A epígrafe é a passagem de Lucas 8, 32-36: numa colina pastava uma grande manada de porcos, os demônios saídos de um homem entraram neles, e a manada se lançou do despenhadeiro ao lago e se afogou; o povo foi ver e achou o homem de quem tinham saído os demônios sentado aos pés de Jesus, vestido e em são juízo. O romance leva essa cena a sério como chave da própria história.
Quem a lê em voz alta é Stiepan Trofímovitch, na estalagem onde morre. Ele pede a passagem “literalmente” e diz que, desde a infância, ela foi para ele uma pedra de tropeço. Depois decifra: o doente é a Rússia, os demônios são as chagas acumuladas por séculos, e a grande ideia e a grande vontade descerão do alto sobre o país, como sobre o endemoninhado, e os demônios sairão e pedirão para entrar nos porcos, “e talvez já tenham entrado”.
Em seguida inclui a si mesmo na imagem, ao lado do filho: somos nós, diz, nós e aqueles, e Pietrucha, e eu, “talvez o primeiro”, e nos lançaremos de um penhasco ao mar. Ainda assim termina apostando em que o doente se curará e se sentará aos pés de Jesus.
Há duas leituras possíveis da cena, e o texto não escolhe: pode ser lucidez de febre, que diz a verdade porque já não precisa de plateia, ou o último discurso de um orador, que ainda precisa dela. Em qualquer das duas, é o único momento do livro em que um personagem entrega a chave que o narrador deixou, sem comentário, na abertura.