O que é
O corpo de Heitor é o objeto em torno do qual gira o fim do poema. Depois de morto diante de Troia, Aquiles fura os tendões dos dois pés dele, amarra-o ao carro e o arrasta, e repete o arrastar em volta do túmulo de Pátroclo dia após dia, enquanto os deuses preservam o corpo de toda marca. Ele só volta ao pai no Canto XXIV, e o poema termina no funeral.
Onde aparece
O corpo é prometido, em duas direções, antes de existir. No Canto VII, Heitor propõe a regra do duelo com Ájax: o vencedor fica com as armas e devolve o corpo, para que os troianos e as esposas dos troianos lhe deem a parte do fogo.
σῶμα δὲ οἴκαδʼ ἐμὸν δόμεναι πάλιν, ὄφρα πυρός με / Τρῶες καὶ Τρώων ἄλοχοι λελάχωσι θανόντα.(7.79-80), e que devolva o meu corpo à casa, para que os troianos e as esposas dos troianos me deem, depois de morto, a parte do fogo.
No Canto XVII, o próprio Heitor, tendo despojado Pátroclo, quer cortar-lhe a cabeça e entregar o corpo aos cães de Troia.
Ἕκτωρ μὲν Πάτροκλον ἐπεὶ κλυτὰ τεύχεʼ ἀπηύρα, / ἕλχʼ ἵνʼ ἀπʼ ὤμοιιν κεφαλὴν τάμοι ὀξέϊ χαλκῷ, / τὸν δὲ νέκυν Τρῳῇσιν ἐρυσσάμενος κυσὶ δοίη.(17.125-127), Heitor, depois de lhe tirar as armas gloriosas, arrastava-o para cortar-lhe a cabeça dos ombros com o bronze afiado e, puxando o cadáver, entregá-lo aos cães de Troia.
A promessa de Aquiles a Pátroclo, no Canto XVIII, responde a isso: não haverá exéquias antes de ele trazer as armas e a cabeça de Heitor, e doze filhos de troianos cairão diante da pira.
No Canto XXII, o duelo decide quem leva o corpo. Heitor, diante de Aquiles, propõe que os deuses sejam testemunhas de um pacto:
ἀλλʼ ἄγε δεῦρο θεοὺς ἐπιδώμεθα· τοὶ γὰρ ἄριστοι / μάρτυροι ἔσσονται καὶ ἐπίσκοποι ἁρμονιάων· / οὐ γὰρ ἐγώ σʼ ἔκπαγλον ἀεικιῶ, αἴ κεν ἐμοὶ Ζεὺς / δώῃ καμμονίην, σὴν δὲ ψυχὴν ἀφέλωμαι· / ἀλλʼ ἐπεὶ ἄρ κέ σε συλήσω κλυτὰ τεύχεʼ Ἀχιλλεῦ / νεκρὸν Ἀχαιοῖσιν δώσω πάλιν· ὣς δὲ σὺ ῥέζειν.(22.254-259), mas vem cá, tomemos os deuses por testemunhas, pois eles serão as melhores testemunhas e guardiões dos acordos; não te ultrajarei de modo cruel, se Zeus me der a resistência e eu te tirar a vida; mas depois que te despojar das armas gloriosas, Aquiles, devolverei o corpo aos aqueus; faze também tu assim.
Aquiles recusa, sem discutir os termos:
Ἕκτορ μή μοι ἄλαστε συνημοσύνας ἀγόρευε· / ὡς οὐκ ἔστι λέουσι καὶ ἀνδράσιν ὅρκια πιστά, / οὐδὲ λύκοι τε καὶ ἄρνες ὁμόφρονα θυμὸν ἔχουσιν, / ἀλλὰ κακὰ φρονέουσι διαμπερὲς ἀλλήλοισιν,(22.261-264), Heitor, execrável, não me fales de pactos; como não há juramentos fiéis entre leões e homens, nem lobos e cordeiros têm ânimo concorde, mas pensam mal uns dos outros sem cessar.
Caído, com a garganta atravessada, mas ainda capaz de falar, Heitor pede o corpo de volta:
λίσσομʼ ὑπὲρ ψυχῆς καὶ γούνων σῶν τε τοκήων, / μή με ἔα παρὰ νηυσὶ κύνας καταδάψαι Ἀχαιῶν, / ἀλλὰ σὺ μὲν χαλκόν τε ἅλις χρυσόν τε δέδεξο, / δῶρα τά τοι δώσουσι πατὴρ καὶ πότνια μήτηρ, / σῶμα δὲ οἴκαδʼ ἐμὸν δόμεναι πάλιν, ὄφρα πυρός με / Τρῶες καὶ Τρώων ἄλοχοι λελάχωσι θανόντα.(22.338-343), suplico-te por tua vida, teus joelhos e teus pais: não deixes os cães dos aqueus me despedaçarem junto às naus; aceita bronze e ouro em abundância, presentes que meu pai e minha mãe senhora te darão, e dá-me o corpo de volta para casa, para que os troianos e as esposas dos troianos me deem, morto, a parte do fogo.
E ouve a recusa inteira:
οὐδʼ εἴ κεν δεκάκις τε καὶ εἰκοσινήριτʼ ἄποινα / στήσωσʼ ἐνθάδʼ ἄγοντες, ὑπόσχωνται δὲ καὶ ἄλλα, / οὐδʼ εἴ κέν σʼ αὐτὸν χρυσῷ ἐρύσασθαι ἀνώγοι / Δαρδανίδης Πρίαμος· οὐδʼ ὧς σέ γε πότνια μήτηρ / ἐνθεμένη λεχέεσσι γοήσεται ὃν τέκεν αὐτή, / ἀλλὰ κύνες τε καὶ οἰωνοὶ κατὰ πάντα δάσονται.(22.349-354), nem que dez vezes e vinte vezes um resgate fosse trazido e pesado aqui, e prometessem ainda mais; nem que Príamo Dardânida mandasse pagar o teu peso em ouro; nem assim a senhora tua mãe te porá no leito para te chorar, a ti que ela gerou, mas cães e aves te despedaçarão por inteiro.
Aquiles faz então o que anunciou:
ἀμφοτέρων μετόπισθε ποδῶν τέτρηνε τένοντε / ἐς σφυρὸν ἐκ πτέρνης, βοέους δʼ ἐξῆπτεν ἱμάντας, / ἐκ δίφροιο δʼ ἔδησε, κάρη δʼ ἕλκεσθαι ἔασεν·(22.396-398), furou os tendões dos dois pés por trás, do calcanhar ao tornozelo, passou correias de couro de boi, amarrou-o ao carro e deixou a cabeça arrastar.
Do alto do muro, Príamo vê o filho arrastado, quer sair pelas portas, e o povo o segura. Ele chama cada homem pelo nome e diz que irá sozinho às naus suplicar ao homem violento. Dentro da cidade, Andrômaca, que ainda esperava o marido de volta, vê o corpo arrastado do alto do muro e depois promete queimar as roupas que as mulheres teceram, porque ele não jazerá nelas.
No Canto XXIII, Aquiles repete a Pátroclo que dará Heitor aos cães, e o narrador mostra o que acontece:
τὸν δʼ οὐ κύνες ἀμφεπένοντο, / ἀλλὰ κύνας μὲν ἄλαλκε Διὸς θυγάτηρ Ἀφροδίτη / ἤματα καὶ νύκτας, ῥοδόεντι δὲ χρῖεν ἐλαίῳ / ἀμβροσίῳ, ἵνα μή μιν ἀποδρύφοι ἑλκυστάζων.(23.184-187), mas os cães não o rondaram; afastou os cães a filha de Zeus, Afrodite, de dia e de noite, e o ungiu com óleo de rosas, ambrosíaco, para que o arrastar não o esfolasse.
No Canto XXIV, ao amanhecer de cada dia, Aquiles o amarra de novo ao carro e o arrasta três vezes em volta do túmulo de Pátroclo, e Apolo o cobre com a égide de ouro. Os deuses se dividem sobre roubar o cadáver: Hera, Poseidon e Atena se recusam, porque continuam a odiar Troia, e Zeus impede o roubo, porque a mãe de Aquiles está sempre ao lado do filho, e manda chamá-la. Na décima segunda manhã, Apolo acusa:
ὣς Ἀχιλεὺς ἔλεον μὲν ἀπώλεσεν, οὐδέ οἱ αἰδὼς / γίγνεται, ἥ τʼ ἄνδρας μέγα σίνεται ἠδʼ ὀνίνησι.(24.44-45), assim Aquiles perdeu a piedade, e nele não nasce o pudor reverente, que muito prejudica os homens e muito os beneficia.
No caminho de Príamo, Hermes, disfarçado de mirmidão, descreve o estado do corpo:
οἷον ἐερσήεις κεῖται, περὶ δʼ αἷμα νένιπται, / οὐδέ ποθι μιαρός· σὺν δʼ ἕλκεα πάντα μέμυκεν / ὅσσʼ ἐτύπη· πολέες γὰρ ἐν αὐτῷ χαλκὸν ἔλασσαν. / ὥς τοι κήδονται μάκαρες θεοὶ υἷος ἑῆος / καὶ νέκυός περ ἐόντος, ἐπεί σφι φίλος περὶ κῆρι.(24.419-423), como jaz orvalhado, e o sangue está lavado, sem sujeira em parte alguma, e todas as feridas fecharam, as que lhe foram feitas, pois muitos lhe cravaram o bronze. Assim os deuses bem-aventurados cuidam do teu filho, mesmo morto, porque lhe era caro ao coração.
Na tenda, o velho abraça os joelhos de Aquiles e diz o que lhe custou vir:
ἔτλην δʼ οἷʼ οὔ πώ τις ἐπιχθόνιος βροτὸς ἄλλος, / ἀνδρὸς παιδοφόνοιο ποτὶ στόμα χεῖρʼ ὀρέγεσθαι.(24.505-506), suportei o que nenhum outro mortal sobre a terra ainda suportou: levar aos lábios a mão do homem que mata os meus filhos.
E os dois choram, cada um o seu morto:
τὼ δὲ μνησαμένω ὃ μὲν Ἕκτορος ἀνδροφόνοιο / κλαῖʼ ἁδινὰ προπάροιθε ποδῶν Ἀχιλῆος ἐλυσθείς, / αὐτὰρ Ἀχιλλεὺς κλαῖεν ἑὸν πατέρʼ, ἄλλοτε δʼ αὖτε / Πάτροκλον· τῶν δὲ στοναχὴ κατὰ δώματʼ ὀρώρει.(24.509-512), e os dois, lembrando-se: um, de Heitor matador de homens, chorava sem parar, prostrado diante dos pés de Aquiles; Aquiles, por sua vez, chorava o pai, e outras vezes Pátroclo; o gemido deles ressoava pela casa.
Aquiles manda lavar e ungir o corpo longe da vista de Príamo, por medo de que o pai, ao ver o filho, não contenha a dor e a cólera e ele mesmo se enfureça e o mate. Depois, levanta o corpo com as próprias mãos e o põe no leito. O fim do poema é o funeral de Heitor em Troia:
ὣς οἵ γʼ ἀμφίεπον τάφον Ἕκτορος ἱπποδάμοιο.(24.804), assim eles celebraram o funeral de Heitor, domador de cavalos.
O que significa
O corpo mede a morte pelo rito. A recusa de Aquiles no Canto XXII não é contra um pedido, é contra o rito: nega a Heitor o fogo e o pranto, os dois gestos que o poema usa para medir uma morte humana. Os pais dizem o medo no alto do muro, o corpo do filho junto às naus, comido pelos cães, e Heitor, caído, pede apenas que os troianos e as esposas dos troianos lhe deem a parte do fogo. Quando ele pede que os cães não o despedacem, Aquiles lhe devolve a palavra, chama-o de cão e diz que ninguém afastará os cães da cabeça dele, e põe em palavras o pior que os pais previam.
Os deuses cuidam do corpo que Aquiles quer entregar à desonra, e o poema não diz que o impedem de arrastá-lo, só que o preservam. Zeus explica a proteção por uma troca: Heitor era o mais caro aos deuses entre os mortais de Ílion, e nunca faltou ao altar de Zeus banquete, libação e fumaça de gordura. Quem honra os deuses é cuidado por eles, mesmo morto. No Canto XXIV, os deuses escolhem a via do resgate, mas é Aquiles quem solta o corpo.
A devolução admite duas leituras. Aquiles diz a Tétis que leve o cadáver quem trouxer o resgate, se o próprio Olímpio o ordena de bom grado, e diz a Príamo que já decidira soltá-lo, porque a mãe lhe trouxe o recado de Zeus. Pela primeira leitura, é a ordem de Zeus que o move. Pela segunda, é a súplica do velho, porque o que o desarma é o desejo de chorar o pai. O texto sustenta as duas ao mesmo tempo.
O corpo de Heitor responde ao de Pátroclo, e o poema põe uma disputa em eco da outra. No Canto XVII, os aqueus, sob a névoa que Zeus lança sobre a luta, protegem o corpo de Pátroclo dos cães de Troia; no Canto XXII e no Canto XXIII, é Aquiles quem promete o corpo de Heitor aos cães, e os deuses o preservam. Os dois lados querem o mesmo para o seu morto, o fogo, o nome e o pranto, e negam o mesmo ao morto do outro. O fim do poema não anula a ira, mas faz o que o Canto XXII não deixara fazer: um velho e o assassino do filho dele dividem uma refeição, e o funeral acontece.
Relações
- Temas-padrão: Perda e luto, Compaixão e caridade, Morte.
- Personagens: Heitor, Aquiles, Príamo, Pátroclo, Andrômaca, Apolo, Zeus, Tétis.
- Símbolos vizinhos: as armas de Aquiles, de que Heitor é despojado antes do arrasto, e a balança de Zeus, que fixa o dia dele.