O tema na obra
O narrador de O Cortiço conta pessoas e lugares com o vocabulário do meio, do clima e do instinto, e o livro faz disso o seu modo de narrar. O cortiço brota da terra encharcada como larvas no esterco (capítulo I), Miranda o vê como floresta debaixo das suas janelas (capítulo II), a manhã é fermentação e prazer animal de existir (capítulo III), a pedreira é um gigante contra o qual os homens se revoltam (capítulo IV). A mesma voz explica Jerônimo: o sol, o café e a música o reformam (capítulo IX), e a virada para Rita Baiana vem das imposições do meio (capítulo XV).
A civilização entra como obra do dono. João Romão aprende a se vestir bem e a dançar (capítulo XIII), reconstrói a estalagem com varandas, latrinas, torneiras e lampiões (capítulo XX) e a faz exigir carta de fiança (capítulo XXII).
A música entra nessa mesma oposição. Jerônimo toca à noite os fados da aldeia, e a alma de desterrado volta à infância (capítulo V); no pagode, o chorado baiano cala as toadas dos de além-mar e o arrasta à dança sem que ele saiba dizer o que sente (capítulo VII). E, quando o fogo rebenta no número 88, o cortiço desarma a briga entre os dois partidos e se recompõe num só para salvar o pouco que tem (capítulo XVII).
O modo de narrar põe o ambiente antes de cada pessoa, e as cenas deixam à vista o que cada um acrescenta por conta própria: Romão planeja a estalagem em braças de terra (capítulo I), Jerônimo paga os companheiros da emboscada (capítulo XV). A civilização do fim não aparece como o contrário da natureza do cortiço: a máquina que nunca para (capítulo XX) segue a funcionar com lampiões, e a cadeia continua na filha de Piedade (capítulo XXII). O texto mostra os dois movimentos na mesma estalagem e não escolhe entre eles.
Onde aparece
- Capítulo I: O cortiço nasce de um lameiro quente e esfervilha como geração espontânea; o plano de Romão mede-se em braças de terra.
- Capítulo II: Miranda vê o cortiço como floresta implacável debaixo das janelas, e o desejo no sobrado é narrado com imagens de bestas e serpente.
- Capítulo III: O cortiço acorda como organismo que ferve, na imagem de plantas rasteiras que mergulham os pés na lama nutriente da vida.
- Capítulo IV: O narrador faz da pedreira um combate de homens contra um gigante de pedra, e Jerônimo a vê como erro de método.
- Capítulo V: Jerônimo toca fados à noite, e a alma de desterrado voa para as aldeias da infância.
- Capítulo VI: A jovem Pombinha, escrevente de todos, guarda as paixões e os ressentimentos da estalagem como a evaporação de um lameiro em dia de calor.
- Capítulo VII: O chorado desperta o sangue da roda, e Jerônimo é arrastado à dança sem poder conceber o que sente.
- Capítulo VIII: O desejo de Jerônimo vem do contato, antes da vontade; Piedade sente o perigo por faro, não por razão.
- Capítulo IX: Jerônimo se abrasileira, sem que o sol, o café, a comida e a música encontrem recusa.
- Capítulo XI: Pombinha desperta no capinzal com o primeiro sangue da puberdade, que o narrador recebe como a natureza sorrindo.
- Capítulo XV: O narrador explica a virada de Jerônimo pelo meio: a esposa cansa, a mulata atrai.
- Capítulo XVI: Piedade se revolta contra a natureza alcoviteira que lhe roubou o homem.
- Capítulo XVII: Quando o fogo rebenta no número 88, o cortiço se desarma da briga e se recompõe num só partido para salvar o pouco que tem.
- Capítulo XX: O cortiço reconstruído ganha varandas, latrinas, torneiras e lampiões, e o narrador o descreve como máquina que nunca para.
- Capítulo XXII: O São Romão se aristocratiza, e o narrador fecha o destino de Pombinha abrindo o da filha de Piedade.
Passagens
O cortiço nasce do meio, e antes das pessoas.
E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco
A manhã é saúde e gosto de existir.
Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra
A pedreira vista como combate.
pareciam um punhado de demônios revoltados na sua impotência contra o impassível gigante que os contemplava com desprezo
O que Pombinha recolhe dos vizinhos não se dissolve.
a pobre rapariga ia acumulando no seu coração de donzela toda a súmula daquelas paixões e daqueles ressentimentos, às vezes mais fétidos do que a evaporação de um lameiro em dias de grande calor
O chorado cala o fado.
E à viva crepitação da música baiana calaram-se as melancólicas toadas dos de além-mar
A mudança de Jerônimo, contada como obra do meio.
pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se
A esposa cansa, a mulata atrai.
cedendo às imposições mesológicas, enfarava a esposa, sua congênere, e queria a mulata
Piedade volta a revolta contra a terra.
Parecia rebelar-se contra aquela natureza alcoviteira, que lhe roubara o seu homem para dá-lo a outra, porque a outra era gente do seu peito e ela não.
A máquina que não escolhe quem engole.
A feroz engrenagem daquela máquina terrível, que nunca parava, ia já lançando os dentes a uma nova camada social que, pouco a pouco, se deixaria arrastar inteira lá para dentro.
A cadeia continua.
A cadeia continuava e continuaria interminavelmente; o cortiço estava preparando uma nova prostituta naquela pobre menina desamparada, que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe ébria.