Clavis Libri

Tema em O Vermelho e o Negro

Política

A vida da cidade e do Estado: governo, regime, ideologia, democracia, tirania de Estado, nação.

O tema na obra

O subtítulo, crônica de 1830, avisa que a matéria é a França da Restauração, e a política entra no romance desde Verrières. Monsieur de Rênal teme as censuras que a imprensa liberal vai publicar (Livro I, cap. 2), o cura Abade Chélan se diz pronto a ser destituído por ter aberto a prisão ao sr. Appert (cap. 3) e acaba substituído pelo vigário Maslon (cap. 14). Por trás das disputas da cidade está a Congregação, a rede clerical que o narrador nomeia de passagem no capítulo 5 e que arruína o impressor Falcoz (cap. 21), faz de Valenod um dependente do vigário-geral Abade de Frilair (cap. 22) e fica com a casa do município no leilão (cap. 23).

O seminário reproduz a disputa em ponto menor: o padre Castanède ensina que o governo só tem poder legítimo por delegação do papa (cap. 27), e a guerra entre Frilair e Abade Pirard, que serve ao Marquês de La Mole num processo por um terreno, decide o destino de Julien Sorel nos exames (cap. 29) e acaba por levá-lo a Paris.

Em Paris a política sobe de escala. O salão de La Mole a proíbe como assunto (Livro II, cap. 4), Altamira descreve uma sociedade em que a congregação entrega à polícia tudo o que tem valor pelo espírito (cap. 9), e o marquês leva Julien a uma reunião secreta onde se planeja uma tropa de quinhentos homens por departamento e se discute o apoio do clero (caps. 21 a 23). No meio dela, o narrador para o relato para discutir com um editor fingido se a política cabe num romance (cap. 22). O processo fecha o círculo em Besançon: Frilair vê no caso uma via para o bispado (cap. 38), conta os congregados entre os jurados (cap. 40) e promete a absolvição; é Valenod, agora barão e prefeito, quem lê o veredicto de culpa (cap. 41).

A política não é pano de fundo, é o mecanismo que decide a vida de Julien em cada degrau: a batina é escolha política antes de ser religiosa, o emprego em Paris nasce de um processo entre um vigário e um marquês, e o júri que o condena foi contado por uma rede de favores. O editor do capítulo 22 do Livro II tem razão contra o autor, e o livro inteiro o prova: sem a política, Julien seria apenas um rapaz ambicioso, e não um francês de 1830.

Onde aparece

Passagens

A rede que decide as disputas de Verrières aparece já no capítulo 5:

O episódio das colunas de mármore nomeia o poder que decide essa disputa: tornaram-se célebres na região, pelo ódio mortal que suscitaram entre o juiz de paz e o jovem vigário enviado de Besançon, tido como espia da congregação.
Livro I, capítulo 5: Uma negociação

Em Paris, Altamira dá o diagnóstico da mesma rede:

Por aqui, tudo o que tem algum valor pelo espírito, a congregação o entrega à polícia correcional; e a boa sociedade aplaude.
Livro II, capítulo 9: O baile

O narrador para o romance para discutir a política dentro dele:

"A política", continua o autor, "é uma pedra amarrada no pescoço da literatura e que, em menos de seis meses, a faz submergir. A política, entre os interesses da imaginação, é um tiro de pistola no meio de um concerto. Esse ruído é dissonante sem ser enérgico. Não se harmoniza com o som de nenhum instrumento. Essa política vai ofender mortalmente metade dos leitores e aborrecer a outra metade, que a achou bem mais interessante e vibrante no jornal da manhã." "Se seus personagens não falarem de política", continua o editor, "não serão mais franceses de 1830, e seu livro não será mais um espelho conforme o senhor queria…"
Livro II, capítulo 22: A discussão

Na reunião secreta, o cardeal explica por que o clero é indispensável:

O cardeal: Cinquenta mil padres repetem as mesmas palavras no dia indicado pelos chefes, e o povo, que, afinal de contas, fornece os soldados, há de se comover mais com a voz de seus padres do que com os versinhos do mundo
Livro II, capítulo 23: O clero, os bosques, a liberdade

E o júri, contado antes da audiência:

Entre as doze pessoas encarregadas de examinar se o crime de seu protegido é incontestável e, sobretudo, se houve premeditação, conto com seis amigos devotados a minha causa, e dei-lhes a entender que dependia deles levar-me ao bispado.
Livro II, capítulo 41: O julgamento