Clavis Libri

Tema em O Cortiço

Trabalho e vocação

O trabalho e o chamado: ofício, profissão, vocação, a dignidade ou o peso do trabalho.

O tema na obra

O trabalho em O Cortiço aparece por dois lados: o que se faz e o que se ganha com o que se faz. Bertoleza trabalha desde as quatro da madrugada, de caixeiro, criada e amante, sem domingo nem dia santo (capítulo I, capítulo VI). Jerônimo faz do ofício de pedreira uma carreira, de quebrador de pedra a contramestre, e na pedreira de João Romão reforma o serviço e lhe dá lucro em dois meses (capítulo V). Firmo é torneiro hábil e vadio, que ganha numa semana para gastar num dia (capítulo VII). As lavadeiras, os operários da venda e Pombinha, que escreve as cartas dos vizinhos, completam o dia do cortiço (capítulo III, capítulo VI).

O dia de trabalho começa antes de todos: o cortiço acorda às cinco, as lavadeiras ocupam as tinas e os operários enchem a venda (capítulo III); depois do pagode, Jerônimo nem dorme, porque é quase hora de entrar no serviço (capítulo VII). O trabalho marca também a queda: de volta a uma pedreira, a de São Diogo, ele deve ao padeiro e está alcançado no ordenado (capítulo XIX).

O texto mede o trabalho pelo que ele rende e a quem. Jerônimo veio atrás de um lugar onde o esforço renda para si (capítulo V), e quem lucra primeiro é Romão, que só cede ao salário depois de fazer a conta de que o dinheiro lhe volta pela venda (capítulo IV). Depois o calor e Rita Baiana o desviam (capítulo IX), e o ofício vira só um emprego que não paga as contas (capítulo XIX). Firmo e Rita mostram a outra medida, a do que se ganha para gastar no dia e a de não dever obediência a ninguém (capítulo VII, capítulo VI). Bertoleza trabalha nos dois sentidos sem que o rendimento seja dela. O texto não diz se a vocação de Jerônimo era o ofício ou o lugar onde ele rendia.

Onde aparece

  • Capítulo I: Bertoleza faz de caixeiro, criada e amante desde as quatro da madrugada; Romão e ela levantam as primeiras casinhas com pedra furtada à pedreira vizinha.
  • Capítulo III: O cortiço acorda às cinco, as lavadeiras ocupam as tinas, os operários enchem a venda, e Romão faz esperar o futuro empregado.
  • Capítulo IV: Jerônimo defende o salário de setenta mil-réis com o desastre da semana na pedreira (bom trabalhador custa menos que o acidente) e aponta o ataque errado à rocha; Romão cede porque o dinheiro lhe volta.
  • Capítulo V: Jerônimo, colono que saiu da fazenda de mãos vazias, sobe a contramestre na Corte e na pedreira de Romão assume a direção do serviço.
  • Capítulo VI: Bertoleza segue ao fogão no domingo; Pombinha escreve as cartas que os vizinhos ditam; Rita diz que prefere ser senhora e dona do que é seu a casar.
  • Capítulo VII: Firmo é oficial perito e vadio; Jerônimo, depois do pagode, decide não dormir porque é quase hora de entrar no serviço.
  • Capítulo VIII: Jerônimo, incomodado, larga o trabalho na pedreira na hora do almoço e vai se deitar em casa.
  • Capítulo IX: Jerônimo perde a energia, fica contemplativo e esquece os sonhos de ambição; o texto lista o que a mudança dá e o que tira.
  • Capítulo XIX: Jerônimo volta a empregar-se numa pedreira, a de São Diogo, mas deve ao padeiro e está alcançado no ordenado; Piedade passa a beber.

Passagens

Bertoleza faz o balcão, a casa e a cama.

Bertoleza representava agora ao lado de João Romão o papel tríplice de caixeiro, de criada e de amante
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda

Romão aceita o salário porque o dinheiro lhe volta.

Os meus setenta mil-réis voltar-me-ão à gaveta. Tudo me fica em casa
Capítulos III a V: O cortiço acorda e Romão contrata Jerônimo

Jerônimo sai da fazenda de mãos vazias.

mourejou durante dois anos, sem nunca levantar a cabeça, e de onde afinal se retirou de mãos vazias e uma grande birra pela lavoura brasileira
Capítulos III a V: O cortiço acorda e Romão contrata Jerônimo

O patrão conta o lucro com a aquisição.

No fim de dois meses já o vendeiro esfregava as mãos de contente e via, radiante, quanto lucrara com a aquisição de Jerônimo
Capítulos III a V: O cortiço acorda e Romão contrata Jerônimo

Bertoleza fica ao fogão no domingo.

a Bertoleza, sempre suja e tisnada, sempre sem domingo nem dia santo, lá estava ao fogão, mexendo as panelas e enchendo os pratos
Capítulos VI a VII: O domingo de Rita Baiana e o pagode

Rita não quer dever obediência a ninguém.

Não há como viver cada um senhor e dono do que é seu!
Capítulos VI a VII: O domingo de Rita Baiana e o pagode

Firmo ganha uma semana para gastar num dia.

Era oficial de torneiro, oficial perito e vadio; ganhava uma semana para gastar num dia
Capítulos VI a VII: O domingo de Rita Baiana e o pagode

Jerônimo se reforma por fora e por dentro.

pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se
Capítulos VIII a IX: Jerônimo, Leocádia e o escândalo de Florinda