Clavis Libri

Tema em Os Demônios

Culpa

A consciência da falta: remorso, culpa, vergonha interior, o peso do que se fez.

O tema na obra

Em Os Demônios a culpa é um problema de endereço. Há crimes demais e autores de menos: o fogo de Zariétchie, a morte dos Lebiádkin, o tiro em Chátov, a mão que derruba Lizavieta Nikoláievna, e em cada um a responsabilidade se divide até não caber num nome. O romance dá a essa divisão duas formas. A primeira é a que se diz de passagem, como acusação: «pecados alheios», a expressão com que Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski recusa o casamento e que o filho lê em voz alta diante de todos. A segunda é a que Tíkhon diz a Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin como tese: todo homem é culpado, de algum modo, pelo pecado alheio. Entre as duas fica o que a cena mostra, e é menos teológico: gente que sabia e não impediu, gente que fez e gritou depois, gente que pediu a prova do fardo e não a recebeu.

No capítulo III da Primeira Parte, o desgosto de Stiepan com a semana de espera se resume numa frase que o cronista esperava havia dias.

Не могу же я жениться на «чужих грехах»!, não posso, afinal, casar com «pecados alheios»!
Primeira Parte: Os fios se atam

No capítulo II da Segunda Parte, Mária Timofêievna Lebiádkina diz a Stavróguin que há cinco anos teme ter culpa grande diante dele, sem saber qual, e, ao vê-lo com vergonha dela, o acusa de impostor.

Как увидала я твое низкое лицо, когда упала, а ты меня подхватил, — точно червь ко мне в сердце заполз: не он, думаю, не он! Не постыдился бы сокол мой меня никогда пред светской барышней, quando vi a tua cara baixa, na hora em que caí e você me apanhou, foi como se um verme me entrasse no coração: não é ele, pensei, não é ele! O meu falcão nunca teria vergonha de mim diante de uma moça da sociedade!
Segunda Parte: A noite dos credores

No capítulo III da Segunda Parte, na volta do duelo, Alexei Kiríllov diz a Stavróguin o que lhe parece visível nele.

Я думал, вы сами ищете бремени, pensei que o senhor mesmo procurasse o fardo.
Segunda Parte: A noite dos credores
Несите бремя. А то нет заслуги, carregue o fardo. Senão, não há mérito.
Segunda Parte: A noite dos credores

No capítulo III da Terceira Parte, Lizavieta Nikoláievna Tuchina exige de Stavróguin, diante de Deus, que diga se é culpado, e ele responde a ela e não à saída que Piotr lhe oferecia.

Я не убивал и был против, но я знал, что они будут убиты, и не остановил убийц, eu não matei e era contra, mas sabia que seriam mortos e não detive os assassinos.
Terceira Parte: A festa e o incêndio

Pouco depois, na multidão que cerca a casa dos Lebiádkin, a mesma Lizavieta Nikoláievna cai sob uma mão que o cronista não identifica.

Вдруг я увидел, что над ее головой, сзади, поднялась и опустилась чья-то рука; Лиза упала, de repente vi que, por trás, sobre a cabeça dela, ergueu-se e desceu a mão de alguém; Lizá caiu.
Terceira Parte: A festa e o incêndio

No capítulo VI da Terceira Parte, o grupo que matou Chátov se desfaz no corpo antes de se desfazer na razão.

Это не то, не то! Нет, это совсем не то!, não é isso, não é isso! Não, não é nada disso!
Terceira Parte: A última decisão

No capítulo VII da Terceira Parte, na crise da madrugada, caído aos pés de Sófia Matvêievna, Stiepan nomeia o vício que o livro lhe atribuía desde a primeira página.

Главное в том, что я сам себе верю, когда лгу. Всего труднее в жизни жить и не лгать… и… и собственной лжи не верить, да, да, вот это именно, o principal é que eu mesmo acredito em mim quando minto. O mais difícil na vida é viver e não mentir... e... e não acreditar na própria mentira, sim, sim, é exatamente isso.
Terceira Parte: A última errância

Dias depois, ao leito, repete a Varvara Pietrovna a confissão por inteiro.

J’ai menti toute ma vie, всю, всю жизнь!, menti a vida inteira, toda, toda a vida! E, mais adiante, a todos: да здравствует Великая Мысль! Вечная, безмерная Мысль, viva o Grande Pensamento! O eterno, o desmedido Pensamento.
Terceira Parte: A última errância

No capítulo VIII da Terceira Parte, a carta de Stavróguin a Dária Pávlovna diz que ele devia se matar e não o faz por temer parecer magnânimo.

Я знаю, что мне надо бы убить себя, смести себя с земли как подлое насекомое; но я боюсь самоубийства, ибо боюсь показать великодушие. Я знаю, что это будет еще обман, — последний обман, sei que devia me matar, varrer-me da terra como um inseto vil; mas tenho medo do suicídio, porque temo mostrar magnanimidade. Sei que isso seria ainda um engano, o último engano.
Terceira Parte: A última errância

Em «Com Tíkhon», Tíkhon responde ao pedido de perdão devolvendo-o, e põe a culpa de um na conta de todos.

Согрешив, каждый человек уже против всех согрешил и каждый человек хоть чем-нибудь в чужом грехе виноват. Греха единичного нет, ao pecar, todo homem já pecou contra todos, e todo homem é culpado, de algum modo, pelo pecado alheio. Pecado isolado não existe.
Com Tíkhon: A confissão suprimida

Stavróguin, que quer ser culpado sozinho e odiado por todos, diz então qual é o seu objetivo.

Слушайте, отец Тихон: я хочу простить сам себе, и вот моя главная цель, вся моя цель! [...] Я знаю, что только тогда исчезнет видение. Вот почему я и ищу страдания безмерного, сам ищу его. Не пугайте же меня. — Если веруете, что можете простить сами себе и сего прощения себе в сем мире достигнуть, то вы во всё веруете!, escute, padre Tíkhon: quero perdoar a mim mesmo, e este é o meu principal objetivo, todo o meu objetivo! [...] Sei que só então a visão desaparecerá. É por isso que procuro um sofrimento sem medida, eu mesmo o procuro. Não me assuste. Se o senhor crê que pode perdoar a si mesmo e alcançar esse perdão neste mundo, então o senhor crê em tudo!
Com Tíkhon: A confissão suprimida

E Tíkhon nomeia o risco que ele não mediu.

Их смеху, o riso deles.
Com Tíkhon: A confissão suprimida

A culpa do livro tem dois movimentos contrários. Os personagens a querem individual, porque culpa solitária se carrega ou se esconde: Stavróguin quer ser o único culpado e o mais odiado, Kiríllov exige que ele carregue o fardo, Stiepan se declara um canalha em particular. Os fatos a espalham: a pergunta de Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski, a casa alugada por Stavróguin, a hora errada do fogo, a mão de «alguém». A solução de Tíkhon, de que o pecado nunca é só de quem o comete, parece fechar a conta, e Stavróguin a recusa porque ela tiraria dele o que o faz ser ele. O romance deixa que o recuse, e o dado mais pesado do desfecho é que o único dos principais que sai de cena sem pagar nada, Piotr, é o que nunca esteve diante de um perdão para aceitar ou recusar.

Quem o encarna

Stavróguin carrega a culpa de quem sabe e não impede: sabia dos Lebiádkin, e as ideias que deu a Kiríllov e a Chátov voltam à sua porta como pedidos. Stiepan carrega a culpa da pose, a de quem confundiu a vaidade com o sofrimento pelo país, e a diz a Sófia Matvêievna. Virguinski, com os cinco, carrega a culpa que desaba no corpo: depois do tiro, grita que não é isso. Kiríllov trata o fardo como prova de mérito: quem se oferece à prova tem de carregar o peso. Tíkhon é a culpa compartilhada, e se inclui entre os culpados.

Onde aparece

  • Primeira Parte, capítulo III: Stiepan Trofímovitch diz que não pode casar com pecados alheios, suspeitando que Varvara Pietrovna o dá a Dária Pávlovna para encobrir a ligação da moça com Nicolas.
  • Primeira Parte, capítulo V: Piotr Stiepánovitch lê em voz alta a carta em que o pai diz casar por pecados alheios, e Varvara Pietrovna manda Stiepan deixar a casa.
  • Segunda Parte, capítulo II: Mária Timofêievna diz a Stavróguin que há cinco anos teme ter culpa grande diante dele, sem saber qual, e o acusa de ser impostor.
  • Segunda Parte, capítulo III: Kiríllov diz a Stavróguin que ele procura fardos e que, sem carregá-los, não há mérito.
  • Terceira Parte, capítulo III: Stavróguin diz a Lizavieta Nikoláievna que não matou e era contra, mas sabia que os Lebiádkin seriam mortos e não deteve os assassinos.
  • Terceira Parte, capítulo VI: Virguinski grita que não é isso depois do tiro e das pedras, e Liámchin guincha como um bicho enquanto Piotr fala em orgulho livre.
  • Terceira Parte, capítulo VII: Stiepan Trofímovitch confessa a Sófia Matvêievna que mentiu a vida inteira e que o mais difícil é viver sem acreditar na própria mentira.
  • Terceira Parte, capítulo VIII: Stavróguin escreve que devia se matar mas teme o suicídio como último engano, e deixa um papel com a frase de que ninguém seja culpado.
  • Com Tíkhon: Tíkhon diz a Stavróguin que todo homem é culpado de algum modo pelo pecado alheio, e que o risco que ele não mediu é o riso dos leitores.

Onde as leituras divergem

Duas leituras disputam a culpa do livro. Numa, a de Tíkhon, ninguém peca sozinho, e o romance seria um tratado sobre a solidariedade no mal: Stiepan gerou os filhos, Stavróguin deu as ideias, Piotr as usou, a cidade cedeu. Na outra, a culpa se dissolve de propósito, e a organização de Piotr existe para que ninguém decida sozinho um crime, de modo que a divisão que Tíkhon chama de comunhão é o mecanismo do assassinato.

A cena de Chátov mostra as duas ao mesmo tempo. Os cinco que seguram o corpo dividem o ato como Tíkhon diria, todos culpados de tudo, e gritam depois como quem sente exatamente isso. Piotr divide o ato como a organização exige, e fala em dever livre. A diferença está em quem sente o peso: o romance dá a culpa aos que ainda têm corpo e a tira de quem só tem método. Na dúvida entre a comunhão e o mecanismo, o texto aponta para o que acontece depois do tiro.