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Personagem

Laertes

Quem é

Laertes é o pai de Odisseu, filho de Arcésio, o velho que se retirou da cidade para o campo e vive no luto do filho. Dorme com os servos, na cinza junto ao fogo no inverno e em leitos de folhas no vinhedo no verão, e pede a Zeus que a vida o deixe. Para ele Penélope tece uma mortalha. O poema o instala por notícia dos outros e só o mostra em cena no último canto, cavando em volta de uma planta, sozinho.

Trajetória

No Canto II, Laertes é o destinatário do ardil de Penélope, a mortalha que ela diz tecer para ele e que usa para adiar o casamento por três anos. No Canto IV, quando Penélope quer avisá-lo da emboscada contra o neto, Euricleia lhe pede que poupe o velho, porque os deuses não devem odiar a linhagem de Arcésio.

No Canto XI, no Hades, a mãe de Odisseu descreve ao filho como o pai vive: não desce à cidade, sem cama nem mantas, dorme na cinza junto ao fogo no inverno e em folhas no vinhedo no verão, nutrindo o luto e desejando o retorno do filho, enquanto a velhice pesa. Ela mesma morreu da mesma saudade.

ἀλλά με σός τε πόθος σά τε μήδεα, φαίδιμʼ Ὀδυσσεῦ, / σή τʼ ἀγανοφροσύνη μελιηδέα θυμὸν ἀπηύρα. (11.202-203), mas a saudade de ti, os teus planos, ilustre Odisseu, e a tua doçura de ânimo arrancaram-me a vida doce como mel.
Canto XI: A descida aos mortos

No Canto XV, Eumeu diz a Odisseu, sem saber quem é, que Laertes ainda vive mas pede todos os dias a Zeus que a vida deixe os membros, de tanto chorar o filho que se foi.

Λαέρτης μὲν ἔτι ζώει, Διὶ δʼ εὔχεται αἰεὶ / θυμὸν ἀπὸ μελέων φθίσθαι οἷς ἐν μεγάροισιν· / ἐκπάγλως γὰρ παιδὸς ὀδύρεται οἰχομένοιο (15.353-355), Laertes ainda vive, mas pede sempre a Zeus que a vida deixe os membros em sua casa; pois chora desmedidamente o filho que se foi.
Canto XV: A volta de Telêmaco

No Canto XVI, Eumeu pergunta a Telêmaco se deve avisar o velho de que ele voltou, porque desde a partida do rapaz o avô não come nem bebe e só chora. Telêmaco manda que a despenseira o avise em segredo. No mesmo canto, Odisseu manda que ninguém saiba que voltou, nem Laertes. No Canto XIX, Penélope conta ao mendigo o ardil da mortalha de Laertes. No Canto XXIII, ao amanhecer, Odisseu diz que irá ao campo de muitas árvores ver o pai, que sofre por ele.

No Canto XXIV, Odisseu chega ao pomar do pai e o encontra sozinho, a cavar em volta de uma planta, com túnica suja e remendada, polainas de couro contra os espinhos, luvas e um gorro de pele de cabra, nutrindo o luto. Hesita entre abraçá-lo e pô-lo à prova, e começa com palavras de zombaria, falando de um hóspede que se dizia de Ítaca. Laertes responde chorando que o filho, se existiu, talvez tenha sido comido pelos peixes, sem que a mãe, o pai e Penélope o chorassem. Quando o estrangeiro diz que Odisseu partiu de junto dele há cinco anos, o velho derrama cinza sobre a cabeça grisalha.

μερμήριξε δʼ ἔπειτα κατὰ φρένα καὶ κατὰ θυμὸν / κύσσαι καὶ περιφῦναι ἑὸν πατέρʼ, ἠδὲ ἕκαστα / εἰπεῖν, ὡς ἔλθοι καὶ ἵκοιτʼ ἐς πατρίδα γαῖαν, / ἦ πρῶτʼ ἐξερέοιτο ἕκαστά τε πειρήσαιτο. / ὧδε δέ οἱ φρονέοντι δοάσσατο κέρδιον εἶναι, / πρῶτον κερτομίοις ἐπέεσσιν πειρηθῆναι. (24.235-240), então hesitou no ânimo e no espírito, se beijaria e abraçaria o pai e lhe diria tudo, como veio e chegou à terra pátria, ou se primeiro o interrogaria e o poria à prova. Assim, ao refletir, pareceu-lhe mais vantajoso pô-lo à prova primeiro com palavras de zombaria.
Canto XXIV: A paz em Ítaca
ἠέ που ἐν πόντῳ φάγον ἰχθύες, ἢ ἐπὶ χέρσου / θηρσὶ καὶ οἰωνοῖσιν ἕλωρ γένετʼ· οὐδέ ἑ μήτηρ / κλαῦσε περιστείλασα πατήρ θʼ, οἵ μιν τεκόμεσθα· (24.291-293), talvez no mar o tenham comido os peixes, ou em terra firme tenha virado presa de feras e aves; nem a mãe o chorou, depois de o amortalhar, nem o pai, nós que o geramos.
Canto XXIV: A paz em Ítaca

Odisseu corre a abraçá-lo, manda que ele pare de chorar e diz que matou os pretendentes. Laertes pede um sinal: Odisseu mostra a cicatriz do javali e depois enumera as árvores que o pai lhe deu no pomar quando criança, treze pereiras, dez macieiras, quarenta figueiras. Os joelhos do velho cedem, e Odisseu o segura.

κεῖνος μέν τοι ὅδʼ αὐτὸς ἐγώ, πάτερ, ὃν σὺ μεταλλᾷς, / ἤλυθον εἰκοστῷ ἔτεϊ ἐς πατρίδα γαῖαν. / ἀλλʼ ἴσχεο κλαυθμοῖο γόοιό τε δακρυόεντος. / ἐκ γάρ τοι ἐρέω· μάλα δὲ χρὴ σπευδέμεν ἔμπης· / μνηστῆρας κατέπεφνον ἐν ἡμετέροισι δόμοισι, / λώβην τινύμενος θυμαλγέα καὶ κακὰ ἔργα. (24.321-326), aquele de quem perguntas, pai, sou eu mesmo; vim no vigésimo ano à terra pátria. Mas cessa o pranto e o gemido lacrimoso. Eu te direi, pois é preciso muita pressa: matei os pretendentes em nossa casa, vingando a afronta que dói no ânimo e as más ações.
Canto XXIV: A paz em Ítaca
οὐλὴν μὲν πρῶτον τήνδε φράσαι ὀφθαλμοῖσι, / τὴν ἐν Παρνησῷ μʼ ἔλασεν σῦς λευκῷ ὀδόντι / οἰχόμενον (24.331-333), primeiro olha com teus olhos esta cicatriz, que me fez no Parnaso um javali com o dente branco, quando fui.
Canto XXIV: A paz em Ítaca
ὄγχνας μοι δῶκας τρισκαίδεκα καὶ δέκα μηλέας, / συκέας τεσσαράκοντʼ (24.340-341), deste-me treze pereiras e dez macieiras, e quarenta figueiras.
Canto XXIV: A paz em Ítaca

Refeito, Laertes agradece aos deuses se os pretendentes de fato pagaram, mas teme que os itacenses venham logo. Banhado e ungido, Atena lhe dá vigor, e ele diz que, se tivesse a força de quando tomou Nérico, teria estado ao lado do filho contra os pretendentes. Mais tarde, quando os itacenses chegam armados sob a chefia de Eupites, Atena lhe diz que reze a ela e a Zeus e lance a lança, e ele atinge Eupites no elmo. Exulta de ver filho e neto disputando a excelência.

Ζεῦ πάτερ, ἦ ῥα ἔτʼ ἔστε θεοὶ κατὰ μακρὸν Ὄλυμπον, / εἰ ἐτεὸν μνηστῆρες ἀτάσθαλον ὕβριν ἔτισαν. / νῦν δʼ αἰνῶς δείδοικα κατὰ φρένα μὴ τάχα πάντες / ἐνθάδʼ ἐπέλθωσιν Ἰθακήσιοι, ἀγγελίας δὲ / πάντη ἐποτρύνωσι Κεφαλλήνων πολίεσσι. (24.351-355), pai Zeus, então ainda existis, deuses, no longo Olimpo, se de fato os pretendentes pagaram a insolente violência! Mas agora temo terrivelmente no ânimo que logo todos os itacenses venham aqui e mandem mensagens por toda parte às cidades dos cefalênios.
Canto XXIV: A paz em Ítaca
τίς νύ μοι ἡμέρη ἥδε, θεοὶ φίλοι; ἦ μάλα χαίρω· / υἱός θʼ υἱωνός τʼ ἀρετῆς πέρι δῆριν ἔχουσιν. (24.514-515), que dia é este para mim, deuses amados? Alegro-me muito: filho e neto disputam entre si sobre a excelência.
Canto XXIV: A paz em Ítaca

Temas que encarna

Laertes encarna a Família pelo lado do pai: o luto dele é o custo da ausência de Odisseu na geração acima, e o reencontro no pomar fecha a linha de filho único em cada geração, Arcésio, Laertes, Odisseu, Telêmaco. Encarna o Lar, exílio e retorno no que o retorno deve ao mais velho e à terra, o pomar. A Identidade de Odisseu passa por ele no fim, quando uma lembrança de infância, as árvores, convence o pai mais que a marca no corpo.

O luto de Laertes é a prova que o disfarce cobra: Odisseu escolhe pôr o pai à prova com zombaria, e o preço é o velho chorar de verdade diante de uma mentira. O poema não condena a escolha, e as duas leituras cabem: o hábito de quem só se revela depois de testar, ou o filho que quer saber se o pai o reconhece depois de tantos anos.

Relações

  • Odisseu: o filho que ele chora e que o reencontra no pomar.
  • Telêmaco: o neto que ele vê disputar a excelência ao lado do pai.
  • Penélope: a nora que tece uma mortalha para ele como ardil contra os pretendentes.
  • Eumeu: o servo que ele comprou menino e que fala dele ao mendigo.
  • Atena: a deusa que lhe dá vigor e a ordem de lançar a lança.
  • Euricleia: a ama que, no Canto IV, pede que o poupem.