Clavis Libri

Personagem

Manfredi

Quem é

Manfredi, a quem a tradição dá por rei da Sicília, é o louro, belo e de aspecto gentil que, ao pé da montanha, no Antepurgatório, se identifica a Dante mostrando uma chaga no alto do peito e sorrindo, e diz de quem descende: neto da imperatriz Constança. Tem um dos cílios dividido por um golpe, e o peregrino, que não o reconhece, nega tê-lo visto. O que o poema faz dele é uma lição de misericórdia dada por um excomungado: ferido por duas pontas mortais, rendeu-se chorando àquele que perdoa de bom grado, e por isso está ali, e não no Inferno. A imagem de seu corpo, que o texto narra em detalhe, mostra a outra face da cena: seus ossos, que estariam à cabeça de uma ponte sob uma pilha de pedras, se o pastor de Cosenza tivesse lido bem aquela face de Deus, foram dispersados pela chuva e pelo vento, fora do reino, junto ao Verde. A condenação de Roma lhe tirou a sepultura, não a salvação, e é nessa diferença que o canto se apoia.

Trajetória

Tudo acontece no canto III do Purgatório. Virgílio acaba de falar do limite da razão humana, e os dois poetas chegam ao pé da montanha, onde uma gente anda tão lenta que parece parada. Quando as almas veem rota a luz do chão pelo lado direito de Dante, recuam, e o guia confessa que é corpo humano o que veem. Um deles pede ao vivo que o olhe e diga se o viu no mundo. Dante, humilde, nega, e então o desconhecido mostra a chaga e diz o nome, e fala em seguida da filha, mãe da honra da Sicília e de Aragão, a quem Dante deve dizer a verdade, se outra se diz. A frase central não diminui o que ele fez: chama os próprios pecados horríveis e põe a escala do outro lado, uma bondade infinita de braços tão grandes que toma tudo o que se volta para ela. O verbo que decide é o de quem volta: a bondade tem braços tão grandes que toma o que se volta para ela, e Manfredi se voltou depois de ferido. A cena seguinte é a do desfecho do corpo. O pastor de Cosenza, mandado pelo papa Clemente a caçá-lo, não leu bem essa face de Deus, e por isso os ossos, que estariam à cabeça de uma ponte perto de Benevento, sob uma pilha de pedras, são banhados agora pela chuva e movidos pelo vento, fora do reino, junto ao Verde, aonde foram levados com as luzes apagadas. A maldição da Igreja não decide, porém, o fim da alma: o amor eterno pode voltar enquanto a esperança tiver um fio de verde, e a esperança é falada como planta que tem ou não tem folha. A espera de quem morre em contumácia da Igreja é medida em número: trinta vezes o tempo em que foi presunçoso, se as boas preces não a encurtarem. Por isso Manfredi pede a Dante que o alegre, dizendo à boa Constança como o viu e a proibição que o retém, pois aqui se avança muito pelos que estão lá.

Temas que encarna

Manfredi encarna o Perdão sem limite, e o diz no Antepurgatório, onde o tempo da espera é o tema. O poema usa dois instrumentos opostos para fazê-lo: uma misericórdia de braços tão grandes que nenhuma culpa a recusa, e uma regra de espera que multiplica o tempo por trinta. A Redenção aqui não está na pena, que é longa, e sim em ter sido possível: um excomungado, rendido no último instante, está no caminho de subir. A Política atravessa o canto pela mão do papa Clemente e de seu pastor, pela maldição de Roma que tira o sepulcro, e pela filha que Manfredi manda procurar, mãe de reis.

O canto concilia as duas coisas ao mudar de assunto, não de tom. A misericórdia fala de Deus, a regra de espera fala da Igreja. Quem se volta no fim é perdoado, e a Igreja que o tinha excomungado continua a medir o tempo dele, até que as preces dos vivos o encurtem. O que o poema deixa de fora é quem decide quando a espera acaba; ele só diz que a oração é a moeda.

Leituras divergentes

O texto sustenta duas leituras da sentença de espera. Na primeira, a regra é parte da misericórdia, porque dá aos vivos um meio de ajudar quem partiu. Na segunda, a regra é uma severidade que a bondade infinita não precisaria, e o poema a diz por boca de um rei que sofre por ela. O canto não escolhe, e a ordem em que dispõe as frases, primeiro a bondade, depois a regra, deixa a primeira falar mais alto.

Relações

  • Dante: o vivo a quem Manfredi se apresenta, pedindo que leve à filha a notícia verdadeira.
  • Virgílio: o guia que, no mesmo canto, fixa o limite da razão, ficar com o fato sem o porquê, e assiste a uma misericórdia que o ultrapassa.
  • Catão: o guardião que manda ir ao monte, e cuja pressa a espera de Manfredi mede.