O que é
O escudo de Aquiles é a peça central das armas novas que Hefesto forja a pedido de Tétis, depois que Heitor tirou do corpo de Pátroclo as armas que os deuses haviam dado a Peleu. É um escudo grande e forte, de cinco camadas, com borda tripla e brilhante e uma correia de prata, e nele o deus grava primeiro o mundo, com a terra, o céu, o mar, o sol, a lua e as constelações, e depois duas cidades de homens, a lavoura, a vinha, o rebanho, uma dança e, na borda, o rio Oceano. O poeta gasta mais de cem versos com o escudo e despacha em quatro a couraça, o elmo e as grevas.
Onde aparece
A cena nasce no Canto XVIII. Aquiles aceitou morrer logo depois de Heitor, mas não pode voltar à luta sem armas, e Tétis sobe ao Olimpo para buscá-las. Ela encontra Hefesto na casa de bronze, ocupado com vinte trípodes que andam sozinhos até a assembleia dos deuses. O deus lembra que ela o salvou quando foi atirado do céu, promete as armas e diz, de antemão, o que o ofício dele não alcança:
αἲ γάρ μιν θανάτοιο δυσηχέος ὧδε δυναίμην / νόσφιν ἀποκρύψαι, ὅτε μιν μόρος αἰνὸς ἱκάνοι, / ὥς οἱ τεύχεα καλὰ παρέσσεται, οἷά τις αὖτε / ἀνθρώπων πολέων θαυμάσσεται, ὅς κεν ἴδηται(18.464-467), Ah, se eu pudesse escondê-lo longe da morte de som sombrio, quando o destino terrível o alcançasse, tão certo como ele terá armas belas, tais que muitos homens, cada um que as vir, hão de admirar.
O escudo vem primeiro, e o poeta o descreve cena por cena. Hefesto grava antes de tudo o mundo:
ἐν μὲν γαῖαν ἔτευξʼ, ἐν δʼ οὐρανόν, ἐν δὲ θάλασσαν, / ἠέλιόν τʼ ἀκάμαντα σελήνην τε πλήθουσαν, / ἐν δὲ τὰ τείρεα πάντα, τά τʼ οὐρανὸς ἐστεφάνωται(18.483-485), Nele fez a terra, nele o céu, nele o mar, e o sol incansável e a lua cheia, e nele todos os astros com que o céu se coroa.
Seguem duas cidades. Na primeira há bodas, com noivas conduzidas à luz de tochas, e uma disputa na praça pelo preço de um morto, que os anciãos julgam com dois talentos de ouro postos no meio para quem disser a sentença mais reta:
σκῆπτρα δὲ κηρύκων ἐν χέρσʼ ἔχον ἠεροφώνων· / τοῖσιν ἔπειτʼ ἤϊσσον, ἀμοιβηδὶς δὲ δίκαζον. / κεῖτο δʼ ἄρʼ ἐν μέσσοισι δύω χρυσοῖο τάλαντα, / τῷ δόμεν ὃς μετὰ τοῖσι δίκην ἰθύντατα εἴποι(18.505-508), e tinham nas mãos os cetros dos arautos de voz clara; com eles se levantavam então e davam sentença, um depois do outro. E jaziam no meio deles dois talentos de ouro, para dar a quem, entre eles, dissesse a sentença mais reta.
Em torno da outra cidade acampam dois exércitos, os sitiados armam uma emboscada à beira de um rio, e a luta leva as potências da guerra para o meio dos homens:
ἐν δʼ Ἔρις ἐν δὲ Κυδοιμὸς ὁμίλεον, ἐν δʼ ὀλοὴ Κήρ, / ἄλλον ζωὸν ἔχουσα νεούτατον, ἄλλον ἄουτον, / ἄλλον τεθνηῶτα κατὰ μόθον ἕλκε ποδοῖιν· / εἷμα δʼ ἔχʼ ἀμφʼ ὤμοισι δαφοινεὸν αἵματι φωτῶν(18.535-538), Entre eles se misturavam a Discórdia, o Tumulto e a Quere funesta, que segurava um homem vivo recém-ferido, outro ileso, e puxava um terceiro, morto, pelos pés através da refrega; e trazia em volta dos ombros um manto vermelho do sangue dos homens.
Depois vêm o campo arado, onde os lavradores recebem uma taça de vinho a cada volta, o domínio do rei, onde ceifeiros trabalham sob o olhar calado do soberano de cetro na mão, a vinha de ouro com um menino que toca a lira, a manada atacada por dois leões e o pasto de ovelhas. Diante do campo, o narrador interrompe a descrição para elogiar a obra:
ἣ δὲ μελαίνετʼ ὄπισθεν, ἀρηρομένῃ δὲ ἐῴκει, / χρυσείη περ ἐοῦσα· τὸ δὴ περὶ θαῦμα τέτυκτο(18.548-549), E ela escurecia atrás deles e parecia arada, embora fosse de ouro; isso fora feito como uma grande maravilha.
A última cena de gente é uma dança, que o poeta compara a outra, feita por um artífice humano:
ἐν δὲ χορὸν ποίκιλλε περικλυτὸς ἀμφιγυήεις, / τῷ ἴκελον οἷόν ποτʼ ἐνὶ Κνωσῷ εὐρείῃ / Δαίδαλος ἤσκησεν καλλιπλοκάμῳ Ἀριάδνῃ(18.590-592), E o ilustre coxo dos dois pés ornou também uma dança, semelhante à que outrora, na vasta Cnossos, Dédalo compôs para Ariadne de belas tranças.
E a borda fecha o círculo que a terra, o céu e o mar tinham aberto:
ἐν δʼ ἐτίθει ποταμοῖο μέγα σθένος Ὠκεανοῖο / ἄντυγα πὰρ πυμάτην σάκεος πύκα ποιητοῖο(18.607-608), E nele pôs a grande força do rio Oceano, na borda extrema do escudo bem trabalhado.
No Canto XIX, Tétis põe as armas diante de Aquiles, e elas ressoam: os mirmidões recuam, sem coragem de olhá-las, e Aquiles sente a ira crescer e se deleita segurando os presentes do deus.
Μυρμιδόνας δʼ ἄρα πάντας ἕλε τρόμος, οὐδέ τις ἔτλη / ἄντην εἰσιδέειν, ἀλλʼ ἔτρεσαν. αὐτὰρ Ἀχιλλεὺς / ὡς εἶδʼ, ὥς μιν μᾶλλον ἔδυ χόλος, ἐν δέ οἱ ὄσσε / δεινὸν ὑπὸ βλεφάρων ὡς εἰ σέλας ἐξεφάανθεν· / τέρπετο δʼ ἐν χείρεσσιν ἔχων θεοῦ ἀγλαὰ δῶρα(19.14-18), Um tremor tomou todos os mirmidões, e nenhum teve coragem de encará-las: recuaram com medo. Mas Aquiles, quando as viu, sentiu a ira entrar nele ainda mais, e os olhos, sob as pálpebras, lançaram um brilho terrível como de fogo; e ele se deleitava segurando nas mãos os brilhantes presentes do deus.
Ao se armar no meio do exército, ele toma o escudo, cujo brilho chega longe como o da lua e que o narrador compara à luz de uma fogueira vista por marinheiros arrastados pela tempestade.
O escudo recebe o primeiro teste no Canto XX. Eneias lança contra ele, Aquiles afasta o escudo do corpo, temendo que a ponta o fure, e o ouro que Hefesto pôs entre as cinco camadas, duas de bronze, duas de estanho e uma de ouro, detém a lança. Aquiles responde e atravessa dois círculos do escudo de Eneias. No Canto XXI, Asteropeu atira duas lanças de uma vez: uma bate no escudo, e o ouro dado pelo deus detém a ponta. No duelo final, no Canto XXII, Aquiles avança cobrindo o peito com o belo escudo, e a lança de Heitor acerta o centro dele e cai longe.
O que significa
A descrição mostra paz e guerra no mesmo objeto. A maior parte das cenas é de gente fora da guerra, com casamento, tribunal, lavoura, ceifa, vinha, rebanho e dança. A guerra aparece num cerco e numa emboscada, e é ali que a Discórdia, o Tumulto e a Quere entram em cena e arrastam os mortos uns dos outros, sem que o poeta acrescente julgamento. Na emboscada, as figuras agem como mortais vivos, e a imagem seguinte já é de campo mole, arado três vezes.
Quem vai usar esse objeto acaba de aceitar a própria morte. O texto não diz o que Aquiles vê nas cenas: a descrição é do poeta, e a primeira vez que o herói tem o escudo nas mãos já é no canto seguinte. O tribunal do escudo convida a uma comparação com o Canto I, onde a disputa por um prêmio terminou numa briga de chefes, enquanto na praça gravada ela se resolve em público, com árbitro e recompensa para a sentença mais reta. O escudo não faz a comparação, o leitor é que a faz. No Canto XXIII, o mesmo Aquiles concede, corrige e interrompe nos jogos, como árbitro.
Hefesto separa com precisão o que o ofício dele pode e o que não pode: dá armas que todos hão de admirar e não esconde o herói da morte. As armas são belas e o fim continua o mesmo, e Tétis, que sabe disso, sobe mesmo assim ao Olimpo para buscá-las.
O escudo põe a guerra dentro do mundo, e não no centro dele. A emboscada e a Quere que arrasta os mortos ocupam um quadro, e logo depois o campo, a ceifa, a vinha e a dança seguem como se nada tivesse acontecido. Dá para ler isso como lembrança do que a guerra interrompe, a vida que Aquiles deixa de viver ao aceitar a morte curta, ou como extensão do mundo, em que a guerra é uma coisa que os homens fazem, ao lado do tribunal e da dança. O poeta não escolhe, e o ouro que escurece como terra arada, uma maravilha segundo o narrador, lembra que o objeto é obra de arte antes de ser comentário.
Relações
- Temas-padrão: Guerra, Morte, Perda e luto.
- Personagens: Aquiles, Tétis, Heitor, Pátroclo.
- Símbolos vizinhos: as armas de Aquiles, de que o escudo é a peça central, e o cetro de Agamêmnon, porque os anciãos do tribunal e o rei da ceifa seguram cetros no escudo.