O tema na obra
A ira de Aquiles nasce de uma questão de honra, e não de amor por uma moça. No Canto I, Agamêmnon aceita devolver Criseida para salvar o exército, mas exige outro prêmio na hora, para não ser o único sem recompensa, e o prêmio que ele escolhe é o de Aquiles, o sinal público do valor do melhor guerreiro. Aquiles sabe que vai viver pouco e vê na honra o único pagamento que essa vida curta lhe deixava.
A honra, no poema, se mede de dois modos que se encontram e se desencontram. Ela é o que se recebe em coisas, o prêmio, o assento à mesa, a carne, a taça, e é o que se deixa na boca dos outros, o que se dirá. No Canto III, Heitor repreende Páris pelo que os aqueus veem: tomaram-no por campeão pela beleza, e agora riem. No Canto VI, Heitor diz a Andrômaca que tem vergonha dos troianos e das troianas, e que aprendeu a lutar entre os primeiros para ganhar glória para o pai e para si; Glauco explica a Diomedes que o pai o mandou a Troia para ser sempre o melhor. No Canto VIII, Diomedes aceita recuar diante de Zeus, mas teme que Heitor diga um dia entre os troianos que ele fugiu, e Nestor lhe responde com as viúvas dos troianos que ele matou. No Canto XII, Sarpédon mede a honra da Lícia em coisas e a transforma em dever, e Glauco, ferido, salta da muralha às escondidas para que nenhum aqueu o veja e se gabe.
O Canto IX é onde as duas medidas se separam. Agamêmnon oferece reparação em objetos, e Aquiles responde que o mesmo prêmio e a mesma morte cabem a quem luta e a quem fica, que a vida vale mais do que toda a riqueza de Ílion e que tem um duplo fado: glória sem volta ou vida longa sem glória. Odisseu apela à glória, Fênix traz o exemplo de Meleagro, que cedeu tarde e sem presentes, e Ájax lembra o costume do resgate. Aquiles diz que se tem por honrado pela decisão de Zeus. No Canto XVI, ao ceder, ele diz a Pátroclo que a missão é para ganhar grande honra e glória diante dos dânaos e a devolução da moça, e o proíbe de avançar além das naus, porque isso o deixaria menos honrado.
A reparação vem tarde e muda de forma. No Canto XIX, Agamêmnon jura que não tocou em Briseida, oferece presentes sem medida e atribui a briga a Zeus, à Moira e a Atê, e Aquiles encerra a ira diante do exército sem pedir perdão. No Canto XXII, Heitor, sem lança e enganado, escolhe como morrer: com luta e com glória, fazendo algo que os vindouros venham a saber. No Canto XXIII, os jogos mostram a honra sem guerra: Antíloco cede a égua a Menelau para não perder a estima dele, Menelau a devolve, e Aquiles dá a Agamêmnon o prêmio do dardo sem disputa. No Canto XXIV, a honra de Heitor é cuidada pelos deuses, e Príamo mede a própria pelo gesto de beijar a mão do matador dos filhos.
A honra da Ilíada funciona como uma moeda que os personagens trocam sem poder conferir o valor. Agamêmnon quer o prêmio para não ser exceção e o tira de quem merecia mais; Aquiles quer ser reparado e recusa a reparação em coisas; Diomedes teme uma frase; Glauco esconde um ferimento. O Canto IX sustenta duas leituras da recusa de Aquiles: uma dúvida real sobre o sistema de honra em que vive, ou a mágoa de quem foi lesado nesse sistema e fala dele em geral porque a perda é pessoal. A fala mistura as duas, e o Canto XXIII mostra o outro lado, em que o mesmo sistema, sem guerra, se acalma pela generosidade de quem cede.
Onde aparece
- Canto I: Agamêmnon aceita devolver Criseida, mas exige na hora outro prêmio para não ser o único sem recompensa, e é esse sinal público de valor que ele tira de Aquiles.
- Canto II: Odisseu e Agamêmnon usam a mesma palavra, vergonha, para teses opostas: o rei diz que é vergonhoso fazer uma guerra inútil, e Odisseu, que é vergonhoso voltar de mãos vazias.
- Canto III: Heitor repreende Páris diante dos troianos porque os aqueus riem ao ver que o campeão que tomavam pela beleza não tem força nem coragem.
- Canto VI: Heitor diz a Andrômaca que tem vergonha dos troianos e das troianas e que aprendeu a lutar entre os primeiros para ganhar glória para o pai e para si.
- Canto VI: Glauco explica a Diomedes que o pai o mandou a Troia para ser sempre o melhor e não envergonhar a linhagem, e os dois trocam de armas como hóspedes por herança.
- Canto VIII: Diomedes aceita recuar diante de Zeus, mas teme que Heitor diga um dia entre os troianos que ele fugiu, e Nestor lhe responde com as viúvas dos troianos que ele matou.
- Canto IX: Aquiles recusa os presentes de Agamêmnon e diz que a mesma honra cabe a quem luta e a quem fica, e que nenhuma riqueza vale tanto quanto a vida.
- Canto XII: Sarpédon diz a Glauco que as honras da Lícia, o assento, as carnes e a taça, são pagamento adiantado de um dever: estar entre os primeiros no combate.
- Canto XII: Glauco, ferido por Teucro, salta da muralha às escondidas para que nenhum aqueu o veja ferido e se gabe com palavras.
- Canto XVI: Aquiles manda Pátroclo à luta para ganhar grande honra e glória diante de todos os dânaos e a devolução da moça, e o proíbe de avançar além das naus para não diminuir a honra dele.
- Canto XVIII: Aquiles aceita a morte próxima em troca de boa fama e quer que as troianas, enxugando as lágrimas, saibam que ele ficou muito tempo longe da guerra.
- Canto XIX: Agamêmnon jura que não tocou em Briseida e oferece presentes sem medida, e Aquiles encerra a ira diante do exército sem pedir perdão.
- Canto XXII: Heitor, enganado por Atena e sem lança, decide não morrer sem luta e sem glória, mas fazendo algo grande que os vindouros venham a saber.
- Canto XXIII: Antíloco cede a égua a Menelau para não perder a estima dele nem ser culpado diante dos deuses, e Menelau, aplacado, a devolve.
- Canto XXIII: Aquiles dá a Agamêmnon o prêmio do dardo sem disputa, dizendo que todos sabem quanto o rei excede os outros em força e em lançamentos.
- Canto XXIV: Zeus diz que Heitor foi o mais caro aos deuses entre os mortais de Ílio, porque nunca faltou ao altar com banquete, libação e fumaça de gordura.
Passagens
Agamêmnon aceita devolver a moça, mas não suporta ficar sem prêmio.
αὐτὰρ ἐμοὶ γέρας αὐτίχʼ ἑτοιμάσατʼ ὄφρα μὴ οἶος / Ἀργείων ἀγέραστος ἔω, ἐπεὶ οὐδὲ ἔοικε·(1.118-119), mas preparai-me logo um prêmio, para que eu não fique, sozinho entre os argivos, sem prêmio, pois isso não convém.
Aquiles lê a ofensa pela vida curta que lhe resta.
μῆτερ ἐπεί μʼ ἔτεκές γε μινυνθάδιόν περ ἐόντα, / τιμήν πέρ μοι ὄφελλεν Ὀλύμπιος ἐγγυαλίξαι(1.352-353), mãe, já que me deste à luz para viver pouco, ao menos honra o Olímpio me devia pôr nas mãos.
Heitor diz a Andrômaca por que não pode ficar atrás do muro.
αἰδέομαι Τρῶας καὶ Τρῳάδας ἑλκεσιπέπλους, / αἴ κε κακὸς ὣς νόσφιν ἀλυσκάζω πολέμοιο· / οὐδέ με θυμὸς ἄνωγεν, ἐπεὶ μάθον ἔμμεναι ἐσθλὸς / αἰεὶ καὶ πρώτοισι μετὰ Τρώεσσι μάχεσθαι / ἀρνύμενος πατρός τε μέγα κλέος ἠδʼ ἐμὸν αὐτοῦ.(6.442-446), tenho muita vergonha dos troianos e das troianas de mantos arrastados, se, como um covarde, me afastasse longe da guerra; e também o ânimo não me manda, pois aprendi a ser valente sempre e a lutar entre os primeiros troianos, buscando para mim grande glória do meu pai e a minha.
Diomedes teme a frase que Heitor dirá dele em assembleia.
ἀλλὰ τόδʼ αἰνὸν ἄχος κραδίην καὶ θυμὸν ἱκάνει· / Ἕκτωρ γάρ ποτε φήσει ἐνὶ Τρώεσσʼ ἀγορεύων· / Τυδεΐδης ὑπʼ ἐμεῖο φοβεύμενος ἵκετο νῆας. / ὥς ποτʼ ἀπειλήσει· τότε μοι χάνοι εὐρεῖα χθών.(8.147-150), mas esta dor terrível me chega ao coração e ao ânimo: Heitor dirá um dia, discursando entre os troianos: "O Tidida, fugindo de mim, chegou às naus". Assim um dia ameaçará; que então a vasta terra me trague.
Aquiles responde que a mesma honra cabe a quem luta e a quem fica.
ἴση μοῖρα μένοντι καὶ εἰ μάλα τις πολεμίζοι· / ἐν δὲ ἰῇ τιμῇ ἠμὲν κακὸς ἠδὲ καὶ ἐσθλός· / κάτθανʼ ὁμῶς ὅ τʼ ἀεργὸς ἀνὴρ ὅ τε πολλὰ ἐοργώς.(9.318-320), igual parte cabe ao que fica, ainda que alguém combata muito; na mesma honra estão o mau e o bom; morre igualmente o homem ocioso e o que muito fez.
Sarpédon mede a honra em coisas que se veem e a transforma em dever.
Γλαῦκε τί ἢ δὴ νῶϊ τετιμήμεσθα μάλιστα / ἕδρῃ τε κρέασίν τε ἰδὲ πλείοις δεπάεσσιν / ἐν Λυκίῃ, πάντες δὲ θεοὺς ὣς εἰσορόωσι, / καὶ τέμενος νεμόμεσθα μέγα Ξάνθοιο παρʼ ὄχθας / καλὸν φυταλιῆς καὶ ἀρούρης πυροφόροιο; / τὼ νῦν χρὴ Λυκίοισι μέτα πρώτοισιν ἐόντας / ἑστάμεν ἠδὲ μάχης καυστείρης ἀντιβολῆσαι,(12.310-316), Glauco, por que somos nós dois honrados acima de todos na Lícia, com o assento, as carnes e as taças cheias, e todos nos olham como a deuses? E possuímos um grande domínio às margens do Xanto, belo, de pomar e de trigal. Por isso nos cabe, estando entre os primeiros dos lícios, manter-nos firmes e enfrentar o combate ardente.
Sem lança e sem aliado, Heitor escolhe a fama como modo de morrer.
μὴ μὰν ἀσπουδί γε καὶ ἀκλειῶς ἀπολοίμην, / ἀλλὰ μέγα ῥέξας τι καὶ ἐσσομένοισι πυθέσθαι.(22.304-305), que eu não morra sem luta e sem glória, mas depois de fazer algo grande, que também os vindouros venham a saber.
Nos jogos, Aquiles dá o prêmio a Agamêmnon sem disputa.
Ἀτρεΐδη· ἴδμεν γὰρ ὅσον προβέβηκας ἁπάντων / ἠδʼ ὅσσον δυνάμει τε καὶ ἥμασιν ἔπλευ ἄριστος· / ἀλλὰ σὺ μὲν τόδʼ ἄεθλον ἔχων κοίλας ἐπὶ νῆας / ἔρχευ, ἀτὰρ δόρυ Μηριόνῃ ἥρωϊ πόρωμεν, / εἰ σύ γε σῷ θυμῷ ἐθέλοις· κέλομαι γὰρ ἔγωγε.(23.890-894), Atrida, sabemos o quanto superas todos e o quanto és o melhor em força e lançamentos; leva tu este prêmio às naus, e ao herói Meríones demos a lança, se tu o aceitas no teu ânimo; eu o peço.