Clavis Libri

Tema em O Cortiço

Ambição

Querer subir: ambição, aspiração, ascensão social, a vontade de ser mais do que se é.

O tema na obra

João Romão chega ao livro já acumulando: no capítulo I vive de privações, esconde de Bertoleza que a carta de liberdade é forjada e levanta o cortiço com o dinheiro dela. A ambição de subir de posição só aparece depois, quando o título de barão do vizinho Miranda lhe dá um objeto (capítulo X). Dali em diante o romance a conta em etapas: o refinamento de roupa e hábitos (capítulo XIII), as obras e a corte a Zulmira (capítulo XIX), o plano do visconde e a decisão sobre Bertoleza (capítulo XXI) e a honraria que fecha o livro (capítulo XXIII).

Em Miranda e em Jerônimo a ambição tem outra forma. Miranda forma o ideal do título pela inveja do vizinho (capítulo II). Jerônimo chega como colono que quer um trabalho que lhe renda (capítulo V) e, ao se abrasileirar, esquece os sonhos de ambição (capítulo IX).

A ambição de Romão também se mede pelo que ela lhe permite fazer com os outros. Ele só cede ao salário de Jerônimo depois de calcular que o dinheiro lhe volta pela venda (capítulo IV) e recusa as contas ao caixeiro Domingos (capítulo IX). Toma as garrafas de Libório e usa o resto nas obras (capítulo XVIII), e o sobrado novo acaba mais alto que o de Miranda, com a tabuleta mudada para Avenida São Romão (capítulo XX).

O narrador separa o que Romão sente no começo da ambição propriamente dita: chama de moléstia nervosa o desespero de acumular (capítulo I). A ambição ganha objeto quando o título de Miranda aparece (capítulo X), e passa a ter etapas e custo, que o livro cobra em Bertoleza (capítulo XXI, capítulo XXIII). Em Jerônimo a mesma palavra corre ao contrário, do colono que veio ganhar ao homem que deixa de poupar. O texto não diz se a diferença entre os dois homens é de caráter ou de lugar.

Onde aparece

  • Capítulo I: Romão vende o ovo de que gosta e fica com o legume que ninguém compraria, e o narrador diz que aquilo já não era ambição, era desespero de acumular.
  • Capítulo II: Miranda, ao ver o vizinho enriquecer sem casar por dote, forma o ideal do título e abre a casa para festas.
  • Capítulo IV: Romão aceita pagar setenta mil-réis a Jerônimo ao calcular que o salário lhe volta à gaveta pela venda.
  • Capítulo V: Jerônimo, saído da fazenda de mãos vazias, procura um lugar onde o esforço renda para si, e o patrão passa a respeitá-lo.
  • Capítulo IX: Jerônimo se abrasileira e esquece os sonhos de ambição; Romão recusa as contas ao caixeiro Domingos e diz que o saldo dele não chega para o dote de Florinda.
  • Capítulo X: A notícia do título de Miranda tira o sono de Romão, que se vê barão e banqueiro em sonho e conta o que lhe falta para o salto.
  • Capítulo XII: Depois da carta de Bruno, Pombinha vê no noivo um bom rapaz sem atrevimentos de ambição e quase desfaz o ajuste.
  • Capítulo XIII: Romão se refaz com roupa, aulas de dança e jornais, fecha com Botelho o preço de chegar à casa do Barão e, nos devaneios, pensa em tudo, menos em Bertoleza.
  • Capítulo XIV: Da janela de Miranda, Romão olha com desprezo a gente que o enriqueceu.
  • Capítulo XVIII: Romão toma as garrafas de Libório, diz que teria sido um ato de justiça tomá-las antes e, já no seguro, ouve de Miranda que os desabrigados nada têm que perder.
  • Capítulo XIX: As obras começam, Romão passa a frequentar a Bolsa e a jantar com o Barão, e Botelho o apressa a pedir a mão de Zulmira.
  • Capítulo XX: O sobrado de Romão fica mais alto que o de Miranda, e a tabuleta passa a dizer Avenida São Romão.
  • Capítulo XXI: Com o casamento decidido, Romão sonha com o título de visconde antes de Miranda e resolve devolver Bertoleza ao dono.
  • Capítulo XXII: O São Romão se aristocratiza, com carta de fiança e preços mais altos, ao ritmo do dono.
  • Capítulo XXIII: Romão cobre o rosto diante do fim de Bertoleza e logo manda a comissão de abolicionistas para a sala de visitas, onde recebe o diploma de sócio benemérito.

Passagens

O narrador separa o que Romão sente da ambição e chama de moléstia o desespero de acumular.

Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular; de reduzir tudo a moeda
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda

A inveja chega a quem só amara o dinheiro.

aquele ente atrofiado pela cobiça e que parecia ter abdicado dos seus privilégios e sentimentos de homem; aquele desgraçado, que nunca jamais amara senão o dinheiro, invejava agora o Miranda
Capítulos X a XI: Título de barão, navalhada e visita de Pombinha

O desejo de subir convive com o medo de cair.

um desejo forte de querer saltar e um medo invencível de cair e quebrar as pernas
Capítulos X a XI: Título de barão, navalhada e visita de Pombinha

Nos devaneios de ambição, Bertoleza fica de fora.

João Romão, com efeito, tão ligado vivera com a crioula e tanto se habituara a vê-la ao seu lado, que nos seus devaneios de ambição pensou em tudo, menos nela.
Capítulos XII a XIV: Casamento, cortiço rival e plano de vingança

Romão dá a si mesmo uma razão para o que fez com o dinheiro de Libório.

Seria um ato de justiça!
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade

O desejo que Romão nunca disse a ninguém.

sustentava de si para si nos últimos anos o firme propósito de fazer-se um titular mais graduado que o Miranda
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão

O obstáculo ao casamento é a mulher que o ajudou a subir.

Bertoleza devia ser esmagada, devia ser suprimida, porque era tudo que havia de mau na vida dele!
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão

A honraria chega no instante seguinte ao ato.

Era uma comissão de abolicionistas que vinha, de casaca! trazer-lhe respeitosamente o diploma de sócio benemérito.
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão