O tema na obra
A escravidão entra no livro pela infância de Brás Cubas. No capítulo XI, ele conta que quebrou a cabeça de uma escrava que lhe negara doce de coco e fez de Prudêncio, moleque da casa, o seu cavalo de todos os dias; no capítulo XII, o jantar de 1814 inclui a notícia dos negros novos que estavam a vir de Loanda.
O tema volta no inventário e na vigilância. No capítulo XLVI, a partilha da herança junta a casa, a sege, o boleeiro, os pretos Paulo e Prudêncio e a prataria; no capítulo LXV, os criados entram na floresta de olheiros. No capítulo LXVIII, no Valongo, Brás encontra Prudêncio, já livre, vergalhando o próprio escravo (ver o vergalho).
Mais adiante, no capítulo CXVII, a cadeia que Quincas Borba monta até o prato do almoço começa num africano comprado em Angola, e no capítulo CXXIII o retrato de Cotrim o dá como contrabandista de escravos.
A escravidão volta como imagem e como lembrança. No capítulo XX, Brás diz que o diploma de bacharel é uma carta de alforria, que lhe dá a liberdade e também a responsabilidade. No capítulo LXVIII, voltando a pé pelo Valongo, encontra Prudêncio, o moleque que o pai dele libertara, vergalhando um preto na praça e explicando que bate no seu escravo por vadio e bêbado. No capítulo LXIX, a propósito do vergalho recebido e transferido por Prudêncio, lembra o louco Romualdo, que dizia ser Tamerlão, confessa que não acha graça na história e propõe deixar os Romualdos e Prudêncios. No capítulo CXXIII, o retrato de Cotrim o mostra dono de um calabouço de onde os escravos desciam a escorrer sangue, e Brás atribui o trato duro às relações sociais.
O livro quase nunca dá nome à escravidão: mostra-a como paisagem. A notícia dos negros novos circula entre as glosas, a alforria de Prudêncio entra na partilha como perda, o africano abre a cadeia do frango do Humanitismo, e o vocabulário do cativeiro serve de imagem para o amor e para o diploma. A cena do vergalho é a mais explícita, e o texto a deixa em duas leituras, a da graça com que Brás a conta e a da análise limpa em que a violência recebida se repete em quem tem alguém abaixo; em ambas Brás é o primeiro anel da cadeia.
Onde aparece
- Capítulo XI: Brás conta que aos seis anos quebrou a cabeça de uma escrava que lhe negara doce de coco e fez de Prudêncio, moleque da casa, o seu cavalo de todos os dias.
- Capítulo XII: No jantar de 1814, entre as glosas e a espera da compota, circula a notícia recente dos negros novos que estavam a vir, segundo cartas recebidas de Loanda.
- Capítulo XX: Brás diz que o diploma de bacharel é uma carta de alforria, que lhe dá a liberdade e também a responsabilidade.
- Capítulo XLVI: Brás, a irmã Sabina e o cunhado Cotrim discutem a partilha, que inclui a casa, a sege, o boleeiro, os pretos Paulo e Prudêncio, este livre há dois anos, e a prataria.
- Capítulo LXV: Brás inclui os criados entre os olheiros e escutas que vigiam os amantes e diz que assim eles se desforravam da condição servil.
- Capítulo LXVIII: Voltando a pé pelo Valongo, Brás encontra Prudêncio, o moleque que o pai dele libertara, vergalhando um preto na praça e explicando que bate no seu escravo por vadio e bêbado.
- Capítulo LXIX: Brás lembra o louco Romualdo, que dizia ser Tamerlão, a propósito do vergalho recebido e transferido por Prudêncio, confessa que não acha graça na história e propõe deixar os Romualdos e Prudêncios.
- Capítulo CXVII: Para provar que o frango que almoçou resulta de lutas postas a serviço do seu apetite, Quincas Borba conta uma cadeia que começa num africano comprado em Angola.
- Capítulo CXXIII: No retrato de Cotrim, Brás o dá como contrabandista de escravos e dono de um calabouço de onde os escravos desciam a escorrer sangue, e atribui o trato duro às relações sociais.
Passagens
O cavalo de todos os dias.
Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias
A notícia do tráfico circula entre a compota e as glosas.
dava a outro notícia recente dos negros novos, que estavam a vir, segundo cartas que recebera de Loanda
Na partilha, a alforria é lida como perda.
creio que não libertou a prata?
Prudêncio obedece ao antigo dono mesmo no meio do castigo.
Nhonhô manda, não pede.
Brás dá a explicação da cena do Valongo.
Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, [...] transmitindo-as a outro.
Brás atribui o trato duro de Cotrim às relações sociais.
não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais