Quem é
Forese Donati é o amigo de juventude de Dante que o peregrino só reconhece pela voz. No sexto giro, o da gula, as almas passam em silêncio e devotas, tão magras que a pele toma a forma dos ossos, e é de uma delas, que volta os olhos do fundo da cabeça e grita que graça é esta, que sai a frase que desfaz o disfarce do rosto. Forese pede que Dante não se detenha na sarna seca que lhe descolore a pele, e diz o que o fez ficar assim: a virtude que cai do eterno conselho na água e na planta, que acende nas almas o cuidado de beber e comer e as deixa santas na fome e na sede. É marido de Nella, a viúva que o tirou do pé do monte com suas preces, irmão de Corso, a quem a tradição dos comentadores identifica no homem que a profecia mostra arrastado à cauda de uma besta, e irmão de Piccarda, que triunfa alegre no alto Olimpo. O que o torna importante é a combinação: o amigo que conversa como se nada tivesse mudado e o julgamento que dá da própria cidade, dito sem raiva.
Trajetória
No canto XXIII do Purgatório as sombras magras passam por Dante e pelos dois poetas. Dante pensa em Erisícton e na gente de Jerusalém quando Maria cravou o dente no filho, e vê nas órbitas dos olhos o desenho do M de omo. Uma sombra o olha, e ele não a teria reconhecido pelo rosto:
Mai non l’avrei riconosciuto al viso; / ma ne la voce sua mi fu palese / ciò che l’aspetto in sé avea conquiso. / Questa favilla tutta mi raccese / mia conoscenza a la cangiata labbia, / e ravvisai la faccia di Forese, nunca o teria reconhecido pelo rosto; mas na sua voz me foi patente o que o aspecto em si havia vencido. Essa centelha reacendeu por inteiro o meu conhecimento da face mudada, e reconheci a face de Forese.
A primeira fala é de espanto de ser visto com graça. Forese pede que Dante lhe diga a verdade sobre quem o acompanha, e Dante responde que o rosto dele, que chorou morto, agora lhe dá dor não menor por tão torcido. Forese explica a pena e logo a corrige: a fome é um querer.
E non pur una volta, questo spazzo / girando, si rinfresca nostra pena: / io dico pena, e dovria dir sollazzo, / ché quella voglia a li alberi ci mena / che menò Cristo lieto a dire ‘Elì’, / quando ne liberò con la sua vena, e não só uma vez, girando este espaço, se refresca nossa pena: digo pena e devia dizer consolo, porque aquela vontade às árvores nos leva que levou Cristo alegre a dizer Eli, quando nos libertou com o seu sangue.
Dante lhe lembra que não passaram cinco anos desde a morte e que, se o poder de pecar nele acabou antes da hora do bom pesar, devia estar embaixo, onde tempo se paga com tempo. Forese responde que foi Nella, com seu pranto desfeito, que o conduziu a beber o doce absinto dos martírios:
Sì tosto m’ha condotto / a ber lo dolce assenzo d’i martìri / la Nella mia con suo pianger dirotto. / Con suoi prieghi devoti e con sospiri / tratto m’ha de la costa ove s’aspetta, / e liberato m’ha de li altri giri, tão cedo me conduziu a beber o doce absinto dos martírios a minha Nella com seu pranto desfeito. Com suas preces devotas e seus suspiros me tirou da encosta onde se espera, e me libertou dos outros giros.
Tanto mais cara a Deus é a viúva, diz ele, quanto mais é solitária no bem operar, pois a Barbagia da Sardenha é mais pudica nas suas mulheres que a Barbagia onde ele a deixou. Anuncia a Florença um tempo não distante em que o púlpito proibirá às desavergonhadas mostrarem o peito. Pede que Dante não se esconda mais, porque todas as almas olham onde o sol é velado pelo seu corpo, e Dante responde com um apelo à memória partilhada:
Se tu riduci a mente / qual fosti meco, e qual io teco fui, / ancor fia grave il memorar presente, se trouxeres à memória quem foste comigo e quem fui eu contigo, ainda será grave a lembrança presente.
Diz então quem o guia, e a frase é a notícia do término da companhia com Virgílio:
Tanto dice di farmi sua compagna / che io sarò là dove fia Beatrice; / quivi convien che sanza lui rimagna. / Virgilio è questi che così mi dice, tanto diz que me fará sua companhia, que eu serei lá onde estiver Beatriz; ali convém que sem ele eu fique. Este que assim me diz é Virgílio.
No canto XXIV do Purgatório Forese conversa com Dante em passo de amigo, ouve que a sombra de Estácio talvez suba mais devagar por causa de outro, e responde à pergunta de Dante sobre a irmã:
La mia sorella, che tra bella e buona / non so qual fosse più, trïunfa lieta / ne l’alto Olimpo già di sua corona, a minha irmã, que entre bela e boa não sei qual era mais, triunfa alegre no alto Olimpo, já com a sua coroa.
Mostra com o dedo as almas que ali estão e Dante vê Bonagiunta. Quando Dante diz que não sabe quanto vive, Forese avisa sobre a cidade:
Or va», diss’ el; «che quei che più n’ha colpa, / vegg’ ïo a coda d’una bestia tratto / inver’ la valle ove mai non si scolpa. / La bestia ad ogne passo va più ratto, / crescendo sempre, fin ch’ella il percuote, / e lascia il corpo vilmente disfatto, vai agora; que aquele que mais tem culpa, vejo-o ser levado à cauda de uma besta rumo ao vale onde nunca se desculpa. A besta a cada passo vai mais rápida, crescendo sempre, até que o fere e deixa o corpo vilmente desfeito.
Parte como o cavaleiro que sai a galope da esquadra para ganhar honra no primeiro encontro, e deixa Dante na estrada com os dois marechais.
Temas que encarna
Forese encarna a ajuda dos vivos, que o poema trata como moeda do Antepurgatório e estende ao sexto giro. É a Redenção feita de preces: a pena dele foi encurtada por Nella, e o poema faz disso um tema de gratidão, sem sentimentalizar. A Política está na profecia sobre as mulheres de Florença e no animal que arrasta o irmão. O Amor tem a forma do casamento: um marido que só no depois reconhece o que a mulher valeu.
O poema deixa o passado de Dante e Forese sem narrar. A tradição lembra uma troca de sonetos injuriosos entre os dois, e o texto não diz nada disso: diz só que a lembrança é grave. O texto não conta nenhuma reconciliação, e ela está inteira na maneira como os dois se tratam: o amigo que Dante chorou morto vê o rosto torcido, e Forese dá a notícia de uma irmã que triunfa e de uma esposa que pesou.
Leituras divergentes
O texto sustenta duas leituras do doce absinto de Forese. Uma é a gratidão simples de marido que reconhece a viúva. A outra é o reconhecimento tardio de quem, em vida, não deu à mulher o lugar que ela tem agora diante de Deus. A fórmula casa amargura e agradecimento no mesmo verso, e não escolhe. O mesmo vale para a pena: para Forese, o que acaba de chamar de pena é consolo, e a vontade que o leva às árvores é a que levou Cristo a dizer o nome de Deus na cruz.