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Símbolo

O cetro de Agamêmnon

O que é

O cetro de Agamêmnon é o bastão de autoridade que o poema faz passar de mão em mão, do juramento ao golpe, da assembleia ao tribunal. No Canto II o poeta conta a história dele, de Hefesto a Zeus, a Hermes, a Pélope, a Atreu, a Tiestes e por fim a Agamêmnon, que o herdou do pai. É o sinal de que o rei fala em nome de Zeus, e a função que o poema lhe dá é a da palavra: na assembleia, quem segura o cetro tem a vez de falar. Por isso ele passa à mão de quem não é rei: Aquiles fala com ele na mão e o atira ao chão no Canto I, Odisseu o toma do rei para deter a fuga no Canto II, e nos jogos do Canto XXIII o arauto o põe na mão de Menelau e manda os aqueus calarem antes que ele fale.

Onde aparece

O cetro entra no poema pela briga. No Canto I, depois que Atena o impede de puxar a espada, Aquiles insulta Agamêmnon, jura que os gregos sentirão a falta dele quando caírem sob as mãos de Heitor e atira o cetro ao chão. Nesse canto o bastão aparece sem história: é o objeto pelo qual se jura, o que os juízes seguram quando decidem pela lei de Zeus.

ἦ ποτʼ Ἀχιλλῆος ποθὴ ἵξεται υἷας Ἀχαιῶν / σύμπαντας· (1.240-241), um dia a saudade de Aquiles há de alcançar os filhos dos aqueus, todos eles.
Canto I: A peste e a ira

No Canto II, o cetro ganha nome, dono e genealogia. Agamêmnon o toma antes de convocar a assembleia, e é com ele na mão que propõe a fuga. Quando o exército corre para as naus, Odisseu toma o cetro do rei e percorre as fileiras: aos nobres fala com palavras brandas, a um homem do povo que grita bate com o cetro, e a Tersites bate até levantar um vergão sangrento.

οὐκ ἀγαθὸν πολυκοιρανίη· εἷς κοίρανος ἔστω, / εἷς βασιλεύς, ᾧ δῶκε Κρόνου πάϊς ἀγκυλομήτεω / σκῆπτρόν τʼ ἠδὲ θέμιστας, ἵνά σφισι βουλεύῃσι. (2.204-206), não é bom o mando de muitos; seja um só o chefe, um só o rei, a quem o filho de Crono, de pensamentos tortuosos, deu o cetro e as normas, para que decida por eles.
Canto II: O sonho e o catálogo das naus
σκήπτρῳ δὲ μετάφρενον ἠδὲ καὶ ὤμω / πλῆξεν· ὃ δʼ ἰδνώθη, θαλερὸν δέ οἱ ἔκπεσε δάκρυ· / σμῶδιξ δʼ αἱματόεσσα μεταφρένου ἐξυπανέστη (2.265-267), disse, e com o cetro lhe bateu nas costas e nos ombros; ele se curvou, e uma lágrima farta lhe caiu; um vergão sangrento se ergueu nas costas.
Canto II: O sonho e o catálogo das naus

No Canto VII, os arautos Taltíbio e Ideu põem os cetros entre Heitor e Ájax para interromper o duelo, e na trégua dos mortos Agamêmnon ergue o cetro aos deuses e invoca Zeus como testemunha dos juramentos.

No Canto IX, o cetro volta à pergunta sobre o que o rei tem de seu. Quando Agamêmnon propõe fugir, Diomedes é o primeiro a responder:

σοὶ δὲ διάνδιχα δῶκε Κρόνου πάϊς ἀγκυλομήτεω· / σκήπτρῳ μέν τοι δῶκε τετιμῆσθαι περὶ πάντων, / ἀλκὴν δʼ οὔ τοι δῶκεν, ὅ τε κράτος ἐστὶ μέγιστον. (9.37-39), A ti o filho de Crono, de pensamentos tortuosos, deu em duas partes: com o cetro deu-te ser honrado acima de todos, mas a coragem não te deu, que é o maior poder.
Canto IX: A embaixada a Aquiles

No Canto XVIII, o cetro aparece duas vezes no escudo de Aquiles, nas mãos dos anciãos que julgam o preço de um morto, com os cetros dos arautos, e na do rei que observa calado a ceifa, e uma terceira vez fora dele, no cetro em que o próprio Hefesto se apoia ao sair coxeando para receber Tétis.

σκῆπτρα δὲ κηρύκων ἐν χέρσʼ ἔχον ἠεροφώνων· / τοῖσιν ἔπειτʼ ἤϊσσον, ἀμοιβηδὶς δὲ δίκαζον. / κεῖτο δʼ ἄρʼ ἐν μέσσοισι δύω χρυσοῖο τάλαντα, / τῷ δόμεν ὃς μετὰ τοῖσι δίκην ἰθύντατα εἴποι (18.505-508), e tinham nas mãos os cetros dos arautos de voz clara; com eles se levantavam então e davam sentença, um depois do outro. E jaziam no meio deles dois talentos de ouro, para dar a quem, entre eles, dissesse a sentença mais reta.
Canto XVIII: O escudo de Aquiles

O que significa

O cetro diz que a autoridade vem de cima e se separa de quem a exerce. Odisseu a defende como doutrina do cargo, e não da pessoa: o rei é um só porque Zeus lhe deu o cetro e as normas, e o mando de muitos não é bom. Diomedes diz o outro lado: o cetro dá honra, não dá coragem. Os dois falam do mesmo bastão, e nenhum nega o que o outro afirma. Nestor, no mesmo Canto IX, dá ao cetro um uso e não uma virtude: ele e as leis foram postos nas mãos do rei para que ele delibere.

O gesto de Aquiles no Canto I se deixa ler de duas maneiras. Ao jurar pelo símbolo da autoridade e atirá-lo ao chão, ele reconhece a lei e recusa o homem que a carrega. Mas o bastão que os juízes seguram pela lei de Zeus também põe o próprio Zeus como fiador do juramento, e o que vem depois combina com isso: Zeus assente ao pedido de Tétis no mesmo canto e promete, no Canto XV, não parar até que se cumpra o desejo de Aquiles.

O cetro muda de efeito conforme a mão que o segura. Na de Agamêmnon, é a garantia do mando; na de Odisseu, é o instrumento que tira a multidão das naus, a devolve à assembleia e cala Tersites; na dos arautos, é a barreira que para o duelo; na dos anciãos do escudo, é o sinal de quem pode julgar. Quando a honra e a coragem se separam, no Canto IX, quem aponta a separação é Diomedes, e o cetro fica do lado da honra.

Relações