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Perguntas · Os Demônios

O que fala Os Demônios, de Dostoiévski?

Os Demônios fala de como gente respeitável e bem-intencionada abre caminho, sem perceber, para um grupo pequeno de fanáticos. O livro não pergunta se os conspiradores vão conseguir a revolução; pergunta o que, na cidade, os deixa agir.

A primeira resposta é uma filiação. O velho Stiepan Trofímovitch, o liberal idealista dos anos 1840, passou vinte anos de pose cívica, de mesada e de amizade histérica com Varvara Pietrovna, e é pai de dois filhos: educou Nikolai Stavróguin e gerou Piotr Stiepánovitch, que organiza assassinatos. O cronista resume esse mundo numa frase: o liberal “sem objetivo nenhum”, aquele cujo fervor se gasta na conversa, só é possível na Rússia. É por isso que o romance abre devagar, como comédia de costumes, e não como thriller político.

A segunda resposta é o mecanismo. O grupo não vence pela força: vence porque a cidade não quer parecer atrasada. O governador cede à lógica do próprio liberalismo, o salão absolve Stavróguin por uma frase da governadora, a plateia da matinê descobre que pode responder, e o que liga o quinteto, diz Piotr, é a vergonha de ter opinião própria.

No centro está Stavróguin, que cada um disputa: Kiríllov e Chátov levam a sério as ideias que dele receberam, e Piotr o inventou para fazer dele um chefe que se oculta. Quando o desastre chega, ninguém decidiu sozinho, e a responsabilidade se reparte de modo a não caber num só nome.

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