Quem é
O cronista é Anton Lavriéntiev G-v, um jovem funcionário da cidade que Lipútin apresenta como de instrução clássica e relações na mais alta sociedade e que se diz, ele mesmo, amigo e confidente de Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski (capítulo III da Primeira Parte, capítulo IV da Primeira Parte). É o narrador do romance, e abre a crônica pedindo desculpa pela inabilidade de começar de longe: o retrato do professor servirá de introdução, e a história propriamente dita fica para depois (capítulo I da Primeira Parte). Fala quase sempre num nós, o da cidade, e é por esse nós que o professor é visto (capítulo I da Primeira Parte). Não é onisciente nem oculto: aparece como personagem, serve de mensageiro, é ridicularizado por Karmazínov na rua, tem medo de Lipútin, acompanha Chátov à casa dos Lebiádkin e, na matinê, é um dos doze rapazes de laço da organização (capítulo III da Primeira Parte, capítulo IV da Primeira Parte, capítulo I da Terceira Parte). Escreve depois do desastre, quando a cidade já põe tudo na conta da Internacional, e por isso desconfia da explicação pronta (capítulo I da Terceira Parte). O que quer é contar o que se passou e diz não querer pecar apontando culpados (capítulo II da Terceira Parte). O que teme é Lipútin, e o ridículo que o escritor lhe faz passar na rua (capítulo III da Primeira Parte). O que sabe vem em boa parte de segunda mão: do próprio Stiepan, de Yúlia Mikháilovna von Lembke, do inquérito, de Liámchin, de documentos que copia (capítulo X da Segunda Parte, capítulo VIII da Terceira Parte). Onde se engana é em julgar pelos hábitos: no capítulo II da Terceira Parte, ao ver que o amigo mostra a firmeza de sempre, conclui que ele não fará nada trágico, e o resultado o faz admitir que se enganou.
Trajetória
No capítulo I da Primeira Parte o cronista se apresenta pelo que diz de Stiepan Trofímovitch, e a primeira frase do retrato já trabalha a ironia:
Скажу прямо: Степан Трофимович постоянно играл между нами некоторую особую и, так сказать, гражданскую роль и любил эту роль до страсти, — так даже, что, мне кажется, без нее и прожить не мог, digo logo: Stiepan Trofímovitch sempre desempenhou entre nós um certo papel especial e, por assim dizer, cívico, e amava esse papel até a paixão, a ponto de me parecer que sem ele nem viver poderia.
Descobre agora, para seu espanto, que o professor nunca esteve exilado nem sob vigilância, e conta a carreira dele como quem desmonta uma pose; jura respeitá-lo e o compara a Gulliver. Faz parte dos serões do círculo, em que Chátov explode, e é o confidente a quem Stiepan, duas semanas depois da volta de Berlim, confessa sob segredo máximo a notícia terrível de que é um simples agregado da casa. O ponto em que reconstrói de memória alheia fica à vista:
O cronista dá a frase como dita só duas vezes na vida de Varvara Pietrovna, e a transcreve primeiro comoЯ вам этого никогда не забуду!, nunca esquecerei isso do senhor, e na cena do caramanchão com as palavras trocadas,Я никогда вам этого не забуду!, nunca esquecerei isso do senhor. A diferença é mínima, mas a segunda cena chega a ele por Stiepan, dez anos depois e a meia-voz, de porta trancada: quem narra reconstrói de memória alheia, e o pequeno desvio deixa ver a mão que escreve.
No capítulo II da Primeira Parte, quando vê pela primeira vez Nikolai Stavróguin, esperava um farrapo cheirando a vodca e encontra o cavalheiro mais elegante que já viu. O rosto, descreve-o por excesso:
волосы его были что-то уж очень черны, светлые глаза его что-то уж очень спокойны и ясны, цвет лица что-то уж очень нежен и бел, румянец что-то уж слишком ярок и чист, зубы как жемчужины, губы как коралловые, — казалось бы, писаный красавец, а в то же время как будто и отвратителен. Говорили, что лицо его напоминает маску, os cabelos dele eram pretos demais, os olhos claros tranquilos e límpidos demais, a tez delicada e branca demais, o rubor vivo e puro demais, dentes como pérolas, lábios como corais: parecia um belo de pintura e, ao mesmo tempo, como que repugnante. Diziam que o rosto lembrava uma máscara.
Ao fim do capítulo vê o professor desfazer-se: bebe mais, chora mais, rodeia as janelas, e, depois de muito falar, olha-se longamente no espelho e diz que é um homem decaído. No capítulo III da Primeira Parte vive com ele a semana do noivado, mais jovem e indignado, e adivinha a preocupação que o amigo não confessa. Encontra Karmazínov na rua e quase corre a buscar um cocheiro, curva-se para apanhar a bolsinha que o escritor deixa cair, e é o escritor quem a apanha; cinco minutos depois decide rir da cena e contá-la. Está na sala quando Lipútin entra com Kiríllov e despeja as novidades, entre elas a pergunta de Varvara Pietrovna sobre a sanidade do filho; acompanha o amigo à rua, onde ouve o sussurro sobre pecados alheios, enfrenta-o, indignado, e ouve a voz fresca de Liza. À noite, em casa de Alexei Kiríllov, é ele quem ouve a tese de que Deus é a dor do medo da morte, e acha o homem louco; o capitão Lebiádkin o agarra pelo peito no portão.
No capítulo IV da Primeira Parte é o cronista quem acompanha Ivan Chátov à casa de Lizavieta Nikoláievna Tuchina para a primeira visita; observa que a saída de Chátov, no instante em que se fala de tipografia, só pode significar que algo já aconteceu; é chamado de volta por Liza, que lhe pede que o leve à mulher coxa, e promete, tomado de uma pena que não entende, e fere-se com a alusão dela a que percebera os sentimentos dele. À noite, em casa de Chátov, é o único a ouvir o ateísmo russo como lacaiagem do pensamento, e vê Mária Timofêievna Lebiádkina pela primeira vez. No domingo espera com Stiepan na sala de Varvara Pietrovna Stavróguina e volta uma hora no tempo para contar o que houve na catedral.
No capítulo V da Primeira Parte, no salão, repara em tudo o que se passa ao redor: o olhar de Liza, o sorriso torto, o capitão que aparece de fraque, a entrada de Piotr, que lhe parece estar falando já da sala ao lado, e a de Stavróguin, a quem vê pela segunda vez em quatro anos:
он с первого же взгляда показался мне решительным, неоспоримым красавцем, так что уже никак нельзя было сказать, но лицо его походит на маску. Не оттого ли, что он стал чуть-чуть бледнее, чем прежде, и, кажется, несколько похудел? Или, может быть, какая-нибудь новая мысль светилась теперь в его взгляде, à primeira vista ele me pareceu decididamente um belo homem, indiscutivelmente belo, de modo que já não dava para dizer que o rosto parecia uma máscara. Seria por estar um pouquinho mais pálido e, ao que parece, um pouco mais magro? Ou talvez algum pensamento novo luzisse agora no seu olhar?
Quando Chátov bate, o cronista explica quem é o homem que recebe o soco, e mede a raiva dele:
самая отвратительная и самая страшная, какая может быть, a mais repulsiva e a mais assustadora que possa haver.
Diz que ainda ouve o baque da nuca de Liza no tapete.
No capítulo IV da Segunda Parte, a convite mudo de Stiepan, fica no quarto enquanto Piotr o humilha, e dali supõe o plano do rapaz: levar o velho ao desespero e a um escândalo declarado, e atingir o governador. No capítulo V da Segunda Parte é chamado por Liza à excursão ao santo louco Semión Yákovlievitch; no hotel, descreve o rapaz que se matou, com a testa limpa e o rosto como mármore; anota, só por boato, que Liza ergueu a mão contra Stavróguin na porta, e que Stavróguin voltou pálido. No capítulo IX da Segunda Parte vai com Stiepan ao governador, vê nele um garotinho à espera da vara, vê a criada Nastácia subir numa cadeira para acender a lamparina. No capítulo X da Segunda Parte reconstrói a madrugada de Lembke com o que Yúlia Mikháilovna lhe contou, desmente os boatos que correram depois da manhã dos operários e propõe uma explicação para o resto; é ele quem diz que houve subscrição na cidade em favor de uma asilada que nunca existiu, e que deu vinte copeques. Inclui na crônica, literalmente, o documento De Stavróguin, corrigindo só a ortografia, e observa que o autor, afinal, não é um literato («Com Tíkhon»).
No capítulo I da Terceira Parte, ao explicar o clima do dia da matinê, diz que em tempo de transição sobe em toda sociedade a ralé, e declara não saber ao certo em que consistia o tempo conturbado:
эта сволочь, сама не зная того, почти всегда подпадает под команду той малой кучки «передовых», которые действуют с определенною целью, и та направляет весь этот сор куда ей угодно, essa ralé, sem o saber, quase sempre cai sob o comando daquele punhadinho de "avançados" que agem com objetivo determinado, e este dirige todo esse entulho para onde bem entende.
Na sala, com o laço de organizador no ombro, vê a plateia hostil a Karmazínov e formula a regra que o explica:
Вот в том-то и вина его, что он первый заговорил; ибо, вызывая таким образом на ответ, тем самым дал возможность всякой сволочи тоже заговорить и, так сказать, даже законно, é aí que está a culpa dele: foi o primeiro a falar; pois, provocando assim uma resposta, deu por isso mesmo a toda ralé a possibilidade de também falar e, por assim dizer, até de modo legítimo.
Guarda o laço no bolso e foge pelos fundos, direto para a casa do amigo. No capítulo II da Terceira Parte corre a Stiepan, que não o recebe; vai a Yúlia Mikháilovna, perde a paciência e grita a Piotr, o canalha, que foi ele quem arranjou tudo; percorre a cidade sem achar apoio, e vai ao baile, que lhe parece ainda hoje a pior parte da crônica, um pesadelo, e depois ao fogo que se levanta no Zariétchie. Descreve o prazer inconfessado de olhar um grande fogo à noite:
Большой огонь по ночам всегда производит впечатление раздражающее и веселящее; на этом основаны фейерверки; но там огни располагаются по изящным, правильным очертаниям и, при полной своей безопасности, производят впечатление игривое и легкое, как после бокала шампанского. Другое дело настоящий пожар: тут ужас и всё же как бы некоторое чувство личной опасности, при известном веселящем впечатлении ночного огня, производят в зрителе (разумеется, не в самом погоревшем обывателе) некоторое сотрясение мозга и как бы вызов к его собственным разрушительным инстинктам, которые, увы! таятся во всякой душе, um grande fogo à noite sempre causa uma impressão que irrita e alegra; os fogos de artifício se baseiam nisso; mas ali as luzes se dispõem em contornos elegantes e regulares e, em plena segurança, dão uma impressão brincalhona e leve, como depois de uma taça de champanhe. O incêndio de verdade é outra coisa: nele o horror, e ainda assim um certo sentimento de perigo pessoal, junto da impressão alegre do fogo noturno, produzem no espectador (claro que não no morador que perdeu a casa) um certo abalo do cérebro e como que um desafio aos seus próprios instintos destruidores, que, ai!, se escondem em toda alma.
Vê Lembke sobre os restos de uma cerca, e guarda na memória um serralheiro cacheado que gritava aos vizinhos, sem que queira apontá-lo. No capítulo III da Terceira Parte chega à casa dos Lebiádkin no momento em que a multidão, farta de ouvir como foi vantajoso a Stavróguin degolar a mulher, escuta em silêncio; vê Liza abrindo caminho como quem fugiu de um hospital:
Вдруг я увидел, что над ее головой, сзади, поднялась и опустилась чья-то рука; Лиза упала, de repente vi que, por trás, sobre a cabeça dela, ergueu-se e desceu a mão de alguém; Lizá caiu.
No inquérito declara que foi acaso de gente embriagada, e ainda hoje pensa assim.
Nos capítulos seguintes escreve o que nenhum presente poderia ter visto: no capítulo IV da Terceira Parte, o que se passava nos cinco e em Piotr na casa de Erkel, e a certeza de que a denúncia contra Chátov foi invenção de Piotr:
Он всё налгал, что говорил нашим о доносе: никогда он не видал этого доноса и не слыхал о нем, но был уверен в нем как дважды два, ele mentiu em tudo o que disse aos nossos sobre a denúncia: nunca tinha visto essa denúncia nem ouvido falar dela, mas estava certo dela como de dois e dois.
No capítulo VI da Terceira Parte suspeita, sem prova, que Piotr recebeu naquele dia um aviso de Petersburgo; no capítulo VII da Terceira Parte explica por que Stiepan Trofímovitch parte a pé e relata os dias de Sófia Matvêievna ao lado dele, com o que soube depois; no capítulo VIII da Terceira Parte reúne, em fatos, a confissão de Liámchin, as prisões, a sorte de Piotr, a carta de Stavróguin a Dária, que transcreve sem corrigir os erros de estilo de um fidalgo russo que não aprendeu bem a própria língua, e o enforcamento.
Temas que encarna
O cronista é a Verdade e mentira posta na forma: quem conta é um morador da cidade, e não um narrador onisciente, e por isso o romance só dá do que acontece o que a cidade soube, viu, supôs ou inventou. O nós em que ele fala é o do Indivíduo e sociedade, e a crônica mostra a cidade que a sustenta: a que acredita no diagnóstico, no boato, na Internacional, e que o próprio cronista parece partilhar até onde se nota. Seu símbolo é a epígrafe que abre o livro, que só a boca de Stiepan Trofímovitch, e não a dele, vem explicar (Os porcos e a epígrafe).
O que o cronista tem de próprio é o intervalo entre o que viu e o que escreve. Viu o soco de Chátov, o rosto de Stavróguin, o baque da nuca de Liza; o que Piotr pensava na estação, o que Liámchin disse ao delegado e o que os cinco sentiam ao ouvir a denúncia ele não viu, e escreve assim mesmo, com a frase de quem soube depois. A escolha de pôr um personagem pequeno e implicado no lugar do narrador faz de cada cena uma versão, e o leitor trabalha entre elas.
Leituras divergentes
Há duas leituras do narrador e o romance as sustenta com a mesma firmeza. Uma o toma por testemunha honesta, de ironia contida, que nem condena nem cúmplice, que se corrige quando nota que se enganou, como com Stiepan antes da partida (capítulo II da Terceira Parte), e que mostra sentimentos próprios, como a pena por Liza que não entende (capítulo IV da Primeira Parte). A outra o toma por voz que mente aos poucos: reconstrói cenas de memória alheia, dá a mesma frase de Varvara Pietrovna duas vezes com pequenas diferenças, e o desvio deixa ver a mão que escreve (capítulo I da Primeira Parte). O texto não decide entre as duas.
A objeção de que o narrador sabe demais e vê de menos tem resposta no próprio livro, que o faz declarar quando não viu, quando soube depois, quando suspeita: chama de boato o que ouviu da mão de Liza, de suspeita o aviso de Petersburgo, de conjectura o resto (capítulo V da Segunda Parte, capítulo VI da Terceira Parte, capítulo II da Terceira Parte). A pergunta de por que Dostoiévski precisa que o narrador seja um morador da cidade fica aberta.
Relações
- Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski: o amigo a quem acompanha em quase todas as cenas, que lhe confessa o que pensou (capítulo I da Primeira Parte, capítulo IX da Segunda Parte, capítulo X da Segunda Parte) e de cuja partida ele só suspeita tarde (capítulo II da Terceira Parte).
- Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin: o homem que descreve, que lhe parece sem máscara (capítulo V da Primeira Parte) e cujo documento inclui na crônica («Com Tíkhon»).
- Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski: o jovem que ele vê falar já da sala ao lado e a quem grita, no calor, que foi ele o canalha (capítulo V da Primeira Parte, capítulo II da Terceira Parte).
- Lizavieta Nikoláievna Tuchina: a moça por quem tem uma pena que não entende, que o chama de volta e que ele vê cair (capítulo IV da Primeira Parte, capítulo III da Terceira Parte).
- Ivan Chátov: o companheiro de duas visitas, a quem acompanha à casa dos Lebiádkin (capítulo IV da Primeira Parte).
- Alexei Kiríllov: quem o recebe à noite e lhe diz que ele se parece com o irmão mais velho morto (capítulo III da Primeira Parte).
- Lipútin: o conhecido que ele teme (capítulo III da Primeira Parte).
- Karmazínov: o escritor a quem, por veneração, quase serve na rua (capítulo III da Primeira Parte).
- Yúlia Mikháilovna von Lembke: a fonte de parte do que conta sobre o governador (capítulo X da Segunda Parte).
- Varvara Pietrovna Stavróguina: a senhora em cuja sala espera o domingo (capítulo IV da Primeira Parte).
- Mária Timofêievna Lebiádkina: a mulher que vê pela primeira vez, na casa dos Lebiádkin, levado por Chátov (capítulo IV da Primeira Parte).