O tema na obra
O livro põe três andares lado a lado: os moradores do cortiço, que lavam, quebram pedra e vendem; João Romão, que lhes aluga o chão e vende a comida; e o sobrado de Miranda, com título, dote e janelas sobre o pátio (capítulo I, capítulo II). A diferença não aparece em tese, aparece em sinais de uso: a roupa do domingo (capítulo VI), o direito de ficar em casa com os amigos (capítulo VII), a casaca que Romão não sabe vestir (capítulo X), a carta de fiança exigida na entrada (capítulo XXII).
Os caminhos de cima e de baixo se cruzam. Romão sobe até o ponto de olhar o pátio da janela de Miranda (capítulo XIV) e de passar o sobrado em altura (capítulo XX). Dona Isabel e Pombinha vêm de uma casa de chapéus falida e lutam para voltar ao círculo de antes (capítulo III, capítulo XII). Piedade desce, de lavadeira cuidadosa a quem é despejada (capítulo XX, capítulo XXII).
O próprio cortiço muda de classe quando o dono muda. Os cômodos passam de cento e tantos a mais de quatrocentos, e chegam estudantes, contínuos e caixeiros (capítulo XX); depois a estalagem passa a exigir carta de fiança e perde lavadeiras e italianos para o Cabeça-de-Gato, que recebe quem já não cabe no São Romão (capítulo XXII).
A distância entre as casas é medida em coisas pequenas, e o texto as mostra sem comentar: Dona Isabel recusa o casamento que a tiraria da estalagem porque o que lhe resta é a decência de quem teve tratamento (capítulo III); Romão, que já tem dinheiro, não sabe vestir casaca nem conversar em sala (capítulo X). A subida de Romão é menos de dinheiro do que de trato, e é ela que troca a gente da estalagem (capítulo XXII) e faz de Bertoleza um obstáculo (capítulo XXI). O livro deixa à vista o custo de quem não sobe junto e não diz se o preço era evitável.
Onde aparece
- Capítulo I: Miranda compra o sobrado ao lado, com a casa comercial garantida pelo dote de Estela, e Romão, sem casar, levanta o cortiço junto ao muro; as duas casas ficam frente a frente.
- Capítulo II: Miranda inveja o vizinho que enriqueceu sem dote; Botelho, ex-corretor de escravos arruinado, vive à sombra da casa e guarda rancor de quem tem o que ele não teve.
- Capítulo III: Dona Isabel, viúva do dono de uma casa de chapéus falida, recusa casar Pombinha antes do tempo, mesmo sabendo que o casamento as tiraria da estalagem.
- Capítulo VI: No domingo todos trocam de roupa e só Bertoleza fica ao fogão; Rita Baiana diz que prefere ser senhora e dona do que é seu a casar.
- Capítulo VII: Miranda grita do sobrado contra o pagode, e Rita responde que ninguém tem de incomodá-los por passarem o domingo em casa com os amigos; as duas festas convivem sem se encontrar.
- Capítulo IX: A francesa Léonie visita a comadre Augusta e a estalagem inteira vem admirá-las.
- Capítulo X: Romão sabe juntar dinheiro, mas não vestir casaca, calçar sapato de baile nem conversar em sala; os moradores defendem juntos o portão contra a polícia.
- Capítulo XII: Dona Isabel agradece de joelhos o sangue da filha, que lhe garante o casamento e o futuro das duas.
- Capítulo XIII: O Cabeça-de-Gato tem dono de fachada porque ao verdadeiro, um conselheiro, não convém aparecer por decoro social; Bertoleza fica para trás na subida de Romão.
- Capítulo XIV: Da janela de Miranda, Romão olha com desprezo a gente que o enriqueceu e continua a trabalhar de sol a sol.
- Capítulo XVIII: Romão, que estava no seguro, aponta os desabrigados, e Miranda responde que esses nada têm que perder.
- Capítulo XX: Os cômodos passam de cento e tantos a mais de quatrocentos, chegam estudantes, contínuos e caixeiros, e o sobrado de Romão fica mais alto que o de Miranda.
- Capítulo XXI: Botelho avisa que Estela torce o nariz ao boato da crioula; para o casamento com a filha de Miranda, Bertoleza é o que resta do balcão e do fogareiro.
- Capítulo XXII: O São Romão exige carta de fiança e perde lavadeiras e italianos para o Cabeça-de-Gato; Pombinha, casada, escorrega para o mundo de Léonie, e Piedade chega ao fundo.
- Capítulo XXIII: Na confeitaria da Rua do Ouvidor, Romão recebe a família de Miranda entre cortesias e uma pergunta sobre a companhia lírica que o desnorteia.
Passagens
Dona Isabel prefere a decência que lhe sobrou a sair da estalagem.
não era decente, nem tinha jeito, dar homem a uma moça que ainda não fora visitada pelas regras! Não! Antes vê-la solteira toda a vida e ficarem ambas curtindo para sempre aquele inferno da estalagem
Rita defende o domingo como direito, e responde a quem a espia de cima.
Pois então a gente não é senhora de estar um domingo em casa a seu gosto e com os amigos que entender
Miranda manda calar o pagode de guardanapo e trinchante na mão.
O Miranda apareceu furioso à janela, com o seu tipo de comendador, a barriga empinada para a frente, de paletó branco, um guardanapo ao pescoço e um trinchante empunhado na destra, como uma espada
Romão tem o dinheiro e não tem o trato.
um desejo forte de querer saltar e um medo invencível de cair e quebrar as pernas
Miranda diz isto dos desabrigados ao lado de Romão, que estava no seguro.
Nada têm que perder
A engrenagem do cortiço alcança uma nova camada social.
A feroz engrenagem daquela máquina terrível, que nunca parava, ia já lançando os dentes a uma nova camada social que, pouco a pouco, se deixaria arrastar inteira lá para dentro.
O sobrado de Miranda recua diante do prédio de Romão.
O prédio do Miranda parecia ter recuado alguns passos, perseguido pelo batalhão das casinhas da esquerda
O cortiço se aristocratiza e quem não paga a fiança sai.
O cortiço aristocratizava-se.