Clavis Libri

Tema em Odisseia

Família

Pais e filhos, irmãos, gerações, linhagem e herança, o conflito entre gerações.

O tema na obra

A família é onde o poema mede o tempo da ausência. Penélope chora o marido noite e dia e, quando Fêmio canta o retorno dos aqueus, pede que ele mude de canto; Telêmaco responde que a palavra é assunto dos homens, e ela, espantada, obedece (Canto I). No Canto II, ele diz que não pode expulsar a mãe de casa contra a vontade dela, por causa de Icário, das Erínias e da censura dos homens, e parte sem lhe dizer, com o juramento de Euricleia.

Os pais são lembrados por quem os perdeu. No Canto III, Nestor anima Telêmaco com o caso de Orestes, o filho que vingou o pai. No Canto IV, Menelau chora Odisseu mais que os outros. No Canto XI, a mãe de Odisseu, Anticleia, diz que morreu de saudade dele e que Laertes dorme na cinza, alimentando o luto; Odisseu tenta três vezes abraçá-la, e três vezes ela escapa como sombra.

Quando pai e filho se encontram, a cena é de ave. Eumeu abraça Telêmaco como um pai que recebe o filho único depois de dez anos, e Telêmaco só aceita que o hóspede é o pai depois de uma explicação, e os dois choram como aves a quem tiraram os filhotes (Canto XVI). Telêmaco explica que a estirpe é de filho único em cada geração, e por isso os inimigos são muitos. No Canto XVIII e no Canto XX, diz à mãe e aos pretendentes que já não é criança.

Penélope diz ao hóspede que o ânimo dela se divide entre ficar com o filho e guardar os bens, respeitar o leito do marido e a fama diante do povo, ou seguir o melhor pretendente, e que o filho, agora crescido, pede que ela deixe a casa (Canto XIX). Telêmaco, no Canto XX, diz que não retarda o casamento da mãe e que a manda casar com quem quiser, mas tem pudor de expulsá-la.

A família do outro lado também chora. Eupites, pai de Antínoo, chama os itacenses a vingar o filho e diz que não quer viver se não o vingar (Canto XXIV). No mesmo canto, Laertes, que estava de luto no pomar, vê o filho e o neto armados e diz que se alegra de os dois disputarem a excelência.

A família da Odisseia é feita de espera e de silêncio imposto. Odisseu exige que ninguém saiba da volta, nem Laertes, nem Penélope (Canto XVI), e a mãe chora por um marido que está na sala sem que filho ou marido possam dizer nada. O reencontro vem em etapas, o do filho no Canto XVI, o da esposa no Canto XXIII, o do pai no Canto XXIV, cada um com a sua prova.

Onde aparece

  • Canto I: Penélope pede a Fêmio que mude de canto porque ele lhe lembra o marido, e Telêmaco a manda voltar ao tear, dizendo que a palavra é assunto dos homens.
  • Canto II: Telêmaco recusa expulsar a mãe de casa contra a vontade dela e parte para Pilos em segredo, depois de fazer a ama Euricleia jurar silêncio por doze dias.
  • Canto III: Nestor anima Telêmaco com o exemplo de Orestes, o filho que vingou o pai, e o aconselha a não ficar muito tempo longe de casa.
  • Canto XI: Anticleia diz a Odisseu que morreu de saudade dele, e Odisseu tenta três vezes abraçá-la, mas ela escapa de suas mãos como uma sombra.
  • Canto XVI: Odisseu se revela ao filho, que não acredita até ouvir a explicação, e os dois choram como aves a quem tiraram os filhotes.
  • Canto XVIII: Penélope censura Telêmaco por deixar o hóspede ser maltratado, e ele responde que já não é criança, mas está sozinho contra muitos.
  • Canto XIX: Penélope diz ao hóspede que o ânimo dela se divide entre guardar a casa do marido e seguir o melhor pretendente, e que o filho agora lhe pede que parta.
  • Canto XXIII: Penélope e Odisseu contam um ao outro, na noite do reencontro, o que sofreram durante a ausência, ela no salão cercado de pretendentes, ele no mar.
  • Canto XXIV: Laertes, depois do banho e do vigor que Atena lhe dá, vê filho e neto armados e se alegra de os dois disputarem a excelência.
  • Canto XXIV: Eupites, pai de Antínoo, chama os itacenses para vingar o filho morto e diz que não quer mais viver se não o vingar.

Passagens

Telêmaco afirma a primeira vez o poder na casa, e a primeira atingida é a mãe.

μῦθος δʼ ἄνδρεσσι μελήσει / πᾶσι, μάλιστα δʼ ἐμοί· τοῦ γὰρ κράτος ἔστʼ ἐνὶ οἴκῳ. (1.358-359), a palavra será assunto dos homens, de todos, e sobretudo meu, pois meu é o poder nesta casa.
Canto I: O concílio dos deuses e Telêmaco

Anticleia explica a Odisseu de que morreu.

ἀλλά με σός τε πόθος σά τε μήδεα, φαίδιμʼ Ὀδυσσεῦ, / σή τʼ ἀγανοφροσύνη μελιηδέα θυμὸν ἀπηύρα. (11.202-203), mas a saudade de ti, os teus planos, ilustre Odisseu, e a tua doçura de ânimo arrancaram-me a vida doce como mel.
Canto XI: A descida aos mortos

Pai e filho se reconhecem e choram.

κλαῖον δὲ λιγέως, ἀδινώτερον ἤ τʼ οἰωνοί, / φῆναι ἢ αἰγυπιοὶ γαμψώνυχες, οἷσί τε τέκνα / ἀγρόται ἐξείλοντο πάρος πετεηνὰ γενέσθαι· (16.216-218), e choravam em voz aguda, mais copiosamente que aves, águias-marinhas ou abutres de garras curvas, a quem os camponeses tiraram os filhotes antes de poderem voar;
Canto XVI: Pai e filho

Telêmaco explica por que está sozinho.

μοῦνον δʼ αὖτʼ Ὀδυσῆα πατὴρ τέκεν· αὐτὰρ Ὀδυσσεὺς / μοῦνον ἔμʼ ἐν μεγάροισι τεκὼν λίπεν οὐδʼ ἀπόνητο. / τῷ νῦν δυσμενέες μάλα μυρίοι εἴσʼ ἐνὶ οἴκῳ. (16.119-121), e o pai, por sua vez, gerou só Odisseu; e Odisseu gerou só a mim no palácio e partiu, sem ter proveito de mim. Por isso agora são milhares os inimigos dentro da casa.
Canto XVI: Pai e filho

Penélope diz em que ponto está.

νῦν δʼ οὔτʼ ἐκφυγέειν δύναμαι γάμον οὔτε τινʼ ἄλλην / μῆτιν ἔθʼ εὑρίσκω· μάλα δʼ ὀτρύνουσι τοκῆες / γήμασθʼ, ἀσχαλάᾳ δὲ πάϊς βίοτον κατεδόντων, / γιγνώσκων· ἤδη γὰρ ἀνὴρ οἷός τε μάλιστα / οἴκου κήδεσθαι, τῷ τε Ζεὺς κῦδος ὀπάζει. (19.157-161), agora não posso escapar ao casamento nem encontro outro plano; meus pais me pressionam a casar, e o filho se aflige com os bens devorados, pois o percebe: já é homem capaz de cuidar da casa, a quem Zeus dá glória.
Canto XIX: Penélope e a cicatriz

Laertes fala depois de ver três gerações armadas.

τίς νύ μοι ἡμέρη ἥδε, θεοὶ φίλοι; ἦ μάλα χαίρω· / υἱός θʼ υἱωνός τʼ ἀρετῆς πέρι δῆριν ἔχουσιν. (24.514-515), que dia é este para mim, deuses amados? Alegro-me muito: filho e neto disputam entre si sobre a excelência.
Canto XXIV: A paz em Ítaca

O pai de Antínoo pede a vingança do filho.

λώβη γὰρ τάδε γʼ ἐστὶ καὶ ἐσσομένοισι πυθέσθαι, / εἰ δὴ μὴ παίδων τε κασιγνήτων τε φονῆας / τισόμεθʼ. οὐκ ἂν ἐμοί γε μετὰ φρεσὶν ἡδὺ γένοιτο / ζωέμεν, ἀλλὰ τάχιστα θανὼν φθιμένοισι μετείην. (24.433-436), pois isto será vergonha também para os vindouros ouvirem, se não castigarmos os matadores de nossos filhos e irmãos. Para mim, no ânimo, não seria doce viver, mas morrer o quanto antes e estar entre os mortos.
Canto XXIV: A paz em Ítaca