Clavis Libri

Tema em Os Demônios

Deus e o divino

Deus, os deuses e a ação divina: providência, teofania, intervenção dos deuses, o divino que age na história.

O tema na obra

O romance não pergunta se Deus existe. Pergunta o que os homens põem no lugar dele quando deixam de crer, e o que custa a quem tenta. As respostas vêm em quatro vozes que não se entendem. Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski crê num ser que toma consciência de si dentro dele e se declara mais pagão antigo que cristão. Ivan Chátov faz de Deus a personalidade de um povo e crê na Rússia, e quando lhe perguntam se crê em Deus, só consegue responder no futuro. Alexei Kiríllov localiza Deus na dor do medo da morte e conclui que quem vencer o medo será deus. Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski não crê em nenhuma das três e usa a fé de todos. No meio delas, Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin, de quem Chátov e Kiríllov receberam as ideias, não chega a crer em nenhuma, e o livro o leva a um mosteiro, onde Tíkhon lhe diz o que ele não diz a si mesmo.

No capítulo I da Primeira Parte, Stiepan diz crer num ser que toma consciência de si dentro dele, e Chátov, que costuma explodir nessas ocasiões, responde que quem perde o povo perde também Deus.

Нельзя любить то, чего не знаешь, а они ничего в русском народе не смыслили [...] А у кого нет народа, у того нет и бога, não se pode amar o que não se conhece, e eles não entendiam nada do povo russo [...] E quem não tem povo não tem Deus.
Primeira Parte: O pai dos demônios

No capítulo III da Primeira Parte, Kiríllov recebe o cronista no pavilhão, serve o chá e expõe o que procura: por que ninguém ousa se matar. A pedra pendurada sobre alguém, diz ele, só dói no medo.

Его нет, но он есть. В камне боли нет, но в страхе от камня есть боль. Бог есть боль страха смерти. Кто победит боль и страх, тот сам станет бог, ele não existe, mas existe. Na pedra não há dor, mas no medo da pedra há dor. Deus é a dor do medo da morte. Quem vencer a dor e o medo, esse mesmo se tornará deus.
Primeira Parte: Os fios se atam

No capítulo IV da Primeira Parte, na casa dos Lebiádkin, Mária Timofêievna Lebiádkina conta o que lhe disse uma velha penitente sobre a Mãe de Deus, e é o único momento do livro em que o divino aparece sem teoria.

Так, говорит, богородица — великая мать сыра земля есть, и великая в том для человека заключается радость. И всякая тоска земная и всякая слеза земная — радость нам есть, assim é, disse ela: a Mãe de Deus é a grande mãe, a terra úmida, e nisso há para o homem uma grande alegria. E toda angústia da terra e toda lágrima da terra são alegria para nós.
Primeira Parte: Os fios se atam

No capítulo I da Segunda Parte, Kiríllov dá o nome do que virá depois de Deus.

Он придет, и имя ему человекобог, ele virá, e o nome dele é homem-Deus.
Segunda Parte: A noite dos credores

Na mesma noite, Chátov entrega a Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin a tese que diz ter dele, e ela resolve a fé pela via do povo.

Бог есть синтетическая личность всего народа, взятого с начала его и до конца, Deus é a personalidade sintética de todo o povo, tomado do começo ao fim.
Segunda Parte: A noite dos credores

Quando Stavróguin pergunta a queima-roupa se ele crê em Deus, Chátov responde com uma cadeia de credos que não nomeia Deus.

Я верую в Россию, я верую в ее православие… Я верую в тело Христово… Я верую, что новое пришествие совершится в России… Я верую…, eu creio na Rússia, creio na ortodoxia dela… Creio no corpo de Cristo… Creio que a nova vinda acontecerá na Rússia… Eu creio…
Segunda Parte: A noite dos credores

No capítulo VII da Segunda Parte, na reunião de Virguinski, o único que fala de fé sem fórmula é um major que a sala trata como figura cômica.

Я хоть и не верую вполне, но все-таки не скажу, что бога расстрелять надо [...] вскочишь ночью с постели в одних носках и давай кресты крестить пред образом, чтобы бог веру послал, потому что я и тогда не мог быть спокойным: есть бог или нет?, mesmo que eu não creia por inteiro, ainda assim não direi que se deva fuzilar Deus [...] a gente pula da cama de noite, só de meias, e se põe a fazer o sinal da cruz diante do ícone para que Deus mande a fé, porque eu nem então conseguia ficar sossegado: há Deus ou não há?
Segunda Parte: O sistema de Chigalióv

No capítulo IV da Terceira Parte, Fiedka, que arrancou pérolas de ícones, é quem cobra de Piotr a fé que ele perdeu.

что в самого бога, творца истинного, перестал по разврату своему веровать, que por tua devassidão deixaste de crer no próprio Deus, o Criador verdadeiro.
Terceira Parte: A última decisão

No capítulo VI da Terceira Parte, na noite de sua morte, Kiríllov reduz a doutrina a uma regra.

Если нет бога, то я бог, se não há Deus, então eu sou Deus.
Terceira Parte: A última decisão

Diante da imagem do Salvador e da lamparina, Kiríllov dá a razão de fundo.

если законы природы не пожалели и Этого, даже чудо свое же не пожалели, а заставили и Его жить среди лжи и умереть за ложь, то, стало быть, вся планета есть ложь и стоит на лжи и глупой насмешке. Стало быть, самые законы планеты ложь и диаволов водевиль. Для чего же жить, отвечай, если ты человек, se as leis da natureza não pouparam nem Este, não pouparam nem o seu próprio milagre, mas obrigaram também a Ele a viver em meio à mentira e a morrer pela mentira, então, quer dizer, todo o planeta é mentira e se assenta sobre a mentira e uma zombaria estúpida. Quer dizer, as próprias leis do planeta são mentira e vaudeville do diabo. Para que viver, responda, se você é homem?
Terceira Parte: A última decisão

No capítulo VII da Terceira Parte, doente numa estalagem, Stiepan ouve a carta aos mornos e faz a sua profissão de fé.

Мое бессмертие уже потому необходимо, что бог не захочет сделать неправды и погасить совсем огонь раз возгоревшейся к нему любви в моем сердце. И что дороже любви? Любовь выше бытия, любовь венец бытия, и как же возможно, чтобы бытие было ей неподклонно? Если я полюбил его и обрадовался любви моей — возможно ли, чтоб он погасил и меня и радость мою и обратил нас в нуль? Если есть бог, то и я бессмертен! Voilà ma profession de foi, a minha imortalidade é necessária já por isto: Deus não vai querer cometer uma injustiça e apagar de todo o fogo do amor que um dia se acendeu por ele no meu coração. E o que é mais caro que o amor? O amor é mais alto que o ser, o amor é a coroa do ser, e como seria possível que o ser não lhe estivesse submetido? Se eu o amei e me alegrei com o meu amor, é possível que ele apague a mim e à minha alegria e nos reduza a zero? Se há Deus, também eu sou imortal! Voilà ma profession de foi.
Terceira Parte: A última errância

Em «Com Tíkhon», Stavróguin ouve de Tíkhon, que lhe diz que um ateu completo é mais respeitável que a indiferença mundana, a resposta que lhe vira contra ele a negação.

Слушайте, отец Тихон: я хочу простить сам себе, и вот моя главная цель, вся моя цель! [...] Я знаю, что только тогда исчезнет видение. Вот почему я и ищу страдания безмерного, сам ищу его. Не пугайте же меня. — Если веруете, что можете простить сами себе и сего прощения себе в сем мире достигнуть, то вы во всё веруете!, escute, padre Tíkhon: quero perdoar a mim mesmo, e este é o meu principal objetivo, todo o meu objetivo! [...] Sei que só então a visão desaparecerá. É por isso que procuro um sofrimento sem medida, eu mesmo o procuro. Não me assuste. Se o senhor crê que pode perdoar a si mesmo e alcançar esse perdão neste mundo, então o senhor crê em tudo!
Com Tíkhon: A confissão suprimida

Cada doutrina do livro sobre Deus é dita por quem não consegue tê-la. Chátov constrói uma teologia do povo e não dá o passo que ela pressupõe; Kiríllov faz de si o Deus que não encontrou e acaba mordendo e gritando antes do tiro; Stiepan chega à imortalidade pelo argumento do amor, em febre, depois de ter vivido sem ela; Piotr serve-se de todas sem crer em nenhuma. A fé que sobra está nos que não a defendem: a penitente que ensina a Mária Timofêievna a alegria da terra úmida, o major que se levanta de noite para fazer o sinal da cruz sem saber se crê, a velha surda que acende a lamparina. O romance tira Deus das mãos de quem faz sistema e o deixa com quem não pergunta.

Quem o encarna

Kiríllov é o ateísmo levado a sério, com uma regra clara: se Deus não existe, a vontade própria é dele, e o ponto mais alto dela é tirar a própria vida. Chátov é a fé sem Deus, o povo no lugar do Pai, e a frase que o define é a que ele não consegue completar. Tíkhon é o único crente declarado que o livro põe a conversar sobre Deus com um ateu, em «Com Tíkhon». Stiepan, que passa o livro entre o pagão e o cristão, chega ao Evangelho pela mão de uma vendedora de livros, e é a leitura dela que o devolve à passagem dos porcos, no capítulo VII da Terceira Parte.

Onde aparece

  • Primeira Parte, capítulo I: Stiepan Trofímovitch diz crer num ser que toma consciência de si dentro dele, e Chátov responde que quem perde o povo perde também Deus.
  • Primeira Parte, capítulo III: Kiríllov diz que Deus não existe, mas existe como a dor do medo da morte, e que quem vencer o medo será deus.
  • Primeira Parte, capítulo IV: Mária Timofêievna conta o que lhe disse uma velha penitente sobre a Mãe de Deus, a grande mãe, a terra úmida, e a alegria que há nas lágrimas.
  • Segunda Parte, capítulo I: Kiríllov anuncia o homem-Deus, e Chátov, com a tese do povo como corpo de Deus, só consegue dizer que crê na Rússia.
  • Segunda Parte, capítulo IV: Piotr diz ao governador que ele não crê por conta própria e só precisa da fé para embrutecer o povo.
  • Segunda Parte, capítulo VII: Um major confessa que, mesmo sem crer por inteiro, pula da cama à noite para fazer o sinal da cruz diante do ícone.
  • Terceira Parte, capítulo IV: Fiedka acusa Piotr de ter deixado de crer em Deus por devassidão, e se justifica com a lenda do mercador que roubou a pérola da Mãe de Deus.
  • Terceira Parte, capítulo V: Marie pergunta a Chátov o que ele prega, ele diz que prega Deus, e ela responde que ele não acredita nele.
  • Terceira Parte, capítulo VI: Kiríllov conclui que, se não há Deus, ele é Deus, e tira do dia das três cruzes uma sentença contra o planeta inteiro.
  • Terceira Parte, capítulo VII: Stiepan Trofímovitch ouve a carta aos mornos e faz uma profissão de fé sobre o amor e a imortalidade, que Varvara Pietrovna mal compreende.
  • Com Tíkhon: Tíkhon diz a Stavróguin que o ateu completo é mais respeitável que o indiferente, e que quem crê poder perdoar a si mesmo crê em tudo.

Onde as leituras divergem

Há duas leituras para o que o romance faz com Deus. Numa, é uma demonstração: toda tentativa de pôr algo no lugar dele, o povo, o homem, a organização, termina em morte, e o livro fecha com Stiepan afirmando que a imortalidade é necessária porque Deus não apagaria o amor que se acendeu nele. Na outra, não há refutação nenhuma, e o que o livro dá a cada ateu e a cada crente é uma ferida: Kiríllov pelas três cruzes, Chátov pelo Stavróguin que lhe plantou Deus e pátria e já não crê, Stiepan pela pose de vinte anos. O romance seria menos tese que diagnóstico.

O que sustenta a segunda leitura é a recusa do livro em mostrar um Deus que responda. Tíkhon é o mais perto que ele chega, e mesmo ele fala em nome de uma humildade que Stavróguin recusa. O que sustenta a primeira é a coincidência dos finais: o homem-Deus se mata aos gritos, o profeta do povo-Deus é assassinado no parque no dia em que o filho nasce, e só Stiepan, o pagão antigo, morre confessado e comungado. O texto não escolhe entre as duas, e o desfecho de Stavróguin, achado enforcado depois de ouvir de Tíkhon que quem crê poder perdoar a si mesmo crê em tudo, serve a ambas.