Clavis Libri

Tema em Os Demônios

Indivíduo e sociedade

O eixo entre a pessoa e o grupo: conformismo, convenção, comunidade, multidão, a pessoa contra as regras do meio.

O tema na obra

A cidade de Os Demônios muda de opinião por uma frase, ri do que devia temer, cala quando devia falar e descobre o que pensa depois que alguém ousa dizê-lo. O romance mostra esse movimento três vezes, cada uma mais pesada. Na primeira, a cidade que detestava Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin passa a admirá-lo. Na segunda, ela assiste, entre risos, ao sacrilégio contra um ícone, ao suicídio de um rapaz, à humilhação de uma noiva na noite de núpcias. Na terceira, ela produz um incêndio e uma morte sem que ninguém decida. Entre os indivíduos, quase ninguém resiste, e os que o fazem resistem por acidente: uma mulher que se ajoelha na lama, um homem que sai da sala sem responder, uma pergunta feita em voz alta. Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski se limita a estar por perto, como fantasma na cabeça de um governador.

No capítulo II da Primeira Parte, a cidade que se dividia entre o amor e o ódio por Nicolas escolhe a explicação que a alivia.

A cidade faz do diagnóstico o álibi de que precisa: a doença só é nomeada depois da mordida, os médicos a recuam três dias, e o que era afronta passa a sintoma, porque admitir que um homem lúcido a humilhou seria pior. O texto deixa a fresta aberta: o cronista nota que alguns continuaram a achar que o patife apenas zombara de todos, e que até o governador o julgava capaz de tudo em plena razão.
Primeira Parte: O pai dos demônios

No capítulo IV da Segunda Parte, uma frase de Yúlia Mikháilovna von Lembke dita por irritação vira a opinião de todos.

Разве возможно удивление, что Ставрогин дрался с Гагановым и не отвечал студенту? Не мог же он вызвать на поединок бывшего крепостного своего человека, mas como é possível alguém se admirar de que Stavróguin tenha se batido com Gagánov e não tenha respondido ao estudante? Não podia desafiar para um duelo um antigo servo seu!
Segunda Parte: A cidade à espera

No capítulo V da Segunda Parte, enquanto a cavalgada ri do ícone violado, Lizavieta Nikoláievna Tuchina é a única a responder com o corpo.

Румянец негодования залил ее щеки; она сняла свою круглую шляпу, перчатки, упала на колени пред образом, прямо на грязный тротуар, и благоговейно положила три земных поклона, o rubor da indignação lhe tomou as faces; ela tirou o chapéu redondo e as luvas, caiu de joelhos diante do ícone, direto na calçada suja, e fez com devoção três prostrações até o chão.
Segunda Parte: A cidade à espera

No capítulo VII da Segunda Parte, na casa de Virguinski, Piotr arranca de uma sala o sim a uma ação que não define.

что вам веселее: черепаший ли ход в болоте или на всех парах через болото?, o que lhes parece mais alegre: o passo de tartaruga no pântano ou atravessá-lo a todo vapor?
Segunda Parte: O sistema de Chigalióv

Depois, faz a pergunta que separa quem entra de quem sai.

Если бы каждый из нас знал о замышленном политическом убийстве, то пошел ли бы он донести, предвидя все последствия, или остался бы дома, ожидая событий?, se cada um de nós soubesse de um assassinato político em preparo, iria denunciar, prevendo todas as consequências, ou ficaria em casa esperando os acontecimentos?
Segunda Parte: O sistema de Chigalióv

No capítulo I da Terceira Parte, o cronista descreve a troca de lugares na cidade, sem dizer por que ela acontece.

первейшие люди, до тех пор так благополучно державшие верх, стали вдруг их слушать, а сами молчать, os homens de primeira linha, que até então tão tranquilamente se mantinham por cima, de repente passaram a ouvi-los, e eles próprios a calar.
Terceira Parte: A festa e o incêndio

Na matinê, a plateia descobre que pode responder, e o cronista nomeia o erro de quem falou primeiro.

Вот в том-то и вина его, что он первый заговорил; ибо, вызывая таким образом на ответ, тем самым дал возможность всякой сволочи тоже заговорить и, так сказать, даже законно, é aí que está a culpa dele: foi o primeiro a falar; pois, provocando assim uma resposta, deu por isso mesmo a toda ralé a possibilidade de também falar e, por assim dizer, até de modo legítimo.
Terceira Parte: A festa e o incêndio

No capítulo II da Terceira Parte, Piotr diz a Yúlia Mikháilovna o que as famílias respeitáveis fazem quando a ralé anda à solta.

А что у нас делают отцы семейств, сановники, жены, девы в подобных обстоятельствах? Молчат и дуются. Даже настолько, чтобы шалунов сдержать, общественной инициативы недостает, e o que fazem entre nós os pais de família, os dignatários, as esposas, as moças em tais circunstâncias? Calam-se e emburram. Falta até a iniciativa social necessária para conter os travessos.
Terceira Parte: A festa e o incêndio

No capítulo III da Terceira Parte, na manhã depois do incêndio, a multidão que cerca a casa dos Lebiádkin reconhece Lizavieta Nikoláievna.

Вдруг я увидел, что над ее головой, сзади, поднялась и опустилась чья-то рука; Лиза упала, de repente vi que, por trás, sobre a cabeça dela, ergueu-se e desceu a mão de alguém; Lizá caiu.
Terceira Parte: A festa e o incêndio

No capítulo VI da Terceira Parte, o grupo que Piotr atou pelo sangue grita e se desfaz diante do corpo.

Piotr fala em "nós" a homens que acabam de gritar de pavor, e o que lhes dá é um programa, não um consolo: um grupo pequeno que se destina ao poder em nome de uma liberdade futura e cavalga os que nunca souberam que eram cavalgados. A cena acrescenta vê-lo falhar por dentro, pois os que deviam obedecer em silêncio quebram primeiro. O projeto de Piotr precisa de homens sem corpo, e todo homem tem corpo.
Terceira Parte: A última decisão

O tema funciona de modo inverso ao que o nome promete. O indivíduo do livro é quem faz um gesto sem plateia, e a sociedade é um conjunto de gente que descobre o que pensa depois que alguém fala. Ninguém lidera: o clima faz. Yúlia dita a opinião da cidade sem saber que a dita, Lembke grita ordens sem saber que vai gritá-las, Karmazínov dá o sinal de que se pode retrucar e a ralé retruca, a multidão derruba uma mulher sem que o cronista veja quem. Piotr conta com isso. Seu método é estar no lugar certo quando os outros cedem, e o que ele chama de cimento, a vergonha de ter opinião própria, é o nome do mecanismo que a cidade já usava antes dele.

Quem o encarna

Yúlia Mikháilovna é a sociedade como vaidade: quer ser a que explica, e a frase de que não se podia desafiar um servo ganha a cidade por isso. Andrei Antónovitch von Lembke é a autoridade que se esvazia: grita «De joelhos!» e «Varas!» sem saber que vai gritar, e a mulher o ignora no salão. Karmazínov é a sociedade como plateia, e sai dela com um «merci». Chigalióv é a sociedade pensada até o fim, um décimo mandando em nove. Lizavieta Nikoláievna é o indivíduo que age, e Chátov o que se recusa a responder.

Onde aparece

  • Primeira Parte, capítulo II: A cidade chama de doença a mordida de Nicolas no governador, os médicos recuam a febre três dias, e Lipútin, dizem, foi o primeiro a adivinhar.
  • Segunda Parte, capítulo IV: Uma frase de Yúlia Mikháilovna sobre o servo faz a cidade, que detestava Stavróguin havia quatro anos, passar a admirá-lo, inclusive por ser o maior proprietário da província.
  • Segunda Parte, capítulo V: A cavalgada de jovens ri do ícone violado, da noiva humilhada e da mulher surrada, e só Lizavieta Nikoláievna se ajoelha na calçada suja.
  • Segunda Parte, capítulo VI: Karmazínov diz a Piotr que a essência da ideia revolucionária russa é a negação da honra, e Piotr conta a Stavróguin que o cimento do grupo é a vergonha de ter opinião própria.
  • Segunda Parte, capítulo VII: Piotr arranca de uma sala de convidados o sim a uma ação sem dizer qual, e depois pergunta quem denunciaria um assassinato político, e só Chátov sai sem responder.
  • Segunda Parte, capítulo IX: Stiepan Trofímovitch tem os papéis levados por um funcionário, manda acender uma lamparina para a polícia ver e teme menos a Sibéria do que o vexame.
  • Segunda Parte, capítulo X: Lembke manda setenta operários tirarem os gorros e se ajoelharem, pede varas, e a governadora passa por ele no salão sem uma palavra.
  • Terceira Parte, capítulo I: Na matinê, a plateia vaia Karmazínov, ri dos versos de Lebiádkin e aplaude o professor que desonra a Rússia, enquanto os homens de primeira linha calam.
  • Terceira Parte, capítulo II: O baile desfeito termina em incêndio, e Piotr diz a Yúlia Mikháilovna que pais de família, dignitários e esposas se calam e emburram, sem a iniciativa social para conter os travessos.
  • Terceira Parte, capítulo III: Lizavieta Nikoláievna é derrubada na multidão por uma mão que o cronista não identifica, entre gritos que a ligam a Stavróguin.

Onde as leituras divergem

Duas leituras disputam quem é o agente coletivo do livro. Numa, é a elite que se desfaz: o governador, a governadora, o escritor, o velho liberal, e o conspirador só precisa estar por perto, como fantasma na cabeça do primeiro. O desfecho dessa leitura é a conta que o livro cobra de uma classe que cedeu por vaidade. Na outra, o agente é a ralé que descobre a voz: o seminarista que acusa Stiepan, o professor que desonra a Rússia diante de uma plateia em êxtase, a multidão do Zariétchie. O desfecho é a conta de uma cidade que passou muito tempo calada.

O texto sustenta as duas, e as une num ponto: ninguém comanda. A elite não é derrubada, ela se cala; a ralé não toma a palavra, ela é convidada pela primeira que fala errado. O cronista dá a regra que une as duas, a de que quem fala primeiro numa sala hostil abre o direito de resposta, e o que se segue é consequência. Se há uma lição política, é negativa: a cidade só deixa de ceder quando alguém age sem plateia, como Lizavieta Nikoláievna na calçada do ícone, e o livro mostra o que acontece a quem faz isso, no capítulo III da Terceira Parte.