Porque o título russo, Бесы, significa “demônios”, e o livro tem como epígrafe a passagem do Evangelho de Lucas em que os demônios saem de um homem e entram numa manada de porcos. Os Possessos é o mesmo título em outro caminho: as primeiras versões para o português vieram do francês, Les Possédés, e deram a tradução corrente; as feitas direto do russo adotam Os Demônios.
O sentido do título aparece no fim, na boca de um personagem em febre. Stiepan Trofímovitch, doente numa estalagem, pede a Sófia Matvêievna, vendedora de Evangelhos, a passagem dos porcos e a aplica à Rússia: os demônios que saem do doente e entram nos porcos são todas as chagas e toda a imundície que se acumularam ao longo dos séculos “no nosso grande e querido doente, na nossa Rússia”.
A leitura corrente diz que os demônios são as ideologias, que entram nos homens e os precipitam no abismo. Ela não é falsa, mas para antes de uma parte que o romance explica sozinho: Stiepan inclui na conta o filho, Pietrucha, e a si mesmo, “talvez o primeiro”, à frente. A alegoria deixa de ser acusação e vira confissão.
O Evangelho termina com o homem curado, sentado aos pés de Jesus, vestido e em são juízo. Dostoiévski deu a mesma imagem como tema do livro numa carta a um amigo: os demônios saíram do homem russo e entraram nos Nietcháiev, e o homem curado se senta aos pés de Jesus.