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Personagem

Páris

Quem é

Páris, também chamado Alexandre, é o filho de Príamo que levou Helena a Troia e, com isso, deu causa à guerra. É belo, tem os dons de Afrodite e, nas palavras do irmão Heitor, mais aspecto que força de ânimo. O poema o mostra recuando diante do marido que ofendeu, propondo pôr a guerra num duelo, salvo por uma deusa no instante em que perdia e deitado no quarto enquanto os outros morrem. Também o mostra atirando de trás de uma estela e ferindo Diomedes no pé, rindo. Os troianos o odeiam como à morte negra, e Heitor o repreende sem poupança. Páris reconhece quando a censura é justa, explica que ficou no quarto por tristeza, e volta à luta.

Trajetória

No Canto III, Páris avança à frente dos troianos, com pele de leopardo, arco e espada nos ombros, e desafia os melhores aqueus. Ao ver Menelau avançar, sente o coração abalar-se e recua para o meio dos companheiros, como quem vê uma serpente e foge pálido. Heitor o repreende e lhe diz que os aqueus riem porque o tomavam por campeão pela beleza.

τὸν δʼ ὡς οὖν ἐνόησεν Ἀλέξανδρος θεοειδὴς / ἐν προμάχοισι φανέντα, κατεπλήγη φίλον ἦτορ, / ἂψ δʼ ἑτάρων εἰς ἔθνος ἐχάζετο κῆρʼ ἀλεείνων. (3.30-32), quando Alexandre, semelhante a um deus, o viu aparecer entre os combatentes da frente, abalou-se-lhe o coração, e ele recuou para o grupo dos companheiros, evitando a morte.
Canto III: O duelo de Páris e Menelau
ἦ που καγχαλόωσι κάρη κομόωντες Ἀχαιοὶ / φάντες ἀριστῆα πρόμον ἔμμεναι, οὕνεκα καλὸν / εἶδος ἔπʼ, ἀλλʼ οὐκ ἔστι βίη φρεσὶν οὐδέ τις ἀλκή. (3.43-45), sem dúvida riem às gargalhadas os aqueus de longas cabeleiras, que disseram ser tu o campeão da frente porque há em ti belo aspecto; mas não há força no ânimo nem coragem alguma.
Canto III: O duelo de Páris e Menelau

Páris reconhece a justiça da censura, mas pede que Heitor não lhe lance em rosto os dons de Afrodite. Em seguida propõe pôr a guerra no corpo de dois homens, ele e Menelau, a lutar por Helena e por todos os bens. Não propõe devolver Helena: propõe pô-la em jogo.

μή μοι δῶρʼ ἐρατὰ πρόφερε χρυσέης Ἀφροδίτης· / οὔ τοι ἀπόβλητʼ ἐστὶ θεῶν ἐρικυδέα δῶρα / ὅσσά κεν αὐτοὶ δῶσιν, ἑκὼν δʼ οὐκ ἄν τις ἕλοιτο· (3.64-66), não me lances em rosto os dons amáveis da áurea Afrodite; não são de rejeitar os dons gloriosos dos deuses, tudo o que eles mesmos concedem, e que por vontade própria ninguém obteria.
Canto III: O duelo de Páris e Menelau
αὐτὰρ ἔμʼ ἐν μέσσῳ καὶ ἀρηΐφιλον Μενέλαον / συμβάλετʼ ἀμφʼ Ἑλένῃ καὶ κτήμασι πᾶσι μάχεσθαι· / ὁππότερος δέ κε νικήσῃ κρείσσων τε γένηται, / κτήμαθʼ ἑλὼν εὖ πάντα γυναῖκά τε οἴκαδʼ ἀγέσθω· (3.69-72), mas põe-me no meio, a mim e a Menelau, caro a Ares, para combatermos por Helena e por todos os bens; e aquele que vencer e se mostrar mais forte, leve bem todos os bens e a mulher para casa.
Canto III: O duelo de Páris e Menelau

Armado com a couraça do irmão Licáone, lança primeiro, mas a ponta se entorta no escudo de Menelau. Menelau o agarra pelo elmo e o arrasta para os aqueus, a correia o sufoca, até que Afrodite a rompe e o elmo vem vazio na mão do vencedor. A deusa o arranca do campo, cobre-o de névoa e o deposita no quarto perfumado.

καί νύ κεν εἴρυσσέν τε καὶ ἄσπετον ἤρατο κῦδος, / εἰ μὴ ἄρʼ ὀξὺ νόησε Διὸς θυγάτηρ Ἀφροδίτη, / ἥ οἱ ῥῆξεν ἱμάντα βοὸς ἶφι κταμένοιο· / κεινὴ δὲ τρυφάλεια ἅμʼ ἕσπετο χειρὶ παχείῃ. (3.373-376), e o teria arrastado e ganho glória imensa, se Afrodite, filha de Zeus, não o tivesse percebido depressa: ela rompeu a correia, de couro de boi morto à força; e o elmo vazio veio com a mão robusta.
Canto III: O duelo de Páris e Menelau

Quando Helena chega e o censura, Páris responde que não o ferisse com insultos: Menelau venceu desta vez com a ajuda de Atena, e há deuses também para eles. Convida-a ao leito com uma declaração de desejo maior que a do rapto.

ἀλλʼ ἄγε δὴ φιλότητι τραπείομεν εὐνηθέντε· / οὐ γάρ πώ ποτέ μʼ ὧδέ γʼ ἔρως φρένας ἀμφεκάλυψεν, / οὐδʼ ὅτε σε πρῶτον Λακεδαίμονος ἐξ ἐρατεινῆς / ἔπλεον ἁρπάξας ἐν ποντοπόροισι νέεσσι, / νήσῳ δʼ ἐν Κραναῇ ἐμίγην φιλότητι καὶ εὐνῇ, / ὥς σεο νῦν ἔραμαι καί με γλυκὺς ἵμερος αἱρεῖ. (3.441-446), vamos, entreguemo-nos ao amor, deitados; pois nunca o desejo me cobriu assim os sentidos, nem quando, tendo-te arrebatado da amável Lacedemônia, naveguei nas naus que cruzam o mar, e na ilha de Cranae me uni a ti em amor e leito, como agora te desejo e me toma o doce anseio.
Canto III: O duelo de Páris e Menelau

No Canto IV, quando Zeus provoca Hera, lembra que Afrodite nunca larga Páris e que acaba de salvá-lo quando ele parecia perdido. No Canto V, o troiano Férecle, artesão que construiu para Páris as naus que foram o princípio do mal dos troianos, é morto por Meríones, e o poema diz que Atena o amava, mas ele não conhecia os decretos dos deuses.

No Canto VI, Heitor o encontra no quarto, polindo as armas, o escudo, a couraça e o arco recurvo, enquanto Helena dirige as servas. Heitor lhe diz que os homens morrem em volta da cidade por causa dele. Páris reconhece que a censura foi justa e explica que ficou no quarto não por ira contra os troianos, mas por tristeza, e que a mulher o animou com palavras brandas. Vai armar-se e alcança Heitor correndo, como um cavalo de estábulo que rompe a corda, de cabeça erguida e crinas ao vento.

λαοὶ μὲν φθινύθουσι περὶ πτόλιν αἰπύ τε τεῖχος / μαρνάμενοι· σέο δʼ εἵνεκʼ ἀϋτή τε πτόλεμός τε / ἄστυ τόδʼ ἀμφιδέδηε (6.327-329), os homens se consomem combatendo em torno da cidade e da muralha alta; é por tua causa que o grito e a guerra incendeiam esta cidade
Canto VI: Heitor e Andrômaca

No Canto VII, Páris volta à luta com Heitor e mata Menésio. Na assembleia troiana, Antenor propõe devolver Helena, e Páris responde a Antenor que, se fala sério, os deuses lhe tiraram o juízo: a mulher não devolverá, e os bens que trouxe de Argos, todos, e outros da casa dele, ele dá. Príamo manda a oferta como mensagem de Páris.

ἀντικρὺ δʼ ἀπόφημι γυναῖκα μὲν οὐκ ἀποδώσω· / κτήματα δʼ ὅσσʼ ἀγόμην ἐξ Ἄργεος ἡμέτερον δῶ / πάντʼ ἐθέλω δόμεναι καὶ οἴκοθεν ἄλλʼ ἐπιθεῖναι. (7.362-364), digo-te às claras: a mulher eu não devolverei; mas os bens que trouxe de Argos para a nossa casa, todos quero dar, e acrescentar outros de minha casa.
Canto VII: O duelo de Heitor e Ájax

No Canto VIII, Páris fere um dos cavalos de Nestor, e o velho fica preso em seus tirantes. No Canto XI, escondido atrás da estela do túmulo de Ilo, atira em Diomedes enquanto este despoja um morto e lhe fere o pé, rindo. Diomedes diz que a flecha de um arqueiro de cabelo penteado não lhe importa mais que o golpe de uma mulher ou de uma criança. Páris fere ainda o médico Macáon no ombro, e Nestor o leva às naus.

No Canto XIII, Heitor o acha à esquerda da luta lacrimosa, animando os companheiros, e o insulta: Dispáris, belo, doido por mulheres, enganador. Pergunta onde estão Deífobo, Heleno, Adamante, Ásio e Otrioneu. Páris responde que Heitor acusa o inocente, que a mãe não o gerou sem coragem, que desde que Heitor despertou a luta junto às naus eles combatem sem parar e que ninguém luta além do próprio poder. Heitor se deixa persuadir. Páris, irado com a morte de seu hóspede Harpalião, mata Eucenor, filho do adivinho Polído, que sabia da sorte e embarcou assim mesmo.

ὅς ῥʼ εὖ εἰδὼς κῆρʼ ὀλοὴν ἐπὶ νηὸς ἔβαινε· / πολλάκι γάρ οἱ ἔειπε γέρων ἀγαθὸς Πολύϊδος / νούσῳ ὑπʼ ἀργαλέῃ φθίσθαι οἷς ἐν μεγάροισιν, / ἢ μετʼ Ἀχαιῶν νηυσὶν ὑπὸ Τρώεσσι δαμῆναι· / τώ ῥʼ ἅμα τʼ ἀργαλέην θωὴν ἀλέεινεν Ἀχαιῶν / νοῦσόν τε στυγερήν, ἵνα μὴ πάθοι ἄλγεα θυμῷ. (13.665-670), que, sabendo bem a sorte funesta, subira ao navio; pois muitas vezes o bom velho Polído lhe dissera que ele morreria de doença penosa em seus próprios salões, ou seria abatido pelos troianos junto às naus dos aqueus; por isso evitou ao mesmo tempo a pesada multa dos aqueus e a doença odiosa, para não sofrer dores no coração.
Canto XIII: A batalha junto às naus

No Canto XV, mata Deíoco pelas costas, enquanto os troianos despojam os mortos.

No Canto XXII, Heitor, sozinho junto ao muro, imagina oferecer a Aquiles Helena, os bens que Páris levou para Troia e metade do que a cidade guarda, e descarta a ideia. Moribundo, Heitor avisa a Aquiles de que o dia em que Páris e Apolo o destruírem chegará às Portas Ceias.

No Canto XXIV, no começo do canto, o narrador diz que Hera, Poseidon e Atena continuam a odiar Troia desde que Páris ofendeu as deusas e preferiu a que lhe ofereceu o desejo. Príamo, ao expulsar os troianos do pórtico, grita contra os filhos que lhe restam, entre eles Páris, a quem chama de maus e envergonhados. Helena, no lamento, diz que o marido é Alexandre, de aspecto divino, que a trouxe a Troia, e deseja ter morrido antes.

Temas que encarna

Páris encarna a Guerra pela causa e não pelo combate: é o homem cuja escolha dá origem a ela, e que quase sempre foge de lutar. Encarna a Honra e reputação pelo avesso, na vergonha pública que Heitor quer corrigir e que ele aceita como justa. O Destino e livre-arbítrio aparece na frase em que ele diz que os dons dos deuses não se escolhem e na crença de que há deuses também para eles.

Páris diz a Heitor que os dons de Afrodite não são de rejeitar, e a frase tem duas leituras. Pode ser desculpa, que o livra da responsabilidade pela beleza que o levou aonde foi. Pode ser uma observação sobre os dons dos deuses, que ninguém obtém por querer, a mesma ideia que Príamo retoma ao atribuir a guerra aos deuses. O texto não escolhe. O que Heitor mede nele é o que os inimigos veem, a beleza sem força de ânimo. O que o próprio Páris mede é outra coisa: o desejo que ele diz nunca ter sentido tanto como no leito, depois de salvo por uma deusa, quando a cena corta para Menelau percorrendo as fileiras como uma fera. Também há dois Páris no poema, o do quarto e o que atira de trás da estela, e o poema não os reconcilia.

Relações

  • Helena: a mulher que levou a Troia, que o censura e a quem o desejo o chama de volta.
  • Menelau: o marido ofendido, que o arrasta pelo elmo no duelo e reza a Zeus para puni-lo por ter feito mal ao anfitrião.
  • Heitor: o irmão que o repreende por recuar, por ficar no quarto e por não aparecer, e que ouve dele a razão do quarto.
  • Príamo: o pai que transmite a oferta dele aos aqueus e o xinga no Canto XXIV.
  • Zeus: o deus que, no Canto IV, fala de Afrodite que nunca larga Páris.
  • Hera: a deusa que, no Canto XXIV, continua a odiar Troia desde que Páris ofendeu as deusas.
  • Aquiles: o guerreiro que Heitor diz que Páris e Apolo destruirão às Portas Ceias.
  • Afrodite: a deusa que o salva de Menelau e o põe no quarto.