Clavis Libri

Símbolo

A balança de Zeus

O que é

A balança de Zeus é a balança de ouro em que o pai dos deuses pesa as Queres, as sortes de morte, de dois lados em guerra. O poema a mostra em ação duas vezes, e as duas vezes o prato que desce é o do lado cujo dia fatal chegou: ao meio-dia do Canto VIII, para os dois exércitos, e na quarta volta da perseguição do Canto XXII, para Aquiles e Heitor. Entre uma e outra o poema a lembra em vozes menores, na de Heitor que a reconhece, na de Odisseu que a cita, e numa comparação humana com a balança de uma tecelã.

Onde aparece

No Canto VIII, Zeus abre a assembleia proibindo os outros deuses de ajudar qualquer lado e prova a própria força com um desafio: que todos se pendurem numa corrente de ouro presa ao céu, e nenhum o arrastará à planície, enquanto ele, se quisesse, puxaria todos, com a terra e o mar.

σειρὴν χρυσείην ἐξ οὐρανόθεν κρεμάσαντες / πάντές τʼ ἐξάπτεσθε θεοὶ πᾶσαί τε θέαιναι· / ἀλλʼ οὐκ ἂν ἐρύσαιτʼ ἐξ οὐρανόθεν πεδίον δὲ / Ζῆνʼ ὕπατον μήστωρʼ, οὐδʼ εἰ μάλα πολλὰ κάμοιτε. (8.19-22), pendurando do céu uma corrente de ouro, agarrai-vos nela todos, deuses e deusas; mas não arrastareis do céu à planície Zeus, o supremo conselheiro, ainda que muito vos esforceis.
Canto VIII: A batalha interrompida

Os exércitos lutam em equilíbrio até o meio-dia. Então:

καὶ τότε δὴ χρύσεια πατὴρ ἐτίταινε τάλαντα· / ἐν δʼ ἐτίθει δύο κῆρε τανηλεγέος θανάτοιο / Τρώων θʼ ἱπποδάμων καὶ Ἀχαιῶν χαλκοχιτώνων, / ἕλκε δὲ μέσσα λαβών· ῥέπε δʼ αἴσιμον ἦμαρ Ἀχαιῶν. (8.69-72), e então o Pai estendeu a balança de ouro; nela pôs duas Queres, as sortes da morte que abate, a dos troianos domadores de cavalos e a dos aqueus de túnica de bronze; tomou-a pelo meio e a ergueu: pendeu o dia fatal dos aqueus.
Canto VIII: A batalha interrompida

Do monte Ida ele troveja e lança um relâmpago no meio dos gregos, que se enchem de pavor. Nestor lê o raio e aceita o que vê:

ἦ οὐ γιγνώσκεις ὅ τοι ἐκ Διὸς οὐχ ἕπετʼ ἀλκή; / νῦν μὲν γὰρ τούτῳ Κρονίδης Ζεὺς κῦδος ὀπάζει / σήμερον· ὕστερον αὖτε καὶ ἡμῖν, αἴ κʼ ἐθέλῃσι, / δώσει· ἀνὴρ δέ κεν οὔ τι Διὸς νόον εἰρύσσαιτο / οὐδὲ μάλʼ ἴφθιμος, ἐπεὶ ἦ πολὺ φέρτερός ἐστι. (8.140-144), Não percebes que de Zeus não te acompanha o vigor? Agora o Crônida Zeus dá glória a este, hoje; mais tarde, se quiser, também a nós a dará; homem nenhum detém o pensamento de Zeus, nem o muito forte, pois ele é bem mais poderoso.
Canto VIII: A batalha interrompida

No Canto XII, a balança aparece em escala humana. O poeta compara o equilíbrio da luta junto à muralha à balança de uma tecelã pobre, que iguala os pratos para ganhar um salário miserável para os filhos, até o momento em que Zeus dá glória maior a Heitor.

ἔχον ὥς τε τάλαντα γυνὴ χερνῆτις ἀληθής, / ἥ τε σταθμὸν ἔχουσα καὶ εἴριον ἀμφὶς ἀνέλκει / ἰσάζουσʼ, ἵνα παισὶν ἀεικέα μισθὸν ἄρηται· / ὣς μὲν τῶν ἐπὶ ἶσα μάχη τέτατο πτόλεμός τε, / πρίν γʼ ὅτε δὴ Ζεὺς κῦδος ὑπέρτερον Ἕκτορι δῶκε / Πριαμίδῃ, ὃς πρῶτος ἐσήλατο τεῖχος Ἀχαιῶν. (12.433-438), mas mantinham-se como a balança de uma mulher honesta, que trabalha a lã: ela segura o peso e a lã e, de cada lado, iguala os pratos, para ganhar para os filhos um salário miserável; assim, igual se estendia entre eles o combate e a guerra, até que Zeus deu glória maior a Heitor, o Priamida, o primeiro a saltar para dentro da muralha dos aqueus.
Canto XII: O assalto à muralha

No Canto XVI, quando Zeus decide que Pátroclo empurre outra vez os troianos até a cidade, Heitor foge no carro e arrasta os lícios na fuga, porque reconheceu a balança sagrada de Zeus.

ὧδε δέ οἱ φρονέοντι δοάσσατο κέρδιον εἶναι / ὄφρʼ ἠῢς θεράπων Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος / ἐξαῦτις Τρῶάς τε καὶ Ἕκτορα χαλκοκορυστὴν / ὤσαιτο προτὶ ἄστυ, πολέων δʼ ἀπὸ θυμὸν ἕλοιτο. / Ἕκτορι δὲ πρωτίστῳ ἀνάλκιδα θυμὸν ἐνῆκεν· / ἐς δίφρον δʼ ἀναβὰς φύγαδʼ ἔτραπε, κέκλετο δʼ ἄλλους / Τρῶας φευγέμεναι· γνῶ γὰρ Διὸς ἱρὰ τάλαντα. (16.652-658), e, enquanto ele refletia, pareceu-lhe melhor que o bravo escudeiro de Aquiles, filho de Peleu, empurrasse de novo os troianos e Heitor de armas de bronze para a cidade, e tirasse a vida de muitos. A Heitor, antes de todos, infundiu um ânimo sem vigor: subiu ao carro, voltou-se em fuga e mandou que os outros troianos fugissem, pois reconheceu a balança sagrada de Zeus.
Canto XVI: A morte de Pátroclo

No Canto XIX, Odisseu a usa para convencer Aquiles a deixar que os aqueus comam antes de lutar: a saciedade do combate chega depressa, diz ele, e a colheita é pouca quando Zeus inclina a balança.

No Canto XXII, a imagem volta, agora para um só homem. Zeus lamenta ver Heitor diante dos muros, ele que lhe queimou tantas coxas de boi, e pergunta aos deuses se o salva ou o entrega logo a Aquiles. Atena objeta:

ἄνδρα θνητὸν ἐόντα πάλαι πεπρωμένον αἴσῃ / ἂψ ἐθέλεις θανάτοιο δυσηχέος ἐξαναλῦσαι; / ἔρδʼ· ἀτὰρ οὔ τοι πάντες ἐπαινέομεν θεοὶ ἄλλοι. (22.179-181), um homem mortal, destinado há muito pela sorte, queres libertá-lo outra vez da morte de lamentos? Faze-o; mas nós, os outros deuses, não te aprovamos todos.
Canto XXII: A morte de Heitor

Zeus cede, e na quarta passagem pelas fontes do Escamandro:

καὶ τότε δὴ χρύσεια πατὴρ ἐτίταινε τάλαντα, (22.209), e então o Pai estendeu a balança de ouro.
Canto XXII: A morte de Heitor
ἐν δʼ ἐτίθει δύο κῆρε τανηλεγέος θανάτοιο, / τὴν μὲν Ἀχιλλῆος, τὴν δʼ Ἕκτορος ἱπποδάμοιο, / ἕλκε δὲ μέσσα λαβών· ῥέπε δʼ Ἕκτορος αἴσιμον ἦμαρ, / ᾤχετο δʼ εἰς Ἀΐδαο, λίπεν δέ ἑ Φοῖβος Ἀπόλλων. (22.210-213), pôs nela as duas Queres da morte que traz dor prolongada, a de Aquiles e a de Heitor, domador de cavalos; levantou-a segurando o meio: o dia fatal de Heitor pendeu, foi para o Hades, e Febo Apolo o deixou.
Canto XXII: A morte de Heitor

O que significa

A balança é a imagem do destino como coisa que se pesa, e não como mérito nem como resposta a prece. O prato que desce é o da morte que vem, e o poema liga a pesagem ao que vem logo depois: no Canto VIII, o trovão e o raio que põem os gregos em fuga; no Canto XXII, o fim da proteção de Apolo e a descida de Atena até Aquiles. Em ambas as vezes é a balança que fecha o debate dos deuses e abre a ação.

O texto sustenta duas leituras do gesto. Na primeira, a balança revela uma sorte que já existia, e Zeus lê o que está fixado. Na segunda, ela torna visível uma decisão que Zeus acabou de tomar. No Canto XXII, quem a estende acabou de perguntar se salva Heitor, e a resposta dos deuses é uma advertência, não uma proibição: Zeus não decide, pesa, e a decisão volta à sorte de cada um. O poema não resolve se isso mostra um deus sem poder para mudar o destino ou um deus que escolhe não mudá-lo.

A balança aparece quando Zeus está dividido, e as palavras da advertência se repetem. No Canto XVI, Zeus pensa em tirar Sarpédon, o mais caro dos mortais para ele, da morte marcada, e Hera responde: faze-o, mas nós, os outros deuses, não te aprovamos todos. No Canto XXII, Atena diz o mesmo sobre Heitor, quase com as mesmas palavras, e Zeus cede nas duas vezes. A diferença é que, diante de Heitor, ele estende a balança. Em vez de sentenciar, entrega o resultado a um objeto, e o prato que desce faz de Zeus testemunha do destino que ele não quis contrariar.

Relações