Quem é
Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin, o Nicolas das conversas de sala, é o filho único de Varvara Pietrovna Stavróguina, mulher rica, e de um general leviano que já vivia separado dela, e foi educado desde os oito anos por Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski, que o conquistou por ser ele próprio uma criança (capítulo II da Primeira Parte). Passa pela cavalaria da Guarda, por dois duelos, por um julgamento e por um regimento de infantaria, onde é rebaixado a soldado e volta a oficial em 1863, e depois viaja mais de três anos pela Europa, pelo Egito, por Jerusalém e pela Islândia; reaparece na cidade aos vinte e cinco anos como o príncipe Harry de Shakespeare, com um rosto que o cronista acha perfeito demais (capítulo II da Primeira Parte). É o maior proprietário da província (capítulo IV da Segunda Parte) e, sem que a cidade o saiba até o salão da mãe, marido de Mária Timofêievna Lebiádkina, com quem se casou em Petersburgo quase cinco anos antes, por tédio e por vontade de aviltar a própria vida («Com Tíkhon», capítulo X da Segunda Parte). O romance gira em torno dele sem lhe dar a palavra: quase tudo o que dele se sabe chega pela boca de terceiros, e os que dele receberam uma ideia, Alexei Kiríllov e Ivan Chátov, voltam à sua porta para cobrá-la (capítulo I da Segunda Parte). O que ele quer só diz uma vez sem ironia, ao bispo Tíkhon: perdoar a si mesmo, para que cesse a visão que o persegue («Com Tíkhon»). O que teme é o riso dos outros, que Tíkhon nomeia, e o gesto de grandeza que um suicídio seria, o último engano («Com Tíkhon», capítulo VIII da Terceira Parte). O que sabe, e confessa a Lizavieta Nikoláievna Tuchina, é que os Lebiádkin seriam mortos e que ele não deteve os assassinos (capítulo III da Terceira Parte). Onde se engana é em tomar a omissão por inocência: acha que não ter decidido nada o deixa fora do que acontece, e o livro mostra as vidas ao redor dele se organizando em torno do que ele deixou de dizer.
Trajetória
No capítulo II da Primeira Parte o cronista o apresenta pelo que a cidade faz dele: o pupilo a quem o mestre acordava à noite para chorar mágoas volta de Petersburgo, depois da Guarda, dos duelos e do regimento, como o Harry de Shakespeare que o professor invoca para sossegar Varvara Pietrovna. Seis meses depois a fera mostra as garras: puxa Pável Pávlovitch Gagánov pelo nariz no clube, beija três vezes na boca, diante de todos, a mulher de Lipútin e morde a orelha do governador. Antes de qualquer ato, o que o cronista registra é o rosto:
волосы его были что-то уж очень черны, светлые глаза его что-то уж очень спокойны и ясны, цвет лица что-то уж очень нежен и бел, румянец что-то уж слишком ярок и чист, зубы как жемчужины, губы как коралловые, — казалось бы, писаный красавец, а в то же время как будто и отвратителен. Говорили, что лицо его напоминает маску, os cabelos dele eram pretos demais, os olhos claros tranquilos e límpidos demais, a tez delicada e branca demais, o rubor vivo e puro demais, dentes como pérolas, lábios como corais: parecia um belo de pintura e, ao mesmo tempo, como que repugnante. Diziam que o rosto lembrava uma máscara.
Os médicos recuam três dias a doença que explica tudo, e na visita de despedida a Lipútin, que fingira crer na loucura, Nicolas responde que de fato esteve doente e pergunta se ele pensa mesmo que alguém se atira sobre pessoas em juízo perfeito. Quatro anos depois, interrogado com cautela sobre o nariz de Gagánov, responde com uma cortesia que não responde:
Да, я был тогда не совсем здоров, sim, eu não estava muito bem naquele tempo.
Antes de voltar à cena ele é assunto de todos. No capítulo III da Primeira Parte Varvara Pietrovna pergunta a Lipútin, em confiança, se o filho lhe parece são ou doente, e Kiríllov, sondado por Lipútin à noite, responde que às vezes lhe pareceu algo estranho. No capítulo IV da Primeira Parte Liza diz a Chátov que Stavróguin lhe falou muito dele, e Chátov enrubesce; mais adiante, sem que lhe peçam, é Chátov quem diz o nome do homem que o tirou da América com cem rublos:
Николай Ставрогин.
No capítulo V da Primeira Parte, no salão de Varvara Pietrovna, ele entra depois de Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski, e o cronista nota que a máscara do capítulo II já não está lá, sem saber dizer se mudou o rosto ou o olhar de quem o vê:
он с первого же взгляда показался мне решительным, неоспоримым красавцем, так что уже никак нельзя было сказать, но лицо его походит на маску. Не оттого ли, что он стал чуть-чуть бледнее, чем прежде, и, кажется, несколько похудел? Или, может быть, какая-нибудь новая мысль светилась теперь в его взгляде, à primeira vista ele me pareceu decididamente um belo homem, indiscutivelmente belo, de modo que já não dava para dizer que o rosto parecia uma máscara. Seria por estar um pouquinho mais pálido e, ao que parece, um pouco mais magro? Ou talvez algum pensamento novo luzisse agora no seu olhar?
À pergunta da mãe, se Mária Timofêievna é sua mulher legítima, ele sorri, beija-lhe a mão e não responde. A Mária, que lhe pede para se ajoelhar, diz com a seriedade de quem convence uma criança que é para ela um estranho:
Подумайте о том, что вы девушка, а я хоть и самый преданный друг ваш, но все же вам посторонний человек, не муж, не отец, не жених, pense que a senhora é uma moça, e eu, ainda que seja o seu amigo mais dedicado, sou para a senhora, mesmo assim, uma pessoa de fora: não sou marido, nem pai, nem noivo.
A única frase dele sobre a mulher coxa chega à sala filtrada duas vezes, por Piotr, que cita Kiríllov, e por Varvara Pietrovna, que a toma por resposta elevada:
Я не смеюсь над нею, não estou rindo dela.
Quando Chátov atravessa a sala depois de cinco segundos de silêncio e o atinge no rosto, Stavróguin o agarra pelos ombros, solta-o, cruza as mãos atrás das costas e fica branco como a camisa. O cronista, que o supõe incapaz de medo e capaz de matar a sangue-frio, mede a raiva dele pelo que ele não fez:
самая отвратительная и самая страшная, какая может быть, a mais repulsiva e a mais assustadora que possa haver.
No capítulo I da Segunda Parte Piotr o procura porque viu, depois da bofetada, as mãos atrás das costas, e passa à tática nova de se oferecer como instrumento. Stavróguin lhe diz que prometeu à mãe pedir em cinco dias a mão de Liza, pede a Kiríllov que seja seu padrinho num duelo e, na casa de Chátov, avisa que o querem matar e declara que Mária Timofêievna é sua esposa legítima, casada em Petersburgo com Kiríllov e Piotr por testemunhas. Chátov cobra dele o que dele recebeu, e primeiro a frase que lhe atribui sobre Cristo e a verdade:
Но не вы ли говорили мне, что если бы математически доказали вам, что истина вне Христа, то вы бы согласились лучше остаться со Христом, нежели с истиной? Говорили вы это? Говорили?, mas não foi o senhor mesmo que me disse que, se lhe provassem matematicamente que a verdade está fora de Cristo, o senhor preferiria ficar com Cristo a ficar com a verdade? O senhor disse isso? Disse?
Depois lhe dá o diagnóstico que em seguida aplica a si mesmo:
Вы атеист, потому что вы барич, последний барич. Вы потеряли различие зла и добра, потому что перестали свой народ узнавать, o senhor é ateu porque é um senhorzinho, o último dos senhorzinhos. O senhor perdeu a diferença entre o mal e o bem porque deixou de reconhecer o seu povo.
Antes de sair Stavróguin pede que Chátov não abandone Mária Timofêievna, ouve dele o conselho de visitar Tíkhon, de quem nunca ouvira falar, diz que irá e, no portão, avisa baixinho que não voltará mais. Na ponte flutuante do capítulo II da Segunda Parte Fiedka se oferece por conta própria, e Stavróguin o ameaça com a polícia; na casa nova do capitão Lebiádkin anuncia que dentro de dois dias tornará público o casamento e que o dinheiro acabou; diante de Mária Timofêievna, que desperta com o olhar dele sobre ela, ouve que o falcão que ela esperava nunca teria vergonha dela diante de uma moça da sociedade, e que ele é um impostor:
Как увидала я твое низкое лицо, когда упала, а ты меня подхватил, — точно червь ко мне в сердце заполз: не он, думаю, не он! Не постыдился бы сокол мой меня никогда пред светской барышней, quando vi a tua cara baixa, na hora em que caí e você me apanhou, foi como se um verme me entrasse no coração: não é ele, pensei, não é ele! O meu falcão nunca teria vergonha de mim diante de uma moça da sociedade!
Ele a agarra pelo braço, chama-a de idiota e a empurra contra o sofá; foge repetindo a palavra faca, esquece Fiedka na ponte enquanto a repete, joga o homem ao chão, desiste de amarrá-lo e lhe atira a carteira inteira na lama. No bosque de Bríkov, no capítulo III da Segunda Parte, Gagánov atira três vezes; Stavróguin atira duas vezes para o alto e a terceira, sem delicadeza, para o bosque, e Gagánov, que não quer ser poupado, vê no gesto a ofensa maior:
Для чего он щадит меня? — бесновался Гаганов, не слушая. — Я презираю его пощаду… Я плюю… Я…, para que ele me poupa? Eu desprezo a clemência dele… Eu cuspo… Eu…
Na volta Kiríllov lhe diz o que viu nele, sem hostilidade:
Я думал, вы сами ищете бремени, pensei que o senhor mesmo procurasse o fardo.
Em casa, Dária Pávlovna Chátova, que ouviu a ordem de barrar a mãe, ouve dele que queria romper com ela e que um diabinho lhe propôs na ponte, por mil e quinhentos rublos, acabar com o casamento matando os dois Lebiádkin; ele a avisa de que é capaz de arruiná-la e de chamá-la, e a pergunta que lhe faz, se ela viria também depois da lojinha de Fiedka, ela não responde.
A cidade que o detestava há quatro anos o absolve, no capítulo IV da Segunda Parte, por uma frase de Yúlia Mikháilovna, e ele se fecha num silêncio que satisfaz a todos; cinco dias depois do duelo, Piotr lhe sussurra no clube que ele não tinha direito de se bater. No capítulo V da Segunda Parte o cronista relata, só por boato, que Liza ergueu a mão contra o rosto dele na porta do santo louco Semión Yákovlievitch e que ele se desviou, e anota que ele voltou pálido. No capítulo VI da Segunda Parte Mavrikii Nikoláievitch lhe cede a noiva e ouve dele, como único fato, que é casado e não pode nem casar nem pretender. No caminho para a casa de Virguinski, enquanto Piotr descreve o cimento do grupo, a vergonha de ter uma opinião própria, ele ri e dá a receita de como se prende de verdade um grupo: induzir quatro membros a matar o quinto, e todos ficam atados pelo sangue; Piotr pensa que ele terá de resgatar essas palavras ainda naquela noite.
Na reunião do capítulo VII da Segunda Parte ele responde à estudante que a resposta sobre a origem da família seria indiscreta, recusa-se a dizer se denunciaria um assassinato político e sai com Kiríllov. No capítulo VIII da Segunda Parte, na rua enlameada, Piotr lhe pede mil e quinhentos rublos para despachar o capitão a Petersburgo e, ao ouvir que a morte de Chátov serviria para moldar os grupos, Stavróguin diz o que não aceita:
Я вам Шатова не уступлю, Chátov eu não lhe cedo.
Pergunta então a Piotr o que ele nunca respondeu:
Связав меня преступлением, вы, конечно, думаете получить надо мною власть, ведь так? Для чего вам власть? На кой черт я вам понадобился?, ao me prender a um crime, você certamente pensa em ganhar poder sobre mim, não é? Para que você quer poder? Para que diabo eu lhe sirvo?
Piotr lhe oferece o papel de Ivan Czariêvitch, o príncipe escondido de quem o povo esperaria a verdade nova, e a reação de Stavróguin é de surpresa:
Самозванца?[...]Э! так вот наконец ваш план., um impostor? [...] Ah! então é esse, enfim, o seu plano.
Antes de subir a escada sem responder, ouve a razão que Piotr dá no momento em que perde a calma:
Я вас с заграницы выдумал; выдумал, на вас же глядя. Если бы не глядел я на вас из угла, не пришло бы мне ничего в голову!.., eu o inventei no estrangeiro, olhando para você mesmo. Se eu não tivesse olhado para você de um canto, nada me teria vindo à cabeça!..
Na manhã seguinte, no capítulo que Dostoiévski queria ali e que o editor Katkov recusou, atravessa a cidade com três folhetos impressos no bolso e os entrega a Tíkhon («Com Tíkhon»). Antes, conta ao bispo, em frases curtas e com uma franqueza que desfaz de imediato, que vê à noite um ser maligno, irônico e racional, e que pensa em procurar um médico. O documento intitulado De Stavróguin conta a dissolução de Petersburgo e o crime contra a adolescente Matriócha, que o espera no limiar do quarto com o punho erguido antes de se enforcar; foi depois dessa história que ele decidiu casar com Mária Timofêievna. O que o persegue, escreve, não é a lembrança do ato e sim a imagem dela no limiar, que lhe volta em sonho com uma aranha vermelha na folha de um gerânio.
Tíkhon lê durante uma hora e julga o tom, não o crime:
Вы как будто нарочно грубее хотите представить себя, чем бы желало сердце ваше, é como se o senhor quisesse se apresentar, de propósito, mais grosseiro do que desejaria o seu coração.
Diz que um crime maior não há, que muitos cometem o mesmo e vivem em paz, e que o que o aterrou foi a grande força ociosa gasta de propósito na sordidez. Stavróguin diz então, pela primeira vez sem ironia, o que busca:
Слушайте, отец Тихон: я хочу простить сам себе, и вот моя главная цель, вся моя цель![...]Я знаю, что только тогда исчезнет видение. Вот почему я и ищу страдания безмерного, сам ищу его. Не пугайте же меня. — Если веруете, что можете простить сами себе и сего прощения себе в сем мире достигнуть, то вы во всё веруете!, escute, padre Tíkhon: quero perdoar a mim mesmo, e este é o meu principal objetivo, todo o meu objetivo! [...] Sei que só então a visão desaparecerá. É por isso que procuro um sofrimento sem medida, eu mesmo o procuro. Não me assuste. Se o senhor crê que pode perdoar a si mesmo e alcançar esse perdão neste mundo, então o senhor crê em tudo!
Tíkhon nomeia o risco que ele não mediu:
Их смеху, o riso deles.
Propõe trocar a publicação por anos de obediência secreta a um velho eremita e, quando Stavróguin recusa com nojo e se levanta, prevê a queda seguinte:
Я вижу… я вижу как наяву[...]что никогда вы, бедный, погибший юноша, не стояли так близко к самому ужасному преступлению, как в сию минуту!, vejo... vejo como na realidade [...] que nunca o senhor, pobre jovem perdido, esteve tão perto do mais terrível crime como neste instante!
Stavróguin sai da cela gritando que ele é um psicólogo maldito. No salão de Yúlia Mikháilovna, no capítulo X da Segunda Parte, Liza pergunta em voz alta, diante da plateia, se um capitão que lhe escreve cartas indecentes é mesmo parente dele, e ele, que nem a via ao entrar, responde por inteiro, com a data:
Да, я имею несчастие состоять родственником этого человека. Я муж его сестры, урожденной Лебядкиной, вот уже скоро пять лет, sim, tenho o infortúnio de ser parente desse homem. Sou marido da irmã dele, nascida Lebiádkina, e faz quase cinco anos.
Sai sem pressa, com um sorriso de altivez, e segue a Skvoriéchniki sem ver a mãe. No capítulo II da Terceira Parte Piotr conta a Yúlia Mikháilovna que Liza saltou da carruagem da marechala para a dele, e no capítulo III da Terceira Parte, às seis da manhã, ela olha de lá o clarão que se apaga e ouve dele que o ama mais que ontem e quer partir naquele dia; ela recusa, porque o único ideal que lhe resta é o de Moscou, visitas feitas e recebidas, impossível a um homem casado, e pergunta se ele pagou a esperança com a vida dele ou com a alheia. Recusa também ouvir a confissão e ser enfermeira:
Мне всегда казалось, что вы заведете меня в какое-нибудь место, где живет огромный злой паук в человеческий рост, и мы там всю жизнь будем на него глядеть и его бояться, sempre me pareceu que o senhor me levaria a algum lugar onde vive uma aranha enorme e má, do tamanho de um homem, e que passaríamos lá a vida inteira olhando para ela e tendo medo dela.
Piotr, na antessala, jura que não mandou matar os Lebiádkin, atribui a morte a Fiedka e ao dinheiro que o capitão mostrava e lhe pede a vontade de ídolo de que o quinteto precisa; Stavróguin pergunta se ele a trouxe para lhe dar o que queria, para fazer o marido matar a mulher, e, ouvindo que o próprio Piotr diz que não foi ele, responde que dá no mesmo. Liza lhe pede, diante de Deus, que diga se é culpado, e ele responde:
Я не убивал и был против, но я знал, что они будут убиты, и не остановил убийц, eu não matei e era contra, mas sabia que seriam mortos e não detive os assassinos.
Quando Piotr saca o revólver, Stavróguin responde apenas que atire. Liza cobre o rosto e sai, e é morta pela multidão diante da casa dos Lebiádkin. No capítulo IV da Terceira Parte chega à cidade a notícia de que ele partiu de repente para Petersburgo no trem do meio-dia, sem ver ninguém, nem a mãe, e Piotr pergunta quem pôde deixá-lo sair.
No capítulo VIII da Terceira Parte ele escreve a Dária Pávlovna, de uma estação, convidando-a e aconselhando-a a não ir: comprou uma casinha em Uri, está doente e espera livrar-se das alucinações com o ar de lá. Diz que a força que provou em toda parte se mostrou ilimitada e sem aplicação:
На бревне можно переплыть реку, а на щепке нет, num tronco se pode atravessar o rio, mas numa lasca não.
Diz que olhou os que negam com inveja das esperanças deles, que o que saiu de si foi só negação, sem magnanimidade e sem força, e explica por que ainda não se matou:
Я знаю, что мне надо бы убить себя, смести себя с земли как подлое насекомое; но я боюсь самоубийства, ибо боюсь показать великодушие. Я знаю, что это будет еще обман, — последний обман, sei que devia me matar, varrer-me da terra como um inseto vil; mas tenho medo do suicídio, porque temo mostrar magnanimidade. Sei que isso seria ainda um engano, o último engano.
Mede Kiríllov por contraste:
Великодушный Кириллов не вынес идеи и — застрелился, но ведь я вижу, что он был великодушен потому, что не в здравом рассудке, o magnânimo Kiríllov não suportou a ideia e se matou, mas vejo que ele foi magnânimo porque não estava em são juízo.
Varvara Pietrovna decide ir com Dária a Uri, mas Aleksiêi Iegóritch chega para avisar que ele voltou de manhã, sem responder às perguntas, e se trancou na sua ala. Na água-furtada, atrás da portinha, pende o cidadão do cantão de Uri:
Никого не винить, я сам, não culpem ninguém, fui eu mesmo. E, depois da autópsia,Наши медики по вскрытии трупа совершенно и настойчиво отвергли помешательство, os nossos médicos, depois da autópsia, rejeitaram de modo completo e insistente a hipótese de loucura.
Temas que encarna
Stavróguin é a pergunta pelo Sentido da vida posta num homem a quem nada falta: tem nome, dinheiro, beleza e uma força que, escreve a Dária, se provou ilimitada onde quer que a pusesse e não achou onde se aplicar (capítulo VIII da Terceira Parte). O livro mostra a forma que essa falta de fim toma em cada cena: o casamento absurdo com Mária Timofêievna («Com Tíkhon»), a bofetada aceita (capítulo V da Primeira Parte), o duelo em que se expõe e não mata (capítulo III da Segunda Parte), a confissão que quer publicar («Com Tíkhon»); Kiríllov chama isso de procurar fardos, e a ligação com a Culpa é a que Tíkhon lhe devolve, a de que o pecado nunca é só de quem o comete:
Согрешив, каждый человек уже против всех согрешил и каждый человек хоть чем-нибудь в чужом грехе виноват. Греха единичного нет, ao pecar, todo homem já pecou contra todos, e todo homem é culpado, de algum modo, pelo pecado alheio. Pecado isolado não existe.
O que sai dele não é uma doutrina, é um modo de estar diante dos outros: dá a Chátov Deus e pátria na mesma época em que, segundo Chátov, envenenava o coração de Kiríllov, como este lhe deixou ver nos meses em que os dois jaziam doentes na América (capítulo I da Segunda Parte), e aos dois chega a vez de cobrar. Piotr não recebe doutrina nenhuma, ele inventa um Stavróguin olhando para ele de longe (capítulo VIII da Segunda Parte). Por isso a arquitetura de discípulos que a leitura corrente lhe atribui precisa de correção: são dois que o ouviram, Kiríllov e Chátov, e um que o imaginou, e o que o livro mostra é o que cada um faz com a figura que tem dele.
O que ele chama de omissão é o que o liga a todos: avisa Chátov de que o querem matar e não impede, sabe do plano contra os Lebiádkin e não detém os assassinos, aceita a bofetada e o casamento público e se cala diante de Liza. A distinção que ele faz a Liza, não matei, era contra, sabia, é exata e não a poupa, e é o que separa a responsabilidade dele da de Piotr, que executa, sem a apagar (capítulo III da Terceira Parte).
Leituras divergentes
O livro põe em volta dele leituras que não se anulam. A primeira é a da cidade, que faz do diagnóstico o álibi de que precisa (capítulo II da Primeira Parte):
A cidade faz do diagnóstico o álibi de que precisa: a doença só é nomeada depois da mordida, os médicos a recuam três dias, e o que era afronta passa a sintoma, porque admitir que um homem lúcido a humilhou seria pior. O texto deixa a fresta aberta: o cronista nota que alguns continuaram a achar que o patife apenas zombara de todos, e que até o governador o julgava capaz de tudo em plena razão.
A segunda é a de Mária Timofêievna: ao chamá-lo de impostor ela reúne um delírio (ele não é príncipe, nem usurpador de trono algum) e um diagnóstico exato (ele se envergonhou dela diante de uma moça da sociedade), e o texto não separa uma coisa da outra (capítulo II da Segunda Parte). A terceira é a de Tíkhon, que lê no mesmo documento uma sinceridade verdadeira e um estilo que a trai: Stavróguin se ofende e repete o verbo para negá-lo, e a repetição mostra que o golpe acertou («Com Tíkhon»). E há duas leituras da declaração do casamento no salão: honestidade tardia de quem já não tem o que perder, ou primeiro gesto público de quem horas antes mostrara a Tíkhon o que pretende publicar de si (capítulo X da Segunda Parte).
A leitura de que ele seria o demônio da epígrafe, o que não age e contamina, foi testada contra o texto e se sustenta em parte, com uma correção que o próprio romance impõe. O que a confirma é mais forte do que a intuição previa: no Evangelho que Stiepan Trofímovitch pede para ouvir no leito de morte, o homem de quem os demônios saíram é achado sentado aos pés de Jesus, vestido e em são juízo (capítulo VII da Terceira Parte); na carta a Dária, Stavróguin diz que Kiríllov foi magnânimo porque não estava em são juízo e que ele mesmo nunca pode perder o juízo, e o laudo dos médicos, depois do enforcamento, rejeita de modo completo a hipótese de loucura (capítulo VIII da Terceira Parte). A palavra russa da carta não é a mesma da epígrafe, mas o eco é claro. O que o Evangelho descreve como estado do homem curado, ele o tem inteiro, sem cura nenhuma: é o anti-tipo exato do endemoninhado, que perde os demônios e ganha a razão, enquanto ele tem a razão inteira e nunca teve o que perder.
O que a corrige é a alegoria explicada dentro do livro. Stiepan Trofímovitch distribui os papéis de outro jeito, e o doente é a Rússia, e os porcos são os que se afogam:
Эти бесы, выходящие из больного и входящие в свиней, — это все язвы, все миазмы, вся нечистота, все бесы и все бесенята, накопившиеся в великом и милом нашем больном, в нашей России, за века, за века, esses demônios que saem do doente e entram nos porcos são todas as chagas, todos os miasmas, toda a imundície, todos os demônios e demoniozinhos que se acumularam, ao longo dos séculos, dos séculos, no nosso grande e querido doente, na nossa Rússia.
E ele se inclui na conta, nomeando o filho e a si mesmo:
Это мы, мы и те, и Петруша [...] и я, может быть, первый, во главе, и мы бросимся, безумные и взбесившиеся, со скалы в море и все потонем, и туда нам дорога, потому что нас только на это ведь и хватит, somos nós, nós e aqueles, e Pietrucha [...] e eu, talvez o primeiro, à frente, e nos lançaremos, loucos e raivosos, de um penhasco ao mar e todos nos afogaremos, e é para lá o nosso caminho, porque é só para isso que damos conta.
Na chave que o romance oferece, Stavróguin não é o demônio da parábola, é um dos porcos, e o doente não é ele. A intuição acerta o mecanismo, que é real e verificável: as ideias que afogam a manada saíram de um homem que não acreditava em nenhuma delas. A formulação que se sustenta nas duas pontas é que ele é o portador que não adoece, o que transmite e não é afetado, e isso se chama contágio e não possessão. Fica a pergunta de se o enforcamento cumpre a profecia de Stiepan Trofímovitch, de que o doente se cura depois que os demônios se afogam, ou a interrompe.
Joseph Frank liga a figura, pela via biográfica, ao Mefistófeles que Dostoiévski dizia ter encontrado em Spiéchniev nos anos 1840:
Dostoiévski contraiu com Spiéchniev uma dívida de cerca de quinhentos rublos, e disse ao médico Ianóvski, no inverno de 1848 a 1849: "a partir de agora, tenho meu próprio Mefistófeles".
Relações
- Varvara Pietrovna Stavróguina: a mãe, a quem ele beija a mão sem responder à pergunta mais importante (capítulo V da Primeira Parte), de quem foge ao declarar o casamento (capítulo X da Segunda Parte) e que tenta segui-lo a Uri (capítulo VIII da Terceira Parte).
- Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski: o preceptor que o criou, chamado a suavizar os escândalos com o príncipe Harry (capítulo II da Primeira Parte), e que na alegoria dos porcos se põe entre eles com o filho, Pietrucha, «e os outros com ele», sem nomear o pupilo (capítulo VII da Terceira Parte).
- Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski: quer fazer dele o ídolo despótico e o pretendente escondido, e é recusado (capítulo VIII da Segunda Parte); depois lhe pede uma vontade de ídolo para o quinteto (capítulo III da Terceira Parte).
- Alexei Kiríllov: o padrinho do duelo, que lhe diz que procura fardos (capítulo III da Segunda Parte), e o único a quem Stavróguin concede grandeza, ainda que a explique por falta de juízo (capítulo VIII da Terceira Parte).
- Ivan Chátov: o discípulo que lhe cobra Cristo e povo (capítulo I da Segunda Parte), que o atinge no salão da mãe (capítulo V da Primeira Parte) e que Stavróguin se recusa a entregar a Piotr (capítulo VIII da Segunda Parte).
- Mária Timofêievna Lebiádkina: a esposa secreta, que o trata com ternura a distância e o desmascara de perto (capítulo V da Primeira Parte, capítulo II da Segunda Parte).
- Lizavieta Nikoláievna Tuchina: a noiva prometida à mãe, que o confronta em público (capítulo X da Segunda Parte) e a quem ele diz o que sabia (capítulo III da Terceira Parte).
- Dária Pávlovna Chátova: a pupila da mãe, que se oferece como enfermeira (capítulo III da Segunda Parte) e a quem ele escreve de Uri (capítulo VIII da Terceira Parte).
- Tíkhon: o bispo que lhe lê a confissão e lhe nomeia o riso («Com Tíkhon»).
- Ignat Lebiádkin: o cunhado, a quem anuncia o fim do dinheiro e do segredo (capítulo II da Segunda Parte) e que é morto com a irmã (capítulo III da Terceira Parte).
- Fiedka: o servo fugido que se oferece na ponte e a quem Stavróguin atira o dinheiro na lama (capítulo II da Segunda Parte).
- Lipútin: o funcionário que lhe adivinha as respostas e cuja figura é a que mais fica gravada na memória dele, de toda a estada na cidade (capítulo II da Primeira Parte).