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Personagem

Tíkhon

Quem é

Tíkhon é o bispo aposentado que vive em retiro, por doença, no mosteiro de Spaso-Efim, no fim da cidade, e é o homem a quem Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin leva uma confissão. Alto, magro, de uns cinquenta e cinco anos, de sotaina simples, com um sorriso vago e um olhar que parece tímido, mistura na cela móveis gastos de carvalho e peças finas de presente, gravuras profanas e um oratório de ícones, santos padres e peças de teatro. Os que gostam dele e os que não gostam calam algo a seu respeito, uns por desdém, outros por uma discrição que protege uma fraqueza, talvez a loucura santa; um velho do clube o diz quase louco e bêbado, o que o narrador desmente, pois o que ele tem é reumatismo nas pernas e espasmos nervosos. Varvara Pietrovna Stavróguina o visita quase todo mês. Quem o indica a Stavróguin é Ivan Chátov, sem dizer por quê (capítulo I da Segunda Parte). O romance o mostra num único capítulo, que o redator da revista recusou e que o autor não viu impresso, e é nele que Stavróguin fala de si, pela única vez, a alguém que responde. Tíkhon não absolve nem condena: devolve a ele o que a confissão esconde.

Trajetória

No capítulo I da Segunda Parte, na noite em que Stavróguin sobe a escada de Chátov depois de visitar Kiríllov, Chátov o despacha com um conselho: que visite Tíkhon, bispo aposentado em retiro no mosteiro da cidade. Stavróguin nunca ouvira falar dessa espécie de gente, diz que irá e agradece.

Na manhã seguinte à noite do capítulo VIII da Segunda Parte, no «Com Tíkhon», Stavróguin atravessa a cidade, cruza uma coluna de operários da fábrica Chpigúlin e chega ao mosteiro com três folhetos impressos no bolso. A conversa começa torta. Ele nega ter estado ali quatro anos antes, como Tíkhon sugere, nega qualquer semelhança com a mãe, lista tudo o que o bispo deve ter ouvido a seu respeito, diz não saber por que veio e então, sem transição, conta que vê à noite um ser maligno, irônico e racional, e que se irrita com ele, para logo chamar tudo de bobagem. Pergunta se Tíkhon crê em demônio e em Deus. Tíkhon responde que os demônios existem e que se pode entendê-los de maneiras diversas, que moveria uma montanha se Deus mandasse, ainda que talvez não, porque não crê por inteiro, e que o ateu completo está no penúltimo degrau para a fé perfeita, enquanto o indiferente não tem fé nenhuma, só um medo ruim. Recita de cor a carta ao anjo da igreja de Laodiceia, a dos mornos. Stavróguin diz que ela é para os indiferentes e que gosta muito dele; quando Tíkhon lhe toca de leve o cotovelo, ele se zanga por ter dito gosto e o chama de cínico e de psicólogo que entra na alma dos outros. Tíkhon responde que o que o tocou foi saber que o Cordeiro prefere o frio ao apenas morno, e que Stavróguin não quer ser só morno. Então Stavróguin põe os folhetos na mesa: é a confissão de algo que fez em Petersburgo anos antes, que ele pretende imprimir em trezentos exemplares e mandar à polícia, às redações e aos conhecidos. Tíkhon lê durante uma hora, devagar, relendo alguns trechos, e pergunta se não se poderiam corrigir algumas coisas no estilo. Acrescenta:

Вы как будто нарочно грубее хотите представить себя, чем бы желало сердце ваше, é como se o senhor quisesse se apresentar, de propósito, mais grosseiro do que desejaria o seu coração.
Com Tíkhon: A confissão suprimida

Quando Stavróguin pergunta por que ele não mostra nojo nem vergonha, Tíkhon diz que não tem o que esconder: o que o aterrou foi a grande força ociosa que se foi gastar, de propósito, na sordidez. O ato, diz, muitos o cometem e vivem em paz com a consciência; Stavróguin sentiu toda a profundidade, o que é raro. Stavróguin pergunta, com ironia, se agora o respeita mais por causa dos folhetos, e Tíkhon responde sem diminuir a gravidade nem torná-la inexprimível:

более великого и более страшного преступления, как поступок ваш с отроковицей, разумеется, нет и не может быть, um crime maior e mais terrível do que o ato do senhor com a adolescente, é evidente, não há nem pode haver.
Com Tíkhon: A confissão suprimida

Stavróguin admite que, se um estranho que ele nunca conhecerá o perdoasse em silêncio, seria mais leve, e que, se Tíkhon o perdoasse, seria muito mais leve. Tíkhon diz que sim, com a condição de que ele o perdoe também, e quando Stavróguin pergunta de quê, responde:

Согрешив, каждый человек уже против всех согрешил и каждый человек хоть чем-нибудь в чужом грехе виноват. Греха единичного нет, ao pecar, todo homem já pecou contra todos, e todo homem é culpado, de algum modo, pelo pecado alheio. Pecado isolado não existe.
Com Tíkhon: A confissão suprimida

Stavróguin quer o perdão de Tíkhon e de mais um ou dois e o ódio de todos os outros, para suportar com humildade. Tíkhon pergunta se não suportaria com a mesma humildade a pena geral, e Stavróguin admite que talvez não. Tíkhon diz que fala porque tem medo por ele, pois à frente há um abismo quase intransponível. Stavróguin pergunta se não aguentará o ódio deles com humildade, e Tíkhon, em meio sussurro, responde com duas palavras:

Их смеху, o riso deles.
Com Tíkhon: A confissão suprimida

Pressionado a apontar onde está o ridículo, Tíkhon diz que já na forma do maior arrependimento há algo dele, e, perguntado se só na forma, explica o critério:

В преступлениях, каковы бы они ни были, чем более крови, чем более ужаса, тем они внушительнее, так сказать, картиннее; но есть преступления стыдные, позорные, мимо всякого ужаса, так сказать, даже слишком уж не изящные, nos crimes, sejam quais forem, quanto mais sangue, quanto mais horror, mais impressionantes eles são, mais vistosos, por assim dizer; mas há crimes vergonhosos, ignominiosos, alheios a qualquer horror, por assim dizer, inelegantes demais.
Com Tíkhon: A confissão suprimida

Stavróguin diz pela primeira vez o objetivo sem ironia, perdoar a si mesmo, e Tíkhon responde com a frase que vira contra ele a negação de Deus que acabara de fazer:

Слушайте, отец Тихон: я хочу простить сам себе, и вот моя главная цель, вся моя цель! [...] Я знаю, что только тогда исчезнет видение. Вот почему я и ищу страдания безмерного, сам ищу его. Не пугайте же меня. — Если веруете, что можете простить сами себе и сего прощения себе в сем мире достигнуть, то вы во всё веруете!, escute, padre Tíkhon: quero perdoar a mim mesmo, e este é o meu principal objetivo, todo o meu objetivo! [...] Sei que só então a visão desaparecerá. É por isso que procuro um sofrimento sem medida, eu mesmo o procuro. Não me assuste. Se o senhor crê que pode perdoar a si mesmo e alcançar esse perdão neste mundo, então o senhor crê em tudo!
Com Tíkhon: A confissão suprimida

Tíkhon acrescenta que Cristo perdoa, se ele chegar a perdoar a si mesmo, e se corrige, dizendo que blasfemou: mesmo sem reconciliação consigo, Ele perdoa pela intenção e pelo sofrimento. Quando Stavróguin pega o chapéu, Tíkhon pede apenas que reconsidere. Propõe, no lugar da publicação, um sacrifício maior: guardar os folhetos e a intenção, renunciar também ao desejo de martírio e ir como noviço em segredo, por cinco a sete anos, a um velho eremita de uma sabedoria cristã que nenhum dos dois alcança. Stavróguin o interrompe com nojo e se levanta. Tíkhon se levanta junto, com as mãos postas e uma convulsão no rosto, e diz o que vê:

Я вижу… я вижу как наяву [...] что никогда вы, бедный, погибший юноша, не стояли так близко к самому ужасному преступлению, как в сию минуту!, vejo... vejo como na realidade [...] que nunca o senhor, pobre jovem perdido, esteve tão perto do mais terrível crime como neste instante!
Com Tíkhon: A confissão suprimida

Stavróguin grita maldito psicólogo e sai da cela sem olhar para trás.

Horas depois, no capítulo X da Segunda Parte, na sala da governadora, Stavróguin responde a Liza diante de todos que é marido da irmã do capitão Lebiádkin. Nos dias seguintes morrem os Lebiádkin e Liza, e mais tarde Chátov e Kiríllov; Stavróguin sabia dos primeiros e não deteve os assassinos (capítulo III da Terceira Parte), escreve a Dária a carta de despedida e é achado enforcado no sótão de Skvoriéchniki (capítulo VIII da Terceira Parte). O livro não diz se a previsão de Tíkhon se cumpre nesses fatos. Sem o capítulo, a recusa de Stavróguin ao plano de Piotr e a declaração do casamento ficam sem causa à vista. Lido no lugar em que o autor o queria, o capítulo dá essa causa:

Lido no lugar em que Dostoiévski o queria, o capítulo muda o que vem depois. Piotr deu três dias a Stavróguin para aceitar ser Ivan Czariêvitch; na manhã seguinte ele está num mosteiro, entregando a Tíkhon o contrário do chefe escondido: um homem que quer ser visto por todos, e no pior. A recusa do plano deixa de parecer indiferença, e a declaração do casamento no salão, horas depois, deixa de parecer gratuita.
Com Tíkhon: A confissão suprimida

Temas que encarna

Tíkhon julga a forma, não o fato. Aceita o ato inteiro, diz que não há maior, e põe a ferida no tom: o documento frio, que parece uma demonstração, é desafio de culpado a juiz, e quem o lê assim sai da penitência sem ter entrado. É a Culpa posta numa pergunta de ofício, a de saber se a confissão é do coração ou do estilo. A segunda ideia que ele traz, a de que o pecado nunca é só de quem o comete, tira de Stavróguin o que ele pede: ser o único culpado, para ser odiado por todos e suportar assim.

As falas de Tíkhon sustentam duas leituras de si mesmas. Stavróguin as lê como psicologia, no sentido de ofício de quem entra na alma dos outros e nomeia o que vê, e por isso o chama de cínico. Mas Tíkhon se inclui no que diz: admite que não sabe se não haveria nele algo que se divertisse com a desgraça alheia, diz que julga os homens por si mesmo e pede perdão a quem veio pedi-lo. Se a primeira leitura vale, a conversa é diagnóstico; se vale a segunda, é uma cena em que alguém responde à culpa de Stavróguin sem se pôr fora dela.

Diante de Stavróguin, que recebeu de Kiríllov uma lógica, de Chátov um catecismo da Rússia e de Piotr um programa, Tíkhon traz Deus e o divino sem fórmula: a carta aos mornos, a graduação entre o ateu e o indiferente, o Cordeiro que prefere o frio ao morno. O que ele oferece é o contrário do que Stavróguin busca: em vez de ser visto por todos, ser perdoado por um; em vez do sofrimento sem medida, a obediência longa e secreta; em vez do pecado só seu, a culpa de todos por todos.

Leituras divergentes

Joseph Frank mostra que o confessor de Stavróguin vem do projeto que Dostoiévski chamou A vida de um grande pecador, nunca escrito como tal, e cujo monge santo tem por modelo Tíkhon-Zadónski. Uma anotação do autor que o livro de Frank cita diz que o homem não nasceu para a felicidade:

O homem não nasceu para a felicidade [...] porque o conhecimento da vida e da consciência [...] é adquirido por uma experiência pró e contra que se deve assumir (pelo sofrimento, essa é a lei do nosso planeta)
Joseph Frank

A anotação põe o sofrimento como o caminho do conhecimento da vida, e o Tíkhon do romance aceita o sofrimento como caminho e recusa a forma que Stavróguin lhe dá, a do sofrimento sem medida, procurado como meio de perdoar a si mesmo. Contra quem lê Stavróguin como incapaz de arrependimento, o texto mostra o contrário: é Tíkhon quem diz que ele sentiu toda a profundidade do que fez, o que é raro. O romance não decide se a confissão de Stavróguin é do coração ou do estilo.

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