Quem é
Euricleia é a velha ama da casa de Odisseu, que criou o senhor e agora guarda o depósito do palácio. Acompanha Telêmaco com tochas ao quarto, chora o que sabe e guarda o que jura. É ela quem, ao lavar os pés de um mendigo, reconhece a cicatriz do homem que criou, e o poema faz dela a primeira da casa a saber que ele voltou. Quando fala, fala com a autoridade de quem viu nascer.
Trajetória
No Canto I, é a ama que acompanha Telêmaco ao quarto com as tochas, depois do dia em que ele enfrentou Antínoo e planejou a viagem.
No Canto II, guarda o depósito do pai de Telêmaco, cheio de ouro, bronze, roupas, óleo e vinho velho guardados para o dia em que Odisseu voltasse. Telêmaco lhe pede doze jarros e vinte medidas de cevada, em segredo. Ela chora e protesta, mas jura silêncio por onze ou doze dias, para a mãe não estragar o rosto com o choro.
θάρσει, μαῖʼ, ἐπεὶ οὔ τοι ἄνευ θεοῦ ἥδε γε βουλή. / ἀλλʼ ὄμοσον μὴ μητρὶ φίλῃ τάδε μυθήσασθαι, / πρίν γʼ ὅτʼ ἂν ἑνδεκάτη τε δυωδεκάτη τε γένηται, / ἢ αὐτὴν ποθέσαι καὶ ἀφορμηθέντος ἀκοῦσαι, / ὡς ἂν μὴ κλαίουσα κατὰ χρόα καλὸν ἰάπτῃ.(2.372-376), coragem, mãe: este plano não é sem um deus. Mas jura que não contarás isto a minha mãe querida antes que chegue o décimo primeiro ou o décimo segundo dia, ou até que ela mesma sinta minha falta e ouça que parti, para que não estrague, chorando, a bela pele.
No Canto IV, confessa a Penélope, que se atira na soleira ao saber da partida do filho, que sabia, e a aconselha a banhar-se, vestir roupa limpa, rezar a Atena e poupar o velho Laertes.
No Canto XVII, é a primeira a ver Telêmaco quando ele volta, chora e vem ao seu encontro com as servas.
No Canto XIX, ao receber a ordem de Penélope de lavar os pés do hóspede, cobre o rosto, chora e diz que Zeus odiou Odisseu mais que a todos. Acrescenta que nunca viu hóspede tão parecido com o senhor em corpo, voz e pés. Odisseu, ao sentar-se junto à lareira, vira-se para a sombra, e ela reconhece a cicatriz que um javali lhe fez no Parnaso, e a perna cai na bacia. Quer avisar Penélope, mas Atena desvia o ânimo de Penélope, que não percebe. Odisseu a agarra pela garganta e ameaça, caso fale, matá-la com as outras servas, e ela responde que é firme como pedra ou ferro e se oferece para dizer quais servas o desonram.
ἷζεν ἐπʼ ἐσχαρόφιν, ποτὶ δὲ σκότον ἐτράπετʼ αἶψα· / αὐτίκα γὰρ κατὰ θυμὸν ὀΐσατο, μή ἑ λαβοῦσα / οὐλὴν ἀμφράσσαιτο καὶ ἀμφαδὰ ἔργα γένοιτο. / νίζε δʼ ἄρʼ ἆσσον ἰοῦσα ἄναχθʼ ἑόν· αὐτίκα δʼ ἔγνω / οὐλήν, τήν ποτέ μιν σῦς ἤλασε λευκῷ ὀδόντι(19.389-393), sentou-se junto à lareira e logo se voltou para a sombra; pois logo pressentiu no ânimo que ela, ao tocá-lo, poderia perceber a cicatriz, e as ações viriam à luz. Chegando mais perto, lavava o seu senhor, e logo reconheceu a cicatriz que um javali lhe fizera, outrora, com o dente branco.
τὴν γρηῢς χείρεσσι καταπρηνέσσι λαβοῦσα / γνῶ ῥʼ ἐπιμασσαμένη, πόδα δὲ προέηκε φέρεσθαι· / ἐν δὲ λέβητι πέσε κνήμη, κανάχησε δὲ χαλκός, / ἂψ δʼ ἑτέρωσʼ ἐκλίθη· τὸ δʼ ἐπὶ χθονὸς ἐξέχυθʼ ὕδωρ.(19.467-470), a velha, tomando-a com as mãos espalmadas, reconheceu-a ao apalpar, e deixou o pé cair; a perna caiu na bacia, o bronze ressoou, inclinou-se para o outro lado, e a água se derramou no chão.
ὧδε γὰρ ἐξερέω, καὶ μὴν τετελεσμένον ἔσται· / εἴ χʼ ὑπʼ ἐμοί γε θεὸς δαμάσῃ μνηστῆρας ἀγαυούς, / οὐδὲ τροφοῦ οὔσης σεῦ ἀφέξομαι, ὁππότʼ ἂν ἄλλας / δμῳὰς ἐν μεγάροισιν ἐμοῖς κτείνωμι γυναῖκας.(19.487-490), pois assim direi, e será cumprido: se por mim um deus dominar os nobres pretendentes, não me absterei de ti, sendo minha ama, quando eu matar as outras servas nos meus salões.
No Canto XX, dá ordens às servas para limpar o salão, porque é dia de festa. Contradiz Telêmaco quando ele culpa a mãe pelo trato do hóspede: diz que Penélope não tem culpa e conta que o estrangeiro foi bem servido. No Canto XXI, Eumeu a chama para trancar as portas do salão, e ela o faz sem dizer palavra.
No Canto XXII, Odisseu a manda chamar. Ela o encontra entre os mortos, sujo de sangue como um leão, e vai gritar de júbilo, mas ele a contém: não é lícito exultar sobre homens mortos, que o destino dos deuses e as obras cruéis dominaram. Perguntada, ela diz que doze das cinquenta servas pisaram na desvergonha. Quer subir para acordar a patroa, e ele manda não despertá-la. Traz enxofre e fogo para purificar a casa.
οὐχ ὁσίη κταμένοισιν ἐπʼ ἀνδράσιν εὐχετάασθαι. / τούσδε δὲ μοῖρʼ ἐδάμασσε θεῶν καὶ σχέτλια ἔργα· / οὔ τινα γὰρ τίεσκον ἐπιχθονίων ἀνθρώπων, / οὐ κακὸν οὐδὲ μὲν ἐσθλόν, ὅτις σφέας εἰσαφίκοιτο· / τῷ καὶ ἀτασθαλίῃσιν ἀεικέα πότμον ἐπέσπον.(22.412-416), não é lícito gloriar-se sobre homens mortos. A estes dominou o destino dos deuses e as obras cruéis: a nenhum dos homens da terra honravam, nem mau nem bom, quem chegasse a eles; por isso, por suas insolências, tiveram sorte indigna.
τάων δώδεκα πᾶσαι ἀναιδείης ἐπέβησαν, / οὔτʼ ἐμὲ τίουσαι οὔτʼ αὐτὴν Πηνελόπειαν.(22.424-425), dessas, doze ao todo pisaram na desvergonha, sem honrar nem a mim nem à própria Penélope.
No Canto XXIII, sobe rindo para anunciar a Penélope que Odisseu está em casa. Penélope não acredita, e Euricleia responde com a cicatriz do javali e oferece a própria vida como aposta. Depois prepara com Eurínome a cama do casal, à luz de tochas.
ἦλθʼ Ὀδυσεὺς καὶ οἶκον ἱκάνεται, ὀψέ περ ἐλθών. / μνηστῆρας δʼ ἔκτεινεν ἀγήνορας, οἵ θʼ ἑὸν οἶκον / κήδεσκον καὶ κτήματʼ ἔδον βιόωντό τε παῖδα.(23.7-9), Odisseu veio e está em casa, ainda que tarde tenha vindo. Matou os pretendentes soberbos, que afligiam a sua casa, devoravam seus bens e faziam violência ao filho.
ἀλλʼ ἄγε τοι καὶ σῆμα ἀριφραδὲς ἄλλο τι εἴπω, / οὐλήν, τήν ποτέ μιν σῦς ἤλασε λευκῷ ὀδόντι.(23.73-74), mas vamos, dir-te-ei ainda outro sinal bem claro: a cicatriz que um javali lhe fez outrora com a presa branca.
Temas que encarna
Euricleia encarna a Lealdade e traição no registro da criada: sabe, guarda e responde por quem criou. Encarna também a Identidade, porque o corpo que ela lava é o único argumento de Odisseu que o disfarce não pode apagar, e a Família da casa, porque cuida de Odisseu, de Telêmaco e da patroa.
O reconhecimento de Euricleia é físico e barulhento, a perna cai na bacia e a água se derrama, e é ela quem o poema escolhe para primeiro saber. A ameaça de Odisseu logo depois, de matá-la se falar, e a resposta dela, firme como pedra, formam uma cena dura entre os dois. O texto não diz o que ela sente ao ouvir o homem que criou ameaçá-la, mas registra que ela guardou o segredo até a matança. A cicatriz que ela reconhece não convence Penélope no Canto XXIII, e o poema deixa a ama ser a primeira a saber e não a primeira a ser crida.
Relações
- Odisseu: o senhor que ela criou, lava e reconhece pela cicatriz, e que a obriga ao silêncio.
- Telêmaco: o jovem que a faz jurar segredo e a quem ela protesta e obedece.
- Penélope: a patroa a quem ela confessa o segredo de Telêmaco e anuncia o marido.
- Atena: a deusa que desvia o ânimo de Penélope enquanto a ama lava os pés do mendigo.
- Eumeu: o porqueiro que a chama para trancar as portas.