Quem é
Telêmaco é o filho de Odisseu e Penélope, um jovem que mal conheceu o pai e vive em Ítaca numa casa tomada por pretendentes. A Odisseia começa por ele e não pelo herói: o primeiro canto o mostra sentado entre os homens que comem os bens da família, imaginando o pai chegando para expulsá-los. Atena o convoca a agir, e o poema o acompanha de jovem que se queixa a homem que fala em nome da casa, na viagem em busca do pai e na volta, quando passa a ter um papel na vingança.
Trajetória
No Canto I, Telêmaco é o primeiro a ver o estrangeiro à porta, que é Atena disfarçada de Mentes, e se indigna de que um hóspede tenha esperado tanto. Ao hóspede, explica o que se passa na sala em voz baixa, para os outros não ouvirem: eles comem sem pagar o sustento alheio. Sobre a origem, responde que a mãe diz que é filho de Odisseu, mas que ninguém conhece por si mesmo a própria origem, e lamenta que o pai tenha sumido sem glória, levado pelas harpias. Atena lhe diz que já não tem idade para infantilidades e o manda convocar a assembleia, ir a Pilos e a Esparta e pensar em como matar os pretendentes.
νεμεσσήθη δʼ ἐνὶ θυμῷ / ξεῖνον δηθὰ θύρῃσιν ἐφεστάμεν·(1.119-120), indignou-se no ânimo de que um hóspede ficasse tanto tempo parado à porta.
ῥεῖʼ, ἐπεὶ ἀλλότριον βίοτον νήποινον ἔδουσιν,(1.160), facilmente, porque comem sem pagar o sustento alheio.
μήτηρ μέν τέ μέ φησι τοῦ ἔμμεναι, αὐτὰρ ἐγώ γε / οὐκ οἶδʼ· οὐ γάρ πώ τις ἑὸν γόνον αὐτὸς ἀνέγνω.(1.215-216), minha mãe diz que sou filho dele; eu, porém, não sei, pois ninguém jamais conheceu por si mesmo a própria origem.
νῦν δέ μιν ἀκλειῶς ἅρπυιαι ἀνηρείψαντο· / οἴχετʼ ἄιστος ἄπυστος,(1.241-242), mas agora as harpias o arrebataram sem glória; foi-se sem que ninguém o visse, sem notícia.
Quando Penélope pede a Fêmio outro canto, Telêmaco a contradiz diante de todos e a manda de volta ao tear, porque a palavra é assunto dos homens, e sobretudo dele. O canto termina com ele acordado a noite toda, pensando na viagem.
μῦθος δʼ ἄνδρεσσι μελήσει / πᾶσι, μάλιστα δʼ ἐμοί· τοῦ γὰρ κράτος ἔστʼ ἐνὶ οἴκῳ.(1.358-359), a palavra será assunto dos homens, de todos, e sobretudo meu, pois meu é o poder nesta casa.
ἔνθʼ ὅ γε παννύχιος, κεκαλυμμένος οἰὸς ἀώτῳ, / βούλευε φρεσὶν ᾗσιν ὁδὸν τὴν πέφραδʼ Ἀθήνη.(1.443-444), ali, a noite toda, coberto com lã de ovelha, ele pensava consigo na viagem que Atena lhe indicara.
No Canto II, convoca a assembleia e senta-se no assento do pai, e os anciãos lhe cedem o lugar. Diz que o assunto é seu, dois males na casa, a perda do pai e a ruína dos bens, e confessa que não tem a força para a defesa. Termina atirando o cetro ao chão, em lágrimas, e o povo se compadece, mas só Antínoo responde. Telêmaco recusa expulsar a mãe e pede uma nau e vinte companheiros para ir a Esparta e a Pilos. Mentor, amigo de Odisseu, acusa o povo de se calar, e a assembleia se dissolve sem decisão. Mais tarde, ele diz a Antínoo que já é grande e que o ânimo cresce, e parte às escondidas da mãe, depois de fazer Euricleia jurar silêncio por doze dias.
θεσπεσίην δʼ ἄρα τῷ γε χάριν κατέχευεν Ἀθήνη. / τὸν δʼ ἄρα πάντες λαοὶ ἐπερχόμενον θηεῦντο· / ἕζετο δʼ ἐν πατρὸς θώκῳ, εἶξαν δὲ γέροντες.(2.12-14), Atena derramou sobre ele uma graça divina. Todo o povo o contemplava quando ele chegava; sentou-se no assento do pai, e os anciãos cederam-lhe o lugar.
ἀλλʼ ἐμὸν αὐτοῦ χρεῖος, ὅ μοι κακὰ ἔμπεσεν οἴκῳ / δοιά· τὸ μὲν πατέρʼ ἐσθλὸν ἀπώλεσα, ὅς ποτʼ ἐν ὑμῖν / τοίσδεσσιν βασίλευε, πατὴρ δʼ ὣς ἤπιος ἦεν· / νῦν δʼ αὖ καὶ πολὺ μεῖζον, ὃ δὴ τάχα οἶκον ἅπαντα / πάγχυ διαρραίσει, βίοτον δʼ ἀπὸ πάμπαν ὀλέσσει.(2.45-49), é um assunto meu, de mim mesmo: dois males caíram sobre minha casa. Um, perdi meu nobre pai, que um dia foi rei entre vós todos aqui e era brando como um pai; o outro, agora, é muito maior e logo arruinará a casa inteira e destruirá de vez o meu sustento.
ὣς φάτο χωόμενος, ποτὶ δὲ σκῆπτρον βάλε γαίῃ / δάκρυʼ ἀναπρήσας· οἶκτος δʼ ἕλε λαὸν ἅπαντα.(2.80-81), assim falou, irado, e atirou o cetro ao chão, rompendo em lágrimas; a compaixão tomou todo o povo.
Ἀντίνοʼ, οὔ πως ἔστι δόμων ἀέκουσαν ἀπῶσαι / ἥ μʼ ἔτεχʼ, ἥ μʼ ἔθρεψε·(2.130-131), Antínoo, de modo algum é possível expulsar de casa, contra a vontade, aquela que me gerou e me criou.
ἀλλʼ ἄγε μοι δότε νῆα θοὴν καὶ εἴκοσʼ ἑταίρους, / οἵ κέ μοι ἔνθα καὶ ἔνθα διαπρήσσωσι κέλευθον. / εἶμι γὰρ ἐς Σπάρτην τε καὶ ἐς Πύλον ἠμαθόεντα / νόστον πευσόμενος πατρὸς δὴν οἰχομένοιο,(2.212-215), mas vamos, dai-me uma nau veloz e vinte companheiros, que me façam cruzar o caminho para lá e para cá; pois irei a Esparta e à arenosa Pilos, para saber do retorno de meu pai, há muito ausente.
ἐγὼ δʼ ἔτι νήπιος ἦα; / νῦν δʼ ὅτε δὴ μέγας εἰμὶ καὶ ἄλλων μῦθον ἀκούων / πυνθάνομαι, καὶ δή μοι ἀέξεται ἔνδοθι θυμός, / πειρήσω, ὥς κʼ ὔμμι κακὰς ἐπὶ κῆρας ἰήλω,(2.313-316), quando eu ainda era criança. Mas agora que sou grande, e ouvindo a palavra de outros me informo, e o ânimo cresce dentro de mim, tentarei lançar sobre vós destinos maus.
θάρσει, μαῖʼ, ἐπεὶ οὔ τοι ἄνευ θεοῦ ἥδε γε βουλή. / ἀλλʼ ὄμοσον μὴ μητρὶ φίλῃ τάδε μυθήσασθαι, / πρίν γʼ ὅτʼ ἂν ἑνδεκάτη τε δυωδεκάτη τε γένηται, / ἢ αὐτὴν ποθέσαι καὶ ἀφορμηθέντος ἀκοῦσαι, / ὡς ἂν μὴ κλαίουσα κατὰ χρόα καλὸν ἰάπτῃ.(2.372-376), coragem, mãe: este plano não é sem um deus. Mas jura que não contarás isto a minha mãe querida antes que chegue o décimo primeiro ou o décimo segundo dia, ou até que ela mesma sinta minha falta e ouça que parti, para que não estrague, chorando, a bela pele.
No Canto III, chega a Pilos com vergonha de interrogar um velho. Atena, disfarçada de Mentor, diz que ele não deve ter vergonha de saber onde a terra cobriu o pai e que a coragem do discurso virá em parte dele e em parte de um deus. Ele pede a Nestor que não lhe adoce nada. Nestor nada sabe de Odisseu e conta a história de outro pai, a de Agamêmnon, e de outro filho, Orestes, que vingou o pai. Telêmaco diz que queria força igual para castigar os pretendentes, mas os deuses não a fiaram nem ao pai nem a ele. Quando Atena o repreende por descrer, ele encerra o assunto: para o pai já não há retorno verdadeiro. Sai de Pilos de carro com Pisístrato, filho de Nestor, rumo a Esparta.
Τηλέμαχʼ, οὐ μέν σε χρὴ ἔτʼ αἰδοῦς, οὐδʼ ἠβαιόν· / τοὔνεκα γὰρ καὶ πόντον ἐπέπλως, ὄφρα πύθηαι / πατρός, ὅπου κύθε γαῖα καὶ ὅν τινα πότμον ἐπέσπεν.(3.14-16), Telêmaco, já não convém que tenhas vergonha, nem um pouco; pois por isso cruzaste o mar, para saber do teu pai, onde a terra o cobriu e que sorte ele encontrou.
μηδέ τί μʼ αἰδόμενος μειλίσσεο μηδʼ ἐλεαίρων, / ἀλλʼ εὖ μοι κατάλεξον ὅπως ἤντησας ὀπωπῆς.(3.96-97), e não me adoces nada por respeito nem por pena, mas conta-me bem como o encontraste com teus próprios olhos.
αἲ γὰρ ἐμοὶ τοσσήνδε θεοὶ δύναμιν περιθεῖεν, / τίσασθαι μνηστῆρας ὑπερβασίης ἀλεγεινῆς, / οἵ τέ μοι ὑβρίζοντες ἀτάσθαλα μηχανόωνται. / ἀλλʼ οὔ μοι τοιοῦτον ἐπέκλωσαν θεοὶ ὄλβον, / πατρί τʼ ἐμῷ καὶ ἐμοί· νῦν δὲ χρὴ τετλάμεν ἔμπης.(3.205-209), tomara que os deuses me revestissem de tamanha força, para castigar os pretendentes pela dolorosa violência, eles que, insolentes, tramam contra mim ações ímpias. Mas os deuses não fiaram tal ventura nem para meu pai nem para mim; agora é preciso suportar, de qualquer modo.
Μέντορ, μηκέτι ταῦτα λεγώμεθα κηδόμενοί περ· / κείνῳ δʼ οὐκέτι νόστος ἐτήτυμος, ἀλλά οἱ ἤδη / φράσσαντʼ ἀθάνατοι θάνατον καὶ κῆρα μέλαιναν.(3.240-242), Mentor, não falemos mais disso, embora o desejemos; para ele já não há retorno verdadeiro, pois os imortais já lhe determinaram a morte e o negro destino.
No Canto IV, na casa de Menelau, chora com o manto sobre o rosto ao ouvir o nome do pai, e quem fala por ele é Pisístrato. Helena o reconhece pela semelhança. Na manhã seguinte, pede a verdade a Menelau, sem suavizar, e ouve o relato de Proteu: Odisseu está preso na ilha de Calipso. Recusa os cavalos que Menelau lhe oferece, porque Ítaca não tem pistas nem prados. Enquanto isso, em Ítaca, Antínoo arma uma emboscada para a volta dele.
ἀλλὰ σαόφρων ἐστί, νεμεσσᾶται δʼ ἐνὶ θυμῷ / ὧδʼ ἐλθὼν τὸ πρῶτον ἐπεσβολίας ἀναφαίνειν / ἄντα σέθεν, τοῦ νῶι θεοῦ ὣς τερπόμεθʼ αὐδῇ(4.158-160), mas é sensato, e sente vergonha no ânimo de, vindo pela primeira vez, lançar palavras imprudentes diante de ti, cuja voz nos deleita como a de um deus.
μηδέ τί μʼ αἰδόμενος μειλίσσεο μηδʼ ἐλεαίρων, / ἀλλʼ εὖ μοι κατάλεξον ὅπως ἤντησας ὀπωπῆς(4.326-327), não me suavizes nada por pudor nem por pena; conta-me bem como o alcançaste com a vista.
ἐν δʼ Ἰθάκῃ οὔτʼ ἂρ δρόμοι εὐρέες οὔτε τι λειμών· / αἰγίβοτος, καὶ μᾶλλον ἐπήρατος ἱπποβότοιο(4.605-606), em Ítaca não há pistas largas nem prado; é terra de pasto de cabras, e mais amável que a de pasto de cavalos.
No Canto V, Telêmaco não está em cena, mas o perigo que corre entra na queixa de Atena a Zeus no concílio, quando a deusa lembra que os pretendentes planejam matá-lo na volta. No Canto XI, Anticleia diz a Odisseu, no Hades, que Telêmaco cuida dos campos e participa de banquetes iguais, como convém a quem julga. No Canto XIII, Atena responde à pergunta do pai que a viagem é para que o filho ganhe boa fama.
μὴ δή τοι κεῖνός γε λίην ἐνθύμιος ἔστω. / αὐτή μιν πόμπευον, ἵνα κλέος ἐσθλὸν ἄροιτο / κεῖσʼ ἐλθών· ἀτὰρ οὔ τινʼ ἔχει πόνον, ἀλλὰ ἕκηλος / ἧσται ἐν Ἀτρεΐδαο δόμοις, παρὰ δʼ ἄσπετα κεῖται.(13.421-424), Que ele não te preocupe demais. Eu mesma o escoltei, para que ganhasse boa fama indo para lá; ele não sofre trabalho algum, mas está sentado tranquilo na casa do Atrida, e muitas riquezas jazem junto a ele.
No Canto XIV, Eumeu, sem saber que fala ao pai, diz que Telêmaco foi criado pelos deuses como uma muda e que agora os nobres o espreitam na volta de Pilos, para que a linhagem desapareça sem nome.
τὸν δέ τις ἀθανάτων βλάψε φρένας ἔνδον ἐΐσας / ἠέ τις ἀνθρώπων· ὁ δʼ ἔβη μετὰ πατρὸς ἀκουὴν / ἐς Πύλον ἠγαθέην· τὸν δὲ μνηστῆρες ἀγαυοὶ / οἴκαδʼ ἰόντα λοχῶσιν, ὅπως ἀπὸ φῦλον ὄληται / νώνυμον ἐξ Ἰθάκης Ἀρκεισίου ἀντιθέοιο.(14.178-182), mas algum dos imortais lhe lesou o juízo equilibrado no peito, ou algum homem: foi atrás de notícias do pai à sagrada Pilos; e os nobres pretendentes o espreitam na volta, para que a linhagem de Arcísio, igual a um deus, desapareça de Ítaca sem nome.
No Canto XV, Atena o encontra desperto em Esparta, preocupado com o pai, e o manda voltar, evitar a emboscada e passar primeiro pelo porqueiro. Menelau o despacha com uma cratera, e Helena lhe dá um peplo para a futura esposa. Em Pilos, evita o palácio de Nestor para não ser retido. A bordo, apresenta-se a um estranho como filho de Odisseu, "se algum dia ele existiu", e acolhe como suplicante o adivinho Teoclímeno. Em Ítaca, entrega Teoclímeno a Pireu e vai, a pé, ao pátio do porqueiro.
Τηλέμαχον δʼ οὐχ ὕπνος ἔχε γλυκύς, ἀλλʼ ἐνὶ θυμῷ / νύκτα διʼ ἀμβροσίην μελεδήματα πατρὸς ἔγειρεν.(15.7-8), mas a Telêmaco não prendia o doce sono: pela noite imortal, no ânimo, as preocupações com o pai o mantinham desperto.
μή με παρὲξ ἄγε νῆα, διοτρεφές, ἀλλὰ λίπʼ αὐτοῦ, / μή μʼ ὁ γέρων ἀέκοντα κατάσχῃ ᾧ ἐνὶ οἴκῳ / ἱέμενος φιλέειν· ἐμὲ δὲ χρεὼ θᾶσσον ἱκέσθαι.(15.199-201), não me leves além do navio, filho de Zeus-nutrido, deixa-me aqui, para que o velho não me retenha contra a vontade em sua casa, desejoso de me hospedar; a mim cabe chegar mais depressa.
ἐξ Ἰθάκης γένος εἰμί, πατὴρ δέ μοί ἐστιν Ὀδυσσεύς, / εἴ ποτʼ ἔην· νῦν δʼ ἤδη ἀπέφθιτο λυγρῷ ὀλέθρῳ.(15.267-268), sou de Ítaca, e meu pai é Odisseu, se algum dia ele existiu; agora já pereceu de morte lamentável.
οὐ μὲν δή σʼ ἐθέλοντά γʼ ἀπώσω νηὸς ἐΐσης, / ἀλλʼ ἕπευ· αὐτὰρ κεῖθι φιλήσεαι, οἷά κʼ ἔχωμεν.(15.280-281), não te repelirei da boa nau, se o desejas; mas segue-me, e lá serás bem tratado com o que tivermos.
τὸν δʼ ὦκα προβιβάντα πόδες φέρον, ὄφρʼ ἵκετʼ αὐλήν, / ἔνθα οἱ ἦσαν ὕες μάλα μυρίαι, ᾗσι συβώτης / ἐσθλὸς ἐὼν ἐνίαυεν, ἀνάκτεσιν ἤπια εἰδώς.(15.555-557), e os pés o levaram depressa adiante, até que chegou ao pátio, onde estavam os muitíssimos porcos, entre os quais dormia o bom porqueiro, benévolo para com os senhores.
No Canto XVI, chega à cabana, e os cães lhe fazem festa. Quer saber da mãe e imagina o leito do pai coberto de teias. Diante do hóspede, confessa que é jovem e não confia nos braços para defender um hóspede, e que a mãe hesita entre guardar a casa do marido e seguir o melhor pretendente. Explica que é filho único em cada geração da família, e por isso os inimigos são muitos. Quando o hóspede diz ser o pai, não acredita, e só aceita depois da explicação do disfarce, o único reconhecimento do poema que se dá pela palavra. Pai e filho choram juntos. Ele conta mais de cem pretendentes, teme que o pai pague caro por enfrentá-los e objeta que provar os servos gasta tempo.
ἤ μοι ἔτʼ ἐν μεγάροις μήτηρ μένει, ἦέ τις ἤδη / ἀνδρῶν ἄλλος ἔγημεν, Ὀδυσσῆος δέ που εὐνὴ / χήτει ἐνευναίων κάκʼ ἀράχνια κεῖται ἔχουσα.(16.33-35), se minha mãe ainda permanece nos salões, ou se algum outro dos homens já se casou, e o leito de Odisseu, sem quem durma nele, jaz coberto de teias de aranha vis.
αὐτὸς μὲν νέος εἰμὶ καὶ οὔ πω χερσὶ πέποιθα / ἄνδρʼ ἀπαμύνασθαι, ὅτε τις πρότερος χαλεπήνῃ· / μητρὶ δʼ ἐμῇ δίχα θυμὸς ἐνὶ φρεσὶ μερμηρίζει,(16.71-73), eu mesmo sou jovem e ainda não confio nas mãos para repelir um homem, quando alguém começa a ofensa; e o ânimo de minha mãe se divide em duas direções dentro do peito,
μοῦνον δʼ αὖτʼ Ὀδυσῆα πατὴρ τέκεν· αὐτὰρ Ὀδυσσεὺς / μοῦνον ἔμʼ ἐν μεγάροισι τεκὼν λίπεν οὐδʼ ἀπόνητο. / τῷ νῦν δυσμενέες μάλα μυρίοι εἴσʼ ἐνὶ οἴκῳ.(16.119-121), e o pai, por sua vez, gerou só Odisseu; e Odisseu gerou só a mim no palácio e partiu, sem ter proveito de mim. Por isso agora são milhares os inimigos dentro da casa.
οὐ σύ γʼ Ὀδυσσεύς ἐσσι, πατὴρ ἐμός, ἀλλά με δαίμων / θέλγει, ὄφρʼ ἔτι μᾶλλον ὀδυρόμενος στεναχίζω.(16.194-195), não és Odisseu, meu pai, mas um nume me encanta, para que eu chore e gema ainda mais.
ἀλλὰ λίην μέγα εἶπες· ἄγη μʼ ἔχει· οὐδέ κεν εἴη / ἄνδρε δύω πολλοῖσι καὶ ἰφθίμοισι μάχεσθαι.(16.243-244), mas disseste algo grande demais; o espanto me toma; não seria possível que dois homens combatessem contra muitos e fortes.
No Canto XVII, vai à cidade e manda a mãe se banhar e rezar a todos os deuses pela vingança, antes de contar a viagem. Ao mandar o hóspede mendigar na cidade, diz que não pode sustentar todos. Na sala, manda Eumeu levar pão ao mendigo e repreende Antínoo. Sente a dor do escabelo que acerta o pai, não chora e balança a cabeça em silêncio.
ἐμὲ δʼ οὔ πως ἔστιν ἅπαντας / ἀνθρώπους ἀνέχεσθαι, ἔχοντά περ ἄλγεα θυμῷ·(17.12-13), a mim não é possível suportar todos os homens, ainda que eu tenha dores no ânimo;
ἀλλʼ ὑδρηναμένη, καθαρὰ χροῒ εἵμαθʼ ἑλοῦσα, / εἰς ὑπερῷʼ ἀναβᾶσα σὺν ἀμφιπόλοισι γυναιξὶν / εὔχεο πᾶσι θεοῖσι τεληέσσας ἑκατόμβας / ῥέξειν, αἴ κέ ποθι Ζεὺς ἄντιτα ἔργα τελέσσῃ.(17.48-51), mas, tendo-te banhado e tomado roupas limpas para o corpo, sobe ao andar de cima com as servas e promete a todos os deuses cumprir hecatombes perfeitas, se Zeus algum dia realizar atos de vingança.
No Canto XVIII, garante ao mendigo que quem o tocar lutará contra muitos, porque é o anfitrião. À mãe, que o censura por deixar um hóspede ser maltratado, responde que já não é criança, e acrescenta que não tem quem o ampare. Quando o tumulto estoura, corta a briga e manda os pretendentes dormir.
αὐτὰρ ἐγὼ θυμῷ νοέω καὶ οἶδα ἕκαστα, / ἐσθλά τε καὶ τὰ χέρεια· πάρος δʼ ἔτι νήπιος ἦα. / ἀλλά τοι οὐ δύναμαι πεπνυμένα πάντα νοῆσαι· / ἐκ γάρ με πλήσσουσι παρήμενοι ἄλλοθεν ἄλλος / οἵδε κακὰ φρονέοντες, ἐμοὶ δʼ οὐκ εἰσὶν ἀρωγοί.(18.228-232), mas eu penso no ânimo e conheço cada coisa, as boas e as piores; antes eu ainda era criança. Contudo não consigo pensar tudo com sensatez: pois me atacam, sentados em volta, uns de um lado, outros de outro, estes que pensam o mal, e eu não tenho quem me ajude.
δαιμόνιοι, μαίνεσθε καὶ οὐκέτι κεύθετε θυμῷ / βρωτὺν οὐδὲ ποτῆτα· θεῶν νύ τις ὔμμʼ ὀροθύνει. / ἀλλʼ εὖ δαισάμενοι κατακείετε οἴκαδʼ ἰόντες, / ὁππότε θυμὸς ἄνωγε· διώκω δʼ οὔ τινʼ ἐγώ γε.(18.406-409), desvairados, estais loucos e já não escondeis no ânimo o que comestes e bebestes; algum deus vos excita. Mas, depois de bem banqueteados, ide deitar-vos, indo para casa, quando o ânimo mandar; eu não expulso ninguém.
No Canto XIX, leva as armas para dentro e pede a Euricleia que mantenha as servas nos aposentos. Vê a sala brilhar da luz da deusa e pensa que há um deus ali.
No Canto XX, instala o mendigo junto à soleira e diz aos pretendentes que a casa não é pública, é de Odisseu e dele por herança. Responde ao pé de boi de Ctésipo dizendo que o teria atravessado com a lança, e que já não é criança. Admite que suporta ver o vinho e o gado consumidos, mas não ver hóspedes maltratados e servas arrastadas, e prefere morrer a isso. Diz a Agelau que manda a mãe casar com quem quiser, mas tem pudor de expulsá-la.
κερτομίας δέ τοι αὐτὸς ἐγὼ καὶ χεῖρας ἀφέξω / πάντων μνηστήρων, ἐπεὶ οὔ τοι δήμιός ἐστιν / οἶκος ὅδʼ, ἀλλʼ Ὀδυσῆος, ἐμοὶ δʼ ἐκτήσατο κεῖνος.(20.263-265), eu mesmo afastarei de ti as zombarias e as mãos de todos os pretendentes, porque esta casa não é pública, mas de Odisseu, e ele a adquiriu para mim.
ἦ γάρ κέν σε μέσον βάλον ἔγχεϊ ὀξυόεντι, / καί κέ τοι ἀντὶ γάμοιο πατὴρ τάφον ἀμφεπονεῖτο / ἐνθάδε. τῷ μή τίς μοι ἀεικείας ἐνὶ οἴκῳ / φαινέτω· ἤδη γὰρ νοέω καὶ οἶδα ἕκαστα, / ἐσθλά τε καὶ τὰ χέρηα· πάρος δʼ ἔτι νήπιος ἦα.(20.306-310), pois eu te teria atingido no meio com a lança afiada, e teu pai, em lugar de casamento, cuidaria aqui de teu túmulo. Por isso, que ninguém me mostre indecências nesta casa: agora já percebo e conheço cada coisa, as boas e as piores; antes eu ainda era criança.
καί κε τὸ βουλοίμην, καί κεν πολὺ κέρδιον εἴη / τεθνάμεν ἢ τάδε γʼ αἰὲν ἀεικέα ἔργʼ ὁράασθαι, / ξείνους τε στυφελιζομένους δμῳάς τε γυναῖκας / ῥυστάζοντας ἀεικελίως κατὰ δώματα καλά.(20.316-319), isso mesmo eu desejaria, e seria muito melhor morrer do que ver sempre estas ações indignas: hóspedes maltratados e servas arrastadas de modo ultrajante pelas belas salas.
οὔ τι διατρίβω μητρὸς γάμον, ἀλλὰ κελεύω / γήμασθʼ ᾧ κʼ ἐθέλῃ, ποτὶ δʼ ἄσπετα δῶρα δίδωμι. / αἰδέομαι δʼ ἀέκουσαν ἀπὸ μεγάροιο δίεσθαι / μύθῳ ἀναγκαίῳ· μὴ τοῦτο θεὸς τελέσειεν.(20.341-344), não retardo o casamento de minha mãe; ao contrário, mando-a casar com quem quiser e ainda dou presentes sem conta. Mas tenho pudor de expulsá-la do palácio contra a vontade, com palavra de coação: que um deus não faça isso acontecer.
No Canto XXI, alinha os machados e tenta armar o arco: três vezes falha, e na quarta o pai o detém com um sinal, e ele se declara fraco. Depois, quando Penélope defende o hóspede, manda a mãe subir, dizendo que o arco é assunto dos homens, e sobretudo dele. Cinge a espada e se põe ao lado do trono do pai.
καὶ δέ κεν αὐτὸς ἐγὼ τοῦ τόξου πειρησαίμην· / εἰ δέ κεν ἐντανύσω διοϊστεύσω τε σιδήρου, / οὔ κέ μοι ἀχνυμένῳ τάδε δώματα πότνια μήτηρ / λείποι ἅμʼ ἄλλῳ ἰοῦσʼ, ὅτʼ ἐγὼ κατόπισθε λιποίμην / οἷός τʼ ἤδη πατρὸς ἀέθλια κάλʼ ἀνελέσθαι.(21.113-117), também eu mesmo tentarei o arco; e se o armar e atravessar o ferro, minha venerável mãe não deixará esta casa, indo com outro, e me deixaria aqui, aflito, quando eu já fosse capaz de erguer os belos prêmios de meu pai.
καί νύ κε δή ῥʼ ἐτάνυσσε βίῃ τὸ τέταρτον ἀνέλκων, / ἀλλʼ Ὀδυσεὺς ἀνένευε καὶ ἔσχεθεν ἱέμενόν περ.(21.128-129), e na quarta vez, puxando com força, ele o teria armado; mas Odisseu fez sinal que não e o conteve, embora ansioso.
ἀλλʼ εἰς οἶκον ἰοῦσα τὰ σʼ αὐτῆς ἔργα κόμιζε, / ἱστόν τʼ ἠλακάτην τε, καὶ ἀμφιπόλοισι κέλευε / ἔργον ἐποίχεσθαι· τόξον δʼ ἄνδρεσσι μελήσει / πᾶσι, μάλιστα δʼ ἐμοί· τοῦ γὰρ κράτος ἔστʼ ἐνὶ οἴκῳ.(21.350-353), vai para o teu quarto e cuida de teus afazeres, o tear e a roca, e manda as servas ocuparem-se do trabalho; o arco será assunto dos homens, de todos, e sobretudo meu, pois meu é o poder nesta casa.
No Canto XXII, fere Anfínomo pelas costas, traz armas para o pai e os dois servos, assume que deixou sem trancar a porta do quarto das armas e mata Anfimedonte. Pede ao pai que poupe o aedo Fêmio e o arauto Médon. Decide que as doze servas culpadas não morrerão por morte limpa, porque derramaram insultos sobre ele e a mãe, e as enforca com uma corda de nau.
μὴ μὲν δὴ καθαρῷ θανάτῳ ἀπὸ θυμὸν ἑλοίμην / τάων, αἳ δὴ ἐμῇ κεφαλῇ κατʼ ὀνείδεα χεῦαν / μητέρι θʼ ἡμετέρῃ παρά τε μνηστῆρσιν ἴαυον.(22.462-464), que eu não lhes tire a vida por morte limpa, a elas que derramaram vitupérios sobre minha cabeça e sobre minha mãe, e dormiam com os pretendentes.
No Canto XXIII, repreende a mãe pelo silêncio diante do pai, dizendo que o coração dela é mais duro que pedra. Devolve a decisão sobre a cidade ao pai e, com os demais, faz a casa soar de dança para esconder a matança.
οὐ μέν κʼ ἄλλη γʼ ὧδε γυνὴ τετληότι θυμῷ / ἀνδρὸς ἀφεσταίη, ὅς οἱ κακὰ πολλὰ μογήσας / ἔλθοι ἐεικοστῷ ἔτεϊ ἐς πατρίδα γαῖαν· / σοὶ δʼ αἰεὶ κραδίη στερεωτέρη ἐστὶ λίθοιο.(23.100-103), nenhuma outra mulher, de ânimo tão obstinado, se manteria afastada do marido que, depois de sofrer muitos males, chegasse no vigésimo ano à terra pátria; mas o teu coração é sempre mais duro que pedra.
No Canto XXIV, no pomar, promete ao pai que não envergonhará a linhagem, e Laertes exulta de ver filho e neto disputando a excelência.
τίς νύ μοι ἡμέρη ἥδε, θεοὶ φίλοι; ἦ μάλα χαίρω· / υἱός θʼ υἱωνός τʼ ἀρετῆς πέρι δῆριν ἔχουσιν.(24.514-515), que dia é este para mim, deuses amados? Alegro-me muito: filho e neto disputam entre si sobre a excelência.
Temas que encarna
Telêmaco encarna a Família, pelo lado do filho: o poema o mostra medindo o que deve ao pai ausente, à mãe que quer proteger e à casa que quer manter. Encarna a Identidade de quem ainda não sabe quem é, e que a viagem forma: no primeiro canto não sabe se é filho de Odisseu, no vigésimo declara que já não é criança. A Vingança pesa nele como modelo, o de Orestes que Atena e Nestor lhe dão. O Lar, exílio e retorno aparece na casa tomada que ele defende.
Telêmaco viaja para saber do pai e volta sem notícia nova além de uma ilha. O que traz são imagens do pai feitas por quem o conheceu: Nestor lembra que ninguém queria medir-se com ele em astúcia, Menelau chora por ele mais que por todos, Helena o reconhece no rosto do filho. A viagem lhe dá um pai com quem comparar-se antes de reencontrá-lo. O reencontro é o único em que o pai precisa convencer pela palavra e pela explicação do disfarce, e não por uma marca no corpo. Pode-se ler a demora em reconhecer o pai como cautela de quem foi enganado antes, ou como desencanto de quem já tinha dado o pai por morto.
Relações
- Odisseu: o pai que ele imagina chegando para expulsar os pretendentes e que acaba por ter ao lado, de quem ouve o pedido de suportar a ofensa a um mendigo.
- Penélope: a mãe a quem ele manda calar no primeiro canto, que protege e de quem esconde a viagem e depois o segredo.
- Atena: a deusa que o empurra, em figura de Mentes e de Mentor, e lhe deixa as decisões.
- Antínoo: o pretendente que o teme, arma a emboscada e o ofende, e a quem ele responde em público.
- Eumeu e Euricleia: os servos que o recebem com choro e guardam seus segredos.
- Menelau e Helena: os anfitriões de Esparta que lhe dão notícia do pai e presentes.