Quem é
Antínoo é o chefe dos pretendentes de Penélope, filho de Eupites, e o que mais fala por eles. Come a casa de Odisseu com os outros, zomba de Telêmaco e é quem conta a Ítaca o ardil do tear. O poema o faz o mais duro dos nobres: ele propõe matar o filho do rei, atira o escabelo no mendigo e acredita, sem dizer, que será ele a armar o arco de Odisseu.
Trajetória
No Canto I, Telêmaco enfrenta Antínoo, que zomba dele, ao anunciar a assembleia. No Canto II, é o único a responder a Telêmaco na praça: diz que a culpa não é dos pretendentes, mas da mãe dele, e conta o ardil. Penélope pediu que esperassem até terminar uma mortalha para Laertes, teceu de dia e desfez à noite por três anos, até que uma serva os avisou. A resposta dos pretendentes é que Telêmaco mande a mãe embora. Depois, no palácio, convida o rapaz a banquetear como antes, ri, toma-lhe a mão, e Telêmaco a solta.
κοῦροι ἐμοὶ μνηστῆρες, ἐπεὶ θάνε δῖος Ὀδυσσεύς, / μίμνετʼ ἐπειγόμενοι τὸν ἐμὸν γάμον, εἰς ὅ κε φᾶρος / ἐκτελέσω, μή μοι μεταμώνια νήματʼ ὄληται, / Λαέρτῃ ἥρωι ταφήιον,(2.96-99), jovens, meus pretendentes, já que morreu o divino Odisseu, esperai, ainda que apressados pelas minhas núpcias, até que eu termine um tecido, para que não se percam em vão os fios: uma mortalha para o herói Laertes.
ὣς τὸ μὲν ἐξετέλεσσε καὶ οὐκ ἐθέλουσʼ ὑπʼ ἀνάγκης·(2.110), assim ela o concluiu, sem querer, por necessidade.
No Canto IV, quando descobre a partida de Telêmaco, fica de olhos em chamas: o rapaz concluiu uma empresa que julgavam impossível, e ele quer uma nau e vinte companheiros para emboscá-lo entre Ítaca e Samos. Diz que o rapaz começará a ser um mal mais adiante, e pede a Zeus que lhe destrua o vigor antes que alcance a juventude. Manda calar os que fazem barulho, para ninguém avisar dentro de casa.
ἐκ τοσσῶνδʼ ἀέκητι νέος πάϊς οἴχεται αὔτως / νῆα ἐρυσσάμενος, κρίνας τʼ ἀνὰ δῆμον ἀρίστους. / ἄρξει καὶ προτέρω κακὸν ἔμμεναι· ἀλλά οἱ αὐτῷ / Ζεὺς ὀλέσειε βίην, πρὶν ἥβης μέτρον ἱκέσθαι(4.665-668), contra a vontade de tantos, o rapaz partiu à toa, arrastou ao mar uma nau e escolheu os melhores do povo. Começará a ser um mal também mais adiante; que Zeus lhe destrua o vigor antes que alcance a medida da juventude.
No Canto XVI, na ágora, depois que a emboscada falha, propõe matar Telêmaco no campo ou no caminho, repartir os bens e deixar a casa à mãe e ao marido dela. Se preferirem que ele viva, que cada um corteje Penélope da própria casa, com presentes. Penélope o repreende diante de todos: lembra que Zeus é testemunha dos suplicantes e que o pai de Antínoo foi salvo por Odisseu quando o povo queria matá-lo.
μάργε, τίη δὲ σὺ Τηλεμάχῳ θάνατόν τε μόρον τε / ῥάπτεις, οὐδʼ ἱκέτας ἐμπάζεαι, οἷσιν ἄρα Ζεὺς / μάρτυρος; οὐδʼ ὁσίη κακὰ ῥάπτειν ἀλλήλοισιν.(16.421-423), insensato, por que preparas a Telêmaco morte e destino, sem respeitar os suplicantes, de quem Zeus é testemunha? Não é piedoso tramar males uns contra os outros.
No Canto XVII, repreende Eumeu por trazer mais um mendigo. Quando Odisseu lhe pede, diz que a mesa dele não é para isso, e atira o escabelo no ombro direito do mendigo, que fica firme como rocha. Odisseu invoca as Erínias dos mendigos e lhe deseja a morte antes do casamento, e alguns pretendentes lhe recordam que os deuses percorrem as cidades em forma de estrangeiros. Antínoo não os ouve. Penélope, no quarto, diz que ele se parece com a Quer negra.
ἀλλʼ εἴ που πτωχῶν γε θεοὶ καὶ Ἐρινύες εἰσίν, / Ἀντίνοον πρὸ γάμοιο τέλος θανάτοιο κιχείη.(17.475-476), mas se existem deuses e Erínias dos mendigos, que o termo da morte alcance Antínoo antes do casamento.
μαῖʼ, ἐχθροὶ μὲν πάντες, ἐπεὶ κακὰ μηχανόωνται· / Ἀντίνοος δὲ μάλιστα μελαίνῃ κηρὶ ἔοικε.(17.499-500), mãezinha, todos são odiosos, pois tramam males; mas Antínoo, mais que todos, se parece com a Quer negra.
No Canto XVIII, ri da luta entre Odisseu e Iro, propõe o prêmio, o bucho de cabra no fogo, e ameaça mandar Iro ao rei Équeto. Ao fim, diz a Penélope que ela deve aceitar os presentes dos pretendentes, e oferece um grande manto bordado com doze fivelas de ouro.
ὁππότερος δέ κε νικήσῃ κρείσσων τε γένηται, / τάων ἥν κʼ ἐθέλῃσιν ἀναστὰς αὐτὸς ἑλέσθω· / αἰεὶ αὖθʼ ἡμῖν μεταδαίσεται, οὐδέ τινʼ ἄλλον / πτωχὸν ἔσω μίσγεσθαι ἐάσομεν αἰτήσοντα.(18.46-49), e aquele que vencer e se mostrar mais forte, levante-se e escolha para si qual desses quiser; e sempre comerá conosco, e não deixaremos nenhum outro mendigo misturar-se a nós para pedir.
No Canto XX, diz que só Zeus os impediu de fazer Telêmaco calar. No Canto XXI, repreende os servos que choram ao ver o arco e diz que ninguém ali é como Odisseu. O narrador adianta que o ânimo dele esperava armar a corda, e que será o primeiro a provar a flecha do homem que desprezava. Depois, adia a prova pela festa de Apolo e ofende o mendigo que pede o arco, comparando-o ao centauro Eurítion e ameaçando mandá-lo a Équeto.
ὣς φάτο, τῷ δʼ ἄρα θυμὸς ἐνὶ στήθεσσιν ἐώλπει / νευρὴν ἐντανύσειν διοϊστεύσειν τε σιδήρου. / ἦ τοι ὀϊστοῦ γε πρῶτος γεύσεσθαι ἔμελλεν / ἐκ χειρῶν Ὀδυσῆος ἀμύμονος(21.96-99), Assim falou; no entanto, no peito, o ânimo dele esperava armar a corda e atravessar o ferro. Ia ser, porém, o primeiro a provar a flecha das mãos do irrepreensível Odisseu.
νῦν μὲν γὰρ κατὰ δῆμον ἑορτὴ τοῖο θεοῖο / ἁγνή· τίς δέ κε τόξα τιταίνοιτʼ; ἀλλὰ ἕκηλοι / κάτθετʼ(21.258-260), pois hoje é a festa sagrada daquele deus no povo; quem estenderia arcos? Mas depositai-os tranquilos.
No Canto XXII, é o primeiro a morrer: Odisseu o atinge no pescoço quando ele erguia uma taça de ouro. Eurímaco o culpa depois, dizendo que ele não precisava tanto do casamento quanto de reinar sobre Ítaca e de matar Telêmaco.
ὄφρα πίοι οἴνοιο· φόνος δέ οἱ οὐκ ἐνὶ θυμῷ / μέμβλετο· τίς κʼ οἴοιτο μετʼ ἀνδράσι δαιτυμόνεσσι / μοῦνον ἐνὶ πλεόνεσσι, καὶ εἰ μάλα καρτερὸς εἴη, / οἷ τεύξειν θάνατόν τε κακὸν καὶ κῆρα μέλαιναν;(22.11-14), para beber vinho; a morte não lhe estava no ânimo. Quem imaginaria que um só homem, entre tantos convivas, por mais forte que fosse, traria para ele a morte má e o negro destino?
οὔ τι γάμου τόσσον κεχρημένος οὐδὲ χατίζων, / ἀλλʼ ἄλλα φρονέων, τά οἱ οὐκ ἐτέλεσσε Κρονίων, / ὄφρʼ Ἰθάκης κατὰ δῆμον ἐϋκτιμένης βασιλεύοι / αὐτός, ἀτὰρ σὸν παῖδα κατακτείνειε λοχήσας.(22.50-53), sem precisar nem desejar tanto o casamento, mas pensando em outras coisas, que o Cronida não cumpriu: reinar ele mesmo sobre o povo da bem povoada Ítaca e matar teu filho de emboscada.
No Canto XXIV, o pai dele, Eupites, chora o filho e chama os itacenses a vingá-lo, dizendo que não quer viver se o filho não for vingado, e cai na batalha, atingido por Laertes.
λώβη γὰρ τάδε γʼ ἐστὶ καὶ ἐσσομένοισι πυθέσθαι, / εἰ δὴ μὴ παίδων τε κασιγνήτων τε φονῆας / τισόμεθʼ. οὐκ ἂν ἐμοί γε μετὰ φρεσὶν ἡδὺ γένοιτο / ζωέμεν, ἀλλὰ τάχιστα θανὼν φθιμένοισι μετείην.(24.433-436), pois isto será vergonha também para os vindouros ouvirem, se não castigarmos os matadores de nossos filhos e irmãos. Para mim, no ânimo, não seria doce viver, mas morrer o quanto antes e estar entre os mortos.
Temas que encarna
Antínoo encarna a violação da hospitalidade que o poema trata como crime, e com ela a Lealdade e traição, pelo lado da traição: come a casa de Odisseu, que salvou o pai dele quando o povo queria matá-lo. Também a Vingança que recai sobre ele, a primeira a ser cobrada. A Família de Odisseu é o alvo: Antínoo quer o filho morto e a casa repartida.
O poema mostra Antínoo sempre em ato de poder: fala com autoridade e escárnio, e o texto o põe, no Canto XXII, morrendo com a taça nas mãos, sem pensar em morte. O que o define é o desejo de poder, que Eurímaco diz depois do morto, e que o narrador anuncia no Canto XXI. As duas leituras valem: ele é o chefe que arrasta os outros, e é também o nome para que os vivos descarreguem a culpa.