Clavis Libri

Personagem

Poseidon

Quem é

Poseidon é o deus do mar e do tremor da terra, pai do ciclope Polifemo e antepassado dos feácios. É o inimigo divino de Odisseu: o poema explica logo no primeiro canto que ele não o mata, mas o faz vagar longe da pátria, porque Odisseu cegou seu filho. Quase sempre está longe, num banquete entre os etíopes, e o retorno do herói é decidido no céu enquanto ele está ausente. Quando aparece, é para descarregar a ira no mar.

Trajetória

No Canto I, Poseidon está longe, num banquete entre os etíopes, e é o único deus que não se compadece de Odisseu. Zeus explica a Atena que o deus não o mata, mas o faz vagar, e o motivo é de pai.

ἐκ τοῦ δὴ Ὀδυσῆα Ποσειδάων ἐνοσίχθων / οὔ τι κατακτείνει, πλάζει δʼ ἀπὸ πατρίδος αἴης. (1.74-75), desde então Poseidon, que abala a terra, não mata Odisseu, mas o faz vagar longe da pátria.
Canto I: O concílio dos deuses e Telêmaco

No Canto III, os pílios sacrificam touros negros a ele na praia, e Atena, disfarçada de Mentor, reza ao deus por Nestor e pelos filhos, e pede que ela e Telêmaco voltem tendo cumprido a missão.

No Canto V, volta dos etíopes, vê a balsa de Odisseu dos montes Sólimos e se irrita, porque os deuses mudaram de ideia a respeito do herói. Junta nuvens, agita o mar com o tridente e solta todos os ventos. Quando Odisseu nada em direção à costa, diz que ele vague até se misturar a homens criados por Zeus, mas que nem assim terá pouco sofrimento, e se retira. Quem o socorre depois é Atena.

οὕτω νῦν κακὰ πολλὰ παθὼν ἀλόω κατὰ πόντον, / εἰς ὅ κεν ἀνθρώποισι διοτρεφέεσσι μιγήῃς. / ἀλλʼ οὐδʼ ὥς σε ἔολπα ὀνόσσεσθαι κακότητος (5.377-379), vagueia assim pelo mar, depois de sofrer muitos males, até te misturares a homens criados por Zeus; mas nem assim creio que terás o sofrimento por pouco.
Canto V: Calipso e a balsa

No Canto VI, Atena não aparece a Odisseu por respeito ao tio, que se enfurece contra ele até que chegue à pátria. No Canto VII, Atena conta que o fundador dos feácios, Nausítoo, é filho de Poseidon, e que o povo confia nas naus rápidas que o deus lhes deu. No Canto VIII, na canção de Demódoco, é o único deus que não ri do adultério de Ares e Afrodite, e pede a Hefesto que solte Ares prometendo pagar a dívida. Alcínoo conta ao hóspede a profecia do pai: Poseidon se indigna porque os feácios escoltam todos sem dano, e um dia fará em pedaços uma nau deles e cobrirá a cidade com um monte.

ἀλλὰ τόδʼ ὥς ποτε πατρὸς ἐγὼν εἰπόντος ἄκουσα / Ναυσιθόου, ὃς ἔφασκε Ποσειδάωνʼ ἀγάσασθαι / ἡμῖν, οὕνεκα πομποὶ ἀπήμονές εἰμεν ἁπάντων. / φῆ ποτὲ Φαιήκων ἀνδρῶν ἐυεργέα νῆα / ἐκ πομπῆς ἀνιοῦσαν ἐν ἠεροειδέι πόντῳ / ῥαισέμεναι, μέγα δʼ ἧμιν ὄρος πόλει ἀμφικαλύψειν. (8.564-569), mas isto eu um dia ouvi meu pai Nausítoo dizer: que Poseidon se indignava conosco porque somos escoltas sem dano para todos. Dizia que um dia faria em pedaços, no mar escuro, uma bem-feita nau de homens feácios voltando de uma escolta, e cobriria nossa cidade com um grande monte.
Canto VIII: Os jogos dos feácios

No Canto IX, Odisseu mente a Polifemo que foi Poseidon quem quebrou o navio nas rochas. Depois da cegueira, Polifemo reza a Poseidon, seu pai, para que Odisseu não chegue a casa, ou chegue tarde e mal, sem companheiros, e Poseidon o ouve.

νέα μέν μοι κατέαξε Ποσειδάων ἐνοσίχθων / πρὸς πέτρῃσι βαλὼν ὑμῆς ἐπὶ πείρασι γαίης, / ἄκρῃ προσπελάσας· ἄνεμος δʼ ἐκ πόντου ἔνεικεν· / αὐτὰρ ἐγὼ σὺν τοῖσδε ὑπέκφυγον αἰπὺν ὄλεθρον. (9.283-286), meu navio quebrou-o Poseidon, o que abala a terra, lançando-o contra as rochas no limite da vossa terra, ao aproximá-lo de um promontório, e o vento o trouxe do mar; mas eu, com estes, escapei da ruína abrupta.
Canto IX: O ciclope
εἰ ἐτεόν γε σός εἰμι, πατὴρ δʼ ἐμὸς εὔχεαι εἶναι, / δὸς μὴ Ὀδυσσῆα πτολιπόρθιον οἴκαδʼ ἱκέσθαι / υἱὸν Λαέρτεω, Ἰθάκῃ ἔνι οἰκίʼ ἔχοντα. (9.529-531), se de fato sou teu, e te gabas de ser meu pai, concede que Odisseu, saqueador de cidades, filho de Laertes, que tem casa em Ítaca, não chegue à sua casa.
Canto IX: O ciclope
ἀλλʼ εἴ οἱ μοῖρʼ ἐστὶ φίλους τʼ ἰδέειν καὶ ἱκέσθαι / οἶκον ἐυκτίμενον καὶ ἑὴν ἐς πατρίδα γαῖαν, / ὀψὲ κακῶς ἔλθοι, ὀλέσας ἄπο πάντας ἑταίρους, / νηὸς ἐπʼ ἀλλοτρίης, εὕροι δʼ ἐν πήματα οἴκῳ. (9.532-535), mas, se lhe cabe por destino rever os seus e chegar à casa bem construída e à sua terra pátria, que chegue tarde e mal, tendo perdido todos os companheiros, numa nau alheia, e encontre desgraças em casa.
Canto IX: O ciclope

No Canto XI, Tirésias anuncia a Odisseu que o rancor de Poseidon, por causa do filho cegado, fará o retorno duro, e que, depois de matar os pretendentes, ele deverá levar um remo até homens que não conhecem o mar e sacrificar ao deus um carneiro, um touro e um javali. No Canto XII, Circe diz a Odisseu que nem Poseidon o salvaria de Caríbdis.

No Canto XIII, o deus vai queixar-se a Zeus de que os feácios, que são de seu sangue, o desonraram ao devolver Odisseu a Ítaca dormindo e carregado de presentes. Admite que nunca lhe negou o retorno de todo, porque Zeus o prometera. Faz o navio feácio virar pedra à vista da cidade, e Alcínoo reconhece a profecia do pai e põe fim às escoltas.

Ζεῦ πάτερ, οὐκέτʼ ἐγώ γε μετʼ ἀθανάτοισι θεοῖσι / τιμήεις ἔσομαι, ὅτε με βροτοὶ οὔ τι τίουσιν, / Φαίηκες, τοί πέρ τοι ἐμῆς ἔξ εἰσι γενέθλης. / καὶ γὰρ νῦν Ὀδυσῆʼ ἐφάμην κακὰ πολλὰ παθόντα / οἴκαδʼ ἐλεύσεσθαι· νόστον δέ οἱ οὔ ποτʼ ἀπηύρων / πάγχυ, ἐπεὶ σὺ πρῶτον ὑπέσχεο καὶ κατένευσας. (13.128-133), Pai Zeus, já não serei honrado entre os deuses imortais, se os mortais não me honram em nada, os feácios, que são do meu próprio sangue. Pois eu julgava que Odisseu, depois de sofrer muitos males, chegaria em casa; o retorno eu nunca lhe neguei de todo, porque tu primeiro o prometeste e assentiste com a cabeça.
Canto XIII: A chegada a Ítaca
πομπῆς μὲν παύσασθε βροτῶν, ὅτε κέν τις ἵκηται / ἡμέτερον προτὶ ἄστυ· Ποσειδάωνι δὲ ταύρους / δώδεκα κεκριμένους ἱερεύσομεν, αἴ κʼ ἐλεήσῃ, (13.180-182), Deixai de dar escolta aos mortais, quando alguém chegar à nossa cidade; e a Poseidon sacrificaremos doze touros escolhidos, para ver se ele se compadece.
Canto XIII: A chegada a Ítaca

No Canto XXIII, Odisseu repete a Penélope o que Tirésias profetizou: ele partirá com um remo, até um caminhante chamá-lo de pá de joeirar, e então fincará o remo na terra e sacrificará a Poseidon. A comparação do alívio de Penélope ao de um náufrago lembra que o deus despedaça as naus.

Temas que encarna

Poseidon encarna a Vingança de pai, e com ela o Lar, exílio e retorno como castigo: o que ele impõe a Odisseu não é a morte, é a errância. Vincula-se à Família pela razão da ira, um filho cegado.

O texto mostra Poseidon como um deus de limite. Ele não impede o retorno de todo, e confessa isso a Zeus; descarrega a ira nos feácios, que o ajudaram. Pode-se ler isso como o fim de uma ira que se aplaca por etapas, ou como a vontade de um deus que, tendo perdido a causa principal, desconta no que sobrar. O poema não decide.

Relações

  • Odisseu: o homem que ele faz vagar e que lhe deve um sacrifício no fim.
  • Polifemo: o filho cego, cuja prece ele ouve.
  • Zeus: o deus cujo aceno ele não consegue negar.
  • Atena: a sobrinha que se esconde dele até Odisseu pisar a pátria.
  • Alcínoo: o neto cuja cidade ele ameaça cobrir com um monte.