκοκορυστὴν / ὤσαιτο προτὶ ἄστυ, πολέων δʼ ἀπὸ θυμὸν ἕλοιτο. / Ἕκτορι δὲ πρωτίστῳ ἀνάλκιδα θυμὸν ἐνῆκεν· / ἐς δίφρον δʼ ἀναβὰς φύγαδʼ ἔτραπε, κέκλετο δʼ ἄλλους / Τρῶας φευγέμεναι· γνῶ γὰρ Διὸς ἱρὰ τάλαντα.(16.652-658), e, enquanto ele refletia, pareceu-lhe melhor que o bravo escudeiro de Aquiles, filho de Peleu, empurrasse de novo os troianos e Heitor de armas de bronze para a cidade, e tirasse a vida de muitos. A Heitor, antes de todos, infundiu um ânimo sem vigor: subiu ao carro, voltou-se em fuga e mandou que os outros troianos fugissem, pois reconheceu a balança sagrada de Zeus.
No Canto XVII, Zeus vê Heitor vestir as armas de Aquiles e o chama de infeliz, porque a morte já está perto, e lhe dá grande força em compensação. Cobre a luta em volta de Pátroclo de névoa, porque não o odiava enquanto vivo e detesta que ele vire presa dos cães. Compadece-se dos cavalos de Aquiles, que choram o cocheiro: de tudo o que respira, nada há mais digno de lástima que o homem. Atende a Ájax, que pede luz, e dissipa a névoa.
ἆ δείλʼ οὐδέ τί τοι θάνατος καταθύμιός ἐστιν / ὃς δή τοι σχεδὸν εἶσι· σὺ δʼ ἄμβροτα τεύχεα δύνεις / ἀνδρὸς ἀριστῆος, τόν τε τρομέουσι καὶ ἄλλοι·(17.201-203), ah, infeliz, não te passa pela cabeça a morte, que já está perto de ti; tu vestes as armas imortais de um homem excelente, diante do qual outros tremem;
ἐπεὶ οὐδὲ Μενοιτιάδην ἔχθαιρε πάρος γε, / ὄφρα ζωὸς ἐὼν θεράπων ἦν Αἰακίδαο· / μίσησεν δʼ ἄρα μιν δηΐων κυσὶ κύρμα γενέσθαι / Τρῳῇσιν· τὼ καί οἱ ἀμυνέμεν ὦρσεν ἑταίρους.(17.270-273), pois o Cronida não odiava o filho de Menécio antes, enquanto vivo era escudeiro do Eácida; e agora detestou que ele se tornasse presa dos cães inimigos de Troia; por isso incitou os companheiros a defendê-lo.
ἆ δειλώ, τί σφῶϊ δόμεν Πηλῆϊ ἄνακτι / θνητῷ, ὑμεῖς δʼ ἐστὸν ἀγήρω τʼ ἀθανάτω τε; / ἦ ἵνα δυστήνοισι μετʼ ἀνδράσιν ἄλγεʼ ἔχητον; / οὐ μὲν γάρ τί πού ἐστιν ὀϊζυρώτερον ἀνδρὸς / πάντων, ὅσσά τε γαῖαν ἔπι πνείει τε καὶ ἕρπει.(17.443-447), ai, infelizes, por que vos demos ao rei Peleu, um mortal, vós que não envelheceis nem morreis? Foi para que tivésseis dores entre homens miseráveis? Pois de tudo o que respira e rasteja sobre a terra, nada há mais digno de lástima que o homem.
No Canto XVIII, quando Hera faz Aquiles se mostrar, Zeus lhe diz que ela afinal conseguiu levantá-lo. No Canto XIX, ao ver os chefes chorando com Aquiles, tem pena e manda Atena instilar néctar e ambrosia no peito dele.
ἀλλʼ ἴθι οἱ νέκτάρ τε καὶ ἀμβροσίην ἐρατεινὴν / στάξον ἐνὶ στήθεσσʼ, ἵνα μή μιν λιμὸς ἵκηται(19.347-348), Mas vai, instila em seu peito néctar e a amável ambrosia, para que a fome não o alcance.
No Canto XX, Zeus convoca os deuses e teme que Aquiles derrube a muralha além do que o destino concede, e por isso deixa cada deus escolher o lado. No Canto XXI, ri de alegria ao ver os deuses se chocarem, e Ártemis chora nos joelhos dele.
νῦν δʼ ὅτε δὴ καὶ θυμὸν ἑταίρου χώεται αἰνῶς / δείδω μὴ καὶ τεῖχος ὑπέρμορον ἐξαλαπάξῃ.(20.29-30), mas agora que ele se enfurece terrivelmente por causa do companheiro, temo que derrube também a muralha, além do que o destino concede.
No Canto XXII, Zeus lamenta ver Heitor perseguido diante dos muros, ele que lhe queimou tantas coxas de boi, e pergunta se o salva. Atena objeta, e Zeus diz que não fala com ânimo firme e deixa que ela faça o que tem em mente. Na quarta volta, levanta a balança de ouro e põe nos pratos as duas Queres, a de Aquiles e a de Heitor: o dia de Heitor desce para o Hades.
ἐν δʼ ἐτίθει δύο κῆρε τανηλεγέος θανάτοιο, / τὴν μὲν Ἀχιλλῆος, τὴν δʼ Ἕκτορος ἱπποδάμοιο, / ἕλκε δὲ μέσσα λαβών· ῥέπε δʼ Ἕκτορος αἴσιμον ἦμαρ, / ᾤχετο δʼ εἰς Ἀΐδαο, λίπεν δέ ἑ Φοῖβος Ἀπόλλων.(22.210-213), pôs nela as duas Queres da morte que traz dor prolongada, a de Aquiles e a de Heitor, domador de cavalos; levantou-a segurando o meio: o dia fatal de Heitor pendeu, foi para o Hades, e Febo Apolo o deixou.
No Canto XXIV, Zeus recusa o roubo do corpo de Heitor: Heitor foi o mais caro aos deuses entre os mortais de Ílion, e nunca faltou ao altar de Zeus. Chama Tétis, manda Íris a Príamo e Hermes como guia, e diz a Príamo, por Íris, que Aquiles não é insensato nem desatento nem ímpio e poupará com zelo o suplicante.
φίλτατος ἔσκε θεοῖσι βροτῶν οἳ ἐν Ἰλίῳ εἰσίν· / ὣς γὰρ ἔμοιγʼ, ἐπεὶ οὔ τι φίλων ἡμάρτανε δώρων. / οὐ γάρ μοί ποτε βωμὸς ἐδεύετο δαιτὸς ἐΐσης / λοιβῆς τε κνίσης τε· τὸ γὰρ λάχομεν γέρας ἡμεῖς.(24.67-70), era o mais caro aos deuses entre os mortais que vivem em Ílio; pois assim era para mim, já que em nada falhou nos presentes caros; nunca o meu altar careceu de banquete igual, de libação e de fumaça de gordura: esta é a parte que nos coube como honra.
οὔτε γάρ ἐστʼ ἄφρων οὔτʼ ἄσκοπος οὔτʼ ἀλιτήμων, / ἀλλὰ μάλʼ ἐνδυκέως ἱκέτεω πεφιδήσεται ἀνδρός.(24.157-158), pois ele não é insensato, nem desatento, nem ímpio; antes poupará com todo zelo o homem suplicante.
Temas que encarna
Zeus encarna o Destino e livre-arbítrio: pesa as sortes na balança, anuncia a cadeia das mortes e ao mesmo tempo cede a argumentos de precedente, quando Hera lhe diz que os outros deuses também têm filhos na guerra. Encarna a Guerra como execução de um plano, o de honrar Aquiles, que passa por Heitor e por uma nau em chamas. Encarna a Morte nas Queres que ele pesa e na tristeza por Sarpédon, e a Compaixão e caridade nos momentos em que se apieda de Heitor, dos cavalos, de Príamo.
A balança de ouro mostra o destino como coisa que se pesa, não como mérito nem como resposta a prece, e o poema deixa em aberto se ela revela uma sorte que já existia ou torna visível uma decisão que Zeus acabou de tomar. O mesmo ocorre com a cadeia que ele conta a Hera no Canto XV: a sequência sai da boca dele no tom de quem manda e de quem prevê. Zeus tem o poder de adiar, mas as vezes em que pensa em desfazer uma morte, a de Sarpédon e a de Heitor, ele recua diante da objeção dos outros deuses. A compaixão e o plano caminham juntos: apieda-se do homem que ele mesmo destina a Aquiles.
Relações
- Tétis: a deusa a quem deve um favor e cuja prece cumpre, medida por uma nau em chamas.
- Hera: a esposa que o acusa, é enganada por ele e o engana, e a quem ele ameaça e cede.
- Aquiles: o herói que ele honra ao custo de muitos aqueus.
- Heitor: o homem a quem dá glória do dia, chama de infeliz e, no fim, pesa e cuida do corpo.
- Agamêmnon: o rei que ele engana com o Sonho e cujos sacrifícios aceita sem cumprir.
- Atena: a filha a quem ele é brando e que o contesta.
- Apolo: o deus a quem entrega a égide e o cuidado de Heitor.
- Príamo: o rei de uma cidade que ele amou e a quem protege na ida à tenda.
- Sarpédon, o filho mais caro, que ele deixa morrer.
- Poseidon, o irmão que cede à ameaça e guarda a sua.