Clavis Libri

Tema em O Cortiço

Escravidão

A escravidão como instituição e como experiência: escravo e senhor, tráfico, alforria.

O tema na obra

A escravidão entra em O Cortiço por uma pessoa, Bertoleza, e o livro a mostra em três tempos. No primeiro, ela é escrava de um velho cego, paga ao dono vinte mil-réis por mês e junta para comprar a alforria (capítulo I). No segundo, João Romão lhe lê uma carta de liberdade que ele mesmo forjou, guarda o dinheiro dela e a faz crer livre, enquanto ela segue sem domingo nem dia santo (capítulo I, capítulo VI). No terceiro, quando o casamento com a filha de Miranda a torna um estorvo, ele a restitui ao senhor por via legal (capítulo XXI, capítulo XXIII).

Em volta dela o tema aparece em figuras menores: Botelho, ex-corretor de escravos, que trata a abolição como ódio de sobremesa (capítulo II); Rita Baiana, que chama o casamento de cativeiro (capítulo VI); e o fecho do livro, em que a comissão de abolicionistas chega à porta do armazém onde a escrava acaba de se ferir (capítulo XXIII).

O livro mostra também o que a escravidão faz no dia a dia de Bertoleza depois da carta falsa. Na subida de Romão, ela fica mais escrava e mais triste (capítulo XIII); quando sente nele o cheiro de outras mulheres, deixa de ser amante para ficar só escrava de trabalho (capítulo XIX); nos últimos meses, vive em sobressalto, só come o que ela mesma prepara e dorme de porta trancada (capítulo XXII).

O livro dá os fatos de Bertoleza em ordem e deixa o contraste trabalhar: a mulher a quem a carta falsa deu a ilusão da liberdade é a que a lei devolve ao cativeiro, e quem a devolve é o homem a quem os abolicionistas vêm homenagear. Botelho, que viveu de comprar e vender gente, é quem faz a pergunta que dá a Romão a saída (capítulo II, capítulo XXI). O texto não comenta a coincidência, e cabe ao leitor decidir o que o fecho pede que se junte: a reputação que Romão construiu ou o ato que encomendou.

Onde aparece

  • Capítulo I: Bertoleza paga jornal ao dono e junta para a alforria; com a morte do companheiro, Romão guarda o dinheiro e lhe lê uma carta de liberdade forjada, e só se acalma quando o velho senhor morre.
  • Capítulo II: Botelho, ex-corretor de escravos que perdeu a fortuna, faz das sobremesas da casa de Miranda a válvula do ódio sobre a abolição que começava.
  • Capítulo VI: No domingo todos trocam de roupa e só Bertoleza fica ao fogão; Rita diz que casar é arranjar cativeiro.
  • Capítulo XIII: Na subida de Romão, Bertoleza fica mais escrava e mais triste; depois do jantar na casa do Barão ele pergunta a si mesmo o que seria se ela morresse.
  • Capítulo XIX: Bertoleza sente o cheiro de outras mulheres no amigo e deixa de ser amante para ficar só escrava de trabalho.
  • Capítulo XXI: Bertoleza ouve a conversa e exige ficar ao lado dele; Botelho pergunta se ela era escrava e Romão vê a saída: devolvê-la ao dono, um tal Freitas de Melo.
  • Capítulo XXII: Bertoleza passa a viver em sobressalto, só come do que ela mesma prepara e dorme de porta trancada.
  • Capítulo XXIII: O dono chega com duas praças; Bertoleza reconhece o filho do antigo senhor, entende a mentira da carta e se fere com a faca; a comissão de abolicionistas entra com o diploma de sócio benemérito.

Passagens

Bertoleza trabalha, paga ao dono e junta para a alforria.

pagava de jornal a seu dono vinte mil-réis por mês, e, apesar disso, tinha de parte quase que o necessário para a alforria
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda

A carta de liberdade é obra de quem a lê.

a tal carta de liberdade era obra do próprio João Romão, e nem mesmo o selo, que ele entendeu de pespegar-lhe em cima, para dar à burla maior formalidade, representava despesa porque o esperto aproveitara uma estampilha já servida
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda

A abolição entra nas sobremesas de Miranda pela boca de Botelho.

Lei do Ventre Livre, de 28 de setembro de 1871, que declarou livres os filhos de escravas nascidos dali em diante:

o movimento abolicionista que principiava a formar-se em torno da lei Rio Branco
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda

Bertoleza fica ao fogão no dia de descanso dos outros.

a Bertoleza, sempre suja e tisnada, sempre sem domingo nem dia santo, lá estava ao fogão, mexendo as panelas e enchendo os pratos
Capítulos VI a VII: O domingo de Rita Baiana e o pagode

De amante a escrava de trabalho.

pouco a pouco deixara totalmente de ser a amante do vendeiro, para ficar sendo só uma sua escrava
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade

A saída que a pergunta de Botelho abre.

entregá-la ao seu senhor, restituí-la legalmente à escravidão.
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão

O plano apresentado como ato legal.

Os homenzinhos chegam, reclamam a escrava em nome da lei, e você a entrega
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão

Bertoleza chega sozinha à conclusão.

adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para matá-la, restituía-a ao cativeiro.
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão

A comissão chega à porta do armazém.

Era uma comissão de abolicionistas que vinha, de casaca! trazer-lhe respeitosamente o diploma de sócio benemérito.
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão

As datas da lei e do livro.

A Lei Áurea, que extinguiu a escravidão no Brasil, é de 13 de maio de 1888, e O Cortiço foi publicado em 1890. A escrava devolvida ao dono e a comissão de abolicionistas dividem, portanto, a mesma página de um romance escrito pouco depois do fim da escravidão sobre uma época em que ela ainda vigorava.
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão