O que é
As armas de Aquiles são a armadura que os deuses deram a Peleu no dia do casamento com Tétis e que Peleu passou ao filho. O poema as faz mudar de corpo: de Aquiles a Pátroclo, que as veste para enganar os troianos; de Pátroclo, desarmado e morto, a Heitor, que as veste longe da luta; e de Heitor de volta a Aquiles, que o despoja delas depois de o matar com armas novas, forjadas por Hefesto. Em cada corpo elas dizem aos outros a mesma coisa, que ali está Aquiles, e em nenhum mudam a sorte de quem as veste.
Onde aparece
A ideia nasce no Canto XI, quando Pátroclo chega à tenda de Nestor, que lhe recorda o conselho do pai e propõe uma saída. Se Aquiles evita alguma profecia da mãe, diz Nestor, que ao menos mande Pátroclo à frente dos mirmidões:
καί τοι τεύχεα καλὰ δότω πόλεμον δὲ φέρεσθαι, / αἴ κέ σε τῷ εἴσκοντες ἀπόσχωνται πολέμοιο / Τρῶες, ἀναπνεύσωσι δʼ ἀρήϊοι υἷες Ἀχαιῶν / τειρόμενοι· ὀλίγη δέ τʼ ἀνάπνευσις πολέμοιο.(11.798-801), e que ele te dê as belas armas para levares à guerra, na esperança de que os troianos, tomando-te por ele, se afastem do combate, e os belicosos filhos dos aqueus, exaustos, respirem; pequeno é o alívio na guerra.
No Canto XVI, Pátroclo faz o pedido a Aquiles chorando, e o narrador interrompe para dizer o que ele ainda não sabe:
δὸς δέ μοι ὤμοιιν τὰ σὰ τεύχεα θωρηχθῆναι, / αἴ κʼ ἐμὲ σοὶ ἴσκοντες ἀπόσχωνται πολέμοιο / Τρῶες, ἀναπνεύσωσι δʼ Ἀρήϊοι υἷες Ἀχαιῶν(16.40-42), dá-me as tuas armas para vestir nos ombros, na esperança de que os troianos, tomando-me por ti, se afastem da guerra e os belicosos filhos dos aqueus recobrem o fôlego,
ὣς φάτο λισσόμενος μέγα νήπιος· ἦ γὰρ ἔμελλεν / οἷ αὐτῷ θάνατόν τε κακὸν καὶ κῆρα λιτέσθαι.(16.46-47), assim falou, suplicando, o grande insensato: pois ele ia pedir para si mesmo a morte funesta e o fado.
Aquiles cede, porque o grito da guerra chegou às naus, e dá a missão e os limites:
ἤτοι ἔφην γε / οὐ πρὶν μηνιθμὸν καταπαυσέμεν, ἀλλʼ ὁπότʼ ἂν δὴ / νῆας ἐμὰς ἀφίκηται ἀϋτή τε πτόλεμός τε. / τύνη δʼ ὤμοιιν μὲν ἐμὰ κλυτὰ τεύχεα δῦθι, / ἄρχε δὲ Μυρμιδόνεσσι φιλοπτολέμοισι μάχεσθαι,(16.61-65), pois eu disse que não faria cessar a ira antes que o grito e a guerra chegassem às minhas naus. Tu, então, veste nos ombros as minhas armas gloriosas e conduz os mirmidões, amantes da guerra, ao combate,
Pátroclo veste tudo, menos a lança de freixo que só Aquiles sabe manejar. O engano funciona como ele previu:
ἐλπόμενοι παρὰ ναῦφι ποδώκεα Πηλεΐωνα / μηνιθμὸν μὲν ἀπορρῖψαι, φιλότητα δʼ ἑλέσθαι·(16.281-282), esperando que, junto às naus, o Pelida de pés velozes tivesse lançado fora a ira e escolhido a amizade;
Mas na quarta investida, Apolo o golpeia por trás, e as armas caem uma a uma. O narrador pára no elmo, que nunca se sujara de poeira:
πάρος γε μὲν οὐ θέμις ἦεν / ἱππόκομον πήληκα μιαίνεσθαι κονίῃσιν, / ἀλλʼ ἀνδρὸς θείοιο κάρη χαρίεν τε μέτωπον / ῥύετʼ Ἀχιλλῆος· τότε δὲ Ζεὺς Ἕκτορι δῶκεν / ᾗ κεφαλῇ φορέειν, σχεδόθεν δέ οἱ ἦεν ὄλεθρος.(16.796-800), antes não era permitido que o elmo de crina de cavalo se sujasse de poeira; ele protegia a cabeça e a fronte graciosa do homem divino, Aquiles. Naquele momento, porém, Zeus o deu a Heitor para levar na cabeça, e a ruína lhe estava próxima.
No Canto XVII, Heitor manda levar armas a Troia e veste as armas imortais de Aquiles, longe da luta:
ὃ δʼ ἄμβροτα τεύχεα δῦνε / Πηλεΐδεω Ἀχιλῆος ἅ οἱ θεοὶ Οὐρανίωνες / πατρὶ φίλῳ ἔπορον· ὃ δʼ ἄρα ᾧ παιδὶ ὄπασσε / γηράς· ἀλλʼ οὐχ υἱὸς ἐν ἔντεσι πατρὸς ἐγήρα.(17.194-197), e ele vestiu as armas imperecíveis de Aquiles, filho de Peleu, que os deuses do céu deram ao pai querido; este, envelhecendo, as passou ao filho; mas o filho não envelheceu nas armas do pai.
Zeus o vê e fala consigo mesmo:
ἆ δείλʼ οὐδέ τί τοι θάνατος καταθύμιός ἐστιν / ὃς δή τοι σχεδὸν εἶσι· σὺ δʼ ἄμβροτα τεύχεα δύνεις / ἀνδρὸς ἀριστῆος, τόν τε τρομέουσι καὶ ἄλλοι·(17.201-203), ah, infeliz, não te passa pela cabeça a morte, que já está perto de ti; tu vestes as armas imortais de um homem excelente, diante do qual outros tremem;
Os aliados veem Aquiles em Heitor, e ele os exorta a defender as mulheres e os filhos. No Canto XVIII, Aquiles diz à mãe que Heitor tirou as armas que os deuses haviam dado a Peleu, e Tétis promete que ao nascer do sol trará armas novas, feitas por Hefesto. A descrição ocupa o resto do canto, e o escudo é a peça que o poeta detalha.
No Canto XIX, Tétis põe as armas novas diante do filho, e ele as veste furioso contra os troianos. Toma também a lança de freixo do Pélion, que Quíron deu a Peleu e que nenhum outro aqueu consegue brandir.
τοῦ καὶ ὀδόντων μὲν καναχὴ πέλε, τὼ δέ οἱ ὄσσε / λαμπέσθην ὡς εἴ τε πυρὸς σέλας, ἐν δέ οἱ ἦτορ / δῦνʼ ἄχος ἄτλητον· ὃ δʼ ἄρα Τρωσὶν μενεαίνων / δύσετο δῶρα θεοῦ, τά οἱ Ἥφαιστος κάμε τεύχων(19.365-368), Dele havia um ranger de dentes, e os olhos lhe brilharam como clarão de fogo, e no coração lhe entrou uma dor insuportável; e ele, furioso contra os troianos, vestiu os presentes do deus, que Hefesto lhe fez trabalhando.
No Canto XXII, o duelo reúne as duas armaduras: Aquiles, com as novas, olha o corpo de Heitor e vê que as armas que ele veste, as que tirou de Pátroclo, o cobrem inteiro, menos a garganta.
λαυκανίην, ἵνα τε ψυχῆς ὤκιστος ὄλεθρος· / τῇ ῥʼ ἐπὶ οἷ μεμαῶτʼ ἔλασʼ ἔγχεϊ δῖος Ἀχιλλεύς, / ἀντικρὺ δʼ ἁπαλοῖο διʼ αὐχένος ἤλυθʼ ἀκωκή· / οὐδʼ ἄρʼ ἀπʼ ἀσφάραγον μελίη τάμε χαλκοβάρεια, / ὄφρά τί μιν προτιείποι ἀμειβόμενος ἐπέεσσιν.(22.325-329), a garganta, por onde a perda da vida é mais rápida; ali, enquanto ele avançava, o divino Aquiles enterrou a lança, e a ponta atravessou de lado a lado o pescoço delicado; mas o freixo pesado de bronze não cortou a traqueia, para que ele ainda pudesse dizer algo, respondendo.
O que significa
As armas dão ao portador a identidade do dono. Pátroclo as pede justamente para que os troianos o tomem por Aquiles, e os troianos, ao vê-las, supõem que Aquiles largou a ira, o oposto do que aconteceu, porque a ira continua e só mandou outro em seu lugar. Os aliados de Heitor repetem o equívoco ao inverso: veem Aquiles nele. O poema mostra o que custa tomar o lugar de outro, e o pagamento nos dois casos é a morte.
A troca de armas tem no poema outro sentido, e o contraste ajuda a ler este. No Canto VI, Diomedes e Glauco descobrem que os avós foram hóspedes e trocam de armas, ouro por bronze, para que todos saibam que são hóspedes por herança. No Canto VII, depois do duelo sem vencedor, Heitor e Ájax trocam uma espada e um cinto para que se diga que lutaram e se separaram em amizade. Em ambos os casos o presente faz de um adversário um hóspede diante dos outros. Com as armas de Aquiles acontece o contrário: elas passam de um corpo a outro por despojo.
O dom de Zeus a Heitor, a grande força que lhe dá como compensação por ele não voltar do combate, admite duas leituras: pena de quem vai morrer, ou parte do plano que leva Heitor até Aquiles. O texto sustenta as duas, e liga a frase à casa dele, pois Andrômaca não receberá dele as armas gloriosas do Pelida.
As armas imortais não protegem ninguém. Aquiles as dá a Pátroclo sabendo o perigo e o limite, Pátroclo morre com elas, Heitor as veste e morre com elas, e o próprio Aquiles, a quem Hefesto promete armas novas e ao mesmo tempo diz que não pode escondê-lo da morte, aceita as novas sabendo que o fim virá. O que as armas fazem é dar um rosto: quem as veste é visto como Aquiles, e todo o peso do poema, a ira, a fama, a morte curta, vai junto com o bronze. A frase do narrador, que o filho não envelheceu nas armas do pai, fala de Aquiles e cai sobre quem as veste agora.
Relações
- Temas-padrão: Morte, Honra e reputação, Guerra.
- Personagens: Aquiles, Pátroclo, Heitor, Zeus, Apolo, Tétis, Nestor.
- Símbolos vizinhos: o escudo de Aquiles, a peça das armas novas que o poeta descreve, e o corpo de Heitor, o que resta de Heitor quando Aquiles o despoja.