Os Demônios é narrado por um cronista, um morador da cidade que é amigo e confidente de Stiepan Trofímovitch, escreve depois do desastre e fala, quase sempre, como um “nós” da cidade. Ele não é onisciente.
Abre o livro pedindo desculpas por começar de longe, pelo retrato de Stiepan, e conta com ironia afetuosa o que viu e o que lhe contaram. Participa de cenas, como a matinê, em que é um dos doze “rapazes de laço”, e reconstrói de memória alheia as que não viu: duas vezes a frase de Varvara Pietrovna que nunca esquecerá, na segunda com as palavras trocadas, e narra cenas que não viu, como a conversa de Liza e Stavróguin em Skvoriéchniki. Inclui na crônica, literalmente, o documento «De Stavróguin», corrigindo só a ortografia, e a carta de despedida a Dária, sem corrigir os erros de estilo.
O cronista é irônico, mas não hostil nem cúmplice por inteiro, e julga a si mesmo ao julgar os outros, porque também ele é da cidade. Discute explicações prontas: diz não saber em que consistia o tal tempo conturbado e recusa apontar culpados quando não os viu. Quando não sabe, diz que não sabe.
A escolha tem um efeito: a verdade da história passa por filtros, e o leitor lê as cenas decisivas com a dúvida de quem as conta. Por que Dostoiévski precisa de um narrador que reconstrói, e não de um onisciente? O livro não responde, mas o resultado é que nenhuma versão fica sem contraponto, a de Piotr nem a da cidade.