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Símbolo

As folhas

O que é

As folhas são a imagem com que Glauco responde, no Canto VI, à pergunta de Diomedes sobre a sua linhagem: a geração dos homens é como a das folhas, que o vento derruba no chão e a mata verdejante faz brotar de novo quando chega a primavera. Apolo devolve a imagem, em outro tom, no Canto XXI, ao recusar uma briga entre deuses por causa de mortais, que ele chama de semelhantes às folhas, ora ardendo em pleno vigor, ora murchando sem vida.

Onde aparece

No Canto VI, Diomedes e Glauco avançam um contra o outro entre as duas linhas. Diomedes nunca viu o adversário em batalha e se admira de que ele tenha esperado a sua lança. Pergunta quem é, e põe uma condição:

εἰ δέ τις ἀθανάτων γε κατʼ οὐρανοῦ εἰλήλουθας, / οὐκ ἂν ἔγωγε θεοῖσιν ἐπουρανίοισι μαχοίμην. (6.128-129), e se és algum dos imortais, descido do céu, eu não lutaria contra deuses celestes.
Canto VI: Heitor e Andrômaca

Glauco responde com a imagem:

οἵη περ φύλλων γενεὴ τοίη δὲ καὶ ἀνδρῶν. / φύλλα τὰ μέν τʼ ἄνεμος χαμάδις χέει, ἄλλα δέ θʼ ὕλη / τηλεθόωσα φύει, ἔαρος δʼ ἐπιγίγνεται ὥρη· / ὣς ἀνδρῶν γενεὴ ἣ μὲν φύει ἣ δʼ ἀπολήγει. (6.146-149), tal como é a geração das folhas, assim é a dos homens. As folhas, umas o vento derruba no chão, outras a mata verdejante faz brotar, quando chega a estação da primavera; assim a geração dos homens: uma nasce, outra se acaba.
Canto VI: Heitor e Andrômaca

E não se cala depois dela. Conta a genealogia inteira, de Sísifo a Belerofonte, com a mulher que o desejou em segredo e mentiu ao marido, a tabuinha de sinais mortais, a Quimera, os sólimos e as amazonas, até a ordem que o pai lhe deu ao mandá-lo a Troia:

πέμπε δέ μʼ ἐς Τροίην, καί μοι μάλα πόλλʼ ἐπέτελλεν / αἰὲν ἀριστεύειν καὶ ὑπείροχον ἔμμεναι ἄλλων, / μηδὲ γένος πατέρων αἰσχυνέμεν (6.207-209), e me enviou a Troia e muito me recomendou: ser sempre o melhor, superior aos outros, e não envergonhar a linhagem dos pais
Canto VI: Heitor e Andrômaca

Diomedes se alegra, finca a lança na terra e descobre que os avós foram hóspedes. Os dois trocam de armas, e o narrador comenta o negócio:

ἔνθʼ αὖτε Γλαύκῳ Κρονίδης φρένας ἐξέλετο Ζεύς, / ὃς πρὸς Τυδεΐδην Διομήδεα τεύχεʼ ἄμειβε / χρύσεα χαλκείων, ἑκατόμβοιʼ ἐννεαβοίων. (6.234-236), então Zeus Crônida tirou o juízo de Glauco, que trocou com Diomedes, filho de Tideu, armas de ouro por armas de bronze, o valor de cem bois pelo de nove.
Canto VI: Heitor e Andrômaca

A imagem tem eco no Canto XII, dito sem folhas. Glauco e Sarpédon, descendentes do mesmo Belerofonte no Canto VI, falam da honra da Lícia diante da muralha dos aqueus:

ὦ πέπον εἰ μὲν γὰρ πόλεμον περὶ τόνδε φυγόντε / αἰεὶ δὴ μέλλοιμεν ἀγήρω τʼ ἀθανάτω τε / ἔσσεσθʼ, οὔτέ κεν αὐτὸς ἐνὶ πρώτοισι μαχοίμην / οὔτέ κε σὲ στέλλοιμι μάχην ἐς κυδιάνειραν· / νῦν δʼ ἔμπης γὰρ κῆρες ἐφεστᾶσιν θανάτοιο / μυρίαι, ἃς οὐκ ἔστι φυγεῖν βροτὸν οὐδʼ ὑπαλύξαι, / ἴομεν ἠέ τῳ εὖχος ὀρέξομεν ἠέ τις ἡμῖν. (12.322-328), meu caro, se, fugindo desta guerra, devêssemos ser para sempre sem velhice e imortais, eu mesmo não lutaria entre os primeiros nem te mandaria ao combate que dá glória aos homens; mas agora, de qualquer modo, as Queres da morte estão sobre nós, incontáveis, e nenhum mortal pode fugir delas ou escapar. Vamos, ou daremos glória a alguém, ou alguém a nós.
Canto XII: O assalto à muralha

No Canto XX, a linhagem volta como assunto de deus. Eneias recita a sua genealogia desde Dárdano antes de lutar com Aquiles, e Poseidon, que o salva, explica por quê:

μόριμον δέ οἵ ἐστʼ ἀλέασθαι, / ὄφρα μὴ ἄσπερμος γενεὴ καὶ ἄφαντος ὄληται (20.302-303), mas é fadado que ele escape, para que a linhagem de Dárdano não pereça sem semente e sem rastro.
Canto XX: A batalha dos deuses

No Canto XXI, Aquiles aplica a lei mais geral a um suplicante, Licáone, sem usar a imagem:

ἀλλὰ φίλος θάνε καὶ σύ· τί ἦ ὀλοφύρεαι οὕτως; / κάτθανε καὶ Πάτροκλος, ὅ περ σέο πολλὸν ἀμείνων. (21.106-107), Mas, amigo, morre também tu: por que te lamentas assim? Morreu também Pátroclo, que era muito melhor do que tu.
Canto XXI: Aquiles e o rio

E quando Poseidon desafia Apolo a lutar, é Apolo quem usa a imagem das folhas:

δειλῶν, οἳ φύλλοισιν ἐοικότες ἄλλοτε μέν τε / ζαφλεγέες τελέθουσιν ἀρούρης καρπὸν ἔδοντες, / ἄλλοτε δὲ φθινύθουσιν ἀκήριοι. (21.464-466), mortais miseráveis, que, semelhantes às folhas, ora ardem em pleno vigor, comendo o fruto da terra, ora murcham sem vida.
Canto XXI: Aquiles e o rio

Logo depois, o mesmo Apolo entra em Troia por cuidado com a muralha, tira Agenor da luta e toma a forma dele, de modo que Aquiles o persegue pelo campo de trigo até o Escamandro enquanto os outros troianos correm para a cidade.

O que significa

A imagem diz que as gerações passam sem poupar nenhuma, e cada falante a aplica a seu modo. Glauco a diz a quem quer saber de onde ele vem, e as duas leituras convivem: resignação diante de uma ordem que renova as gerações sem poupar ninguém, ou cortesia de quem abre a fala com o tamanho da questão antes de dar o nome dos pais. Apolo a diz de cima, e sem cortesia: criaturas que florescem e murcham não valem a briga com um tio. O texto dá ainda outra razão, a vergonha de enfrentar o irmão do pai.

Os dois usos têm uma ironia em comum, porque quem diz a imagem a desmente no gesto seguinte. Glauco, que reduz as gerações a folhas, recita a genealogia inteira e termina na ordem de ser sempre o melhor e de não envergonhar os antepassados. Apolo, que reduz os mortais a folhas, corre a proteger a muralha, Agenor e a cidade, e engana Aquiles. O desprezo dito e o cuidado feito não coincidem, e o canto não escolhe entre os dois.

O poema, aliás, trata a linhagem como coisa séria. Poseidon salva Eneias para que a linhagem de Dárdano não pereça sem semente e sem rastro, e no Canto VI o próprio Heitor reza para que o filho seja melhor que o pai e reine em Ílion, no mesmo canto em que diz saber que Ílion será destruída.

As folhas são a imagem que os mortais usam para dizer o que sabem de si e que os deuses usam para dizer o que pensam deles, e em ambos os casos o poema coloca a ação ao lado da frase. A frase diz que a geração passa; a ação mostra Glauco falando de Belerofonte e de Sísifo, Eneias de Dárdano, Apolo de uma muralha. A imagem não dispensa a linhagem, só a põe na escala da floresta, e é daí que vem a força dela: uma folha não sabe de que árvore caiu, e esses homens sabem.

Relações