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Personagem

Ivan Chátov

Quem é

Chátov nasceu servo de Varvara Pietrovna Stavróguina, filho de um criado dela, e foi aluno de Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski na infância; expulso da universidade, preferiu ser preceptor de um comerciante a escrever à benfeitora (capítulo I da Primeira Parte). Casou em Genebra com a governanta que o comerciante despedira por ideias livres, Marie, e a perdeu em três semanas; voltou à cidade há um ano, vive sozinho e pobre no andar de cima da casa de Filíppov e mal vê a irmã, Dária Pávlovna Chátova (capítulo I da Primeira Parte, capítulo V da Terceira Parte). Mudou de ideias no exterior e saltou para o extremo oposto, como esses russos que uma ideia forte esmaga de uma vez e que passam a vida sob a pedra (capítulo I da Primeira Parte); foi com Alexei Kiríllov à América, no navio de emigrantes, para experimentar a vida do operário, e voltou dali com cem rublos de Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin (capítulo IV da Primeira Parte). É o homem que explode nos serões de Stiepan Trofímovitch e que carrega consigo a tipografia da sociedade, enterrada no parque dos Stavróguin (capítulo IV da Primeira Parte, capítulo V da Terceira Parte). O que quer é crer: construiu uma teologia inteira do povo e não consegue dar o passo que ela pressupõe, e quando perguntado se crê em Deus responde que vai crer (capítulo I da Segunda Parte). O que teme é a vergonha de dever e de ser visto: derrubou uma mesinha e saiu morto de vergonha da casa de Varvara Pietrovna ao agradecer os cem rublos anônimos dela (capítulo I da Primeira Parte). O que sabe, e cala, é o que Liza procura saber sobre o capitão Lebiádkin e a irmã dele, Mária Timofêievna (capítulo IV da Primeira Parte). Onde se engana é em tomar a ideia que lhe foi dada por sua e em tomar a felicidade que lhe chega por proteção: crê que Piotr fugirá no dia seguinte e que um filho e uma mulher bastam para começar de novo e para sempre, na hora em que o vão matar (capítulo V da Terceira Parte, capítulo VI da Terceira Parte).

Trajetória

No capítulo I da Primeira Parte é ele quem responde ao liberalismo de Stiepan Trofímovitch, e responde com a acusação de que a geração do professor, Belínski incluído, nunca amou o povo porque imaginava um povo francês:

Нельзя любить то, чего не знаешь, а они ничего в русском народе не смыслили [...] А у кого нет народа, у того нет и бога, não se pode amar o que não se conhece, e eles não entendiam nada do povo russo [...] E quem não tem povo não tem Deus.
Primeira Parte: O pai dos demônios

Pega o boné para sair e volta, porque o velho sempre o chama de volta. No capítulo IV da Primeira Parte, na casa de Lizavieta Nikoláievna Tuchina, objeta ao projeto dela de um livro anual dos fatos da imprensa que escolher fatos já é dar uma direção, e aos poucos se interessa; quando ela cita Stavróguin, que lhe falou muito dele, enrubesce, e quando pergunta pelo capitão Lebiádkin, responde só isto:

Пьяный человек и негодяй, um homem bêbado e um patife.
Primeira Parte: Os fios se atam

Ao ouvir que Piotr o indicou na Suíça para dirigir uma tipografia, muda de rosto, sai da sala e volta para recusar. À noite recebe Kiríllov e Chigalióv, que ficam três minutos em silêncio e saem sem se despedir; da porta Chigalióv diz que ele deve prestar contas, e Chátov responde que cuspa nas contas e que não deve nada a nenhum diabo; xinga os dois de maçaricos, fala de bom grado do ateísmo russo como lacaiagem do pensamento, conta a viagem à América e, sem que lhe peçam, dá o nome de quem lhe mandou o dinheiro da volta:

Николай Ставрогин.
Primeira Parte: Os fios se atam

Leva o cronista a ver Mária Timofêievna às escondidas, e ela o recebe com um Chátuchka, penteia-o com o pente que tira do bolso e lhe diz que é engraçado ele ser tão sisudo; ele pergunta se houve filho, e ela responde que o que mais a faz chorar é ter dado à luz sem conhecer o marido. Quando ela lhe diz que, se ele pedisse bem, talvez contasse mais, ele responde que cada um tem o seu segredo, e sobe a escada ouvindo o capitão, bêbado, gritar no portão que Chátov é um servo de gleba e a irmã dele, Dária, uma escrava e ladra.

No capítulo V da Primeira Parte, no salão de Varvara Pietrovna, confirma que Mária Timofêievna mora na casa dele, vermelho, e fica calado no canto, esquecido. Depois de cinco segundos diante de Stavróguin, atravessa a sala em passos lentos e o atinge no rosto com o punho:

Если б удар пришелся по носу, то раздробил бы нос, se o golpe tivesse acertado o nariz, teria esmigalhado o nariz.
Primeira Parte: A bofetada

Sai com os ombros erguidos e a cabeça baixa, murmurando consigo.

No capítulo I da Segunda Parte Stavróguin o procura no andar de cima, e ele o espera febril, com o revólver comprado de Liámchin depois de uma noite em que viu o outro vir matá-lo. Ouve que Mária Timofêievna é a esposa legítima, casada em Petersburgo, e responde que bateu pela queda, pela mentira e por tudo o que Stavróguin significou. Cobra do mestre uma frase que atribui a ele:

Но не вы ли говорили мне, что если бы математически доказали вам, что истина вне Христа, то вы бы согласились лучше остаться со Христом, нежели с истиной? Говорили вы это? Говорили?, mas não foi o senhor mesmo que me disse que, se lhe provassem matematicamente que a verdade está fora de Cristo, o senhor preferiria ficar com Cristo a ficar com a verdade? O senhor disse isso? Disse?
Segunda Parte: A noite dos credores

Despeja as dez linhas da conclusão, como quem lê, o dedo no ar:

Бог есть синтетическая личность всего народа, взятого с начала его и до конца, Deus é a personalidade sintética de todo o povo, tomado do começo ao fim.
Segunda Parte: A noite dos credores

E nega que rebaixe Deus a atributo da nação:

Народ — это тело божие, o povo é o corpo de Deus.
Segunda Parte: A noite dos credores

Perguntado, com todas as letras, se crê em Deus, a cadeia de creios do catecismo não nomeia Deus nenhuma vez:

Я верую в Россию, я верую в ее православие… Я верую в тело Христово… Я верую, что новое пришествие совершится в России… Я верую…, eu creio na Rússia, creio na ortodoxia dela… Creio no corpo de Cristo… Creio que a nova vinda acontecerá na Rússia… Eu creio…
Segunda Parte: A noite dos credores

No fim, é ele quem diagnostica Stavróguin:

Вы атеист, потому что вы барич, последний барич. Вы потеряли различие зла и добра, потому что перестали свой народ узнавать, o senhor é ateu porque é um senhorzinho, o último dos senhorzinhos. O senhor perdeu a diferença entre o mal e o bem porque deixou de reconhecer o seu povo.
Segunda Parte: A noite dos credores

Antes de se despedir indica Tíkhon, que Stavróguin visitará horas depois. No capítulo VI da Segunda Parte Piotr o convoca à reunião, para entregar a tipografia e os papéis, e o acusa de ter pedido a saída sem razão; Chátov, enfurecido, pergunta se Stavróguin estará lá, ri com desprezo e o manda embora. No capítulo VII da Segunda Parte se senta num canto com o boné na mão, para mostrar que vem tratar de um assunto, e quando Piotr faz a pergunta sobre denunciar um assassinato político se levanta, pálido e furioso, e sai calado; Piotr lhe grita que aquilo não lhe é vantajoso, e ele responde da porta:

Зато тебе выгодно, как шпиону и подлецу!, em compensação é vantajoso para você, como espião e canalha!
Segunda Parte: O sistema de Chigalióv

Stavróguin, no capítulo VIII da Segunda Parte, recusa cedê-lo a Piotr. No capítulo II da Terceira Parte ouve calado, mais sombrio que nunca, a notícia da fuga de Liza que o cronista lhe traz, e grita da escada que ele procure Lipútin, onde saberá de tudo; o cronista volta para perguntar se ele não visitaria Mária Timofêievna, e Chátov o xinga, mas à noite vai vê-la e a encontra bem, com o capitão morto de bêbado num sofá. Na tarde seguinte ao incêndio, esmagado pela catástrofe de Liza e pela morte de Mária, quer ir declarar tudo, mas não tem prova, só uma convicção que vale para ele, e denunciaria apenas a si mesmo (capítulo V da Terceira Parte).

No capítulo V da Terceira Parte, às oito da noite, bate no portão a voz que reconhece, a da mulher, e ele a recebe com uma alegria que não sabe conter: ela diz que não veio se arrepender, que o procurou porque sempre o tomou por nada canalha, talvez muito melhor que os outros, e ele, tomado de alegria, corre a Kiríllov atrás de chá. Erkel lhe leva a mensagem de que está afastado da sociedade para sempre, de que deve entregar a máquina de imprimir a Lipútin e de que será buscado às seis, e ele, de fúria, olha com pena o meninozinho arrastado como carneiro e promete ir. Passa horas vigiando a mulher, que o acusa de pregar um Deus em que não acredita; quando ela entra em trabalho de parto, corre a Kiríllov, aos Virguinski e a Liámchin, a quem oferece de volta o revólver por quinze rublos. Ao amanhecer, depois de ouvir um choro fraco e rachado, entra e diz a Arina Prókhorovna, que acha tudo desenvolvimento do organismo:

Тайна появления нового существа, великая тайна и необъяснимая, Арина Прохоровна, и как жаль, что вы этого не понимаете! [...] Было двое, и вдруг третий человек, новый дух, цельный, законченный, как не бывает от рук человеческих; новая мысль и новая любовь, даже страшно… И нет ничего выше на свете!, o mistério do aparecimento de um novo ser, um grande mistério, inexplicável, Arina Prókhorovna, e que pena que a senhora não entenda isso! [...] Eram dois, e de repente um terceiro ser, um espírito novo, inteiro, acabado, como não vem de mãos humanas; um pensamento novo e um amor novo, até dá medo... E não há nada mais alto no mundo!
Terceira Parte: A última decisão

Marie lhe beija a testa e diz que Nikolai Stavróguin é um canalha; ele pergunta como chamarão o menino, e ela se desespera: Ivan, Ivan, pensou que ela pudesse dar outro nome, um nome terrível? O dia passa entre conversas febris sobre recomeçar de novo e para sempre, e à noite, quando Erkel o leva ao parque dos Stavróguin, ele pergunta ao rapaz se já foi feliz, e ouve que ele, ao contrário, parece muito feliz agora.

No capítulo VI da Terceira Parte chega ao lugar marcado sem desconfiar dos assobios, não cumprimenta Lipútin e pergunta onde estão a pá e uma segunda lanterna. Bate o pé a dez passos do canto da gruta, e Tolkatchenko se lança de trás de uma árvore, Erkel lhe segura os cotovelos e Lipútin ataca de frente; derrubam-no, Piotr se aproxima de revólver, e contam que Chátov ainda consegue virar a cabeça e reconhecê-lo. No capítulo VIII da Terceira Parte o corpo é achado no lago, no fim do dia, e no lugar do crime o boné esquecido; Marie, com um dia de parida, corre pela rua com o menino, gritando que mataram o marido, e morre três dias depois, o menino antes dela.

Temas que encarna

Chátov é a fé que não consegue crer, e por isso um dos nomes do Deus e o divino no romance: dá a Deus um corpo, o povo, e o sustenta com uma tese que é de Stavróguin, antes de ser dele, e que o próprio Stavróguin já não segue (capítulo I da Segunda Parte). Sua ideia aparece sob o prisma do Indivíduo e sociedade, e sua morte, sob o das ideias que se pagam com a vida alheia: os folhetos, o poema Figura luminosa, que Piotr lhe atribui diante de Lembke (capítulo VI da Segunda Parte), e a tipografia enterrada são os papéis em torno dos quais Piotr o cerca.

O que o livro mostra dele nos dias finais é um homem que, pela primeira vez, tem algo a agradecer: a mulher que volta, o filho que nasce, e a convicção de recomeçar de novo e para sempre. É a hora em que a teologia cede ao fato concreto, e ele a dá, com todas as letras, a quem não a compreende (capítulo V da Terceira Parte). Por isso a morte pesa mais do que a de um personagem: acontece no dia em que ele começava a ter o que sua doutrina só prometia. E o motivo por que o matam, uma denúncia que Piotr nunca viu, é a prova de que a certeza dele dispensa a prova (capítulo IV da Terceira Parte).

Leituras divergentes

O livro põe no primeiro capítulo a divergência que atravessa a personagem. Chátov defende uma convicção que o sufoca e ainda não sabe sustentar, ou cobra do antigo mestre o que o mestre não lhe deu: o texto sustenta as duas leituras, e é por isso que ele pega o boné e volta (capítulo I da Primeira Parte). A mesma duplicidade marca o diagnóstico que faz de Stavróguin, ateu por ser senhorzinho, quando em seguida se inclui na culpa: o diagnóstico lhe serve para acusar o mestre e para acusar a si, e a saída que propõe, conquistar Deus pelo trabalho, é uma que nem ele cumpriu (capítulo I da Segunda Parte).

Há ainda a divergência sobre o sentido da tese. Chátov nega que rebaixe Deus ao atributo de uma nação, e afirma que eleva o povo a Deus, mas a fórmula que usa troca sujeito e predicado: no lugar de um Deus que cria um povo, um povo que se toma por único portador da verdade e produz o seu Deus. Talvez precise que o povo seja Deus porque sozinho não consegue crer em Deus. Quem quer defendê-lo ouve a distinção dele entre o povo que crê e o povo que deixou de crer, material etnográfico; quem quer acusá-lo ouve a tautologia (capítulo I da Segunda Parte).

E há a divergência sobre o fim. Para Piotr, nenhuma felicidade vence a convicção de denunciar, e é nisso que apoia a execução; para o cronista, a denúncia foi invenção de Piotr, que achava que Chátov não suportaria a morte de Lizá e de Mária Timofêievna e que o odiava em pessoa, por uma briga antiga (capítulo IV da Terceira Parte, capítulo VI da Terceira Parte). O livro não decide se Chátov teria ido denunciar. Mostra que na tarde da véspera ele quis declarar tudo e não tinha prova, e que na noite da morte tinha outra coisa na cabeça, a mulher e o filho (capítulo V da Terceira Parte).

Relações