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Personagem

Tétis

Quem é

Tétis é a deusa do mar, a de pés de prata, mãe de Aquiles e esposa de Peleu, o mortal com quem Zeus a obrigou a casar, a única entre as nereidas. É ela quem leva a Zeus o pedido do filho no primeiro canto, e o poema diz que esse pacto condenou muitos gregos. Sabe que o filho vai viver pouco e não tem como adiá-lo. Fica entre o mar, onde chora com as nereidas, e o Olimpo, onde pede, e o que pede é sempre para Aquiles: honra, armas, a devolução de um corpo. Sua dor é a de uma deusa que não pode proteger o filho da morte, só ajudá-lo a cumprir o destino.

Trajetória

No Canto I, Aquiles, chorando à beira-mar, chama a mãe e lhe pede que suplique a Zeus que dê a vitória aos troianos até os gregos serem encurralados junto aos navios. Tétis responde chorando que a parte de vida dele é breve, nada longa, e agora é ao mesmo tempo de morte rápida e o mais infeliz de todos. Promete subir ao Olimpo quando Zeus voltar do banquete entre os etíopes. No décimo segundo dia, abraça os joelhos de Zeus e pede honra para o filho. Zeus demora a responder, por saber que Hera vai brigar, e então confirma com um aceno de cabeça.

ἐπεί νύ τοι αἶσα μίνυνθά περ οὔ τι μάλα δήν· / νῦν δʼ ἅμα τʼ ὠκύμορος καὶ ὀϊζυρὸς περὶ πάντων / ἔπλεο· (1.416-418), pois a tua parte de vida é breve, nada longa; e agora és ao mesmo tempo de morte rápida e o mais infeliz de todos.
Canto I: A peste e a ira
ἦ καὶ κυανέῃσιν ἐπʼ ὀφρύσι νεῦσε Κρονίων· / ἀμβρόσιαι δʼ ἄρα χαῖται ἐπερρώσαντο ἄνακτος / κρατὸς ἀπʼ ἀθανάτοιο· μέγαν δʼ ἐλέλιξεν Ὄλυμπον. (1.528-530), disse, e o filho de Crono acenou com as sobrancelhas escuras; os cabelos imortais do senhor ondularam sobre a cabeça imortal, e ele abalou o grande Olimpo.
Canto I: A peste e a ira

No Canto VIII, Atena recorda com ressentimento que Tétis beijou os joelhos de Zeus e tomou-lhe o queixo com a mão, suplicando que honrasse Aquiles, saqueador de cidades. No Canto IX, Aquiles repete a lição da mãe: dois destinos de morte o levam ao termo, ficar e combater com glória imperecível, perdendo o retorno, ou voltar para casa e ter vida longa sem a boa glória.

νῦν δʼ ἐμὲ μὲν στυγέει, Θέτιδος δʼ ἐξήνυσε βουλάς, / ἥ οἱ γούνατʼ ἔκυσσε καὶ ἔλλαβε χειρὶ γενείου, / λισσομένη τιμῆσαι Ἀχιλλῆα πτολίπορθον. (8.370-372), Agora me odeia e levou a termo os desígnios de Tétis, que lhe beijou os joelhos e lhe tomou o queixo com a mão, suplicando que honrasse Aquiles, saqueador de cidades.
Canto VIII: A batalha interrompida
μήτηρ γάρ τέ μέ φησι θεὰ Θέτις ἀργυρόπεζα / διχθαδίας κῆρας φερέμεν θανάτοιο τέλος δέ. / εἰ μέν κʼ αὖθι μένων Τρώων πόλιν ἀμφιμάχωμαι, / ὤλετο μέν μοι νόστος, ἀτὰρ κλέος ἄφθιτον ἔσται· / εἰ δέ κεν οἴκαδʼ ἵκωμι φίλην ἐς πατρίδα γαῖαν, / ὤλετό μοι κλέος ἐσθλόν, ἐπὶ δηρὸν δέ μοι αἰὼν / ἔσσεται, οὐδέ κέ μʼ ὦκα τέλος θανάτοιο κιχείη. (9.410-416), Pois minha mãe, a deusa Tétis dos pés de prata, diz que dois destinos de morte me levam ao termo: se eu ficar aqui e combater a cidade dos troianos, perdi o retorno, mas minha glória será imperecível; se eu voltar para casa, à querida pátria, perdi a boa glória, mas longa vida me será dada, e o termo da morte não me alcançará logo.
Canto IX: A embaixada a Aquiles

No Canto XIII, o narrador explica que Zeus quer a vitória para os troianos e para Heitor para dar glória a Aquiles, e não quer de modo algum que o povo aqueu pereça diante de Ílion, porque quer honrar Tétis e o filho dela. No Canto XV, Zeus diz a Hera que não fará cessar a cólera até se cumprir o desejo de Aquiles, como prometeu com o aceno de cabeça, no dia em que Tétis lhe abraçou os joelhos. O narrador chama a prece dela de excessiva.

τὸ πρὶν δʼ οὔτʼ ἄρʼ ἐγὼ παύω χόλον οὔτέ τινʼ ἄλλον / ἀθανάτων Δαναοῖσιν ἀμυνέμεν ἐνθάδʼ ἐάσω / πρίν γε τὸ Πηλεΐδαο τελευτηθῆναι ἐέλδωρ, / ὥς οἱ ὑπέστην πρῶτον, ἐμῷ δʼ ἐπένευσα κάρητι, / ἤματι τῷ ὅτʼ ἐμεῖο θεὰ Θέτις ἥψατο γούνων, / λισσομένη τιμῆσαι Ἀχιλλῆα πτολίπορθον. (15.72-77), antes disso eu não faço cessar a minha cólera, nem deixarei que nenhum outro dos imortais socorra aqui os dânaos, antes que se cumpra o desejo do Pelida, como lhe prometi no início e assenti com a minha cabeça, no dia em que a deusa Tétis tocou os meus joelhos, suplicando que eu honrasse Aquiles, o destruidor de cidades.
Canto XV: Os troianos nas naus

No Canto XVI, Aquiles abre na tenda a arca que Tétis lhe pôs a bordo, tira a taça de que só ele bebe e reza a Zeus pedindo que Pátroclo volte são e salvo. No Canto XVII, o narrador diz que Aquiles ainda não sabe que o amigo morreu, e que a mãe costumava lhe contar os planos de Zeus, mas desta vez não lhe disse a grandeza do mal.

αὐτὰρ ἐπεί κʼ ἀπὸ ναῦφι μάχην ἐνοπήν τε δίηται, / ἀσκηθής μοι ἔπειτα θοὰς ἐπὶ νῆας ἵκοιτο / τεύχεσί τε ξὺν πᾶσι καὶ ἀγχεμάχοις ἑτάροισιν. (16.246-248), e depois que ele afastar das naus o combate e o clamor, que volte a mim, são e salvo, às naus velozes, com todas as armas e com os companheiros de combate corpo a corpo.
Canto XVI: A morte de Pátroclo

No Canto XVIII, o gemido de Aquiles ao saber da morte de Pátroclo chega ao fundo do mar, onde Tétis está ao lado do velho pai. As nereidas se reúnem na gruta, e Tétis conduz o lamento: deu à luz o melhor dos heróis, criou-o como uma planta e o mandou a Troia, e agora sabe que não o receberá de volta na casa de Peleu. Sobe à praia, abraça a cabeça do filho e pergunta por que ele chora, lembrando que Zeus já lhe deu o que ele pediu. Aquiles responde que isso não lhe dá mais prazer, e chega a desejar que a mãe tivesse ficado entre as deusas do mar e que Peleu tivesse tomado uma esposa mortal. Tétis responde que, se ele matar Heitor, o fim dele está pronto logo depois.

ὠκύμορος δή μοι τέκος ἔσσεαι, οἷʼ ἀγορεύεις· / αὐτίκα γάρ τοι ἔπειτα μεθʼ Ἕκτορα πότμος ἑτοῖμος (18.95-96), De morte rápida serás, meu filho, pelo que dizes: pois logo depois de Heitor o teu fim está pronto.
Canto XVIII: O escudo de Aquiles

Concorda que é justo defender os companheiros em perigo, mas lembra que as armas de Aquiles estão com os troianos e que ele não deve entrar na batalha antes de vê-la voltar, pois ao nascer do sol ela trará armas novas, feitas por Hefesto. Chega à casa de Hefesto e é recebida por Cáris. Hefesto lembra que ela o salvou quando ele, coxo, foi atirado do céu, e lhe diz que deve pagar a vida que ela lhe salvou. Tétis, chorando, conta que nenhuma deusa suportou tantas dores quanto ela, que só a ela Zeus obrigou a casar com um mortal, e pede escudo, elmo, grevas e couraça para o filho de vida curta. Hefesto a anima: gostaria de poder escondê-lo da morte, tão certo quanto as armas belas que fará. Quando termina, Tétis desce do Olimpo como um gavião, levando as armas.

No Canto XIX, ao amanhecer, chega às naus com os presentes de Hefesto e encontra Aquiles abraçado ao corpo de Pátroclo. Põe as armas diante dele, e elas ressoam. Tranquiliza-o sobre as moscas no corpo, instila ambrosia e néctar nas narinas de Pátroclo para que a carne não se corrompa, manda que Aquiles renuncie à ira contra Agamêmnon e se arme, e lhe infunde coragem.

Μυρμιδόνας δʼ ἄρα πάντας ἕλε τρόμος, οὐδέ τις ἔτλη / ἄντην εἰσιδέειν, ἀλλʼ ἔτρεσαν. αὐτὰρ Ἀχιλλεὺς / ὡς εἶδʼ, ὥς μιν μᾶλλον ἔδυ χόλος, ἐν δέ οἱ ὄσσε / δεινὸν ὑπὸ βλεφάρων ὡς εἰ σέλας ἐξεφάανθεν· / τέρπετο δʼ ἐν χείρεσσιν ἔχων θεοῦ ἀγλαὰ δῶρα (19.14-18), Um tremor tomou todos os mirmidões, e nenhum teve coragem de encará-las: recuaram com medo. Mas Aquiles, quando as viu, sentiu a ira entrar nele ainda mais, e os olhos, sob as pálpebras, lançaram um brilho terrível como de fogo; e ele se deleitava segurando nas mãos os brilhantes presentes do deus.
Canto XIX: O fim da ira

No Canto XXI, derrubado pela correnteza do rio, Aquiles culpa a mãe, que o enganou com mentiras: dizia que ele pereceria sob o muro, pelas flechas de Apolo.

ἀλλὰ φίλη μήτηρ, ἥ με ψεύδεσσιν ἔθελγεν· / ἥ μʼ ἔφατο Τρώων ὑπὸ τείχεϊ θωρηκτάων / λαιψηροῖς ὀλέεσθαι Ἀπόλλωνος βελέεσσιν. / ὥς μʼ ὄφελʼ Ἕκτωρ κτεῖναι ὃς ἐνθάδε γʼ ἔτραφʼ ἄριστος· (21.276-279), mas a minha querida mãe, que me enganou com mentiras: dizia que eu pereceria sob o muro dos troianos de couraça, pelas flechas rápidas de Apolo. Antes me tivesse matado Heitor, o melhor que aqui se criou;
Canto XXI: Aquiles e o rio

No Canto XXIII, quando os carros rodeiam o corpo de Pátroclo, Tétis desperta neles o desejo de lamento. A urna para os ossos de Aquiles e de Pátroclo é a ânfora de ouro que a mãe de Aquiles lhe deu.

ὣς δὲ καὶ ὀστέα νῶϊν ὁμὴ σορὸς ἀμφικαλύπτοι / χρύσεος ἀμφιφορεύς, τόν τοι πόρε πότνια μήτηρ. (23.91-92), assim também uma só urna cubra os ossos dos dois, a ânfora de ouro que a senhora tua mãe te deu.
Canto XXIII: Os jogos fúnebres

No Canto XXIV, Zeus a manda chamar para lhe dar um conselho que leve o filho a aceitar o resgate. Íris a encontra numa gruta entre Samos e Ímbros, cercada pelas outras deusas do mar, chorando o destino do filho, que vai morrer em Troia longe da pátria. Tétis hesita, porque tem vergonha de aparecer entre os imortais com tanta dor, mas obedece, envolta num véu azul-escuro, e sobe ao Olimpo. Atena lhe cede o lugar ao lado de Zeus, e Hera lhe passa uma taça de ouro. Zeus explica que há nove dias os deuses brigam por causa do cadáver e manda-a dizer ao filho que os deuses estão irritados com ele, Zeus mais do que todos. Tétis desce até a tenda e o encontra gemendo. Afaga-o com a mão e lhe pergunta até quando vai consumir o coração sem comer nem dormir, lembrando que a morte e o destino forte já estão perto dele. Transmite o recado de Zeus e pede que ele solte o corpo e aceite o resgate. Aquiles responde que quem trouxer o resgate leve o cadáver, se o próprio Olímpio o ordena de bom grado.

Temas que encarna

Tétis encarna a Perda e luto antecipado: chora o filho enquanto ele vive, porque sabe que a vida dele será curta. Encarna a Morte como informação que uma mãe divina carrega e não pode mudar. E encarna o Destino e livre-arbítrio na distância entre o que uma deusa pode dar, honra, armas, o recado de um deus, e o que não pode dar, a vida longa.

Tétis nunca discute a escolha do filho. No Canto I aceita o pedido sem perguntar se é justo, porque o que a move é a pena; no Canto XVIII faz a conta que as palavras de Aquiles já contêm, sem prometer saída, e sobe ao Olimpo para buscar as armas mesmo sabendo que a morte de Heitor traz a de Aquiles. O poema deixa a pergunta de pé: o que leva uma mãe a ajudar o filho a cumprir a escolha que o mata? Há duas leituras. Pode ser a lealdade a quem decidiu, ou a impossibilidade de dar outra coisa. No Canto XXI, Aquiles a acusa de uma mentira, a de que morreria sob o muro pelas flechas de Apolo, e o texto não diz por que essa versão é mais suave que a que ela mesma lhe dá no Canto XVIII.

Relações

  • Aquiles: o filho cuja vida curta ela chora, a quem leva armas e a quem transmite o recado de Zeus.
  • Zeus: o deus a quem pede honra para o filho e que a chama para o conselho do resgate.
  • Hera: a deusa que, no Canto XXIV, lhe passa a taça e diz ter criado Tétis.
  • Atena: a deusa que se ressente de Zeus ter atendido a Tétis e que lhe cede o lugar no Canto XXIV.
  • Apolo: o deus cujas flechas, segundo Aquiles, ela dissera que o matariam.
  • Pátroclo: o morto cujo corpo ela preserva com ambrosia.
  • Hefesto: o ferreiro que deve a ela a vida e lhe faz as armas.
  • Peleu: o marido mortal.