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Personagem

Atena

Quem é

Atena é a deusa de olhos brilhantes, filha de Zeus, que protege Odisseu e a casa dele. É ela quem põe o retorno em marcha no concílio dos deuses e quem o conduz de perto até o fim, quase sempre disfarçada, na figura de um hóspede, de um velho amigo, de uma menina, de um pastor ou de uma mulher. O poema a mostra agindo nas pontas, com um sonho, uma bola mal jogada, uma névoa, um conselho, e deixando o resto às pessoas. Ela e Odisseu se reconhecem como iguais em astúcia.

Trajetória

No Canto I, Atena abre a ação no concílio: sofre por Odisseu, preso na ilha de Calipso, pergunta a Zeus por que o esqueceu e propõe descer a Ítaca para dar coragem ao filho dele. Chega à porta da casa disfarçada de Mentes, chefe dos táfios e velho hóspede da família, e dá a Telêmaco o conselho que o move: convocar a assembleia, ir a Pilos e a Esparta, pensar em como matar os pretendentes, porque já não tem idade para infantilidades. Atena parte voando como um pássaro, e o texto diz que deixa nele força e coragem.

οὐδέ τί σε χρὴ / νηπιάας ὀχέειν, ἐπεὶ οὐκέτι τηλίκος ἐσσι. (1.296-297), e não te convém continuar com infantilidades, pois já não tens essa idade.
Canto I: O concílio dos deuses e Telêmaco
ὄρνις δʼ ὣς ἀνόπαια διέπτατο· (1.320), e como um pássaro voou para o alto.
Canto I: O concílio dos deuses e Telêmaco

No Canto II, derrama graça sobre Telêmaco para o povo admirá-lo na assembleia. Depois da assembleia, aparece na praia com a figura e a voz de Mentor e o anima: poucos filhos se parecem com o pai, mas o ardor dele basta. Depois percorre a cidade com a figura do próprio Telêmaco, reunindo companheiros, pede a nau a Noémon, derrama sono sobre os pretendentes e embarca ao lado dele.

παῦροι γάρ τοι παῖδες ὁμοῖοι πατρὶ πέλονται, / οἱ πλέονες κακίους, παῦροι δέ τε πατρὸς ἀρείους. (2.276-277), pois poucos filhos se parecem com o pai; a maioria é pior, poucos são melhores que o pai.
Canto II: A assembleia de Ítaca

No Canto III, em Pilos, diz a Telêmaco que deixe a vergonha de lado e põe coragem no peito dele. Reza a Poseidon pelos pílios. Quando Telêmaco descrê, repreende-o: um deus salva facilmente um homem, mesmo de longe, mas nem os deuses livram da morte o que o destino marca. Parte em figura de ave de rapina, e Nestor a reconhece como a filha de Zeus que honrava Odisseu em Troia. Nestor, aliás, atribui à ira dela a desgraça do retorno dos aqueus.

Τηλέμαχʼ, οὐ μέν σε χρὴ ἔτʼ αἰδοῦς, οὐδʼ ἠβαιόν· / τοὔνεκα γὰρ καὶ πόντον ἐπέπλως, ὄφρα πύθηαι / πατρός, ὅπου κύθε γαῖα καὶ ὅν τινα πότμον ἐπέσπεν. (3.14-16), Telêmaco, já não convém que tenhas vergonha, nem um pouco; pois por isso cruzaste o mar, para saber do teu pai, onde a terra o cobriu e que sorte ele encontrou.
Canto III: Telêmaco em Pilos
θαρσήσας· αὐτὴ γὰρ ἐνὶ φρεσὶ θάρσος Ἀθήνη / θῆχʼ, ἵνα μιν περὶ πατρὸς ἀποιχομένοιο ἔροιτο / ἠδʼ ἵνα μιν κλέος ἐσθλὸν ἐν ἀνθρώποισιν ἔχῃσιν· (3.76-78), ficando confiante, pois a própria Atena pôs coragem em seu peito, para que perguntasse pelo pai ausente e para que tivesse boa fama entre os homens.
Canto III: Telêmaco em Pilos
Τηλέμαχε, ποῖόν σε ἔπος φύγεν ἕρκος ὀδόντων. / ῥεῖα θεός γʼ ἐθέλων καὶ τηλόθεν ἄνδρα σαώσαι. (3.230-231), Telêmaco, que palavra te escapou da cerca dos dentes! Um deus, se quiser, salva facilmente um homem, mesmo de longe.
Canto III: Telêmaco em Pilos
ὦ φίλος, οὔ σε ἔολπα κακὸν καὶ ἄναλκιν ἔσεσθαι, / εἰ δή τοι νέῳ ὧδε θεοὶ πομπῆες ἕπονται. / οὐ μὲν γάρ τις ὅδʼ ἄλλος Ὀλύμπια δώματʼ ἐχόντων, / ἀλλὰ Διὸς θυγάτηρ, κυδίστη Τριτογένεια, / ἥ τοι καὶ πατέρʼ ἐσθλὸν ἐν Ἀργείοισιν ἐτίμα. (3.375-379), amigo, não espero que sejas mau e sem força, se tão jovem os deuses te seguem como guias. Pois este não é outro dos que habitam o Olimpo, mas a filha de Zeus, a gloriosíssima Tritogênia, que também honrava teu nobre pai entre os argivos.
Canto III: Telêmaco em Pilos

No Canto IV, faz um fantasma com a figura da irmã de Penélope para consolá-la, e o fantasma garante a volta do filho e recusa dizer se o marido vive. Na casa de Menelau, os relatos lembram que foi Atena que levou Helena para longe do cavalo quando ela chamou os chefes pelo nome.

οὐ μέν τοι κεῖνόν γε διηνεκέως ἀγορεύσω, / ζώει ὅ γʼ ἦ τέθνηκε· κακὸν δʼ ἀνεμώλια βάζειν (4.836-837), sobre aquele homem não vou falar até o fim, se vive ou morreu; é mau dizer palavras ao vento.
Canto IV: Telêmaco em Esparta

No Canto V, abre o concílio com uma queixa: ninguém se lembra de Odisseu, que governou como pai. Zeus lhe devolve o plano dela. Na viagem de Odisseu, ela prende todos os ventos menos Bóreas, inspira-o a agarrar-se à rocha, dá-lhe juízo e derrama sono sobre ele no fim.

ὡς οὔ τις μέμνηται Ὀδυσσῆος θείοιο / λαῶν οἷσιν ἄνασσε, πατὴρ δʼ ὣς ἤπιος ἦεν (5.11-12), já que ninguém se lembra do divino Odisseu, entre os povos que ele governou e a quem foi gentil como um pai.
Canto V: Calipso e a balsa

No Canto VI, aparece em sonho a Nausícaa com a figura de uma amiga, falando do casamento próximo. Arma o resto pelas pontas: faz a bola cair no redemoinho, para Odisseu acordar, põe coragem em Nausícaa, que fica quando as servas fogem, e acaba de transformar Odisseu, depois do banho, em figura digna. À prece dele no bosque, responde sem aparecer, por respeito ao tio.

Ναυσικάα, τί νύ σʼ ὧδε μεθήμονα γείνατο μήτηρ; / εἵματα μέν τοι κεῖται ἀκηδέα σιγαλόεντα, / σοὶ δὲ γάμος σχεδόν ἐστιν (6.25-27), Nausícaa, por que tua mãe te gerou tão descuidada? Tuas roupas jazem sem trato, brilhantes, e o teu casamento está perto.
Canto VI: Nausícaa
ἔνθʼ αὖτʼ ἄλλʼ ἐνόησε θεά, γλαυκῶπις Ἀθήνη, / ὡς Ὀδυσεὺς ἔγροιτο, ἴδοι τʼ ἐυώπιδα κούρην, / ἥ οἱ Φαιήκων ἀνδρῶν πόλιν ἡγήσαιτο (6.112-114), então a deusa de olhar brilhante, Atena, pensou outra coisa: que Odisseu acordasse e visse a moça de belos olhos, que o levaria à cidade dos feácios.
Canto VI: Nausícaa
ὡς δʼ ὅτε τις χρυσὸν περιχεύεται ἀργύρῳ ἀνὴρ / ἴδρις, ὃν Ἥφαιστος δέδαεν καὶ Παλλὰς Ἀθήνη / τέχνην παντοίην, χαρίεντα δὲ ἔργα τελείει, / ὣς ἄρα τῷ κατέχευε χάριν κεφαλῇ τε καὶ ὤμοις (6.232-235), como quando um homem hábil recobre de ouro a prata, a quem Hefesto e Palas Atena ensinaram toda sorte de arte, e ele termina obras graciosas; assim ela derramou graça sobre a cabeça e os ombros dele.
Canto VI: Nausícaa
αὐτῷ δʼ οὔ πω φαίνετʼ ἐναντίη· αἴδετο γάρ ῥα / πατροκασίγνητον· ὁ δʼ ἐπιζαφελῶς μενέαινεν / ἀντιθέῳ Ὀδυσῆι πάρος ἣν γαῖαν ἱκέσθαι (6.329-331), mas diante dele ainda não aparecia, pois tinha pudor do tio paterno, que se enfurecia fortemente contra o divino Odisseu, até que ele chegasse à sua terra.
Canto VI: Nausícaa

No Canto VII, aparece a Odisseu como menina com um cântaro, diz que o povo não tolera estrangeiros e o manda entrar calado, mas dá-lhe ânimo à porta. Ensina que a rainha Arete é a chave da volta, e cobre-o de névoa para que ninguém o insulte.

ἀλλʼ ἴθι σιγῇ τοῖον, ἐγὼ δʼ ὁδὸν ἡγεμονεύσω, / μηδέ τινʼ ἀνθρώπων προτιόσσεο μηδʼ ἐρέεινε. / οὐ γὰρ ξείνους οἵδε μάλʼ ἀνθρώπους ἀνέχονται, / οὐδʼ ἀγαπαζόμενοι φιλέουσʼ ὅς κʼ ἄλλοθεν ἔλθῃ (7.30-33), mas vai em silêncio, que eu vou à frente mostrando o caminho; não olhes nenhum homem nem perguntes. Pois estes aqui não suportam muito os estrangeiros, nem acolhem com afeto quem vem de outra parte.
Canto VII: O palácio de Alcínoo
σὺ δʼ ἔσω κίε, μηδέ τι θυμῷ / τάρβει· θαρσαλέος γὰρ ἀνὴρ ἐν πᾶσιν ἀμείνων / ἔργοισιν τελέθει, εἰ καί ποθεν ἄλλοθεν ἔλθοι (7.50-52), entra, e não temas nada no ânimo, pois o homem corajoso se sai melhor em todas as obras, mesmo que venha de outra parte.
Canto VII: O palácio de Alcínoo
οὐ μὲν γάρ τι νόου γε καὶ αὐτὴ δεύεται ἐσθλοῦ· / ᾗσι τʼ ἐὺ φρονέῃσι καὶ ἀνδράσι νείκεα λύει. / εἴ κέν τοι κείνη γε φίλα φρονέῃσʼ ἐνὶ θυμῷ, / ἐλπωρή τοι ἔπειτα φίλους τʼ ἰδέειν καὶ ἱκέσθαι / οἶκον ἐς ὑψόροφον καὶ σὴν ἐς πατρίδα γαῖαν (7.73-77), pois ela mesma tampouco carece de bom juízo; resolve as contendas das mulheres de quem gosta e também as dos homens. Se ela te for favorável no ânimo, há esperança de que vejas os teus e chegues à casa de alto teto e à tua terra pátria.
Canto VII: O palácio de Alcínoo

No Canto VIII, toma a aparência do arauto de Alcínoo e chama os feácios à assembleia, derrama graça sobre Odisseu para ele ser querido e temido. No campo dos jogos, depois do arremesso do disco, aparece como um homem que marca o lugar do disco e lhe diz que até um cego o distinguiria.

τῷ δʼ ἄρʼ Ἀθήνη / θεσπεσίην κατέχευε χάριν κεφαλῇ τε καὶ ὤμοις / καί μιν μακρότερον καὶ πάσσονα θῆκεν ἰδέσθαι, / ὥς κεν Φαιήκεσσι φίλος πάντεσσι γένοιτο / δεινός τʼ αἰδοῖός τε καὶ ἐκτελέσειεν ἀέθλους / πολλούς, τοὺς Φαίηκες ἐπειρήσαντʼ Ὀδυσῆος. (8.18-23), e sobre ele Atena derramou graça divina, na cabeça e nos ombros, e o fez parecer mais alto e mais robusto, para que fosse querido de todos os feácios, temível e respeitado, e levasse a termo as muitas provas com que os feácios puseram Odisseu à prova.
Canto VIII: Os jogos dos feácios

No Canto IX, quando Odisseu fica na gruta do ciclope maquinando como se vingar, o desejo que ele diz é que Atena lhe dê a glória.

πολλῇ δὲ ῥοίζῳ πρὸς ὄρος τρέπε πίονα μῆλα / Κύκλωψ· αὐτὰρ ἐγὼ λιπόμην κακὰ βυσσοδομεύων, / εἴ πως τισαίμην, δοίη δέ μοι εὖχος Ἀθήνη. (9.315-317), com grande assobio o Ciclope conduzia para o monte as gordas ovelhas; eu, porém, fiquei para trás, maquinando males, para ver se de algum modo me vingaria, e se Atena me concedesse a glória.
Canto IX: O ciclope

Nos Cantos X, XI e XII, Atena não age: o relato de Odisseu aos feácios é feito de episódios sem ela, e só entra de passagem, como uma das juízas na disputa das armas de Aquiles, no Canto XI.

No Canto XIII, depois que os feácios o deixam em Ítaca, derrama névoa em volta de Odisseu para que ninguém o reconheça antes que os pretendentes paguem. Aparece como pastor, ouve a mentira dele e, na figura de uma mulher, diz que ele é insaciável de ardis e que ela também é célebre pelo mesmo. Mostra-lhe o porto, esconde os presentes e planeja com ele a matança, prometendo estar ao lado dele. O disfarce que lhe põe vale também para a esposa e o filho. Diz a Odisseu que a viagem de Telêmaco é para que ele ganhe boa fama.

ὁ δʼ ἔγρετο δῖος Ὀδυσσεὺς / εὕδων ἐν γαίῃ πατρωΐῃ, οὐδέ μιν ἔγνω, / ἤδη δὴν ἀπεών· περὶ γὰρ θεὸς ἠέρα χεῦε / Παλλὰς Ἀθηναίη, κούρη Διός, ὄφρα μιν αὐτὸν / ἄγνωστον τεύξειεν ἕκαστά τε μυθήσαιτο, / μή μιν πρὶν ἄλοχος γνοίη ἀστοί τε φίλοι τε, / πρὶν πᾶσαν μνηστῆρας ὑπερβασίην ἀποτῖσαι. (13.187-193), E despertou o divino Odisseu, dormindo na terra paterna, e não a reconheceu, depois de tanto tempo ausente; pois a deusa Palas Atena, filha de Zeus, derramara névoa em volta dele, para torná-lo irreconhecível e lhe contar cada coisa, a fim de que nem a esposa, nem os cidadãos, nem os amigos o reconhecessem antes que os pretendentes pagassem toda a sua insolência.
Canto XIII: A chegada a Ítaca
κερδαλέος κʼ εἴη καὶ ἐπίκλοπος ὅς σε παρέλθοι / ἐν πάντεσσι δόλοισι, καὶ εἰ θεὸς ἀντιάσειε. / σχέτλιε, ποικιλομῆτα, δόλων ἆτʼ, οὐκ ἄρʼ ἔμελλες, / οὐδʼ ἐν σῇ περ ἐὼν γαίῃ, λήξειν ἀπατάων / μύθων τε κλοπίων, οἵ τοι πεδόθεν φίλοι εἰσίν. (13.291-295), Seria ladino e furtivo quem te superasse em todos os ardis, ainda que um deus te encontrasse. Obstinado, de astúcia variada, insaciável de enganos, nem mesmo em tua própria terra ias deixar as trapaças e as palavras furtivas, que te são caras desde a raiz.
Canto XIII: A chegada a Ítaca
ἀλλʼ ἄγε, μηκέτι ταῦτα λεγώμεθα, εἰδότες ἄμφω / κέρδεʼ, ἐπεὶ σὺ μέν ἐσσι βροτῶν ὄχʼ ἄριστος ἁπάντων / βουλῇ καὶ μύθοισιν, ἐγὼ δʼ ἐν πᾶσι θεοῖσι / μήτι τε κλέομαι καὶ κέρδεσιν· οὐδὲ σύ γʼ ἔγνως (13.296-299), Mas vamos, deixemos de falar disso, sabendo os dois de ardis, pois tu és de longe o melhor de todos os mortais em conselho e palavras, e eu entre todos os deuses sou célebre pela sagacidade e pelos ardis.
Canto XIII: A chegada a Ítaca
κνυζώσω δέ τοι ὄσσε πάρος περικαλλέʼ ἐόντε, / ὡς ἂν ἀεικέλιος πᾶσι μνηστῆρσι φανήῃς / σῇ τʼ ἀλόχῳ καὶ παιδί, τὸν ἐν μεγάροισιν ἔλειπες. (13.401-403), e turvarei teus olhos, antes tão belos, para que pareças miserável a todos os pretendentes, e à tua esposa e ao filho que deixaste no palácio.
Canto XIII: A chegada a Ítaca

No Canto XIV, ela não aparece: foi ela quem mandou Odisseu à cabana do porqueiro Eumeu, por ser o servo que mais zela pelos bens do senhor.

No Canto XV, vai a Esparta e encontra Telêmaco desperto. Manda-o voltar, avisa que a mãe pode casar com Eurímaco, justificando com o que diz saber do coração das mulheres, e avisa da emboscada, ainda que diga não crer que dê certo.

οἶσθα γὰρ οἷος θυμὸς ἐνὶ στήθεσσι γυναικός· / κείνου βούλεται οἶκον ὀφέλλειν ὅς κεν ὀπυίῃ, / παίδων δὲ προτέρων καὶ κουριδίοιο φίλοιο / οὐκέτι μέμνηται τεθνηκότος οὐδὲ μεταλλᾷ. (15.20-23), pois sabes que ânimo há no peito de uma mulher: quer aumentar a casa de quem a desposar; dos filhos de antes e do marido querido, já morto, não se lembra mais nem pergunta por eles.
Canto XV: A volta de Telêmaco
μνηστήρων σʼ ἐπιτηδὲς ἀριστῆες λοχόωσιν / ἐν πορθμῷ Ἰθάκης τε Σάμοιό τε παιπαλοέσσης. / ἱέμενοι κτεῖναι, πρὶν πατρίδα γαῖαν ἱκέσθαι. / ἀλλὰ τά γʼ οὐκ ὀΐω· πρὶν καί τινα γαῖα καθέξει / ἀνδρῶν μνηστήρων, οἵ τοι βίοτον κατέδουσιν. (15.28-32), os melhores dos pretendentes te espreitam de propósito no estreito entre Ítaca e Samos escarpada, desejando matar-te antes que chegues à pátria; mas isso não creio: antes a terra cobrirá algum dos pretendentes que devoram teus bens.
Canto XV: A volta de Telêmaco

No Canto XVI, só Odisseu e os cães a veem diante da cabana. Manda-o revelar-se ao filho e acertar a morte dos pretendentes, e depois, com a vara de ouro, devolve-lhe o aspecto de homem jovem e forte. No fim do canto, toca de novo em Odisseu e o faz velho outra vez.

οὐ γάρ πω πάντεσσι θεοὶ φαίνονται ἐναργεῖς, / ἀλλʼ Ὀδυσεύς τε κύνες τε ἴδον, καί ῥʼ οὐχ ὑλάοντο (16.161-162), pois os deuses não aparecem claramente a todos; mas Odisseu e os cães a viram, e não latiram.
Canto XVI: Pai e filho
ἤδη νῦν σῷ παιδὶ ἔπος φάο μηδʼ ἐπίκευθε, / ὡς ἂν μνηστῆρσιν θάνατον καὶ κῆρʼ ἀραρόντε / ἔρχησθον προτὶ ἄστυ περικλυτόν· οὐδʼ (16.168-170), agora fala ao teu filho, não escondas, para que, tendo ajustado a morte e a perdição dos pretendentes, vades à cidade famosa;
Canto XVI: Pai e filho

No Canto XVII, derrama graça sobre Telêmaco na cidade e, na sala, incita Odisseu a pedir pão entre os pretendentes para conhecer quem é justo e quem é sem lei, e avisa que nem assim livrará algum.

γνοίη θʼ οἵ τινές εἰσιν ἐναίσιμοι οἵ τʼ ἀθέμιστοι· / ἀλλʼ οὐδʼ ὥς τινʼ ἔμελλʼ ἀπαλεξήσειν κακότητος. (17.363-364), e conhecesse quais deles são justos e quais sem lei; mas nem assim ia livrar nenhum da desgraça.
Canto XVII: O mendigo no palácio

No Canto XVIII, aumenta os membros de Odisseu na luta com Iro. Prende Anfínomo ao seu destino, depois do aviso dele, e põe em Penélope o desejo de aparecer aos pretendentes, embelezando-a e dando-lhe sono. Faz também que os pretendentes continuem a injuriar o mendigo.

νευστάζων κεφαλῇ· δὴ γὰρ κακὸν ὄσσετο θυμός. / ἀλλʼ οὐδʼ ὣς φύγε κῆρα· πέδησε δὲ καὶ τὸν Ἀθήνη / Τηλεμάχου ὑπὸ χερσὶ καὶ ἔγχεϊ ἶφι δαμῆναι. (18.154-156), balançando a cabeça, pois o ânimo pressentia o mal. Mas nem assim fugiu da perdição: Atena o prendeu também, para ser domado pelas mãos e pela lança de Telêmaco.
Canto XVIII: Iro e os pretendentes
τῇ δʼ ἄρʼ ἐπὶ φρεσὶ θῆκε θεὰ γλαυκῶπις Ἀθήνη, / κούρῃ Ἰκαρίοιο, περίφρονι Πηνελοπείῃ, / μνηστήρεσσι φανῆναι, ὅπως πετάσειε μάλιστα / θυμὸν μνηστήρων ἰδὲ τιμήεσσα γένοιτο / μᾶλλον πρὸς πόσιός τε καὶ υἱέος ἢ πάρος ἦεν. (18.158-162), nela pôs a deusa de olhos glaucos, Atena, a ideia, na filha de Icário, a prudente Penélope, de aparecer aos pretendentes, para abrir-lhes ao máximo o ânimo e para que ela fosse mais honrada pelo marido e pelo filho do que antes.
Canto XVIII: Iro e os pretendentes

No Canto XIX, segura a lamparina de ouro à frente de Odisseu e Telêmaco quando levam as armas, e a sala brilha. Desvia a atenção de Penélope quando Euricleia reconhece a cicatriz, e depois lhe derrama o sono.

No Canto XX, desce à cabeceira de Odisseu quando ele não dorme, repreende-o por confiar em um mortal que sabe menos que ela e promete que ele tomaria os bois de cinquenta companhias. Não deixa os pretendentes se absterem do ultraje, para que a dor entre mais fundo em Odisseu. No fim, faz os pretendentes rirem com mandíbulas alheias.

αὐτὰρ ἐγὼ θεός εἰμι, διαμπερὲς ἥ σε φυλάσσω / ἐν πάντεσσι πόνοις. ἐρέω δέ τοι ἐξαναφανδόν· / εἴ περ πεντήκοντα λόχοι μερόπων ἀνθρώπων / νῶϊ περισταῖεν, κτεῖναι μεμαῶτες Ἄρηϊ, / καί κεν τῶν ἐλάσαιο βόας καὶ ἴφια μῆλα. (20.47-51), eu, porém, sou deusa, e te guardo sempre em todas as penas. Digo-o às claras: ainda que cinquenta companhias de homens mortais nos cercassem, ávidas de nos matar na guerra, tu lhes tomarias os bois e as gordas ovelhas.
Canto XX: Os presságios
μνηστῆρας δʼ οὐ πάμπαν ἀγήνορας εἴα Ἀθήνη / λώβης ἴσχεσθαι θυμαλγέος, ὄφρʼ ἔτι μᾶλλον / δύη ἄχος κραδίην Λαερτιάδην Ὀδυσῆα. (20.284-286), Atena, porém, não deixava os pretendentes arrogantes se absterem de todo do ultraje que fere o ânimo, para que a dor penetrasse ainda mais o coração de Odisseu, filho de Laertes.
Canto XX: Os presságios

No Canto XXI, põe na mente de Penélope a ideia da prova do arco, começo da matança.

τόξον μνηστήρεσσι θέμεν πολιόν τε σίδηρον / ἐν μεγάροις Ὀδυσῆος, ἀέθλια καὶ φόνου ἀρχήν. (21.3-4), de pôr diante dos pretendentes, no palácio de Odisseu, o arco e o ferro cinzento, prêmio da prova e começo da matança.
Canto XXI: O arco

No Canto XXII, chega à sala como Mentor e censura Odisseu, mas retém a vitória plena para provar a força dele e a do filho, e senta-se numa viga com a forma de uma andorinha. Depois ergue a égide, e os pretendentes fogem.

ἦ ῥα, καὶ οὔ πω πάγχυ δίδου ἑτεραλκέα νίκην, / ἀλλʼ ἔτʼ ἄρα σθένεός τε καὶ ἀλκῆς πειρήτιζεν / ἠμὲν Ὀδυσσῆος ἠδʼ υἱοῦ κυδαλίμοιο. / αὐτὴ δʼ αἰθαλόεντος ἀνὰ μεγάροιο μέλαθρον / ἕζετʼ ἀναΐξασα, χελιδόνι εἰκέλη ἄντην. (22.236-240), assim disse, e ainda não dava a vitória que decide, mas provava ainda a força e o vigor de Odisseu e do filho glorioso. Ela mesma, subindo ao caibro do salão enegrecido de fumaça, sentou-se, semelhante, em plena vista, a uma andorinha.
Canto XXII: A matança dos pretendentes
δὴ τότʼ Ἀθηναίη φθισίμβροτον αἰγίδʼ ἀνέσχεν / ὑψόθεν ἐξ ὀροφῆς· τῶν δὲ φρένες ἐπτοίηθεν. (22.297-298), então Atena ergueu do alto do teto a égide que destrói mortais; e o ânimo deles se apavorou.
Canto XXII: A matança dos pretendentes

No Canto XXIII, derrama beleza sobre Odisseu depois do banho e, quando os dois se reconhecem, retém a noite no fim do mundo e deixa a Aurora no Oceano. De manhã, esconde os homens na noite ao saírem da cidade.

No Canto XXIV, pergunta a Zeus se a guerra continua, e Zeus lhe lembra que o plano da vingança foi dela, mas dita os termos da paz. Atena desce, anima Laertes e põe vigor nele, e, na figura de Mentor, grita para os itacenses cessarem a guerra. Firma o pacto no último verso do poema.

ἡμεῖς δʼ αὖ παίδων τε κασιγνήτων τε φόνοιο / ἔκλησιν θέωμεν· τοὶ δʼ ἀλλήλους φιλεόντων / ὡς τὸ πάρος, πλοῦτος δὲ καὶ εἰρήνη ἅλις ἔστω. (24.484-486), e nós, por nossa vez, façamos esquecer a morte dos filhos e dos irmãos; que eles se amem uns aos outros como antes, e que haja riqueza e paz em abundância.
Canto XXIV: A paz em Ítaca
ἴσχεσθε πτολέμου, Ἰθακήσιοι, ἀργαλέοιο, / ὥς κεν ἀναιμωτί γε διακρινθῆτε τάχιστα. (24.531-532), cessai a guerra penosa, itacenses, para que vos separeis o mais depressa sem derramar sangue.
Canto XXIV: A paz em Ítaca

Temas que encarna

Atena encarna o Lar, exílio e retorno como obra de cuidado: o retorno é decisão de Zeus, mas quem o leva a termo é ela. Também a Vingança, que o poema apresenta como projeto dela, e a Família, porque os dois homens que ela guia são pai e filho. Encarna a Verdade e mentira, porque se disfarça o tempo todo e porque aprova o gosto de Odisseu pelos ardis.

Atena nunca faz sozinha o que o poema atribui a ela. Cada passo do plano é dado por alguém com razões próprias: Nausícaa lava roupa por causa do casamento, Telêmaco responde ao conselho e vai, os servos reconhecem o senhor por conta deles. A ajuda divina é medida. Ela não dá a vitória inteira de uma vez, prova o pai e o filho antes de erguer a égide, e se esconde do tio Poseidon até Odisseu pisar a pátria. Pode-se ler isso como proteção cuidadosa, que respeita a ação dos homens, ou como a dosagem de quem usa as pessoas para um plano que já decidiu. O texto sustenta as duas.

Relações

  • Odisseu: o protegido a quem ela reconhece como igual em astúcia.
  • Telêmaco: o jovem a quem ela manda crescer, e a quem aparece como Mentes e como Mentor.
  • Penélope: a rainha cujos sonhos, desejos e prova ela conduz, sem lhe revelar o plano.
  • Zeus: o pai, que lhe devolve o plano da vingança e lhe dita os termos da paz.
  • Poseidon: o tio, por respeito a quem ela se esconde de Odisseu até a pátria.
  • Nausícaa: a moça que ela usa, por um sonho, para abrir o caminho à corte feácia.