Quem é
Aquiles é o maior guerreiro do exército aqueu e o herói da ira que abre o poema. É filho do mortal Peleu e da deusa Tétis, e vive sabendo que a sua vida será curta. Logo no primeiro canto o rei Agamêmnon lhe toma o prêmio de guerra diante de todos, e Aquiles se retira do combate e pede aos deuses que os aqueus sintam a falta dele. A partir daí o enredo gira em torno de um homem que não luta e do que a ausência dele custa aos companheiros. A ira muda de alvo quando Pátroclo, o amigo mais próximo, morre, e passa a mover Aquiles contra Heitor, o defensor de Troia. Ele sabe que a morte de Heitor traz a sua logo depois, e vai assim mesmo. O poema o mostra na recusa, no luto, na fúria e na vitória, e só no último canto o mostra de outro modo, sentado à mesa com o pai do homem que matou.
Trajetória
No Canto I, Aquiles convoca a assembleia por inspiração de Hera e só deixa o adivinho falar depois de jurar protegê-lo. A verdade irrita Agamêmnon: a peste é castigo pela afronta a um sacerdote, e a moça do rei tem de voltar ao pai. Agamêmnon aceita, mas exige outro prêmio na hora e decide tomar Briseida, a de Aquiles. Aquiles lembra que não veio a Troia por culpa dos troianos, mas para dar honra aos irmãos Atridas, e que a ofensa rompe esse favor.
οὐ γὰρ ἐγὼ Τρώων ἕνεκʼ ἤλυθον αἰχμητάων / δεῦρο μαχησόμενος, ἐπεὶ οὔ τί μοι αἴτιοί εἰσιν·(1.152-153), pois não vim para cá combater por causa dos troianos lanceiros, já que eles em nada são culpados comigo.
Aquiles já puxa a espada quando Atena, mandada por Hera e visível só para ele, o agarra pelos cabelos. Ele obedece à deusa, não ao rei: guarda a espada, insulta Agamêmnon de covarde e jura pelo cetro que os gregos sentirão a falta dele quando caírem diante de Heitor, e atira o cetro ao chão.
ἦ ποτʼ Ἀχιλλῆος ποθὴ ἵξεται υἷας Ἀχαιῶν / σύμπαντας·(1.240-241), um dia a saudade de Aquiles há de alcançar os filhos dos aqueus, todos eles.
Entrega Briseida aos arautos sem resistir, pela mão de Pátroclo, e só depois, sozinho, chora à beira-mar e chama a mãe. A queixa dele é a de quem sabe que vai viver pouco e conta com a honra como única paga. Pede a Tétis que Zeus dê a vitória aos troianos até os aqueus serem encurralados junto às naus, para que todos, e o próprio Agamêmnon, entendam o erro de ter desonrado o melhor deles.
μῆτερ ἐπεί μʼ ἔτεκές γε μινυνθάδιόν περ ἐόντα, / τιμήν πέρ μοι ὄφελλεν Ὀλύμπιος ἐγγυαλίξαι(1.352-353), mãe, já que me deste à luz para viver pouco, ao menos honra o Olímpio me devia pôr nas mãos.
No Canto II, Aquiles não aparece, e o catálogo mede o exército pela falta dele: Ájax era o melhor enquanto Aquiles se irava, e os mirmidões jogam disco e lança enquanto os cavalos pastam. Tersites, que Aquiles detesta, diz de baixo a queixa que Aquiles disse de cima, e acrescenta que ele não tem cólera no peito, o contrário do que o primeiro verso do poema anunciou.
ἀνδρῶν αὖ μέγʼ ἄριστος ἔην Τελαμώνιος Αἴας / ὄφρʼ Ἀχιλεὺς μήνιεν· ὃ γὰρ πολὺ φέρτατος ἦεν, / ἵπποι θʼ οἳ φορέεσκον ἀμύμονα Πηλεΐωνα. / ἀλλʼ ὃ μὲν ἐν νήεσσι κορωνίσι ποντοπόροισι / κεῖτʼ ἀπομηνίσας Ἀγαμέμνονι ποιμένι λαῶν(2.768-772), entre os homens, de longe o melhor era Ájax Telamônio, enquanto Aquiles estava irado, pois este era muito o mais forte, assim como os cavalos que levavam o irrepreensível filho de Peleu; mas ele jazia junto às naus de proas curvas, que cruzam o mar, irado com Agamêmnon, pastor de povos.
No Canto IV, quando a batalha recomeça, Apolo grita aos troianos que resistam: a carne dos aqueus não é de ferro, e Aquiles não combate, rumina a cólera junto às naus. No Canto VI, Aquiles reaparece pelo que fez a Andrômaca: ela conta que ele matou o pai dela, mas lhe deu pira e túmulo, matou os sete irmãos num só dia, e a mãe, resgatada por um preço imenso, morreu depois na casa do pai. No Canto VII, Agamêmnon contém Menelau dizendo que até Aquiles estremeceu de enfrentar Heitor, e Ájax avisa o troiano de que o melhor dos dânaos jaz junto às naus, irado com o rei.
ἀλλʼ ὃ μὲν ἐν νήεσσι κορωνίσι ποντοπόροισι / κεῖτʼ ἀπομηνίσας Ἀγαμέμνονι ποιμένι λαῶν· / ἡμεῖς δʼ εἰμὲν τοῖοι οἳ ἂν σέθεν ἀντιάσαιμεν / καὶ πολέες· ἀλλʼ ἄρχε μάχης ἠδὲ πτολέμοιο.(7.229-232), mas aquele jaz junto às naus de proas curvas que cruzam o mar, irado contra Agamêmnon, pastor de povos; e nós somos tais que podemos enfrentar-te, e somos muitos. Vamos, começa o combate e a guerra.
No Canto VIII, Aquiles não está em cena, mas é nomeado três vezes: na ponta da fila das naus, no pedido de Tétis que Atena recorda com ressentimento e na profecia de Zeus, que diz a Hera que Heitor só parará quando Aquiles se levantar, em torno de Pátroclo morto.
οὐ γὰρ πρὶν πολέμου ἀποπαύσεται ὄβριμος Ἕκτωρ / πρὶν ὄρθαι παρὰ ναῦφι ποδώκεα Πηλεΐωνα, / ἤματι τῷ ὅτʼ ἂν οἳ μὲν ἐπὶ πρύμνῃσι μάχωνται / στείνει ἐν αἰνοτάτῳ περὶ Πατρόκλοιο θανόντος· / ὣς γὰρ θέσφατόν ἐστι(8.473-477), Pois o poderoso Heitor não cessará a guerra antes que se levante junto às naus o Pelida de pés ligeiros, no dia em que lutarem junto às popas, no aperto terrível, em torno de Pátroclo morto: assim está decretado.
No Canto IX, a embaixada o encontra tocando lira e cantando feitos de homens. Aquiles acolhe os visitantes como os mais queridos dos aqueus, apesar da ira, e responde a cada um com uma recusa que encolhe ao longo da noite. A Odisseu, que lhe repete os presentes de Agamêmnon, diz que odeia quem esconde uma coisa e diz outra, que a mesma honra cabe a quem luta e a quem fica, e que amava Briseida mesmo sendo ela cativa. Diz que nada vale tanto quanto a vida e conta o que a mãe lhe disse: ou fica e morre com glória imperecível, ou volta e vive muito sem glória. Anuncia que zarpa de manhã.
ἴση μοῖρα μένοντι καὶ εἰ μάλα τις πολεμίζοι· / ἐν δὲ ἰῇ τιμῇ ἠμὲν κακὸς ἠδὲ καὶ ἐσθλός· / κάτθανʼ ὁμῶς ὅ τʼ ἀεργὸς ἀνὴρ ὅ τε πολλὰ ἐοργώς.(9.318-320), igual parte cabe ao que fica, ainda que alguém combata muito; na mesma honra estão o mau e o bom; morre igualmente o homem ocioso e o que muito fez.
μήτηρ γάρ τέ μέ φησι θεὰ Θέτις ἀργυρόπεζα / διχθαδίας κῆρας φερέμεν θανάτοιο τέλος δέ. / εἰ μέν κʼ αὖθι μένων Τρώων πόλιν ἀμφιμάχωμαι, / ὤλετο μέν μοι νόστος, ἀτὰρ κλέος ἄφθιτον ἔσται· / εἰ δέ κεν οἴκαδʼ ἵκωμι φίλην ἐς πατρίδα γαῖαν, / ὤλετό μοι κλέος ἐσθλόν, ἐπὶ δηρὸν δέ μοι αἰὼν / ἔσσεται, οὐδέ κέ μʼ ὦκα τέλος θανάτοιο κιχείη.(9.410-416), Pois minha mãe, a deusa Tétis dos pés de prata, diz que dois destinos de morte me levam ao termo: se eu ficar aqui e combater a cidade dos troianos, perdi o retorno, mas minha glória será imperecível; se eu voltar para casa, à querida pátria, perdi a boa glória, mas longa vida me será dada, e o termo da morte não me alcançará logo.
A Fênix, que o criou, responde com carinho e promete decidir de manhã. A Ájax, que lhe pede que respeite o teto sob o qual os outros estão, responde que só pensará na guerra quando Heitor chegar às naus dos mirmidões, queimando-as. A recusa agora tem um ponto fixo.
οὐ γὰρ πρὶν πολέμοιο μεδήσομαι αἱματόεντος / πρίν γʼ υἱὸν Πριάμοιο δαΐφρονος Ἕκτορα δῖον / Μυρμιδόνων ἐπί τε κλισίας καὶ νῆας ἱκέσθαι / κτείνοντʼ Ἀργείους, κατά τε σμῦξαι πυρὶ νῆας. / ἀμφὶ δέ τοι τῇ ἐμῇ κλισίῃ καὶ νηῒ μελαίνῃ / Ἕκτορα καὶ μεμαῶτα μάχης σχήσεσθαι ὀΐω.(9.650-655), Pois não me ocuparei da guerra sangrenta antes que o filho do sábio Príamo, o divino Heitor, chegue às tendas e às naus dos mirmidões, matando argivos e queimando as naus com fogo. Mas junto à minha tenda e à minha nau negra, creio que Heitor, mesmo ansioso por combater, será detido.
No Canto X, Nestor condiciona a sorte de Heitor ao dia em que Aquiles mudar o coração, e o troiano Dolão pede como paga os cavalos dele, que só Aquiles consegue conduzir. No Canto XI, Aquiles está de pé na popa da sua nau e vê Nestor passar com um ferido, mas não reconhece quem é. Manda Pátroclo perguntar e diz que espera ver os aqueus suplicando aos seus joelhos.
νῦν ὀΐω περὶ γούνατʼ ἐμὰ στήσεσθαι Ἀχαιοὺς / λισσομένους· χρειὼ γὰρ ἱκάνεται οὐκέτʼ ἀνεκτός.(11.609-610), agora creio que os aqueus vão se pôr em pé em torno dos meus joelhos, suplicando; pois a necessidade chegou, já insuportável.
Nos Cantos XII, XIII, XIV e XV, Aquiles continua fora de cena, e a ausência vira peça da estrutura. O narrador diz que a muralha dos gregos dura enquanto Heitor vive, a cidade de Príamo não é saqueada e Aquiles guarda a ira. Polidamante teme o homem insaciável de guerra que está junto às naus. Agamêmnon teme que os próprios aqueus guardem contra ele a cólera de Aquiles, e Poseidon, disfarçado de velho, diz ao rei que o coração de Aquiles deve estar se alegrando, e depois ao exército que não se sentirá saudade dele se os outros se ajudarem. Zeus diz a Hera que cumprirá o desejo de Aquiles até o fim, e o narrador chama a prece de Tétis de excessiva.
ἀλλʼ ὃ μὲν οὕτω φησὶ καὶ εὔχεται οὕνεκʼ Ἀχιλλεὺς / νηυσὶν ἔπι γλαφυρῇσι μένει κεχολωμένος ἦτορ· / κείνου δʼ οὔ τι λίην ποθὴ ἔσσεται, εἴ κεν οἳ ἄλλοι / ἡμεῖς ὀτρυνώμεθʼ ἀμυνέμεν ἀλλήλοισιν.(14.366-369), mas ele fala assim, e se gaba, porque Aquiles fica junto às naus bojudas, irado no coração; porém dele não haverá grande saudade, se nós, os outros, nos exortarmos a defender uns aos outros.
τὸ πρὶν δʼ οὔτʼ ἄρʼ ἐγὼ παύω χόλον οὔτέ τινʼ ἄλλον / ἀθανάτων Δαναοῖσιν ἀμυνέμεν ἐνθάδʼ ἐάσω / πρίν γε τὸ Πηλεΐδαο τελευτηθῆναι ἐέλδωρ, / ὥς οἱ ὑπέστην πρῶτον, ἐμῷ δʼ ἐπένευσα κάρητι, / ἤματι τῷ ὅτʼ ἐμεῖο θεὰ Θέτις ἥψατο γούνων, / λισσομένη τιμῆσαι Ἀχιλλῆα πτολίπορθον.(15.72-77), antes disso eu não faço cessar a minha cólera, nem deixarei que nenhum outro dos imortais socorra aqui os dânaos, antes que se cumpra o desejo do Pelida, como lhe prometi no início e assenti com a minha cabeça, no dia em que a deusa Tétis tocou os meus joelhos, suplicando que eu honrasse Aquiles, o destruidor de cidades.
No Canto XVI, Pátroclo chega chorando, e Aquiles, que primeiro lhe pergunta por Menécio e por Peleu, o compara a uma menina que pede colo. Pátroclo o acusa de ter sido gerado pelo mar e pelas rochas e pede ir à frente dos mirmidões com as armas dele. Aquiles responde que não conhece profecia nenhuma e que dói ver o prêmio de um homem tomado pelo que tem mais poder. Mas deixa isso passar: tinha dito que a ira duraria até o grito da guerra chegar às suas naus, e agora chegou.
ἤτοι ἔφην γε / οὐ πρὶν μηνιθμὸν καταπαυσέμεν, ἀλλʼ ὁπότʼ ἂν δὴ / νῆας ἐμὰς ἀφίκηται ἀϋτή τε πτόλεμός τε. / τύνη δʼ ὤμοιιν μὲν ἐμὰ κλυτὰ τεύχεα δῦθι, / ἄρχε δὲ Μυρμιδόνεσσι φιλοπτολέμοισι μάχεσθαι,(16.61-65), pois eu disse que não faria cessar a ira antes que o grito e a guerra chegassem às minhas naus. Tu, então, veste nos ombros as minhas armas gloriosas e conduz os mirmidões, amantes da guerra, ao combate,
Aquiles põe um limite: Pátroclo deve voltar quando as naus estiverem livres e não ir a Ílion, porque Apolo ama os troianos. Dá como razão a honra dele mesmo, que Pátroclo deixaria menos honrado, e o texto sustenta também uma segunda razão, a de proteger o amigo. Reza sozinho a Zeus, com a taça que só ele usa, e pede que Pátroclo volte são e salvo, com as armas e os companheiros.
ἐκ νηῶν ἐλάσας ἰέναι πάλιν· εἰ δέ κεν αὖ τοι / δώῃ κῦδος ἀρέσθαι ἐρίγδουπος πόσις Ἥρης, / μὴ σύ γʼ ἄνευθεν ἐμεῖο λιλαίεσθαι πολεμίζειν(16.87-89), depois de os expulsares das naus, volta atrás; e se o marido de Hera, de trovão forte, te der a glória da vitória, não queiras combater longe de mim
τῷ δʼ ἕτερον μὲν ἔδωκε πατήρ, ἕτερον δʼ ἀνένευσε· / νηῶν μέν οἱ ἀπώσασθαι πόλεμόν τε μάχην τε / δῶκε, σόον δʼ ἀνένευσε μάχης ἐξαπονέεσθαι.(16.250-252), uma coisa o Pai lhe deu, outra recusou com um aceno: afastar das naus a guerra e o combate, isso concedeu; voltar são e salvo da batalha, recusou.
No Canto XVII, Aquiles é o único que ainda não sabe: espera Pátroclo de volta vivo, e a mãe não lhe disse a grandeza do mal. No Canto XVIII, Antíloco chega chorando e dá a notícia, e uma nuvem negra de dor cobre Aquiles. Ele espalha cinza na cabeça, arranca os cabelos e geme de tal forma que o gemido chega ao fundo do mar. Tétis sobe e lhe diz que Zeus já lhe deu o que ele pediu. Aquiles responde que isso não lhe dá mais prazer: perdeu Pátroclo, e Heitor tem as armas que os deuses deram a Peleu. Tétis lhe diz que a morte dele vem logo depois da de Heitor.
κεῖται Πάτροκλος, νέκυος δὲ δὴ ἀμφιμάχονται / γυμνοῦ· ἀτὰρ τά γε τεύχεʼ ἔχει κορυθαίολος Ἕκτωρ. / ὣς φάτο, τὸν δʼ ἄχεος νεφέλη ἐκάλυψε μέλαινα(18.20-22), Pátroclo jaz, e em volta do corpo nu os homens lutam; e as armas, quem as tem é Heitor, do elmo faiscante. Assim falou, e uma nuvem negra de dor cobriu Aquiles.
Aquiles não recua. Quer morrer já, porque não socorreu o companheiro, e se vê como peso inútil da terra. Fala da ira como de algo que cresce no peito até do mais sensato, mais doce que o mel, e a deixa para trás por necessidade. O que o move agora é Pátroclo. Aceita para si o fim de Héracles e pede boa fama, a de fazer as troianas gemerem e saberem que ele ficou muito tempo longe da guerra.
αὐτίκα τεθναίην, ἐπεὶ οὐκ ἄρʼ ἔμελλον ἑταίρῳ / κτεινομένῳ ἐπαμῦναι· ὃ μὲν μάλα τηλόθι πάτρης / ἔφθιτʼ, ἐμεῖο δὲ δῆσεν ἀρῆς ἀλκτῆρα γενέσθαι(18.98-100), Que eu morra já, pois afinal eu não ia socorrer o companheiro que estava sendo morto; ele pereceu muito longe da pátria, e precisou de mim para ser o defensor contra a ruína.
ὡς ἔρις ἔκ τε θεῶν ἔκ τʼ ἀνθρώπων ἀπόλοιτο / καὶ χόλος, ὅς τʼ ἐφέηκε πολύφρονά περ χαλεπῆναι, / ὅς τε πολὺ γλυκίων μέλιτος καταλειβομένοιο / ἀνδρῶν ἐν στήθεσσιν ἀέξεται ἠΰτε καπνός· / ὡς ἐμὲ νῦν ἐχόλωσεν ἄναξ ἀνδρῶν Ἀγαμέμνων(18.107-111), Que a discórdia desapareça entre os deuses e entre os homens, e a ira, que leva a se enfurecer até o muito sensato, a ira que, muito mais doce que o mel que escorre, cresce como fumaça no peito dos homens: foi assim que me irou, agora há pouco, o senhor de homens, Agamêmnon.
ὣς καὶ ἐγών, εἰ δή μοι ὁμοίη μοῖρα τέτυκται, / κείσομʼ ἐπεί κε θάνω· νῦν δὲ κλέος ἐσθλὸν ἀροίμην, / καί τινα Τρωϊάδων καὶ Δαρδανίδων βαθυκόλπων / ἀμφοτέρῃσιν χερσὶ παρειάων ἁπαλάων / δάκρυʼ ὀμορξαμένην ἁδινὸν στοναχῆσαι ἐφείην, / γνοῖεν δʼ ὡς δὴ δηρὸν ἐγὼ πολέμοιο πέπαυμαι(18.120-125), Assim também eu, se me foi feito um destino igual, hei de jazer quando morrer; mas agora que eu ganhe boa fama, e faça alguma das troianas e das dardânias de seios fundos, com as duas mãos enxugando as lágrimas das faces tenras, soltar um gemido cerrado, e que saibam que há muito tempo eu me abstenho da guerra.
Íris, enviada por Hera, o manda se mostrar aos troianos mesmo sem armas. Atena lança a égide sobre os ombros dele e acende uma chama na cabeça. Aquiles vai até o fosso e grita três vezes, e doze troianos morrem no tumulto. Sobre o corpo de Pátroclo, promete não o sepultar antes de trazer as armas e a cabeça de Heitor e de degolar doze filhos de troianos. O canto descreve ainda o escudo de Aquiles, que Hefesto forja para ele a pedido de Tétis e que mostra bodas, um tribunal, um cerco, a lavoura e a dança.
νῦν δʼ ἐπεὶ οὖν Πάτροκλε σεῦ ὕστερος εἶμʼ ὑπὸ γαῖαν, / οὔ σε πρὶν κτεριῶ πρίν γʼ Ἕκτορος ἐνθάδʼ ἐνεῖκαι / τεύχεα καὶ κεφαλὴν μεγαθύμου σοῖο φονῆος· / δώδεκα δὲ προπάροιθε πυρῆς ἀποδειροτομήσω / Τρώων ἀγλαὰ τέκνα σέθεν κταμένοιο χολωθείς(18.333-337), Mas agora, Pátroclo, já que irei para debaixo da terra depois de ti, não te farei as exéquias antes de trazer aqui as armas e a cabeça de Heitor, o teu magnânimo matador; e diante da pira cortarei a garganta de doze brilhantes filhos de troianos, irado por teres sido morto.
No Canto XIX, a ira de Aquiles contra Agamêmnon termina como decisão pública. As armas novas ressoam, os mirmidões recuam com medo, e Aquiles sente a ira entrar nele ainda mais. Diante do exército, diz que a briga por uma moça custou tantos aqueus e faz a ira cessar, mas na frase seguinte já manda os aqueus à guerra. Aceita a explicação de Agamêmnon, que culpa Zeus, a Moira e Atê, e atribui a cegueira a Zeus, que queria a morte de muitos. Recusa comer enquanto o corpo de Pátroclo jaz na tenda, e Zeus manda Atena instilar néctar e ambrosia nele. Mede a dor dizendo que nem a morte do pai seria pior.
νῦν δʼ ἤτοι μὲν ἐγὼ παύω χόλον, οὐδέ τί με χρὴ / ἀσκελέως αἰεὶ μενεαινέμεν(19.67-68), Agora, de fato, eu faço cessar a ira, e não me convém ficar sempre enfurecido sem trégua;
αὐτὰρ ἐμὸν κῆρ / ἄκμηνον πόσιος καὶ ἐδητύος, ἔνδον ἐόντων, / σῇ ποθῇ· οὐ μὲν γάρ τι κακώτερον ἄλλο πάθοιμι, / οὐδʼ εἴ κεν τοῦ πατρὸς ἀποφθιμένοιο πυθοίμην, / ὅς που νῦν Φθίηφι τέρεν κατὰ δάκρυον εἴβει / χήτεϊ τοιοῦδʼ υἷος· ὃ δʼ ἀλλοδαπῷ ἐνὶ δήμῳ / εἵνεκα ῥιγεδανῆς Ἑλένης Τρωσὶν πολεμίζω(19.319-325), mas meu coração fica em jejum de bebida e comida, embora haja de sobra dentro, por saudade de ti; pois nenhum mal pior eu poderia sofrer, nem se soubesse da morte de meu pai, que talvez agora, na Ftia, derrame tenras lágrimas por falta de um filho assim, enquanto eu, em povo estrangeiro, por causa da odiosa Helena combato os troianos;
Ao vestir as armas, os olhos brilham como fogo, e ele está furioso contra os troianos: a ira não acabou, trocou de alvo. O cavalo Xanto, a quem Hera dá voz, lhe diz que hoje o salvarão, mas que o dia da ruína está perto. Aquiles responde que já sabe e que não parará antes de saciar os troianos de guerra.
Ξάνθε τί μοι θάνατον μαντεύεαι; οὐδέ τί σε χρή. / εὖ νυ τὸ οἶδα καὶ αὐτὸς ὅ μοι μόρος ἐνθάδʼ ὀλέσθαι / νόσφι φίλου πατρὸς καὶ μητέρος· ἀλλὰ καὶ ἔμπης / οὐ λήξω πρὶν Τρῶας ἅδην ἐλάσαι πολέμοιο(19.420-423), Xanto, por que me profetizas a morte? Não precisas. Eu mesmo bem o sei: meu destino é perecer aqui, longe do pai querido e da mãe; mas, ainda assim, não pararei antes de levar os troianos a se fartarem de guerra.
No Canto XX, Aquiles quer apenas Heitor. Eneias, a quem Apolo põe coragem no peito, o enfrenta, e o escudo novo detém a lança porque entre as camadas há ouro. Poseidon tira Eneias do combate, e Aquiles conclui que ele era mesmo caro aos deuses. Quando enfim vê Heitor, reconhece nele o homem que lhe matou o companheiro honrado. Golpeia três vezes o ar, porque Apolo esconde Heitor numa névoa, e o chama de cão.
Ἕκτορος ἄντα μάλιστα λιλαίετο δῦναι ὅμιλον / Πριαμίδεω· τοῦ γάρ ῥα μάλιστά ἑ θυμὸς ἀνώγει / αἵματος ἆσαι Ἄρηα ταλαύρινον πολεμιστήν.(20.76-78), contra Heitor, mais que tudo, ansiava penetrar a multidão, o filho de Príamo; pois o ânimo o impelia, mais que tudo, a saciar de sangue Ares, o guerreiro de escudo firme.
ἐγγὺς ἀνὴρ ὃς ἐμόν γε μάλιστʼ ἐσεμάσσατο θυμόν, / ὅς μοι ἑταῖρον ἔπεφνε τετιμένον· οὐδʼ ἂν ἔτι δὴν / ἀλλήλους πτώσσοιμεν ἀνὰ πτολέμοιο γεφύρας.(20.425-427), Aqui perto está o homem que mais me tocou o ânimo, o que me matou o companheiro honrado; já não nos esquivaremos por muito tempo um do outro, pelas pontes da guerra.
No Canto XXI, diante do suplicante Licáone, filho de Príamo, que ele mesmo havia capturado e vendido, diz que antes de Pátroclo lhe era mais caro poupar os troianos e que agora ninguém escapa. Acrescenta que também ele morrerá numa aurora, numa tarde ou num meio-dia. O rio Escamandro, entupido de mortos, o ataca, e Aquiles se queixa de que a mãe o enganou ao dizer que ele pereceria sob o muro, pelas flechas de Apolo, e de que preferia ter sido morto por Heitor. Poseidon e Atena, em forma de homens, o tranquilizam e lhe prometem a glória. Depois persegue um falso Agenor, que é Apolo, até a beira do Escamandro.
πρὶν μὲν γὰρ Πάτροκλον ἐπισπεῖν αἴσιμον ἦμαρ / τόφρά τί μοι πεφιδέσθαι ἐνὶ φρεσὶ φίλτερον ἦεν / Τρώων, καὶ πολλοὺς ζωοὺς ἕλον ἠδʼ ἐπέρασσα·(21.100-102), Pois antes que Pátroclo encontrasse o dia fatal, até então me era mais caro, no ânimo, poupar os troianos, e muitos tomei vivos e vendi.
ἀλλὰ φίλος θάνε καὶ σύ· τί ἦ ὀλοφύρεαι οὕτως; / κάτθανε καὶ Πάτροκλος, ὅ περ σέο πολλὸν ἀμείνων.(21.106-107), Mas, amigo, morre também tu: por que te lamentas assim? Morreu também Pátroclo, que era muito melhor do que tu.
ἀλλὰ φίλη μήτηρ, ἥ με ψεύδεσσιν ἔθελγεν· / ἥ μʼ ἔφατο Τρώων ὑπὸ τείχεϊ θωρηκτάων / λαιψηροῖς ὀλέεσθαι Ἀπόλλωνος βελέεσσιν. / ὥς μʼ ὄφελʼ Ἕκτωρ κτεῖναι ὃς ἐνθάδε γʼ ἔτραφʼ ἄριστος·(21.276-279), mas a minha querida mãe, que me enganou com mentiras: dizia que eu pereceria sob o muro dos troianos de couraça, pelas flechas rápidas de Apolo. Antes me tivesse matado Heitor, o melhor que aqui se criou;
No Canto XXII, Aquiles persegue Heitor por três voltas à cidade e, quando Zeus pesa as Queres, fica claro que o dia de Heitor desce. Aquiles recusa o pacto que Heitor propõe, o de devolver o corpo ao vencido, dizendo que não há juramentos fiéis entre leões e homens, nem ânimo concorde entre lobos e cordeiros. Olha as armas que Heitor veste, as que foram de Pátroclo, para ver por onde a carne cede, e fere a garganta, sem cortar a traqueia, para que Heitor ainda possa falar. Heitor suplica pelo corpo, e Aquiles nega que haja resgate que o compre, ainda que Príamo pagasse o peso dele em ouro.
Ἕκτορ μή μοι ἄλαστε συνημοσύνας ἀγόρευε· / ὡς οὐκ ἔστι λέουσι καὶ ἀνδράσιν ὅρκια πιστά, / οὐδὲ λύκοι τε καὶ ἄρνες ὁμόφρονα θυμὸν ἔχουσιν, / ἀλλὰ κακὰ φρονέουσι διαμπερὲς ἀλλήλοισιν,(22.261-264), Heitor, execrável, não me fales de pactos; como não há juramentos fiéis entre leões e homens, nem lobos e cordeiros têm ânimo concorde, mas pensam mal uns dos outros sem cessar.
οὐδʼ εἴ κεν δεκάκις τε καὶ εἰκοσινήριτʼ ἄποινα / στήσωσʼ ἐνθάδʼ ἄγοντες, ὑπόσχωνται δὲ καὶ ἄλλα, / οὐδʼ εἴ κέν σʼ αὐτὸν χρυσῷ ἐρύσασθαι ἀνώγοι / Δαρδανίδης Πρίαμος· οὐδʼ ὧς σέ γε πότνια μήτηρ / ἐνθεμένη λεχέεσσι γοήσεται ὃν τέκεν αὐτή, / ἀλλὰ κύνες τε καὶ οἰωνοὶ κατὰ πάντα δάσονται.(22.349-354), nem que dez vezes e vinte vezes um resgate fosse trazido e pesado aqui, e prometessem ainda mais; nem que Príamo Dardânida mandasse pagar o teu peso em ouro; nem assim a senhora tua mãe te porá no leito para te chorar, a ti que ela gerou, mas cães e aves te despedaçarão por inteiro.
Ao ouvir a profecia de Heitor, que lhe diz que Páris e Apolo o destruirão às Portas Ceias, responde que receberá a sua Quere quando Zeus quiser. Aquiles se interrompe no meio do plano de assaltar a cidade, porque Pátroclo jaz sem sepultura, e fura os tendões dos pés de Heitor, amarra-os ao carro e o arrasta.
τέθναθι· κῆρα δʼ ἐγὼ τότε δέξομαι ὁππότε κεν δὴ / Ζεὺς ἐθέλῃ τελέσαι ἠδʼ ἀθάνατοι θεοὶ ἄλλοι.(22.365-366), morre; quanto à minha Quere, eu a receberei quando Zeus e os outros deuses imortais quiserem realizá-la.
ἀλλὰ τί ἤ μοι ταῦτα φίλος διελέξατο θυμός; / κεῖται πὰρ νήεσσι νέκυς ἄκλαυτος ἄθαπτος / Πάτροκλος· τοῦ δʼ οὐκ ἐπιλήσομαι, ὄφρʼ ἂν ἔγωγε / ζωοῖσιν μετέω καί μοι φίλα γούνατʼ ὀρώρῃ· / εἰ δὲ θανόντων περ καταλήθοντʼ εἰν Ἀΐδαο / αὐτὰρ ἐγὼ καὶ κεῖθι φίλου μεμνήσομʼ ἑταίρου.(22.385-390), mas por que meu ânimo discute isso comigo? Junto às naus jaz um morto sem pranto e sem sepultura, Pátroclo; eu não o esquecerei enquanto estiver entre os vivos e meus joelhos se moverem. E se na casa de Hades os mortos se esquecem, mesmo lá eu me lembrarei do companheiro querido.
No Canto XXIII, Aquiles cumpre o que prometeu ao morto: conduz o lamento de carro em volta do corpo, estende Heitor de bruços junto ao leito e recusa lavar-se antes da pira. O espectro de Pátroclo lhe aparece, pede o enterro, a mão e uma urna comum para os ossos dos dois. Aquiles tenta o abraço e a imagem foge como fumaça. Corta o cabelo que o pai prometera a um rio, dá-o ao morto e mata doze filhos de troianos na pira. Os deuses protegem o corpo de Heitor dos cães e do sol. Nos jogos, o Aquiles que perdera um prêmio no Canto I é o juiz: concede, corrige, empata a luta entre Ájax e Odisseu e dá a Agamêmnon o prêmio do dardo sem disputa.
καί μοι δὸς τὴν χεῖρʼ· ὀλοφύρομαι, οὐ γὰρ ἔτʼ αὖτις / νίσομαι ἐξ Ἀΐδαο, ἐπήν με πυρὸς λελάχητε.(23.75-76), e dá-me a mão; lamento-me, pois não voltarei mais do Hades, depois que me derem a parte do fogo.
νῦν δʼ ἐπεὶ οὐ νέομαί γε φίλην ἐς πατρίδα γαῖαν / Πατρόκλῳ ἥρωϊ κόμην ὀπάσαιμι φέρεσθαι.(23.150-151), agora, já que não voltarei à querida terra pátria, ao herói Pátroclo darei a cabeleira para levar.
μηκέτʼ ἐρείδεσθον, μὴ δὲ τρίβεσθε κακοῖσι· / νίκη δʼ ἀμφοτέροισιν· ἀέθλια δʼ ἶσʼ ἀνελόντες / ἔρχεσθʼ, ὄφρα καὶ ἄλλοι ἀεθλεύωσιν Ἀχαιοί.(23.735-737), não vos esforceis mais, nem vos desgasteis com sofrimentos: a vitória é de ambos; levai prêmios iguais, para que também os outros aqueus compitam.
No Canto XXIV, Aquiles não dorme, e todos os dias arrasta o corpo três vezes em volta do túmulo de Pátroclo. Apolo o acusa diante dos deuses de ter perdido a piedade e o respeito. Tétis lhe transmite o recado de Zeus, e Aquiles responde que quem trouxer o resgate leve o corpo, se o Olímpio o manda de bom grado. Quando Príamo entra na tenda, beija suas mãos e lhe pede que se lembre do pai, Aquiles tem a vontade de chorar o seu, e os dois choram, cada um o seu morto. Ergue o velho e conta os dois jarros de Zeus, o de males e o de bens, e o que coube a Peleu, que teve um filho só, de vida curta.
ὣς Ἀχιλεὺς ἔλεον μὲν ἀπώλεσεν, οὐδέ οἱ αἰδὼς / γίγνεται, ἥ τʼ ἄνδρας μέγα σίνεται ἠδʼ ὀνίνησι.(24.44-45), assim Aquiles perdeu a piedade, e nele não nasce o pudor reverente, que muito prejudica os homens e muito os beneficia.
τὼ δὲ μνησαμένω ὃ μὲν Ἕκτορος ἀνδροφόνοιο / κλαῖʼ ἁδινὰ προπάροιθε ποδῶν Ἀχιλῆος ἐλυσθείς, / αὐτὰρ Ἀχιλλεὺς κλαῖεν ἑὸν πατέρʼ, ἄλλοτε δʼ αὖτε / Πάτροκλον· τῶν δὲ στοναχὴ κατὰ δώματʼ ὀρώρει.(24.509-512), e os dois, lembrando-se: um, de Heitor matador de homens, chorava sem parar, prostrado diante dos pés de Aquiles; Aquiles, por sua vez, chorava o pai, e outras vezes Pátroclo; o gemido deles ressoava pela casa.
δοιοὶ γάρ τε πίθοι κατακείαται ἐν Διὸς οὔδει / δώρων οἷα δίδωσι κακῶν, ἕτερος δὲ ἑάων· / ᾧ μέν κʼ ἀμμίξας δώῃ Ζεὺς τερπικέραυνος, / ἄλλοτε μέν τε κακῷ ὅ γε κύρεται, ἄλλοτε δʼ ἐσθλῷ·(24.527-530), pois dois jarros jazem no chão de Zeus, de dons, dos que ele dá: um de males, o outro de bens. A quem Zeus, que se alegra com o raio, der misturando, ora topa com um mal, ora com um bem.
Aquiles avisa Príamo de que a segurança dele tem limite, manda lavar o corpo longe da vista do pai, por medo de se enfurecer, e levanta ele mesmo o morto para o leito. Promete a Pátroclo uma parte do resgate, lembra Níobe, concede ao velho os dias de trégua que ele pede para o funeral e dorme com Briseida ao lado. O poema termina no funeral de Heitor, antes de Aquiles morrer.
τὼ νῦν μή μοι μᾶλλον ἐν ἄλγεσι θυμὸν ὀρίνῃς, / μή σε γέρον οὐδʼ αὐτὸν ἐνὶ κλισίῃσιν ἐάσω / καὶ ἱκέτην περ ἐόντα, Διὸς δʼ ἀλίτωμαι ἐφετμάς.(24.568-570), por isso não me agites mais o ânimo em meio às dores, para que eu não te poupe, velho, nem aqui na tenda, suplicante embora sejas, e não ofenda as ordens de Zeus.
Temas que encarna
Aquiles encarna a Honra e reputação em sua forma mais radical: a ira nasce do prêmio, o sinal público do valor, e é por ele que um homem se retira da guerra e deixa os companheiros morrerem. Encarna o Destino e livre-arbítrio, porque sabe desde o primeiro canto que vai viver pouco, escolhe a glória em vez da vida longa e, no fim, sabe que a morte de Heitor traz a sua. A Morte o define duas vezes: a que ele recebe de Tétis como sentença e a que ele distribui com a lança, sem poupar ninguém, depois de Pátroclo. Encarna a Perda e luto no Canto XVIII, no espectro do Canto XXIII e no choro de Príamo, e a Compaixão e caridade no Canto XXIV, quando o pai do inimigo lhe pede que se lembre do pai. A Guerra é o que ele faz e o que o consome.
A ira de Aquiles não nasce do amor por Briseida, nasce da perda do sinal público de valor, e o que ele pede é que o exército inteiro meça o tamanho da falta dele. Essa leitura explica a retirada e deixa de pé a pergunta do Canto I: até onde vai o direito de um homem lesado quando a reparação custa a vida dos companheiros? A segunda metade do poema o responde por outra via, a da perda que ninguém repara: Pátroclo morre com as armas de Aquiles, depois de ouvir dele um limite, e o texto atribui a morte ao mesmo tempo ao erro de Pátroclo e ao ânimo que Zeus lhe solta. Duas leituras convivem para a mudança no último canto. Pode ser a ordem de Zeus, que Aquiles diz já ter aceitado, ou o movimento do coração diante de um velho que lhe lembra o pai. O texto sustenta as duas, e é por isso que o poema termina sem dizer que a ira acabou.
Relações
- Agamêmnon: o rei que lhe tira o prêmio e com quem, no Canto XIX, se reconcilia sem pedir perdão, e a quem concede o prêmio do dardo no Canto XXIII.
- Pátroclo: o companheiro que ele manda à batalha com as próprias armas, cuja morte transforma a ira e a quem ele promete vingança e uma urna comum.
- Tétis: a mãe que lhe anuncia a vida curta, leva o pedido dele a Zeus e traz as armas novas.
- Heitor: o homem que mata Pátroclo, a quem ele persegue, mata e arrasta, e cujo corpo devolve no fim.
- Príamo: o velho rei que lhe beija as mãos e lhe pede o corpo do filho, e com quem Aquiles divide uma refeição e uma noite de trégua.
- Zeus: o deus que cumpre o pedido de Tétis e honra Aquiles ao custo de muitos aqueus.
- Atena: a deusa que o segura pelos cabelos no Canto I e acende a chama na cabeça dele no Canto XVIII.
- Odisseu: o orador da embaixada, a quem Aquiles responde sem rodeios.
- Ájax: o outro grande guerreiro dos aqueus, que na embaixada lhe pede que respeite o teto sob o qual os visitantes estão, e que, segundo Idomeneu no Canto XIII, só perde para Aquiles na corrida.
- Nestor: o conselheiro que acusa Aquiles de não ter pena dos dânaos e propõe as armas dele a Pátroclo.
- Apolo: o deus que salva Heitor do golpe no Canto XX e que, no Canto XXIV, acusa Aquiles de ter perdido a piedade.
- Briseida: a cativa que lhe é tirada no Canto I e devolvida no Canto XIX, com o juramento de que Agamêmnon nunca a tocou.