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Personagem

Pátroclo

Quem é

Pátroclo é o companheiro mais querido de Aquiles, filho de Menécio e criado com ele na casa de Peleu. Os que o conhecem o descrevem como brando com todos, e é ele quem serve a mesa de Aquiles, leva os recados, cuida dos feridos com os remédios que Aquiles lhe ensinou e entrega Briseida aos arautos quando o chefe manda. Até o Canto XI ele aparece ao lado de um homem que não luta, e quase sempre calado. Nada o obriga a sair desse lugar além da compaixão, e é essa compaixão que o tira da tenda e o põe, com as armas de Aquiles, na frente de Troia. A morte dele muda a ira do poema, que deixa de ser contra Agamêmnon e passa a ser contra Heitor.

Trajetória

No Canto I, é pela mão de Pátroclo que Aquiles entrega Briseida aos arautos de Agamêmnon, sem resistir, depois de declará-los inocentes. O papel de Pátroclo fica marcado: executa a ordem de Aquiles, não a decide.

No Canto IX, quando a embaixada chega, Aquiles toca lira e canta feitos de homens, com Pátroclo sentado em silêncio diante dele. Aquiles manda que ele prepare vinho e carne para os visitantes. No fim da noite, faz a cama de Fênix e dorme do outro lado da tenda, com Ifis, que Aquiles lhe deu ao tomar Esciro.

No Canto XI, Aquiles vê da popa Nestor passar com um ferido e manda Pátroclo perguntar quem é. O narrador diz que ele saiu da tenda semelhante a Ares, e que aquele foi o começo do seu mal.

ὃ δὲ κλισίηθεν ἀκούσας / ἔκμολεν ἶσος Ἄρηϊ, κακοῦ δʼ ἄρα οἱ πέλεν ἀρχή. (11.603-604), e ele, ouvindo da tenda, saiu semelhante a Ares: e foi aquele o começo do seu mal.
Canto XI: A aristeia de Agamêmnon

Na tenda de Nestor, Pátroclo recusa sentar-se e diz que Aquiles é terrível e pode culpar quem não tem culpa. Nestor enumera os chefes feridos e lhe pergunta se Aquiles quer esperar que as naus ardam, e lembra o que Menécio lhe disse ao mandá-lo de Ftia: Aquiles é superior pela linhagem, mas Pátroclo é o mais velho e deve aconselhá-lo. Se Aquiles evita alguma profecia, que ao menos mande Pátroclo à frente dos mirmidões, com as belas armas dele, para que os troianos o tomem por Aquiles.

τέκνον ἐμὸν γενεῇ μὲν ὑπέρτερός ἐστιν Ἀχιλλεύς, / πρεσβύτερος δὲ σύ ἐσσι· βίῃ δʼ ὅ γε πολλὸν ἀμείνων. / ἀλλʼ εὖ οἱ φάσθαι πυκινὸν ἔπος ἠδʼ ὑποθέσθαι / καί οἱ σημαίνειν· ὃ δὲ πείσεται εἰς ἀγαθόν περ. (11.786-789), meu filho, Aquiles é superior pela linhagem, mas tu és o mais velho; ele é muito melhor em força. Mas fala-lhe bem, com palavra sensata, aconselha-o e indica-lhe o caminho; ele te obedecerá para o seu bem.
Canto XI: A aristeia de Agamêmnon
καί τοι τεύχεα καλὰ δότω πόλεμον δὲ φέρεσθαι, / αἴ κέ σε τῷ εἴσκοντες ἀπόσχωνται πολέμοιο / Τρῶες, ἀναπνεύσωσι δʼ ἀρήϊοι υἷες Ἀχαιῶν / τειρόμενοι· ὀλίγη δέ τʼ ἀνάπνευσις πολέμοιο. (11.798-801), e que ele te dê as belas armas para levares à guerra, na esperança de que os troianos, tomando-te por ele, se afastem do combate, e os belicosos filhos dos aqueus, exaustos, respirem; pequeno é o alívio na guerra.
Canto XI: A aristeia de Agamêmnon

Na volta, Pátroclo encontra Eurípilo ferido e manco, e a piedade o retém. Corta a flecha da coxa, lava o sangue e põe uma raiz amarga que estanca a dor. Diz que levará a Aquiles a palavra de Nestor, mas que nem assim abandonará quem sofre. A mensagem fica por entregar.

ἔρχομαι ὄφρʼ Ἀχιλῆϊ δαΐφρονι μῦθον ἐνίσπω / ὃν Νέστωρ ἐπέτελλε Γερήνιος οὖρος Ἀχαιῶν· / ἀλλʼ οὐδʼ ὧς περ σεῖο μεθήσω τειρομένοιο. (11.839-841), vou levar a Aquiles, de ânimo aguerrido, a palavra que Nestor de Gerena, guardião dos aqueus, me encomendou; mas nem assim te abandonarei, a ti que estás em sofrimento.
Canto XI: A aristeia de Agamêmnon

No Canto XV, vendo os troianos escalarem o muro e ouvindo o clamor dos dânaos em fuga, Pátroclo geme, bate nas coxas e diz a Eurípilo que não pode ficar: vai a Aquiles, e quem sabe, com a ajuda de um deus, lhe agite o ânimo, pois a persuasão de um companheiro é boa.

σπεύσομαι εἰς Ἀχιλῆα, ἵνʼ ὀτρύνω πολεμίζειν. / τίς δʼ οἶδʼ εἴ κέν οἱ σὺν δαίμονι θυμὸν ὀρίνω / παρειπών; ἀγαθὴ δὲ παραίφασίς ἐστιν ἑταίρου. (15.402-404), eu me apressarei até Aquiles, para o incitar a combater. Quem sabe se, com a ajuda de um deus, eu lhe agite o ânimo, persuadindo-o? Boa é a persuasão de um companheiro.
Canto XV: Os troianos nas naus

No Canto XVI, Pátroclo chega a Aquiles chorando, e Aquiles o compara a uma menina que pede colo à mãe. Pátroclo enumera os chefes feridos e acusa Aquiles de impiedoso, como se o mar e os rochedos o tivessem gerado, e pede duas coisas: ir à frente dos mirmidões e vestir as armas dele. O narrador comenta que, pedindo assim, ele pede a própria morte.

νηλεές, οὐκ ἄρα σοί γε πατὴρ ἦν ἱππότα Πηλεύς, / οὐδὲ Θέτις μήτηρ· γλαυκὴ δέ σε τίκτε θάλασσα / πέτραι τʼ ἠλίβατοι, ὅτι τοι νόος ἐστὶν ἀπηνής. (16.33-35), impiedoso! Então teu pai não era o cavaleiro Peleu, nem Tétis tua mãe: o mar glauco te gerou, e os rochedos escarpados, pois o teu espírito é duro.
Canto XVI: A morte de Pátroclo
δὸς δέ μοι ὤμοιιν τὰ σὰ τεύχεα θωρηχθῆναι, / αἴ κʼ ἐμὲ σοὶ ἴσκοντες ἀπόσχωνται πολέμοιο / Τρῶες, ἀναπνεύσωσι δʼ Ἀρήϊοι υἷες Ἀχαιῶν (16.40-42), dá-me as tuas armas para vestir nos ombros, na esperança de que os troianos, tomando-me por ti, se afastem da guerra e os belicosos filhos dos aqueus recobrem o fôlego,
Canto XVI: A morte de Pátroclo
ὣς φάτο λισσόμενος μέγα νήπιος· ἦ γὰρ ἔμελλεν / οἷ αὐτῷ θάνατόν τε κακὸν καὶ κῆρα λιτέσθαι. (16.46-47), assim falou, suplicando, o grande insensato: pois ele ia pedir para si mesmo a morte funesta e o fado.
Canto XVI: A morte de Pátroclo

Aquiles cede e põe um limite: Pátroclo deve voltar quando as naus estiverem livres, e não ir adiante nem que Zeus lhe dê glória, para não ser menos honrado e para que Apolo, que ama os troianos, não intervenha. Pátroclo veste tudo, menos a lança de freixo que só Aquiles maneja, e sai à frente dos mirmidões. Os troianos, ao verem as armas, supõem que Aquiles largou a ira, e cada um procura por onde fugir. Pátroclo lança primeiro, apaga o fogo da nau e persegue os fugitivos. Mata o escudeiro de Sarpédon e atinge Sarpédon no coração. Zeus o deixa matar o filho dele porque Hera lhe lembra que os outros deuses também têm filhos na guerra.

ἐκ νηῶν ἐλάσας ἰέναι πάλιν· εἰ δέ κεν αὖ τοι / δώῃ κῦδος ἀρέσθαι ἐρίγδουπος πόσις Ἥρης, / μὴ σύ γʼ ἄνευθεν ἐμεῖο λιλαίεσθαι πολεμίζειν (16.87-89), depois de os expulsares das naus, volta atrás; e se o marido de Hera, de trovão forte, te der a glória da vitória, não queiras combater longe de mim
Canto XVI: A morte de Pátroclo

Quando Zeus faz Heitor fugir, o narrador comenta o erro de Pátroclo: se tivesse guardado a palavra de Aquiles, teria escapado da má sorte, mas a mente de Zeus é mais forte que a dos homens, e foi ele que então lhe soltou o ânimo. Pátroclo chega ao muro de Troia e sobe no ângulo três vezes, e três vezes Apolo o empurra. Na quarta, o deus lhe diz que o destino não quer que Troia caia pela lança dele nem pela de Aquiles, e Pátroclo recua. Mata Cebríones com uma pedra e zomba dele como de um mergulhador. Ainda se lança três vezes, matando nove homens a cada uma.

καὶ μέγʼ ἀάσθη / νήπιος· εἰ δὲ ἔπος Πηληϊάδαο φύλαξεν / ἦ τʼ ἂν ὑπέκφυγε κῆρα κακὴν μέλανος θανάτοιο. / ἀλλʼ αἰεί τε Διὸς κρείσσων νόος ἠέ περ ἀνδρῶν· / ὅς τε καὶ ἄλκιμον ἄνδρα φοβεῖ καὶ ἀφείλετο νίκην / ῥηϊδίως, ὅτε δʼ αὐτὸς ἐποτρύνῃσι μάχεσθαι· / ὅς οἱ καὶ τότε θυμὸν ἐνὶ στήθεσσιν ἀνῆκεν. (16.685-691), e cometeu um grande desvario, o insensato: se tivesse guardado a palavra do filho de Peleu, teria escapado da má sorte da negra morte. Mas a mente de Zeus é sempre mais forte que a dos homens: ele faz fugir até o homem valente e lhe tira a vitória com facilidade, e outras vezes é ele próprio quem o incita a lutar; foi ele que então lhe soltou o ânimo no peito.
Canto XVI: A morte de Pátroclo
τρὶς μὲν ἐπʼ ἀγκῶνος βῆ τείχεος ὑψηλοῖο / Πάτροκλος, τρὶς δʼ αὐτὸν ἀπεστυφέλιξεν Ἀπόλλων / χείρεσσʼ ἀθανάτῃσι φαεινὴν ἀσπίδα νύσσων. / ἀλλʼ ὅτε δὴ τὸ τέταρτον ἐπέσσυτο δαίμονι ἶσος, / δεινὰ δʼ ὁμοκλήσας ἔπεα πτερόεντα προσηύδα· / χάζεο διογενὲς Πατρόκλεες· οὔ νύ τοι αἶσα / σῷ ὑπὸ δουρὶ πόλιν πέρθαι Τρώων ἀγερώχων, / οὐδʼ ὑπʼ Ἀχιλλῆος, ὅς περ σέο πολλὸν ἀμείνων. (16.702-709), três vezes Pátroclo subiu no ângulo da alta muralha, e três vezes Apolo o empurrou para trás, golpeando o escudo luzente com as mãos imortais. Mas quando, pela quarta vez, ele se lançou semelhante a um deus, o deus lhe dirigiu, com um grito terrível, palavras aladas: "recua, Pátroclo de linhagem divina! O destino não quer que a cidade dos altivos troianos seja destruída pela tua lança, nem pela de Aquiles, que é muito melhor que tu."
Canto XVI: A morte de Pátroclo

Na quarta investida, Apolo, coberto de névoa, lhe bate nas costas com a mão aberta. Os olhos de Pátroclo giram, o elmo cai e rola sob os cascos, a lança se parte, o escudo desce ao chão e o deus solta a couraça. Atônito, Pátroclo é ferido por trás por Euforbo, que foge sem enfrentá-lo desarmado. Heitor, vendo-o ferido, aproxima-se e o atinge no baixo-ventre.

στῆ δʼ ὄπιθεν, πλῆξεν δὲ μετάφρενον εὐρέε τʼ ὤμω / χειρὶ καταπρηνεῖ, στρεφεδίνηθεν δέ οἱ ὄσσε. / τοῦ δʼ ἀπὸ μὲν κρατὸς κυνέην βάλε Φοῖβος Ἀπόλλων· (16.791-793), pôs-se atrás dele e golpeou-lhe as costas e os largos ombros com a mão aberta, e seus olhos giraram. E da cabeça dele Febo Apolo derrubou o elmo;
Canto XVI: A morte de Pátroclo
πάρος γε μὲν οὐ θέμις ἦεν / ἱππόκομον πήληκα μιαίνεσθαι κονίῃσιν, / ἀλλʼ ἀνδρὸς θείοιο κάρη χαρίεν τε μέτωπον / ῥύετʼ Ἀχιλλῆος· τότε δὲ Ζεὺς Ἕκτορι δῶκεν / ᾗ κεφαλῇ φορέειν, σχεδόθεν δέ οἱ ἦεν ὄλεθρος. (16.796-800), antes não era permitido que o elmo de crina de cavalo se sujasse de poeira; ele protegia a cabeça e a fronte graciosa do homem divino, Aquiles. Naquele momento, porém, Zeus o deu a Heitor para levar na cabeça, e a ruína lhe estava próxima.
Canto XVI: A morte de Pátroclo

Moribundo, Pátroclo responde à zombaria de Heitor: foram Zeus e Apolo que o venceram, vinte como Heitor teriam morrido na lança dele, e Heitor o despoja em terceiro lugar, depois da Moira e de Euforbo. E profetiza que Heitor morrerá logo, pelas mãos de Aquiles. A alma voa para o Hades chorando o destino e deixando o vigor e a juventude. Heitor responde que quem sabe se não será Aquiles o primeiro a perder a vida.

ἤδη νῦν Ἕκτορ μεγάλʼ εὔχεο· σοὶ γὰρ ἔδωκε / νίκην Ζεὺς Κρονίδης καὶ Ἀπόλλων, οἵ με δάμασσαν / ῥηιδίως· αὐτοὶ γὰρ ἀπʼ ὤμων τεύχεʼ ἕλοντο. / τοιοῦτοι δʼ εἴ πέρ μοι ἐείκοσιν ἀντεβόλησαν, / πάντές κʼ αὐτόθʼ ὄλοντο ἐμῷ ὑπὸ δουρὶ δαμέντες. / ἀλλά με μοῖρʼ ὀλοὴ καὶ Λητοῦς ἔκτανεν υἱός, / ἀνδρῶν δʼ Εὔφορβος· σὺ δέ με τρίτος ἐξεναρίζεις. (16.844-850), agora, Heitor, vangloria-te à vontade: foi a ti que Zeus Cronida e Apolo deram a vitória, eles que me dominaram com facilidade, pois foram eles mesmos que me tiraram as armas dos ombros. Se vinte como tu me tivessem enfrentado, todos teriam morrido aqui, vencidos pela minha lança. Mas a Moira funesta me matou, e o filho de Leto, e entre os homens Euforbo; tu me despojas em terceiro lugar.
Canto XVI: A morte de Pátroclo
ἄλλο δέ τοι ἐρέω, σὺ δʼ ἐνὶ φρεσὶ βάλλεο σῇσιν· / οὔ θην οὐδʼ αὐτὸς δηρὸν βέῃ, ἀλλά τοι ἤδη / ἄγχι παρέστηκεν θάνατος καὶ μοῖρα κραταιὴ / χερσὶ δαμέντʼ Ἀχιλῆος ἀμύμονος Αἰακίδαο. (16.851-854), direi ainda outra coisa, e guarda-a no teu espírito: tu mesmo não viverás muito tempo; já se acha perto de ti a morte e o destino poderoso, que te dominará pelas mãos de Aquiles, o irrepreensível Eácida.
Canto XVI: A morte de Pátroclo

No Canto XVII, o corpo é o centro da luta. Menelau se põe sobre ele como uma vaca sobre o bezerro, mata Euforbo e manda Antíloco levar a notícia a Aquiles e pede aos Ájax e a Meríones que lembrem a doçura de Pátroclo, que era brando com todos. Heitor o despe e quer decapitá-lo para dar o corpo aos cães troianos. Zeus cobre a luta de névoa porque não odiava o filho de Menécio enquanto vivo, escudeiro de Aquiles, e detesta que ele vire presa dos cães. Aquiles, longe, ainda não sabe, e espera Pátroclo de volta vivo.

ἀμφὶ δʼ ἄρʼ αὐτῷ βαῖνʼ ὥς τις περὶ πόρτακι μήτηρ / πρωτοτόκος κινυρὴ οὐ πρὶν εἰδυῖα τόκοιο· / ὣς περὶ Πατρόκλῳ βαῖνε ξανθὸς Μενέλαος. (17.4-6), em volta dele andava, como uma mãe em torno do bezerrinho, gemendo, de primeira cria, que não conhecera parto antes; assim em volta de Pátroclo andava o loiro Menelau.
Canto XVII: A luta pelo corpo de Pátroclo
Ἕκτωρ μὲν Πάτροκλον ἐπεὶ κλυτὰ τεύχεʼ ἀπηύρα, / ἕλχʼ ἵνʼ ἀπʼ ὤμοιιν κεφαλὴν τάμοι ὀξέϊ χαλκῷ, / τὸν δὲ νέκυν Τρῳῇσιν ἐρυσσάμενος κυσὶ δοίη. (17.125-127), Heitor, depois de lhe tirar as armas gloriosas, arrastava-o para cortar-lhe a cabeça dos ombros com o bronze afiado e, puxando o cadáver, entregá-lo aos cães de Troia.
Canto XVII: A luta pelo corpo de Pátroclo
ἐπεὶ οὐδὲ Μενοιτιάδην ἔχθαιρε πάρος γε, / ὄφρα ζωὸς ἐὼν θεράπων ἦν Αἰακίδαο· / μίσησεν δʼ ἄρα μιν δηΐων κυσὶ κύρμα γενέσθαι / Τρῳῇσιν· τὼ καί οἱ ἀμυνέμεν ὦρσεν ἑταίρους. (17.270-273), pois o Cronida não odiava o filho de Menécio antes, enquanto vivo era escudeiro do Eácida; e agora detestou que ele se tornasse presa dos cães inimigos de Troia; por isso incitou os companheiros a defendê-lo.
Canto XVII: A luta pelo corpo de Pátroclo

No Canto XVIII, Antíloco entrega a Aquiles a morte, o corpo nu e as armas nas mãos de Heitor. Aquiles diz à mãe que quer morrer já, porque não socorreu o companheiro, e promete não sepultar Pátroclo antes de trazer as armas e a cabeça de Heitor e de degolar doze filhos de troianos. Os aqueus lavam o corpo, ungem as feridas e o cobrem de linho, e os mirmidões gemem a noite toda.

κεῖται Πάτροκλος, νέκυος δὲ δὴ ἀμφιμάχονται / γυμνοῦ· ἀτὰρ τά γε τεύχεʼ ἔχει κορυθαίολος Ἕκτωρ. / ὣς φάτο, τὸν δʼ ἄχεος νεφέλη ἐκάλυψε μέλαινα (18.20-22), Pátroclo jaz, e em volta do corpo nu os homens lutam; e as armas, quem as tem é Heitor, do elmo faiscante. Assim falou, e uma nuvem negra de dor cobriu Aquiles.
Canto XVIII: O escudo de Aquiles
νῦν δʼ ἐπεὶ οὖν Πάτροκλε σεῦ ὕστερος εἶμʼ ὑπὸ γαῖαν, / οὔ σε πρὶν κτεριῶ πρίν γʼ Ἕκτορος ἐνθάδʼ ἐνεῖκαι / τεύχεα καὶ κεφαλὴν μεγαθύμου σοῖο φονῆος· / δώδεκα δὲ προπάροιθε πυρῆς ἀποδειροτομήσω / Τρώων ἀγλαὰ τέκνα σέθεν κταμένοιο χολωθείς (18.333-337), Mas agora, Pátroclo, já que irei para debaixo da terra depois de ti, não te farei as exéquias antes de trazer aqui as armas e a cabeça de Heitor, o teu magnânimo matador; e diante da pira cortarei a garganta de doze brilhantes filhos de troianos, irado por teres sido morto.
Canto XVIII: O escudo de Aquiles

No Canto XIX, Briseida chora Pátroclo: o homem que não a deixava chorar quando Aquiles matou o marido e saqueou a cidade, e que prometia fazê-la esposa legítima e levá-la à Ftia. Ela o chora porque ele sempre foi gentil. Aquiles recusa comer enquanto o corpo jaz na tenda e diz que nem a morte do pai seria pior.

οὐδὲ μὲν οὐδέ μʼ ἔασκες, ὅτʼ ἄνδρʼ ἐμὸν ὠκὺς Ἀχιλλεὺς / ἔκτεινεν, πέρσεν δὲ πόλιν θείοιο Μύνητος, / κλαίειν, ἀλλά μʼ ἔφασκες Ἀχιλλῆος θείοιο / κουριδίην ἄλοχον θήσειν, ἄξειν τʼ ἐνὶ νηυσὶν / ἐς Φθίην, δαίσειν δὲ γάμον μετὰ Μυρμιδόνεσσι. / τώ σʼ ἄμοτον κλαίω τεθνηότα μείλιχον αἰεί (19.295-300), E nem me deixavas chorar, quando o veloz Aquiles matou meu marido e saqueou a cidade do divino Mines, mas dizias que me farias esposa legítima do divino Aquiles, que me levarias nas naus à Ftia e celebrarias as bodas entre os mirmidões. Por isso choro sem cessar a ti, morto, tão gentil.
Canto XIX: O fim da ira
αὐτὰρ ἐμὸν κῆρ / ἄκμηνον πόσιος καὶ ἐδητύος, ἔνδον ἐόντων, / σῇ ποθῇ· οὐ μὲν γάρ τι κακώτερον ἄλλο πάθοιμι, / οὐδʼ εἴ κεν τοῦ πατρὸς ἀποφθιμένοιο πυθοίμην, / ὅς που νῦν Φθίηφι τέρεν κατὰ δάκρυον εἴβει / χήτεϊ τοιοῦδʼ υἷος· ὃ δʼ ἀλλοδαπῷ ἐνὶ δήμῳ / εἵνεκα ῥιγεδανῆς Ἑλένης Τρωσὶν πολεμίζω (19.319-325), mas meu coração fica em jejum de bebida e comida, embora haja de sobra dentro, por saudade de ti; pois nenhum mal pior eu poderia sofrer, nem se soubesse da morte de meu pai, que talvez agora, na Ftia, derrame tenras lágrimas por falta de um filho assim, enquanto eu, em povo estrangeiro, por causa da odiosa Helena combato os troianos;
Canto XIX: O fim da ira

No Canto XXI, Aquiles usa a morte de Pátroclo como razão para negar piedade a um suplicante: Pátroclo, muito melhor, morreu. No Canto XXII, no meio do plano de assalto, Aquiles se interrompe: o corpo de Pátroclo jaz sem pranto e sem sepultura, e ele o lembrará enquanto viver e mesmo no Hades.

ἀλλὰ τί ἤ μοι ταῦτα φίλος διελέξατο θυμός; / κεῖται πὰρ νήεσσι νέκυς ἄκλαυτος ἄθαπτος / Πάτροκλος· τοῦ δʼ οὐκ ἐπιλήσομαι, ὄφρʼ ἂν ἔγωγε / ζωοῖσιν μετέω καί μοι φίλα γούνατʼ ὀρώρῃ· / εἰ δὲ θανόντων περ καταλήθοντʼ εἰν Ἀΐδαο / αὐτὰρ ἐγὼ καὶ κεῖθι φίλου μεμνήσομʼ ἑταίρου. (22.385-390), mas por que meu ânimo discute isso comigo? Junto às naus jaz um morto sem pranto e sem sepultura, Pátroclo; eu não o esquecerei enquanto estiver entre os vivos e meus joelhos se moverem. E se na casa de Hades os mortos se esquecem, mesmo lá eu me lembrarei do companheiro querido.
Canto XXII: A morte de Heitor

No Canto XXIII, a morte vira rito. Aquiles chora de carro em volta do corpo e lhe promete arrastar Heitor e degolar doze troianos. Pátroclo lhe aparece em sonho, igual a ele no tamanho, nos olhos, na voz e nas roupas, e reclama que foi esquecido, pede o enterro para passar as portas do Hades, pede a mão e pede uma urna comum para os ossos dos dois, a ânfora de ouro que a mãe de Aquiles lhe deu. Aquiles tenta o abraço, e a imagem desce como fumaça, guinchando. Aquiles corta o cabelo que o pai prometera a um rio e o põe na mão do morto. A pira recebe quatro cavalos, dois cães e doze troianos, e os jogos que se seguem são em honra dele.

πάντα γὰρ ἤδη τοι τελέω τὰ πάροιθεν ὑπέστην / Ἕκτορα δεῦρʼ ἐρύσας δώσειν κυσὶν ὠμὰ δάσασθαι, / δώδεκα δὲ προπάροιθε πυρῆς ἀποδειροτομήσειν / Τρώων ἀγλαὰ τέκνα σέθεν κταμένοιο χολωθείς. (23.20-23), pois já cumpro tudo o que antes prometi: arrastar Heitor para cá e dá-lo cru aos cães, e degolar diante da pira doze nobres filhos de troianos, irado por tua morte.
Canto XXIII: Os jogos fúnebres
ἦλθε δʼ ἐπὶ ψυχὴ Πατροκλῆος δειλοῖο / πάντʼ αὐτῷ μέγεθός τε καὶ ὄμματα κάλʼ ἐϊκυῖα / καὶ φωνήν, καὶ τοῖα περὶ χροῒ εἵματα ἕστο· (23.65-67), veio a alma do infeliz Pátroclo, em tudo igual a ele, no tamanho, nos belos olhos e na voz, e com as mesmas roupas sobre o corpo.
Canto XXIII: Os jogos fúnebres
καί μοι δὸς τὴν χεῖρʼ· ὀλοφύρομαι, οὐ γὰρ ἔτʼ αὖτις / νίσομαι ἐξ Ἀΐδαο, ἐπήν με πυρὸς λελάχητε. (23.75-76), e dá-me a mão; lamento-me, pois não voltarei mais do Hades, depois que me derem a parte do fogo.
Canto XXIII: Os jogos fúnebres
ὣς δὲ καὶ ὀστέα νῶϊν ὁμὴ σορὸς ἀμφικαλύπτοι / χρύσεος ἀμφιφορεύς, τόν τοι πόρε πότνια μήτηρ. (23.91-92), assim também uma só urna cubra os ossos dos dois, a ânfora de ouro que a senhora tua mãe te deu.
Canto XXIII: Os jogos fúnebres
νῦν δʼ ἐπεὶ οὐ νέομαί γε φίλην ἐς πατρίδα γαῖαν / Πατρόκλῳ ἥρωϊ κόμην ὀπάσαιμι φέρεσθαι. (23.150-151), agora, já que não voltarei à querida terra pátria, ao herói Pátroclo darei a cabeleira para levar.
Canto XXIII: Os jogos fúnebres

No Canto XXIV, Aquiles chora o amigo na noite sem sono e arrasta o corpo de Heitor em volta do túmulo dele. Na tenda, quando chora com Príamo, chora o pai e, por vezes, Pátroclo. Ao erguer o corpo de Heitor, chama Pátroclo e lhe pede que não se zangue se souber, no Hades, que devolveu Heitor ao pai.

τὼ δὲ μνησαμένω ὃ μὲν Ἕκτορος ἀνδροφόνοιο / κλαῖʼ ἁδινὰ προπάροιθε ποδῶν Ἀχιλῆος ἐλυσθείς, / αὐτὰρ Ἀχιλλεὺς κλαῖεν ἑὸν πατέρʼ, ἄλλοτε δʼ αὖτε / Πάτροκλον· τῶν δὲ στοναχὴ κατὰ δώματʼ ὀρώρει. (24.509-512), e os dois, lembrando-se: um, de Heitor matador de homens, chorava sem parar, prostrado diante dos pés de Aquiles; Aquiles, por sua vez, chorava o pai, e outras vezes Pátroclo; o gemido deles ressoava pela casa.
Canto XXIV: O resgate de Heitor

Temas que encarna

Pátroclo encarna a Compaixão e caridade: é a piedade pelos feridos e pelos aqueus em perigo que o tira da tenda no Canto XI e no Canto XV. Encarna a Perda e luto, porque a morte dele é a perda que desvia a ira e a que cobra do amigo a vida e o corpo de um inimigo. Encarna a Morte no mais íntimo, na sombra que pede a mão, e o Destino e livre-arbítrio pelo modo como o texto lê o erro dele, que é ao mesmo tempo escolha dele e ânimo solto por Zeus. A Honra e reputação está no limite que Aquiles lhe põe, fundado na honra do próprio Aquiles, e a Guerra o cobra com o corpo disputado no Canto XVII.

Pátroclo é, nos cantos em que aparece, quem olha para o sofrimento dos outros e age. O texto mostra três camadas na morte dele: o destino e Apolo, depois Euforbo, depois Heitor, e é o próprio Pátroclo quem as enumera. A causa do erro também é dupla. O narrador diz que ele não guardou a palavra de Aquiles e, no mesmo passo, que Zeus lhe soltou o ânimo. O texto não separa as duas coisas. O que dá à morte dele o peso que tem é que tudo o que o leva até lá é cuidado: pelos feridos, pelos aqueus, por Aquiles. No sonho, o que Pátroclo cobra de Aquiles é o esquecimento, e o que pede é a mão, a urna e o enterro.

Relações

  • Aquiles: o amigo de quem ele é o executor e a quem pede as armas, cujo limite ouve e cuja ira muda por causa da morte dele.
  • Heitor: o troiano que o mata, o despoja e quer decapitá-lo, e a quem Pátroclo profetiza a morte.
  • Nestor: o ancião que lhe lembra o conselho de Menécio e propõe as armas de Aquiles como respiro.
  • Apolo: o deus que o repele três vezes no muro e o desarma por trás.
  • Zeus: o deus que lhe solta o ânimo no peito e que, depois da morte, não quer o corpo entregue aos cães.
  • Menelau: o aliado que se põe sobre o corpo e manda a notícia a Aquiles.
  • Ájax: o guerreiro que, com Menelau, protege a retirada do corpo.
  • Briseida: a cativa que o chora no Canto XIX e que ele havia prometido fazer esposa de Aquiles.
  • Euforbo: o troiano que o fere por trás, depois que Apolo o desarma.